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Dano moral - Concausas - Proporcionalidade e razoabilidade

No documento | Revista Eletrônica (páginas 135-141)

- em caso de erro médico, o hospital responde juntamente com o profissional que atuar na condição de membro do corpo clínico daquela entidade, pois ambos fazem parte da cadeia de fornecimento do serviço, e o segundo atua por indicação do primeiro.

- nesses casos, a responsabilidade do médico é direta, e a do hospital indireta, sendo suficiente, em relação a ambos, a comprovação de que a conduta culposa do primeiro tenha contribuído para o resultado danoso.

- Quando a conduta culposa imputada for o elemento propulsor do dano material, a reparação deve ser integral.

- havendo concausa relativamente independente do dano moral, o valor da indenização deve ser propor-cionalmente reduzido.

APelAÇão CÍVel nº 1.0674.11.001197-2/001 - Comarca de silvianópolis - Apelantes: 1º) luiz Fernando Fagundes Gouvea; 2º) hospital de Gimirim - Apelados: V.G.M.B. e seu marido - relator: Des. José AUGUsTo loUrenÇo Dos sAnTos

Acórdão

Vistos etc., acorda, em Turma, a 12ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, em reJeiTAr PreliMinAr sUsCiTADA Pelo seGUnDo APelAnTe, DAr PArCiAl ProViMenTo À PriMeirA APelAÇão e neGAr ProViMenTo À seGUnDA APelAÇão, TUDo Por UnAniMiDADe.

Belo horizonte, 16 de novembro de 2017. - José Augusto Lourenço dos Santos - relator.

Notas taquigráficas

Des. José AUGUsTo loUrenÇo Dos sAnTos - luiz Fernando Fagundes Gouvêa e hospital de Gimirim interpuseram apelação em desfavor de V.G.M.B. e seu, todos qualificados nos autos, atacando sentença proferida pelo Juízo da Vara Única da Comarca de silvianópolis, que julgou parcialmente proce-dente ação “indenizatória por erro médico”, ajuizada pelos apelados, condenando os apelantes, solidaria-mente, ao pagamento de r$17.461,18 (dezessete mil, quatrocentos e sessenta e um reais e dezoito centavos) a título de ressarcimento por danos materiais e mais r$50.000,00 (cinquenta mil reais) a título de compen-sação por danos morais, além do pagamento da totalidade das custas processuais e de honorários advo-catícios de sucumbência arbitrados em 20% (vinte por cento) do montante das condenações principais (f. 753/756v).

Jurisprudência Cível

Partes intimadas em 3/12/2015 (f. 757) e apelações protocolizadas em 16/12/2016 (f. 758 e 783-v). o recurso do primeiro apelante se fez acompanhar de comprovante do preparo (f. 781/782) e foi deferida gratuidade judiciária ao segundo apelante (f. 873).

o primeiro apelante alega, em suma, ausência de culpa e de nexo de causalidade na tentativa de afastar inte-gralmente sua responsabilidade ou reduzir os valores das condenações (f. 758/780).

o segundo apelante, por sua vez, suscita preliminar de ilegitimidade passiva ad causam e também defende a tese de ausência de culpa do primeiro apelante para afastar totalmente a condenação (f. 784/789).

os apelados apresentaram contrarrazões, em óbvia infirmação, fazendo referência, principalmente, à prova pericial (f. 819/823).

relatado, passo ao voto propriamente dito.

Presentes os pressupostos (intrínsecos e extrínsecos) de admissibilidade, conheço das apelações.

A alegação de ilegitimidade passiva do hospital não se sustenta.

Ainda que o atendimento da paciente tenha sido pelo sUs, e entre o hospital e o médico a quem foi impu-tada conduta culposa não se caracterize, tecnicamente, relação de emprego (arts. 2º e 3º da ClT), trata-se de serviço remunerado (de forma indireta), e ambos os réus/apelantes fazem parte da mesma cadeia de forne-cimento, com vinculação jurídica entre eles.

A própria contestação do hospital, apesar de dizer que o médico seria autônomo e não contratado direta-mente por aquela instituição, revelou textualdireta-mente que esse profissional “faz parte do seu corpo clinico”

(vide f. 301). Além de o serviço ter sido prestado mediante utilização da estrutura do hospital (avaliada como insuficiente na perícia), o suposto causador direto do dano atuou por indicação daquele, ou seja, dife-rentemente do inovado nas razões recursais, sob a condição de preposto.

