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CAPÍTULO III: CIVILIZAÇÃO E CRIME: CRIMINOSOS ESTRANGEIROS E NACIONAIS DOS TEMPOS MODERNOS

Total 87 5% de um total de 1.733 reportagens sobre criminalidade

Fontes: Jornal do Brasil, Gazeta de Notícias e Correio da Manhã.

*Os percentuais foram determinados considerando o total de notícias de crimes consultadas em cada um dos jornais cariocas trabalhados.

No que se refere ao percentual de notícias que responsabilizavam os ladrões estrangeiros pela expansão da criminalidade no Rio de Janeiro, o Correio da Manhã, a

Gazeta de Notícias e o Jornal do Brasil também tinham uma representatividade

relativamente semelhante entre si.

Quadro 19 – Número de notícias (por jornal) que responsabilizavam os ladrões estrangeiros pela expansão da criminalidade no Rio de Janeiro, 1900-1920

Jornais %

Correio da Manhã 14 70% de um total de 20 reportagens sobre criminalidade estrangeira

Gazeta de Notícias 16 64% de um total de 25 reportagens sobre criminalidade estrangeira

Jornal do Brasil 22 52,4% de um total de 42 reportagens sobre criminalidade estrangeira

Total 52 59,8% de um total de 87 reportagens sobre

criminalidade estrangeira Fontes: Jornal do Brasil, Gazeta de Notícias e Correio da Manhã.

As notícias sobre o assunto eram veiculadas na imprensa numa época na qual a população estrangeira na cidade havia crescido. De acordo com o historiador Marcos Bretas, os estrangeiros haviam emigrado para a cidade carioca “em busca de enriquecimento ou pelo menos de uma oportunidade de trabalho, mas a vasta maioria conseguia apenas sobreviver e, com o tempo, fixar raízes”.173

A historiadora Lená Menezes assinalou, em seu estudo intitulado “Os indesejáveis”, que em 1906 os estrangeiros atingiram 210.515 indivíduos, contra um conjunto de 600.928 nacionais, numa população que alcançava 811.443 habitantes. “Representavam, portanto, cerca de 25 % dos habitantes da cidade. Isto significava que,

173

em números absolutos, eles continuavam a crescer, mesmo que se registrasse uma pequena queda nos índices percentuais, explicada pelas proibições de emigração para o país, que ganhavam visibilidade na cidade com a paralisação do crescimento de algumas nacionalidades no conjunto global.”174

Em relação às reportagens sobre criminalidade e imigração estrangeira, estas cresceram consideravelmente na década de 1910 (63 notícias) em comparação aos anos de 1900 (24 notícias), representando mais do que o dobro das matérias veiculadas. Em geral, as matérias, em termos quantitativos, variavam para cada ano consultado de uma, duas, três, quatro ou até nove notícias, sendo que em 1915, 1916 e 1920 foram os anos nos quais se verificou um maior número de reportagens sobre o assunto. Em 1916 e 1920 houve respectivamente 15 notícias publicadas, e em 1915 elas chegaram a 26. No ano anterior à Primeira Guerra, em 1913, somente se veiculou quatro notícias sobre o tema, mas esses dados triplicaram em 1915 (26), um ano após o início da guerra.

É importante notar que o historiador Marcos Bretas, ao se debruçar sobre uma notícia do Jornal do Commercio em 1917, sobre a questão da imigração europeia no Rio durante a guerra, assinalou que, de acordo com a notícia, o fluxo de imigrantes europeus que entravam no Rio continuou até a Primeira Guerra Mundial.175 Segundo tal jornal, entre 1907 e 1917 o número de imigrantes que entraram pelo porto do Rio chegou a 452.000. Os números anuais caíram de 78.208 em 1913 para 33.913 em 1914; 16.180 em 1915; e 10.997 em 1916.176

Essa baixa no volume imigratório para o Rio durante este período da guerra estava fortemente relacionada, como assinalou Juliana Gomes Dornelas177, às dificuldades de locomoção durante os conflitos e também à adoção de políticas restritivas contra aqueles considerados nocivos à sociedade: como os anarquistas, que passaram a ser perseguidos a partir de 1917, e os comunistas. Mas o número de imigrantes estrangeiros que chegavam ao Rio foi inversamente proporcional ao número de notícias de ladrões estrangeiros consultadas que transitavam na cidade em 1915 e 1916, já que nesses anos houve, como já assinalado, um crescimento expressivo de matérias sobre o assunto.

174 Menezes, Lená. Os indesejáveis. Op.cit., p. 63. 175

Jornal do Commercio, 13/01/1917, apud Bretas, Marcos. Ordem na cidade, op. cit., p. 21. 176 Idem, ibidem.

