• Nenhum resultado encontrado

A qualidade de segurado era requisito exclusivo da Previdência Social, não sendo exigida do trabalhador rural quando este recebia o benefício de natureza assistencial.

Com sua inclusão no sistema previdenciário, passou a estar sujeito aos ditames da legislação que o regulamentou.

Entretanto, como seus direitos previdenciários somente foram estabelecidos com a Lei nº 8.213/91, não havia como exigir qualidade de segurado de quem não se exigia contribuição ou nem mesmo lhe era permitido contribuir.

Conhecendo a condição precária do trabalho rurícola, a legislação não poderia exigir do trabalhador rural os mesmos requisitos de quem já estava no sistema desde o seu surgimento.

Não existe nenhum preceito legal que indique a qualidade de segurado especificamente do trabalhador rural ou do segurado especial.

Seria possível reconhecer a esses trabalhadores a aplicação do artigo 15 da Lei nº 8.213/91, que define os prazos para a manutenção da qualidade de segurado, pois o referido artigo diz apenas segurados, não especificando se apenas urbanos ou também rurais.

Se assim fosse entendido, a inexigibilidade de qualidade de segurado trazida pela Lei nº 10.666/03 para aposentadoria por idade se aplicaria também a essa categoria de trabalhadores, pois não há nenhuma menção de que estes estariam excluídos da referida regra.

No entanto, uma leitura atenta do artigo 48, parágrafo 2º da Lei nº 8.213/91 permite concluir que, nesses casos, a qualidade de segurado se faz necessária:

Para os efeitos do disposto no parágrafo anterior [aposentadoria por idade dos trabalhadores rurais], o trabalhador rural deve comprovar o efetivo exercício de atividade rural, ainda que de forma descontínua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, por tempo igual ao número de meses de contribuição correspondente à carência do benefício pretendido. (observação nossa)

Verifica-se que, para fazer jus à aposentadoria por idade, o trabalhador rural tenha que comprovar o exercício da atividade rural, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, o que significa que deve estar filiado ao sistema para a obtenção da prestação pretendida.

122

Não será concedido o benefício se o trabalho exercido pelo rurícola, ainda que de forma descontínua, não obedecer ao critério temporal indicado no preceito legal como condição para fazer jus a ele.

Concordamos com Savaris, que entende que “não será possível a obtenção da aposentadoria mínima prevista nos arts. 39 e 143 da Lei 8.213/91 sem que o rurícola detenha a condição de segurado (empregado, contribuinte individual ou especial) ao tempo em que completou o requisito etário ou ao tempo em que formulou o requerimento administrativo”256.

Especificamente com relação ao trabalhador rural, não há como entender a inexigibilidade de qualidade de segurado, se lhe é imprescindível comprovar o exercício da atividade rural no período imediatamente anterior à data do requerimento.

Caso esse segurado tenha completado a idade requerida há alguns anos e comprove o exercício da atividade rurícola nos anos que imediatamente antecederem a implementação do requisito etário, não há como negar-lhe o benefício. Não é necessário que comprove a atividade rural na data do requerimento. Neste caso, mais uma vez, o segurado deverá comprovar sua filiação e, portanto, sua qualidade de segurado na época da implementação dos pressupostos necessários e que, portanto, já se incorporaram ao patrimônio jurídico do trabalhador, sendo o benefício considerado direito adquirido. Ao contrário, aquele que tenha exercido atividade rural e deixou de fazê-lo ou migrou para atividade urbana não fará jus à benesse do benefício etário, submetendo- se, neste último caso, ao regramento da aposentadoria dos trabalhadores urbanos.

Assim, não é reconhecido o direito à aposentadoria por idade aos trabalhadores rurais se não há comprovação de atividade rural no período imediatamente anterior ao requerimento, salvo nos casos de direito adquirido, como destacado acima.

Diferentemente, dos trabalhadores urbanos não é exigida a qualidade de segurados, não sendo necessário que estejam exercendo atividade urbana para fazer jus ao benefício etário. Basta-lhes o cumprimento do tempo mínimo de contribuições correspondente à carência do benefício e a idade mínima necessária, enquanto no caso dos trabalhadores rurais, ao completarem a idade mínima, é imprescindível que estejam exercendo a atividade rural no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício e, portanto, que detenham a qualidade de segurados.