Assim, há possibilidade de responsabilização solidária, nos termos do art. 14, caput, do CDC, e, também, do art. 932, inc. iii, do Código Civil, de modo a permitir médico e hospital no polo passivo da ação indeniza-tória. A propósito:

[...] para se atribuir responsabilidade ao hospital em razão de serviço médico propriamente dito, há que se perquirir quanto à existência ou não de um vínculo jurídico entre o médico e o estabelecimento, seja ele decorrente de uma relação trabalhista ou não. [...] o hospital responde pelos serviços médicos propriamente ditos, não só contrato total ou exclusivo, como também no dividido, quando constatada a existência de vínculo jurídico, ou seja, quando o médico for membro do corpo clínico [...]. o hospital só não responderá quando o médico lhe for estranho, ou seja, quando o médico simplesmente utilizar das dependências hospitalares sem pertencer aos seus quadros, sem qualquer vínculo jurídico com o esta-belecimento hospitalar” [AlMeiDA, Álvaro henrique Teixeira. Responsabilidade dos hospitais, clínicas e assemelhados - o contrato hospitalar. in: lAnA, roberto lauro; FiGUeireDo, Antônio Macena de (Coords.). Temas de direito médico. rio de Janeiro: editora espaço Jurídico, 2004, p. 169).

no mesmo sentido, a jurisprudência:

Consumidor. recurso especial. Ação de indenização. responsabilidade civil. Médico particular. [...].

hospital. responsabilidade solidária. legitimidade passiva ad causam. [...]. 2. embora o art. 14, § 4º, do CDC afaste a responsabilidade objetiva dos médicos, não se exclui, uma vez comprovada a culpa desse profissional e configurada uma cadeia de fornecimento do serviço, a solidariedade do hospital imposta

Jurisprudência Cível pelo caput do art. 14 do CDC. 3. A cadeia de fornecimento de serviços se caracteriza por reunir

inúme-ros contratos numa relação de interdependência, como na hipótese dos autos, em que concorreram, para a realização adequada do serviço, o hospital, fornecendo centro cirúrgico, equipe técnica, medicamen-tos, hotelaria; e o médico, realizando o procedimento técnico principal, ambos auferindo lucros com o procedimento. 4. há o dever de o hospital responder qualitativamente pelos profissionais que escolhe para atuar nas instalações por ele oferecidas. [...] (sTJ, resp. 1.216.424/MT, rel.ª Min.ª nancy Andrighi, 3ª Turma, j. em 9/8/2011, DJe de 19/8/2011).

Agravo regimental no Agravo (art. 544 do CPC/73). Ação condenatória. responsabilidade civil. erro médico. hospital. responsabilidade solidária. Decisão monocrática que negou provimento ao recurso.

irresignação da casa de saúde. 1. nos termos do art. 14 do CDC, quando houver uma cadeia de forneci-mento para a realização de determinado serviço, ainda que o dano decorra da atuação de um profissional liberal, verificada culpa deste, nasce a responsabilidade solidária daqueles que participam da cadeia de fornecimento do serviço, como é o caso dos autos. Precedentes. 2. Agravo regimental desprovido (sTJ, Agrg no Aresp 209.711/MG, rel. Min. Marco Buzzi, 4ª Turma, j. em 12/4/2016, DJe de 22/4/2016).

Apelação cível. erro médico. [...] - responsabilidade civil solidária do nosocômio. - A doutrina e a juris-prudência vêm entendendo que a relação existente entre hospital e paciente é de consumo, tendo esse o direito de ser indenizado pelos danos sofridos, pois, nos termos do art. 14 da lei nº 8.078/90, a responsa-bilidade do hospital, prestador de serviços, para com seus pacientes, é de cunho objetivo. - Demonstrada a existência de falha na prestação dos serviços médicos, através do corpo clínico do hospital, o dano suportado pelo paciente e o nexo de causalidade, evidencia-se a obrigação do nosocômio pela reparação civil. - Consoante entendimento do sTJ, uma vez comprovada a culpa do profissional médico e confi-gurada uma cadeia de fornecimento do serviço, não se exclui a solidariedade do hospital imposta pelo caput do artigo 14 do CDC, porquanto é seu dever responder qualitativamente pelos profissionais que escolhe para atuar nas instalações por ele oferecidas. [...] (TJMG - Apelação Cível nº 1.0145.11.009588-5/001, rel.ª Des.ª Aparecida Grossi, 16ª CACiV, j. em 9/12/2015, p. em 22/1/2016).

Portanto, rejeito a preliminar.

Des.ª JUliAnA CAMPos horTA - De acordo com o relator.

Des. sAlDAnhA DA FonseCA - De acordo com o relator.