177 Dornelas, Juliana Gomes. Na América, a esperança: os imigrantes sírios e libaneses e seus

descendentes em Juiz de Fora, Minas Gerais (1890-1914). Juiz de Fora: Dissertação de Mestrado,

Segundo as reportagens policiais, o aumento dos larápios estrangeiros no Rio nesse período da guerra se deveu porque, como tais criminosos estariam impossibilitados de “operar nos países em guerra”, haja vista que nas Repúblicas do Prata as “respectivas polícias” haviam tomado “enérgicas medidas” contra eles, buscavam perpetrar seus crimes no Rio. Isso porque sabiam de “antemão que a polícia” da cidade não estaria “aparelhada para os capturar”.178 Por isso, afirmava um repórter de polícia, o Rio de Janeiro era conhecido como o “paraíso dos ladrões”, já que tais criminosos agiam “tranqüilamente, fazendo com que raro seja o dia em que os jornais não registrem tais façanhas”.179

Mas vale notar que esse mesmo argumento, que apontava para uma relação direta entre a perseguição policial nas repúblicas platinas e o êxodo desses criminosos para o Rio de Janeiro, podia ser utilizado também em quaisquer épocas do ano, e não só durante a Primeira Guerra, como mostra a seguinte notícia publicada em 1913: “Afonso Pinto disse ser demasiadamente conhecido da polícia de Buenos Aires como ladrão, já tendo cumprido duas sentenças e, vendo-se muito perseguido pela polícia portenha emigrou para o Rio com o intuito de arranjar aqui a vida”.180

Matérias como essa nos indicam que o crescimento na imprensa do número de notícias de ladrões estrangeiros no Rio, em 1915 e 1916, se deveu não ao argumento esboçado acima, mas sim aos interesses mercadológicos dos repórteres e da imprensa em veicular com mais intensidade o assunto nesses anos, durante os quais a guerra se encontrava a pleno vapor. Afinal, veicular assuntos relativos à guerra europeia juntamente com as notícias de crimes do Rio de Janeiro certamente constituíam ingredientes substanciais para as notícias sensacionais. Não é à toa que em 1915 e 1916 as notícias de ladrões estrangeiros, comparativamente em relação aos anos anteriores, aumentaram não só em número mas também em espaço, chegando algumas vezes a ocupar a página inteira do jornal, com títulos muitas vezes chamativos e em negrito.181

Mas é importante notar que nos dois anos seguintes a 1915 e 1916, ou seja, 1917 e 1918, o número dessas notícias diminuiu consideravelmente – quatro notícias. Talvez isso explique por que a guerra já não era uma novidade para os leitores, pois ela

178 “Noticiário policial: paraíso dos ladrões”, Jornal do Brasil, 28/04/1915, 9. 179 Idem, ibidem.

180

“Paraíso dos ladrões: perseguição tenaz: dois gatunos argentinos”, Jornal do Brasil, 28/05/1913, 6. 181 Ver, por exemplo: “Os ladrões estrangeiros no Rio”, Jornal do Brasil, 27/11/1915, 9; “Os planos rocambolescos: uma quadrilha opera nesta capital e está aparelhada para todas as emergências”, Jornal do

Brasil, 24/03/1915, 8; “O Rio é hoje, positivamente, o paraíso da gatunagem”, Correio da Manhã,

estava em sua fase final. No entanto, em 1920 o número de reportagens sobre ladrões estrangeiros voltou a crescer consideravelmente, tal como ocorrera, proporcionalmente, com a população estrangeira na capital. Segundo Lená Menezes, em 1906 os imigrantes somavam 210.515 indivíduos numa população que alcançava 811.443, ao passo que em 1920 o número de estrangeiros chegou a 239.129 indivíduos num total de 1.157.873 habitantes.182

Na perspectiva da autora, independente, portanto, de qualquer fator restritivo, a população estrangeira na cidade cresceu em números absolutos, triplicando seu número no intervalo de 60 anos (de 1870 até 1930). Em termos relativos, ela tendeu a se manter em torno dos 20% do conjunto global da população.183

Segundo os repórteres, em relação ao número de ladrões estrangeiros que chegavam ao Rio de Janeiro no início do século XX, também crescia, em termos absolutos, neste período, devido aos fatores já comentados.

A relação que se estabelecia entre imigração e aumento da criminalidade na cidade era derivada não só em função de uma maior quantidade de gatunos estrangeiros que chegavam ao Rio, mas também porque tais criminosos eram vistos como “inteligentes, ágeis e hábeis na arte de furtar”. Os jornalistas alegavam que os referidos criminosos por terem tais características na arte de se apoderar do bem alheio, conseguiam engendrar facilmente os roubos na cidade, seja praticando-os individualmente ou em grupo por quadrilhas especialistas em roubar o alheio.