256 Direito em foco, p. 29. O autor ainda colaciona uma decisão proferida pela 1ª Turma Recursal de Goiás, Processo nº 200235007004303/GO, Relatora Juíza Maria Divina Vitória, j. 06/08/2002, DJ 14/08/2002, cuja tese entende que a “concessão da aposentadoria por idade independentemente da qualidade de segurado não se aplica aos trabalhadores rurais”. Em sentido contrário, o eminente jurista colaciona decisão proferira pela 10ª Turma do Egrégio Tribunal Regional Federal da 3ª Região, Relator Juiz Sérgio Nascimento, na AC 00003990571218/SP, j. 18/01/2003, DJ 23/01/2004, entendendo que “a tese de que a aposentadoria por idade como trabalhador rural não exige o preenchimento simultâneo de tais requisitos, na forma do art. 3º, § 1º, da Lei 10.666/03”.

Incluem-se na mesma regra os segurados especiais, pois a mesma condição para fazer jus ao benefício etário indicada no artigo 48, parágrafo 2º, também o traz o artigo 39 da Lei nº 8.213/91, ou seja, comprovar o exercício de atividade rural, ainda que de forma descontínua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício.

Tanto dos trabalhadores rurais como dos segurados especiais é exigida filiação ao Regime Geral de Previdência Social, comprovando ser necessária a qualidade de segurado para o direito à aposentadoria por idade.

7.3 DA CARÊNCIA

Tendo em vista a recente inclusão do trabalhador rural no sistema previdenciário, não há como exigir dele carência no período que antecedeu à inclusão.

A carência, para o trabalhador urbano, é considerada levando-se em conta o número de contribuições efetivamente recolhidas, sendo que, para contribuinte individual e facultativo, é contada a partir da primeira contribuição sem atraso, enquanto, para os demais segurados, considera-se o início do seu cômputo a partir do momento em que houve a filiação ao Regime Geral de Previdência Social.

A Lei nº 8.212/91, em seu artigo 12, criou a figura do trabalhador rural empregado (inciso I, ‘a’); do trabalhador rural contribuinte individual eventual (inciso V, ‘g’); do trabalhador avulso (inciso VI) e do segurado especial (inciso VII). Considerando tratar-se de segurados obrigatórios, cada um desses trabalhadores contribui com alíquotas específicas, conforme a categoria de que fazem parte, nos moldes do Plano de Custeio da Previdência Social (Lei nº 8.212/91).

O artigo 55, parágrafo 2º da Lei nº 8.213/91 assim se encontra grafado:

O tempo de serviço do segurado trabalhador rural, anterior à data de início de vigência desta Lei, será computado independentemente do recolhimento de contribuições a ele correspondentes, exceto para efeito de carência, conforme dispuser o Regulamento.

Para esses trabalhadores de quem a contribuição não era exigida antes de 11/ 91257, não há que se falar em carência para período anterior à Lei nº 8.213/91. Exige-se apenas a comprovação de efetivo exercício de atividade rural, ainda que de forma descontínua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, igual ao número de meses correspondentes à carência do benefício requerido.

257 Embora a Lei nº 8.213/91 tenha sido publicada em 24 de julho de 1991, somente foi regulamentada em 7 de dezembro do mesmo ano, com a edição do Decreto nº 357/91, que tornou possível, a partir de então, operacionalizar a legislação e, conseqüentemente, o recolhimento das contribuições previdenciárias dos trabalhadores referidos no mencionado artigo.

124

Urge ressaltar que, em se tratando de trabalhador rural que assim foi considerado pelo Estatuto do Trabalhador Rural, Lei nº 4.214/63, o período de trabalho deve ser contado para efeito de carência diante da exigência de contribuição por parte do empregador.

Se houve efetivamente contribuições para esse trabalhador rural inserido no Estatuto do Trabalhador Rural ou mesmo qualificado como tal, não há por que não considerá-las como carência.

Entretanto, dos demais trabalhadores de quem a contribuição não era exigida, esse período não pode ser chamado de carência.

Tendo a legislação previdenciária, Lei nº 8.213/91, definido, em seu artigo 24, a carência como um número mínimo de contribuições mensais indispensáveis para que o beneficiário faça jus ao benefício, não pode considerar que o trabalhador rural ou o segurado especial tenham que comprovar carência para período anterior a 11/91, em que não havia exigência legal de contribuição.

Como a carência é um pressuposto para obtenção de todos os benefícios programáveis, o trabalhador rural não poderia ficar de fora dessa regra. No entanto, também não seria cabível exigir-lhe carência para período pretérito, se a legislação anterior não a exigia.