Des. José AUGUsTo loUrenÇo Dos sAnTos - Avançando ao mérito, a controvérsia gira em torno da culpa do médico obstetra, que faz parte do corpo clínico do hospital, e do nexo de causalidade entre a conduta do profissional e parte dos problemas de saúde sofridos pela primeira autora/apelada.

A responsabilidade do médico é direta e a do hospital indireta, havendo necessidade, em relação a ambos, de comprovação de conduta negligente, imprudente ou imperita do primeiro, comissiva ou omissiva, como causa ou concausa dos danos materiais e morais sofridos pelos autores/apelados (art. 14, § 4º, do CDC;

art. 186, art. 927 e art. 932, inc. iii, do Código Civil). Vale citar:

Consumidor. recurso especial. Ação de indenização. responsabilidade civil. Médico particular.

responsabilidade subjetiva. hospital. responsabilidade solidária. [...]. 5. o reconhecimento da res-ponsabilidade solidária do hospital não transforma a obrigação de meio do médico em obrigação de resultado, pois a responsabilidade do hospital somente se configura quando comprovada a culpa do médico, conforme a teoria de responsabilidade subjetiva dos profissionais liberais abrigada pelo Código de Defesa do Consumidor. [...] (sTJ, resp. 1.216.424/MT, rel.ª Min.ª nancy Andrighi, 3ª Turma, j. em 9/8/2011, DJe de 19/8/2011).

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Convém frisar que, embora também se tenha imputado na inicial que a conduta do médico fora a causa do parto prematuro seguido de morte do filho dos autores/apelados, a sentença já afastou a responsabilização por tal resultado. As condenações decorrem apenas de gastos pecuniários com tratamento emergencial não obstétrico (dano material), bem como complicações de saúde que geraram risco de morte à primeira apelada (dano moral), apontados como oriundos de demora em adoção de medidas que se fizeram necessá-rias frente a diagnóstico de Abdome Agudo obstrutivo.

no caso, conforme apurado na perícia, houve o erro médico pelo retardamento de solicitação de avaliação por profissional de especialidade diversa da do primeiro apelante, a fim de que medidas emergenciais da área da gastroenterologia fossem tomadas de imediato e concomitantes com a intervenção obstetra adotada, de modo que evitasse o risco de morte da gestante e, inclusive, uma segunda cirurgia. Confira-se:

[...] faltou pensar na possibilidade de uma complicação, outro diagnóstico, uma vez que, a Periciada evoluía mal e necessitava de outra avaliação médica ou de um Gastro ou de um Cirurgião Geral. [...]

na análise do caso pude constatar que ocorreram dois eventos durante o atendimento da Periciada. Um obstétrico com hiperemese gravídica e parto prematuro, e outro não obstétrico, de caráter geral que foi o infarto mesentérico que se desenvolveu em paralelo. [...] no rX do abdômen e Us realizados no dia 26/2/2011, em que se deu o diagnóstico decisivo da emergência obstétrica e geral com Abdômen obstrutivo Agudo. [...] somente no dia 28/2/2011 o médico Gastro fez avaliação da cirurgia geral e a Periciada foi transferida em caráter de emergência para o hospital humanitas de Varginha, onde foi re-alizada a cirurgia geral, salvando a vida da paciente. [...] o procedimento obstétrico para salvar a vida da criança e o procedimento geral imediato para salvar a vida da mãe, mas os dois procedimentos deveriam ter sido realizados de emergência no dia 26/2/2011 ou a transferência da Paciente para um hospital com mais recurso [...] a equipe deveria contar com um Cirurgião Geral por já ter o diagnóstico de Abdômen Agudo e feito uma laparotomia exploradora e assim anular o risco de morte da Paciente. os dois proce-dimentos eram emergenciais. [...] já havia conhecimento do quadro de Abdômen obstrutivo Agudo [...]

duas doenças concomitantes, que não foram conduzidas dentro da característica emergencial necessária.

[...] na análise técnica neste caso, o requerido, após o diagnóstico de Abdome Agudo obstrutivo, no pe-ríodo da manhã do dia 26/2/2011, deveria ter solicitado a opinião do Gastro ou de um Cirurgião Geral, pois o caso era emergencial. [...] operou a paciente somente no final do dia 26/2/2011 e solicitou ava-liação de outro colega dois dias após a Cesariana, colocando em risco de morte a paciente (f. 538/542).

[...] o diagnóstico do Abdome obstrutivo Agudo foi dado pelos exames de rX e Us do Abdome e pelo quadro clínico com hematêmese, epistaxe e quadro toxêmico e nesse momento a decisão deveria ter sido com cirurgia geral, com provável procedimento de laparoscopia exploradora, abertura do útero com retirada da criança e tratamento da necrose intestinal. [...] o corte da cesárea e outro da cirurgia gástrica não tem fundamento lógico, pois a necrose foi intestinal, sendo possível resolvê-la em um único procedimento com uma única incisão. [...] somente no dia 28/2/2011 outro médico avaliou a paciente, constatou a gravidade do caso e orientou a transferência em ambulância para o hospital de Varginha onde foi operada com cirurgia emergencial e foram realizados procedimentos de reposição de sangue, antibiótico, terapia e cuidados gerais que salvaram a vida da paciente (f. 562).

ora, não foi produzida contraprova técnica capaz de afastar a conclusão do laudo pericial, que é bastante elucidativo e aponta higidez metodológico-científica, realizado por profissional presumidamente isento e

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sem qualquer vínculo com as partes, produzido sob o crivo do contraditório, respondendo fundamentada-mente todas as indagações levantadas pelas partes.

logo, devem ser mantidas as condenações, pois restou suficientemente demonstrado que houve demora injus-tificável de avaliação e de encaminhamento a procedimentos emergenciais frente a diagnóstico de Abdome Agudo obstrutivo anterior, e que essa demora foi causa do agravamento do estado clínico, o que atraiu risco de morte à primeira apelada e tratamento emergencial não obstétrico custeado pelo segundo apelado.

em relação ao dano material, tem-se que o erro médico foi o elemento propulsor do resultado, ou seja, foi o retardamento de medidas necessárias que gerou a necessidade de ser custeado tratamento independente, de modo que não há como afastar a regra da reparação integral (art. 944, caput, do Código Civil).

Já em relação ao dano moral, o laudo pericial aponta que a conduta médica não foi única causa do risco de morte sofrido pela primeira apelada, havendo outros elementos relativamente independentes que contri-buíram para esse sofrimento, bem como que, embora tardiamente, foram tomadas providências evitando resultado pior. Vejamos:

a Periciada correu risco de morte pelas duas doenças que a acometeram. essas intercorrências apresen-taram fatores de causalidade, no princípio pela incompatibilidade do casal e sua decisão pela gravidez de risco, que não imaginavam o tamanho do risco; do diagnóstico das duas doenças, em caráter de raridade, que impactaram no agravamento do estado geral da Periciada; e a limitação de recursos do hospital, que não possuía o suporte necessário para o atendimento do grave caso, contudo, não se pode deixar de rela-tar que a transferência para a cidade de Varginha foi uma decisão assertiva que salvou a vida da Paciente, embora tardiamente, atitude que deveria ter sido tomada na manhã de 26/2/2011, após o diagnóstico do Abdôme Agudo obstrutivo (f. 544).

Por conseguinte, nos termos do art. 944, parágrafo único, c/c art. 945 do Código Civil, deve ser reduzida a indenização por danos morais, que, pautada pela proporcionalidade e razoabilidade, merece minoração pela metade.

isso, porém, não resultará em divisão das custas e honorários de primeira instância, pois “na ação de inde-nização por dano moral, a condenação em montante inferior ao postulado na inicial não implica sucum-bência recíproca” (súmula 326/sTJ). Apenas em relação à verba sucumbencial da primeira apelação haverá rateio, pois, em relação a essa, houve resistência à redução da indenização.

Pelo exposto, dou parcial provimento à primeira apelação, apenas para diminuir para r$25.000,00 (vinte e cinco mil reais) o valor da indenização por danos morais e nego provimento à segunda apelação.

sem honorários advocatícios recursais, porque a sentença é anterior à entrada em vigor da lei nº 13.105/2015 (enunciado Administrativo nº 7 do sTJ).

Custas da primeira apelação na proporção de 2/3 (dois terços) pelo respectivo apelante e 1/3 (um terço) pelos apelados, ficando suspensa a exigibilidade de ressarcimento da verba adiantada integralmente pelo primeiro, em razão dos benefícios da gratuidade judiciária que socorrem os segundos (f. 49).

Custas da segunda apelação integralmente pelo respectivo apelante, também suspensa a exigibilidade em razão da gratuidade judiciária (f. 873).

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é como voto.

Votaram de acordo com o relator os DeseMBArGADores JUliAnA CAMPos horTA e sAlDAnhA DA FonseCA.

Súmula - Por UnAniMiDADe, reJeiTArAM PreliMinAr sUsCiTADA Pelo seGUnDo APelAnTe, DerAM PArCiAl ProViMenTo À PriMeirA APelAÇão e neGArAM ProViMenTo À seGUnDA APelAÇão.

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Apelação cível - Reexame necessário - Tributário - ISS - Base de

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