Tais quadrilhas eram caracterizadas pelos arrombadores de cofres das casas comerciais com instrumentos aperfeiçoados (como a serra circular), o que demonstrava maior habilidade técnica e conhecimento de mecânica utilizado no processo desses crimes.184 Seja atuando individualmente ou em grupo, os ladrões de origem estrangeira eram vistos como “profissionais do crime”, já que tinham grandes habilidades para pular os telhados das casas onde furtavam, planejar meticulosamente um assalto a um banco, utilizar técnicas modernas e instrumentos para roubar etc.

A audácia desses ladrões se devia também, segundo os repórteres, aos atos criminais difíceis que eles conseguiam efetivar, como a realização de roubos nos lugares mais movimentados do Rio, inclusive perto das delegacias da cidade, e em plena luz do

182 Menezes, Lená. Os indesejáveis. Op. cit. 183 Idem, ibidem.

184

dia. 185 Embora os jornais considerassem os ladrões estrangeiros inteligentes na arte de se apropriar do bem alheio, não veiculavam – pelo menos ao que pudemos constatar em nossa pesquisa – que esse grupo de gatunos cometesse crimes de estelionato, delitos esses considerados mais sofisticados e modernos naquela sociedade de início do século XX.

Em todo caso, registravam em maior número os furtos/roubos de objetos valiosos perpetrados pelos estrangeiros, no caso joias e dinheiro em médias ou grandes proporções (ver o quadro abaixo). Os repórteres de polícia consideravam que, no caso das joias furtadas, elas não eram somente materialmente lucrativas, mas também objetos que os ladrões usavam para eliminar as provas contra eles, já que o ouro se derrete: “A jóia é sempre lucrativa. Se tem pedras raras desmontam-se e vendem-se em avulso. O ouro derrete-se. É sempre a eliminação da prova”.186 E, como os gatunos estrangeiros eram vistos como criminosos que efetivavam seus crimes de forma muito racional e precavida, como veremos mais adiante, os furtos de joias aí predominantemente registrados talvez tivessem o intuito de mostrar aos leitores a suposta racionalidade e a esperteza desses criminosos.

Quadro 20 – Bens subtraídos pelos gatunos estrangeiros (1900-1920)

Bens % Joias 35 23,8% Dinheiro 27 18,3% Roupas/objetos de uso pessoal 19 12,9% Instrumentos para roubar/objetos de casa 18 12,2% Alimentos/bebidas 3 2%

Objetos não identificados 45 30,6%

Total 147 100%

Fontes: Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Gazeta de Notícias.

Os repórteres pareciam mesmo estabelecer em suas narrativas, de forma implícita ou explícita, uma relação naturalizada entre o elemento estrangeiro e a inteligência na arte de furtar: “Os vestígios encontrados (...) (do crime) deixavam

185 Jornal do Brasil, 12/02/1906, 1. 186

entrever que se estava em face de uma quadrilha de arrombadores estrangeiros. Percebia-se, principalmente, nos vestígios deixados pelos assaltantes, traços de sua habilidade e inteligência”187.

A seguir analisaremos como os jornalistas retratavam os casos de ladrões internacionais que circulavam por Buenos Aires, Montevidéu e Rio, cidades que se consagraram como rotas seguidas por tais criminosos. 188

3.1. “Criminosos viajantes”: os ladrões internacionais

A partir da pesquisa, constatamos que os jornalistas divulgavam, entre outros casos, as notícias de ladrões estrangeiros sul-americanos (argentinos e “orientais” (uruguaios)) e principalmente europeus (ver o quadro abaixo).

Quadro 21 – Número de gatunos estrangeiros registrados pelas reportagens policiais, 1900-1920*

Gatunos estrangeiros %

Europeus 117 79,6%

Sul-americanos 30 20,4%

Total 147 100%

Fontes: Jornal do Brasil, Gazeta de Notícias e Correio da Manhã.

*Vale notar que não contabilizamos os casos de ladrões estrangeiros de outras nacionalidades que por vezes também apareciam na imprensa. Não fizemos essa contagem, pois tais casos apareciam normalmente em poucas linhas, sem aparentemente comentários dos jornalistas sobre os referidos personagens. Além disso, eles vinham, regra geral, registrados em um ou dois parágrafos, ou seja, abaixo do critério de contagem das notícias estipulado pela pesquisa.

Como se percebe pelo quadro acima, os gatunos sul-americanos apareciam em menor quantidade do que os europeus, talvez por ter havido na época um aumento mais expressivo da imigração europeia para a cidade do que a sul-americana, como veremos mais adiante. De qualquer forma, os imigrantes sul-americanos apresentaram um crescimento contínuo a partir da virada do século, com destaque para os argentinos e os uruguaios, conforme salientou Lená Menezes.189 “A intensa circulação no cone sul

187 “Os ladrões no Rio: Foi presa pela nossa polícia uma audaciosa quadrilha de arrombadores estrangeiros”, Gazeta de Notícias, 16/02/1917, 3.

188 Menezes, Lená. Os indesejáveis. Op. cit. 189

tornou permanente sua presença na cidade. Cada crise nas repúblicas platinas passou a significar incremento no fluxo para as cidades brasileiras.”190

Na imprensa, os ladrões sul-americanos que aqui chegavam eram retratados de uma forma semelhante aos europeus. Ou seja, eram representados como criminosos ágeis, astutos e inteligentes.

Antes de entrarmos na narração do fantástico caso, em que ia sendo embrulhada uma senhora inexperiente, por audacioso ladrão, bastante conhecido da polícia, devemos descrever ao leitor quem é esse rapinante, hábil e destro na arte de se apropriar do alheio.

Trata-se do astuto ratoneiro Arnaldo Pinto (oriental) indivíduo de piores precedentes. 191

Segundo os repórteres policiais, as cidades de onde os criminosos sul- americanos especialmente procediam eram Buenos Aires e Montevidéu, tidas – juntamente com a Europa – como os grandes centros da criminalidade moderna:

Aos 16 anos, (Carleto) foi expulso da casa paterna, emigrando para a América do Sul, vindo habitar primeiramente em Buenos Aires, onde se filiou aos larápios que infestavam aquele grande centro.192

Além disso, essas duas cidades se consagraram – juntamente com o Rio de Janeiro – no roteiro seguido pelos ladrões, como indica a seguinte reportagem:

(...) A polícia soube da existência aqui de uma perigosa quadrilha de ladrões, todos eles expulsos de Buenos Aires. Bento já esteve em Montevidéu e Buenos Aires, de onde regressou há meses, depois de um roubo de jóias que praticou a bordo de um dos navios de Mala Real (sic).193

Os delinquentes que frequentemente seguiam esse roteiro para chegar num país ou no outro eram considerados viajantes e criminosos profissionais, pois faziam do crime sua profissão habitual e meio de ganhar a vida.194 Eles se caracterizavam também por serem criminosos que não tinham residência fixa e que viajavam sempre depois dos

190

Idem, ibidem, p. 79.

191 “Astúcia de um larápio”, Jornal do Brasil, 17/07/1909, 5. 192 “A quadrilha da morte”, Gazeta de Notícias, 29/10/1906, 1-2. 193

“Os ladrões. A polícia está na pista de ladrões argentinos que para aqui vieram operar durante o Carnaval”, Correio da Manhã, 31/01/1913, 2.

194 Galeano, Diego. “Las conferencias sudamericanas de polícias y la problemática de los delinquentes viajantes, 1905-1920”, Bohoslavsky, Ernesto Caimari, Lilá y Schettine, Cristiana (org.). La polícia em

crimes, como assinalou o diretor do Gabinete de identificação da polícia carioca Elysio de Carvalho195.

Segundo a Revista Policial, os delinquentes viajantes se transladavam continuamente de uma cidade a outra, dentro ou fora do país, munidos de um arsenal de nomes falsos196. As reportagens policiais consultadas também chamavam atenção para essas características em relação aos criminosos viajantes, como mostra a seguinte matéria: “O criminoso uruguaio de nome Carlos Reys ou Carlos Magno, Carlos Ângelo foi condenado por 10 anos de prisão em Buenos Aires e fugiu para Montevidéu, de onde desapareceu com o destino para o Rio”.197

Esses delinquentes também apareciam aí como sendo criminosos fugitivos de outros países ou que circulavam, como já mencionamos, pelas diferentes cidades que constituíam os pontos de passagem obrigatória das rotas internacionais. Todos eram criminosos internacionais perseguidos pela polícia de diferentes países198.

Como assinala Lená Menezes – ao analisar os casos de cáftens nos processos criminais –, a facilidade de passagem pelas fronteiras terrestres possivelmente teria permitido que muitos deles escapassem da vigilância dos portos e circulassem com facilidade, fugindo desta ou daquela cidade, conforme aumentassem as pressões policiais.199

No que diz respeito mais especificamente aos relatos da imprensa, as reportagens policiais assinalavam que tais criminosos emigravam para a capital brasileira devido a diferentes fatores que podiam estar ou não articulados entre si. Um dos motivos apontados pelos jornalistas se devia ao fato dos gatunos internacionais acreditarem que o Rio de Janeiro era uma cidade onde ganhariam dinheiro e bens de valor facilmente, devido ao progresso material aí existente ou porque aqui era uma cidade aprazível, com seus bairros boêmios, “casas de espetáculos, confeitarias e cafés da moda”200: “(...) o gatuno Armando Ariatti estava em Buenos Aires e, como tivesse saudades do largo da Lapa, tomou passagem no “avion” com destino a esta cidade”.201

195

Carvalho, Elysio de. A polícia carioca. A criminalidade contemporânea. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1910.

196 Revista Policial, Ano 1, n. 2, Rio de Janeiro, 30/10/1919, apud Galeano, Diego. “Las conferencias sudamericanas de polícias y la problemática de los delinquentes viajantes, 1905-1920”. Op.cit.

197

“Um criminoso célebre”, Correio da Manhã, 27/08/1913, 5. 198 Menezes, Lená. Os indesejáveis. Op. cit.

199 Idem, ibidem.

200 Jornal do Brasil, 16/10/1906, 2. 201

Salientava-se também que os rapinantes internacionais emigravam para o Rio porque encontrariam na cidade um campo vasto para agir, pois não corriam o risco de cair “nas garras da polícia”, já que o serviço de vigilância (e de investigação) da capital era “pessimamente feito”. 202

Uma outra razão mencionada era a repressão policial feita a tais criminosos em diferentes países, como mostra o seguinte título da notícia: “Um criminoso célebre: embarcou em Buenos Aires com destino ao Rio, fugindo à perseguição da polícia, um grande criminoso”.203

Os jornais também salientavam que os ladrões internacionais tinham sua entrada facilitada no Rio devido à má fiscalização da polícia marítima. Segundo uma reportagem:

A polícia do Rio é indulgente para os ladravazes de sua iguala. (...) O (ladrão) Armando é argentino (...) e no ano passado perseguido pela polícia da sua terra, menos indulgente que a nossa para os ladravazes de sua iguala, abandonou a adiantada capital platina e, a bordo de um transatlântico, viajou para a nossa Sebastianópolis.204

Em função dessa má fiscalização da polícia marítima, os jornalistas alegavam que tais criminosos chegavam e saíam da capital brasileira mais de uma vez, como indica o próprio título de uma reportagem: “Armando Ariatti (ladrão argentino) está novamente no Rio de Janeiro”205.

(...) Armando Ariatti (...) enviou uma carta a polícia marítima comunicando as autoridades que se preparasse pois que em breve viria visitar o Rio e que havia de desembarcar facilmente.

Dito e feito. Ariatti chegou, desembarcou e não foi incomodado pela polícia marítima(...).206

Mas a imprensa não mencionava que o grande problema do policiamento do porto do Rio era que na época não havia uma força policial nacional para controlar as fronteiras. Se um imigrante impedido de ingressar no país se dirigisse a outro porto, a exemplo de Santos, como assinalou Marcos Bretas207, a responsabilidade do controle de imigração passava por outra jurisdição policial.

202 “A casa Leblanc assaltada”, Correio da Manhã, 21/06/1920, 4. 203

Correio da Manhã, 27/08/1913, 5.

204 “Um homem-mulher: Armando Ariatti, célebre ladrão argentino”, Correio da Manhã, 16/05/1913, 4. 205 Jornal do Brasil, 16/05/1913, 9.

206 “Um homem-mulher”, Jornal do Brasil, 16/05/1913, 9. 207

Independentemente desse problema, a imigração desses delinquentes para a capital era, na perspectiva dos jornalistas policiais, inevitável de acontecer, devido aos fatores anteriormente mencionados. Por tudo isso, alegavam tais jornalistas, havia uma “abundância dessa gente no Rio de Janeiro, transformando-o no paraíso dos ladrões”. 208

O Rio de Janeiro aparecia em tais notícias como uma capital que teria ocupado uma posição de ponto terminal das rotas que se deslocavam da Europa em direção ao Atlântico Sul209:

(...) Há pouco tempo, sob o título “Ladrões de Paris”, narramos a captura nesta capital de dois perigosos e elegantes ratoneiros, que iniciaram na capital francesa a sua carreira criminosa, praticando audaciosos e importantes roubos.

(...) Percorrendo depois outros países do Velho mundo, como a Inglaterra, a Alemanha, Itália e Espanha vieram fazendo suas proezas