A fim de solucionar essa questão, foi criada uma regra de transição para os trabalhadores rurais, entre eles incluído o segurado especial, permitindo-lhes o direito à aposentadoria por idade durante quinze anos a contar da data da publicação da Lei nº 8.213/91:

Art. 143. O trabalhador rural ora enquadrado como segurado obrigatório no Regime Geral de Previdência Social, na forma da alínea ‘a’ do inciso I, ou do inciso IV ou VII do art. 11 desta Lei, pode requerer aposentadoria por idade, no valor de um salário mínimo, durante quinze anos, contados a partir da data de vigência desta Lei, desde que comprove o exercício de atividade rural, ainda que descontínua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, em número de meses idêntico à carência do referido benefício. (Redação dada pela Lei nº 9.063, de 14.6.95)258

Para o trabalhador rural ou segurado especial obter, portanto, o direito à aposentadoria por idade, deve ser verificada a mesma tabela de transição trazida pelo artigo 142 da Lei nº 8.213/91 utilizada para a aposentadoria por idade do trabalhador

258 O inciso IV está revogado pela Lei nº 9.876/99. O prazo de 15 anos foi prorrogado por mais dois anos, conforme Medida Provisória nº 312, de 19 de julho de 2006, DOU de 20/7/2006, convertida na Lei nº 11.368, de 9 de novembro de 2006, DOU 10/11/06.

urbano, já transcrita neste trabalho, e que também faz menção expressa de seu uso para o trabalhador e o empregador rural cobertos pela Previdência Social Rural.

Entretanto, diferentemente do trabalhador urbano que precisa comprovar tempo mínimo de contribuições, a tabela de transição do artigo 142 da Lei nº 8.213/91 é utilizada apenas como embasamento para que o trabalhador rural ou o segurado especial possa saber qual será o tempo mínimo de exercício de atividade rural que deverá comprovar.

Fortes e Paulsen entendem tratar-se de uma “espécie de carência mensal cumprida como tempo de serviço rural, mesmo que a ela não corresponda, mensalmente, o recolhimento de contribuição”259.

Na medida em que não é necessário comprovar tempo de contribuição, mas tão-somente exercício de atividade rural, não há que se falar em carência.

Exemplificando: um trabalhador rural requereu a aposentadoria por idade em 1996. Buscando o ano de 1996 na tabela de transição do artigo 142 referido, verifica-se que são exigidas, para esse ano, 90 contribuições mensais. Dessa forma, esse segurado deve comprovar atividade rural nos 90 meses anteriores à data do requerimento junto ao ente autárquico, o qual se deu em 1996.

É necessário frisar, portanto, que a regra de inexigibilidade de carência é exclusivamente para a concessão de aposentadoria por idade do trabalhador rural ou segurado especial para período anterior a 11/91, com prazo determinado para a extinção dessa regra de transição, que expirará em 25 de julho de 2008, conforme prorrogação dada pela Lei nº 11.368, de 9 de novembro de 2006.

Para período posterior a 12/91, em relação ao trabalhador rural empregado, eventual ou contribuinte individual, como a contribuição passou a ser exigida compulsoriamente (artigo 25 da Lei nº 8.212/91), faz-se necessário comprovar tempo mínimo de contribuição correspondente à carência do benefício, ou seja, 180 contribuições mensais, conforme artigo 25, inciso II da Lei nº 8.213/91.

O segurado especial, entretanto, tanto pode se beneficiar da regra provisória do artigo 143 como da regra permanente260trazida pelo artigo 39 da Lei nº 8.213/91, permitindo ambos os preceitos a aposentadoria por idade, necessitando apenas comprovar o exercício da atividade rural, ainda que de forma descontínua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, igual ao número de meses correspondentes à carência do benefício requerido.

259 Direito da Seguridade Social, p. 103.

260 Simone Barbisan Fortes e Leandro Paulsen definem a regra do artigo 39 e também seu parágrafo único como ‘regra permanente’ (Direito à Seguridade Social, p. 104).

126

Para esses segurados especiais, o valor do benefício será sempre de um salário mínimo. Entretanto, é-lhes facultado contribuir como contribuintes individuais, possibilitando-lhes um valor de benefício maior que um salário mínimo, mas ainda assim continuam sujeitos à fórmula de cálculo estipulada no Plano de Custeio da Previdência Social.

A carência, portanto, não existe para os trabalhadores rurais anteriormente ao período de 11/91, sendo exigida somente a partir de dezembro de 1991. O artigo 143 da Lei nº 8.213/91 introduziu uma regra de transição para esses trabalhadores, que já no início da publicação da legislação previdenciária os incluiu como segurados obrigatórios para que pudessem gozar dos benefícios e serviços previdenciários, os quais a partir de então passaram a ser reconhecidos.

A regra permanente encontra-se no artigo 39 da Lei nº 8.213/91 e permite a concessão do benefício etário aos segurados especiais, bastando comprovar exercício de atividade rural no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício.