5 OS EMBARGOS DE TERCEIRO
5.5 Da legitimidade passiva
O Código de Processo Civil de 1973 era silente quanto ao legitimado passivo dos embargos de terceiros, razão pela qual inexistia unanimidade na doutrina quanto a quem seria a parte ré na demanda. Havia posicionamento no sentido de que os embargos deveriam ser ajuizados em face de quem promoveu o processo de execução ou o cumprimento de sentença, pois o exequente é o atingido pelo resultado dos embargos. Admitia-se, também, a legitimidade passiva do executado quando concorresse de alguma forma para a constrição efetivada ou ameaçada, nomeando, por exemplo, bens à penhora419. A jurisprudência também seguia nessa
linha420.
415 ASSIS, Araken de. Manual da execução. 18.ed. São Paulo: RT, 2016, p.1704.
416 BRUSCHI, Gilberto Gomes. Comentários aos artigos 674-682. In: (Coord.) BUENO, Cassio Scarpinella. Comentários ao novo código de processo civil. v.3. São Paulo: Saraiva, 2017, p.303.
417 ARAÚJO, Fabio Caldas de. Intervenção de terceiros. São Paulo: Malheiros, 2015, p.394.
418 Súmula 308 – A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, anterior ou posterior à celebração
da promessa de compra e venda, não tem eficácia perante os adquirentes do imóvel. (Súmula 308, Segunda Seção, j.30-03-2005, DJ 25-04-2005, p.384).
419 ASSIS, Araken de. Manual da execução. 18.ed. São Paulo: RT, 2016, p.1705-1706.
420 RECURSO ESPECIAL (ARTIGO 105, III, ALÍNEAS A E C DA CRFB). DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL
NÃO DEMONSTRADA. AUSÊNCIA DE COTEJO ANALÍTICO. NÃO CONHECIMENTO. PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. EMBARGOS DE TERCEIRO. LEGITIMIDADE PASSIVA DO CREDOR. INEXISTÊNCIA DE LITISCONSÓRCIO PASSIVO NECESSÁRIO ENTRE ESTE E O DEVEDOR. PRECEDENTE: 3a. TURMA, RESP. 282.674/SP, REL. MIN. NANCY ANDRIGHI, DJU 07.05.2001. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO EM PARTE E, NESSA PARTE, PROVIDO PARA AFASTAR A NULIDADE RECONHECIDA NO ACÓRDÃO E DETERMINAR O RETORNO DOS AUTOS AO TRIBUNAL DE ORIGEM, PARA QUE PROSSIGA NO JULGAMENTO DA APELAÇÃO DA UNIÃO FEDERAL. [...] 3. Discute-se na doutrina a respeito da composição do pólo passivo nos Embargos de Terceiro. Segundo Araken de Assis, porém, parece mais razoável a tese de que só o credor, a quem aproveita o processo executivo, encontra-se legitimado passivamente, ressalvadas duas hipóteses: a) cumulação de outra ação (p.ex., negatória) contra o executado; e b) efetiva participação do devedor no ato ilegal (Manual do Processo de Execução. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 6.ed., p.1.147/1.148). 4. Ressalvadas as louváveis opiniões em contrário, essa parece ser a melhor conclusão, mormente porque a indicação do bem imóvel foi realizada pela exequente, ora recorrida, cabendo apenas a esta a contestação da pretensão deduzida pela embargante, ora recorrente, tal como efetivamente ocorreu. Inexistente, portanto, o litisconsórcio passivo necessário entre credor e devedor, também porque este decorre apenas da lei ou da natureza jurídica da relação de direito material acaso existente entre exequente e executado, circunstâncias que não se verificam no âmbito dos Embargos de Terceiro (CPC, artigo 47). Precedente: 3ª Turma, REsp. 282.674/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 07-05-2001, p.140. 5. A propósito, curiosa é a observação de que o artigo 1.050, §3º do CPC se refere ao embargado no singular, o que sugeriria a
Segundo parte da doutrina, na hipótese do executado ter participado da constrição judicial ilegal, seria o caso de litisconsórcio passivo necessário entre exequente e executado, pois os interesses de ambos seriam objeto de discussão nos embargos421422.
O Código de Processo Civil de 2015, no artigo 677, §4º, fixou a disciplina legal da legitimidade passiva: em regra, será réu nos embargos o sujeito que aproveita do ato de constrição; admite-e que o demandado no processo principal figure no polo passivo dos embargos de terceiro se tiver sido indicado o bem objeto de constrição.
Dessa maneira, em regra, o legitimado passivo será o exequente, salvo se o executado tiver participado do ato executivo ilegal ou houver cumulação dos embargos de terceiro com outra ação (como, por exemplo, negatória ou indenizatória pela não fruição do bem)423.
Caso já tenha havido ato de expropriação judicial, o adquirente do bem também deverá figurar no polo passivo dos embargos de terceiro, pois a decisão judicial poderá gerar reflexos em sua esfera jurídica424.
Diante da nova regra, passa a ser necessário verificar no caso concreto a quem interessa a medida atacada, para então fixar-se o sujeito passivo dos embargos. É possível ocorrer litisconsórcio passivo unitário entre as partes da demanda originária. A participação do demandado da ação principal será sempre admitida, mas na forma de assistente (artigos 119 a 124 do Código de Processo Civil de 1973)425.
Uma pessoa que não participou do processo principal poderá compor o polo passivo dos embargos de terceiro, o que acontecerá na hipótese dos embargos serem ajuizados após a expropriação e quando o bem já estiver incorporado ao
existência de apenas um deles (exequente ou executado) no pólo passivo da ação de Embargos de Terceiro,
tudo a depender de quem terá realizado a indicação do bem à penhora. 6. Recurso Especial de Ângela Beatriz Cezimbra conhecido em parte e, nessa parte, provido para afastar a nulidade reconhecida no acórdão e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem, para que prossiga no julgamento da Apelação da União Federal. (REsp 1033611/DF, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, j.28-02-2012, DJe 05-03- 2012).
421 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. v.IV. 2.ed. São Paulo: Malheiros,
2005, p.745.
422 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. v.II. 50.ed. Rio de Janeiro: Forense,
2016, p.437.
423 ASSIS, Araken de. Manual da execução. 18.ed. São Paulo: RT, 2016, p.1706-1708.
424 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. v.IV. 2.ed. São Paulo: Malheiros,
2005, p.745.
425 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. v.II. 50.ed. Rio de Janeiro: Forense,
patrimônio de outrem. Neste caso, deverão figurar no polo passivo, em litisconsórcio necessário, tanto o exequente (do processo principal) como o adquirente, interpretação possível em razão da aplicação analógica do artigo 903, §4º, do Código de Processo Civil de 2015426.
Nesse caso, o prazo para ingressar com a demanda será de 5 dias após a adjudicação, a alienação por iniciativa particular ou a arrematação, e antes da assinatura da respectiva carta. Ultrapassado o prazo legal e nos termos do artigo 903, §4º, a ação ajuizada não será mais embargos de terceiro, mas ação autônoma para invalidar a arrematação, a qual não dispõe liminar especial dos embargos.