3.6 A agente de “integração” Sheila, o “problema da cultura” e a produção dos
3.6.1 De refugiados “em perigo” a refugiados “perigosos”
Sheila - Mas aqui, no primeiro dia que eles foram à mesquita eles arrumaram
confusão...
Sônia – Confusão como?
Sheila - Confusão de gritar, de falar alto, de xingar as pessoas, de não ter educação.
Eles não têm educação porque ficaram muito tempo no asilo, lá no campo, e aí eles não têm educação. Eles são muito porcos, eles fedem muito, muito, muito mesmo. É notória a sujeira. E aí o Serviço Social entra para passar noções de higiene. Se passar na frente de alguém, “pedir licença”, [dizer] “por favor”. Eles não sabem fazer isso, eles agridem. Para chegar ao ponto de jogar um computador no rosto de uma assistente social. A assistente social ficou com síndrome do pânico. Eles agridem, eles perseguem. Quase todos os arquivos têm BO dentro deles. Porque eles acham que eles são imunes a lei. É um público muito difícil! E eles perderam um pouco a noção no campo de refúgio. Eles estão bem melhores agora, mas só que eles são de extrema arrogância, de extrema falta de educação...
Além do forte discurso referente à opressão masculina, havia no depoimento de Sheila, assim como no de outros profissionais da Cáritas por mim entrevistados, como o
próprio coordenador do programa, referências constantes aos supostos comportamentos agressivos, às ameaças e à falta de educação dos refugiados. Estes, segundo ela, se comunicariam apenas através de “gritos”, “xingamentos”, “agressões” e “perseguições”, sendo absolutamente “mal educados” e “fedidos”, tendo todas essas características se sobressaltado devido ao período passado no campo de refugiados. Ao falar sobre tais comportamentos, no entanto, Sheila dificilmente explicitava os contextos nos quais os mesmos teriam emergido, explicando-os a partir das supostas características dos próprios refugiados. Quando lhe perguntei, por exemplo, sobre o motivo que teria culminado na “confusão” por ela ressaltada no “primeiro dia em que foram à mesquita”, período no qual ela não trabalhava para a Cáritas, respondeu que era devido às “características agressivas” dos refugiados. Em outras conversas ao longo da pesquisa, soube que umas das primeiras discussões na mesquita foram mobilizadas por dois refugiados idosos que, descontentes com o fato de terem sido colocados no asilo, exigiam uma casa para morarem. E, efetivamente, após os “gritos” daquele dia, os mesmos foram transferidos para um apartamento.
A referência aos comportamentos agressivos dos refugiados também era feita por Sheila de modo generalizante, não havendo distinção entre eles. Para explicá-los, a assistente social se remetia às “histórias” da Palestina, ao período passado no campo e ao fato deles terem sido aqueles que nele “restaram”. Com efeito, em vários momentos de nossa conversa, ela fazia afirmações diversas que dariam sentido aos mencionados comportamentos. Em um deles, já referido anteriormente, ela citava o fato de que “desde que a Palestina foi tomada”, eles teriam se tornado sujeitos “a flor da pele” e “revoltados”, sendo educados para terem “ódio” e para “morrerem pela terra”, sendo “Alá responsável por tudo”. Seus comportamentos agressivos, assim, seriam decorrentes de uma socialização na qual a “revolta” e o “ódio” lhes seriam implantados desde a infância. Sobre tal socialização, o coordenador do programa, em entrevista a mim concedida, também teria tanto criticado o fato dos refugiados não terem apreço pela vida, na medida em que sempre a colocavam em xeque ao dizer que fariam “greve de fome” ou “se matariam”, quanto o fato deles serem “muito reivindicativos pela demanda de direitos”, sendo este um aspecto difícil de ser ministrado pelo programa.
Em outra direção, Sheila também acionaria o longo período passado no campo como um momento no qual os refugiados teriam perdido a “noção” de como se portar. Neste espaço/tempo liminar, portanto, os refugiados teriam deixado não apenas seu status político, social e jurídico na “ordem nacional”, mas também as regras da convivência interpessoal, da boa conduta e da moral ou, em outros termos, sua própria civilidade. Sua reinserção numa “ordem nacional”, assim, também exigia que os mesmos fossem civilizados.
Outro argumento levantado pela assistente social era referente ao fato do grupo admitido pelo Brasil se configurar como “aqueles que ninguém quis”. Segundo ela, existiria “um motivo grande” para esses refugiados não terem sido aceitos anteriormente. Para explicar-me, diria que “em toda sociedade existem ladrões, traficantes, estupradores, pessoas mau caráter; e esses daqui ninguém quis”. Além da sugestão de que eles foram rejeitados por possuírem ligações com práticas criminosas, ela afirmaria que tais refugiados, ao terem sido “sustentados” por Saddam Hussein durante seu governo, tinham que se prontificar a atuar como “homens-bomba”, caso requisitados. Concluindo, dizia que, embora os técnicos da Cáritas não conhecessem os motivos reais dos mesmos terem “restado”, eles não seriam “bobos”. Para a assistente social, no campo teriam “restado” majoritariamente sujeitos de caráter e passado duvidosos, marcados pela criminalidade ou envolvimento com práticas tidas como terroristas. Note-se que se, no momento da acolhida dos refugiados pelo Estado brasileiro, esses mesmos argumentos – de que eram o “resto” ou “aqueles que ninguém quis” - teriam sido utilizados para produzi-los como sujeitos em perigo que precisavam ser salvos da morte e do sofrimento, o que enobrecia a própria decisão do país, no relato de Sheila, tais características eram apropriadas justamente para transformá-los em sujeitos perigosos.
A forma como os refugiados foram classificados orientaria as próprias ações de intervenção escolhidas para integrá-los. A “cultura” dos refugiados, ao ser vista em sua dimensão totalizante e negativa, necessitava ser transformada. Para isso, os agentes de integração atuariam, por um lado, através de “brechas” produzidas nos encontros com eles, de modo a ensinar-lhes novos valores e práticas tidas como civilizadas – instruir que homens e mulheres no Brasil, ao contrário do que acontece “lá”, possuem direitos iguais; repassar-lhes noções mínimas de higiene; reeducá-los a como se portar nas relações interpessoais, pedindo “por favor”, “com licença”, “falando baixo”.
Dando um exemplo de como isso deveria ser feito a partir das mencionadas “brechas” por eles deixadas, Sheila falou da ocasião em que estava atendendo a uma refugiada, depois que esta agendou a entrevista. Segundo ela, a mulher estava grávida e possuía um “cheiro forte de sujeira e de suor”, além de estar com as “unhas pretas”, devido ao hábito de andar muito de sandálias. Após ouvi-la, Sheila disse que a partir daquele momento apenas ela falaria. A assistente, então, perguntaria à refugiada se ela não sabia que, estando grávida, ela não poderia andar com as unhas sujas daquele jeito ou que ela poderia pegar uma infecção urinária por não tomar banhos diários. Diante da resposta negativa da refugiada, ela a levou a um agente de saúde do hospital para que este lhe repassasse “mínimas noções de higiene”.
Quando perguntei sobre o resultado daquela conversa, Sheila disse que a refugiada entendia o que estava sendo falado, mas que não adiantava, pois se tratava de uma questão cultural.
Questão de cultura, tudo é questão de cultura. É como quando você vai à Europa e vê aquelas pessoas lindas, chiques e maravilhosas. Eles tomam banho uma vez por mês, quatro vezes por mês no máximo. Mas pelo menos eles não fedem. Mas é uma questão de cultura. É algo indiscutível. É a mesma coisa de você pedir para um índio da Amazônia colocar roupa. Ele nunca vai colocar, é uma questão cultural dele, apesar de estar no mesmo solo que a gente. Ele tem que ser respeitado. Então tudo bem, você não gosta de tomar banho sempre, então a gente leva na farmácia: ‘Vai lá, usa roll-on, usa esse, usa àquele, esse é mais barato. Usa xampu!’ Elas têm o cabelo comprido, então corte o cabelo, para não suar tanto e usa o lenço, já que não mostra. Entendeu? É dessa forma.
A percepção de que o problema está na cultura ou de que eles teriam “perdido a noção” no campo de refugiados, assim, terminou por engendrar o que classifico como uma pedagogia civilizatória por parte dos agentes. Por outro lado, o pressuposto de que eles seriam “agressivos” e perigosos, sendo oriundos de um contexto de criminalidade, justificaria a própria necessidade da intervenção policial para a proteção das assistentes e para a integração dos refugiados.