2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO
3.3 DO PODER FAMILIAR
3.3.2 Das limitações do poder familiar
O poder familiar, em princípio, deve ser exercido pelos genitores
ininterruptamente, até o término da menoridade do filho, haja vista que esse poder se
caracteriza como irrenunciável, inalienável, indelegável, além de ser insuscetível de renúncia
voluntária.
110Nesse sentido, corrobora Venosa
O poder familiar é um múnus que deve ser exercido fundamentalmente no interesse do filho menor, o Estado pode interferir nessa relação, que, em síntese, afeta a célula familiar. A Lei disciplina casos em que o titular deve ser privado de seu exercício, temporária ou definitivamente.111
Desse modo, compete aos pais exercer o dever que lhes cabe, a fim de evitar as
implicações decorrentes da limitação do poder familiar resguardadas em lei, pois, em
determinados casos, o legislador prevê a antecipação do término desse instituto, por meio da
suspensão, perda e extinção desse poder.
109“Art.25. Entende-se por família natural a comunidade formada pelos pais ou qualquer deles e seus
descendentes. Parágrafo único. Entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou
adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade. cf. BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990.
110 VENOSA, 2008.p.306. 111 VENOSA, 2008.p.307.
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3.3.2.1 Da suspensão do poder familiar
A suspensão do poder familiar implica, por meio de decisão judicial, o
impedimento temporário do seu exercício.Assim, “a suspensão obsta o exercício do munus
decorrente do poder familiar, consubstanciando-se, destarte, em ressalva à indisponibilidade
da atividade da autoridade parental.”
112De acordo com a legislação civil, constitui suspensão do poder familiar o abuso de
autoridade proveniente de um dos pais em relação a seu filho, conforme estabelece o caput e o
parágrafo único do artigo 1.637 do Código Civil de 2002, que dispõem in verbis:
Art. 1.637. Se o pai ou a mãe, abusar de sua autoridade, faltando aos deveres a eles inerentes ou arruinando os bens dos filhos, cabe ao juiz, requerendo algum parente, ou o Ministério Público, adotar a medida que lhe pareça reclamada pela segurança do menor e seus haveres, até suspendendo o poder familiar, quando convenha. Parágrafo Único. Suspende-se igualmente o exercício do poder familiar ao pai ou mãe condenados por sentença irrecorrível, em virtude de crime cuja pena exceda dois anos de prisão.113
O Estatuto da Criança e do Adolescente também disciplina acerca da suspensão
do poder familiar, além de mencionar no mesmo dispositivo a perda desse poder.
Assim, dependerá da gravidade da situação a que a criança foi exposta, para o
juízo decidir entre a suspensão ou a perda do poder familiar.
3.3.2.2 Da perda do poder familiar
A perda do poder familiar está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente,
mais precisamente no artigo 24, in verbis, além do Código Civil,
Art. 24 A perda e a suspensão do poder familiar serão decretadas judicialmente, em procedimento contraditório, nos casos previstos na legislação civil, bem como na hipótese de descumprimento injustificado dos deveres e obrigações a que alude o art.22.114
A perda do poder familiar, conforme já salientado, encontra-se também
regulamentada na legislação civil, de acordo com o artigo 1.638, in verbis
112 LISBOA, 2009,p. 204
113 BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. 114 BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990.
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Art. 1.638. Perderá por ato judicial o poder familiar o pai e a mãe que: I-castigar imoderadamente o filho;
II- deixar o filho em abandono;
III- praticar atos contrários à moral e aos bons costumes;
IV - incidir, reiteradamente, nas faltas previstas no artigo antecedente115
Observa-se, através do artigo transcrito, que a perda do poder familiar está
diretamente relacionada a situações graves, não se admitindo interpretação extensiva, portanto
é uma medida excepcional e apenas surte efeitos ao pai, ou à mãe, que deu causa a decisão
judicial.
116Assim, a perda do poder familiar caracteriza-se como uma punição aos pais, que
não cumpriram com o seu dever, tendo em vista que sempre deve prevalecer os interesses da
criança ou adolescente, que deve crescer num ambiente saudável.
3.3.2.3 Da extinção do poder familiar
Lisboa conceitua a extinção do poder familiar como sendo, “o término do
exercício do poder-dever sobre o filho, por fatores diversos da suspensão ou da destituição e
que não podem ser imputados em desfavor do detentor.”
117A extinção do poder familiar caracteriza-se como a interrupção definitiva do
exercício que era atribuído ao genitor perante seu filho, de acordo como estabelece o artigo
1.635 in verbis, do Código Civil,
Art. 1.635. Extingue-se o poder familiar: I-pela morte dos pais ou do filho;
II- pela emancipação, nos termos do art.5, parágrafo único; III- pela maioridade;
IV- pela adoção;
V- por decisão judicial, na forma do art. 1.638.118
Quanto às causas elencadas pelo artigo supracitado, ressalta-se a extinção do
poder familiar pela adoção, tendo em vista que tal instituto é objeto deste estudo.
De acordo com Monteiro,
115 BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. 116 AKEL, 2009. p. 51
117 LISBOA, 2009,p. 206. 118 BRASIL. loc. cit.
42 [...] O poder familiar extingue-se pela adoção, que faz desaparecerem os direitos e os deveres do filho para com o pai e a mãe de sangue, especialmente o poder familiar, que dele se transfere para o adotivo. A adoção extingue-se, assim, o poder familiar do pai carnal. [...] Na conformidade do art. 1.621, caput e § 1º Código Civil de 2002, a adoção depende de consentimento dos pais; caso não haja esse consentimento, deverá ocorrer prévia destituição do poder familiar.119