3. Implementação do LARCI
3.3 Primeiro Planejamento
3.3.1 Debate das atividades
Iniciamos o primeiro planejamento com a entrega de cópias do cronograma, de alguns fundamentos dos conteúdos da prática coral e rotinas de ensaio, resumindo os
temas apresentados nos dois capítulos anteriores desta Tese. Uma das minhas principais preocupações era que as/os inscritas/os no LARCI pudessem constatar que o Laboratório estava bem organizado, proporcionando maior segurança em participar. Assim, me dediquei bastante em explicar a estrutura e o planejamento do projeto. Esse dia foi um encontro mais expositivo.
Expliquei ao grupo que o fundamento do canto coral obviamente é a prática do canto coletivo. Sendo assim, ensinaríamos as crianças a cantar, e a consequência desse aprendizado geraria uma performance musical e cênica, pois como os coros também normalmente se apresentam em público, também seria nossa intenção produzir uma apresentação pública do repertório do coral. Teríamos, contudo, que tomar certos cuidados para não direcionar os ensaios somente para o concerto, situação que acontece normalmente e gera ensaios muito repetitivos e estressantes, desgastando as atividades e prejudicando a participação motivada das crianças. Além de cantar, as crianças teriam a oportunidade de se desenvolver globalmente e socializar, por essa razão nos comportaríamos sempre buscando processos de ensino e aprendizado significativos e motivadores. O objetivo também era buscar atividades prazerosas e com muito potencial de aprendizado, buscando criar laços afetivos consistentes das crianças com a prática coral.
Após esta primeira explicação foram apresentados os conteúdos-base da prática coral, compilados desta mesma tese. O objetivo foi explicitar o que poderia ser ensinado e depois discutir quais os procedimentos que utilizaríamos.
Enfocamos que, independentemente de observarmos estes conteúdos de forma separada, todos os processos de ensino envolveriam os Procedimentos, isto é, as atividades seriam ensinadas na prática e, somente após a primeira experiência, retomaríamos a reflexão e planejamento para em seguida vivenciarmos novamente. Isto é, quando fossemos ensinar um conteúdo musical qualquer ele não poderia estar em separado de uma vivência musical. Tudo que envolvesse o ensino de um conceito, de uma ideia específica, buscaríamos atividades através das quais ele pudesse ser experimentado durante uma ação, por exemplo: caso quiséssemos ensinar a nomeação das notas da clave buscaríamos utilizar alguma partitura do repertório ou algo que em
seguida pudesse ser cantado ou solfejado; não utilizaríamos atividades nas quais somente é preciso nomear as notas sem nenhum sentido musical.
Após a apresentação da estrutura do ensaio (que será discutida no subcapítulo posterior), em que foi apresentada a canção Maré (Domínio Público), iniciamos o planejamento estudando essa canção inicial para o preparo do ensaio.
De modo geral as partituras precisam ser decifradas pela/o regente para que os ensaios possam ser organizados de maneira mais eficaz para otimizar o aprendizado. Expliquei então ao grupo que eu regeria o primeiro ensaio para que fosse possível proporcionar um momento de observação a todos, pretendendo que as/os estagiárias/os pudessem partir de um exemplo real de condução das atividades, assim como também poder observar como as crianças reagiam às propostas.
Cantei uma vez a música inteira e em seguida todo o grupo repetiu. A canção foi executada com certa facilidade por todas/os, precisando somente de algumas sugestões em relação à precisão rítmica das frases para que a música adquirisse mais movimento, isto é, ao invés de executá-la com o canto legatto, seria mais adequado usar o stacatto entre as notas. Neste sentido seria necessário estimular a dicção das consoantes para maior compreensão textual, tornando a música mais “ritmada”.
Comentei neste momento que os dois primeiros compassos, iniciados com a nota Ré 2, possuem uma frase com extensão de uma oitava, acarretando provavelmente uma mudança de registro vocal da criança: da voz de peito para a de cabeça. Esse tipo de alteração costuma desequilibrar os timbres, deixando a frase pouco uniforme. Assim, para evitar esta dificuldade técnica, a minha sugestão inicial seria tentar realizá-la toda com voz de cabeça. Para isso, caso as crianças estivessem com dificuldade de acessar esse registro, seria sugerido que elas cantassem de forma “bem leve”, isto é, com pouca pressão de ar, mesmo que ocasionasse na diminuição da intensidade do som, pelo menos inicialmente.
Em resumo, não poderíamos em nenhum momento sugerir que elas cantassem mais forte, sempre buscando esta sonoridade leve e aveludada, similar de uma flauta de madeira. Deveríamos nos atentar também caso o som produzido tivesse muita
soprosidade, isto é, uma voz na qual se pode escutar a saída do ar (como um sopro). Seria necessário estimular que as crianças cantassem um pouco mais claro, isto é, de uma forma que ocorresse uma sonoridade mais brilhante. O aconselhado seria um vocalize com a existência de mais vogais frontais, tais como o I e o E, precedidas de uma consoante, como Brim, Trin, tim, Mi, reduzindo assim a fenda das pregas vocais.
As respirações foram marcadas para que as/os regentes, durante seu gestual, realizassem as indicações adequadas para que o grupo inspirasse. Esta canção possui poucas notas longas, o que facilita a técnica respiratória. Seria importante observar como as crianças inspiram, principalmente em relação à movimentação os ombros, gesto que comumente sugere tensão e respiração torácica. O adequado seria que estivessem executando a respiração intercostal. Perguntei se haviam dúvidas e todas disseram que poderíamos prosseguir.
Em seguida propus a primeira atividade experimental do grupo com exercícios de gestual simples de regência, nas fórmulas de compasso 2/4, 4/4, 3/4 e 6/8. O grupo não demonstrou dificuldade.
Embora o ensino da regência enfatize a importância do gestual correto da/o regente na condução musical, com crianças, quando se percebe que elas não estão cantando, pode ser necessário outro tipo de estimulo gestual, além da marcação do andamento da música. Faz-se necessário algumas vezes, por exemplo, gesticular que o som está baixo; que elas precisam abrir mais a boca; gestos que auxiliem na memorização da letra; ou até mesmo aproximar-se de alguma criança e encostar em seus braços para que ela retome a atenção quando dispersa. De maneira geral o ensaio é o momento em que é necessário fazer todo o possível para que as crianças executem melhor a canção, mesmo que haja prejuízo do gestual correto da/o regente. Ao longo do processo o gestual técnico pode voltar a ser introduzido, na medida em que as crianças consigam compreendê-lo.
Após esta primeira vivência prática com as estagiárias, sugeri que alguém fosse reger a canção para as demais cantarem. Neste momento duas participantes se ofereceram. Nessas regências algumas correções foram necessárias. Observei que inicialmente as regentes estavam muito aflitas com o gestual e por conta disso não se
conectavam com as/os cantoras/es. Importante ressaltar o contato visual com o grupo, facilitando a compreensão dos gestos e estimulando a atenção das crianças. Assim, sugeri que a regência fosse realizada mais uma vez, porém a partir deste foco. A primeira a reger teve maior dificuldade inicial em marcar as respirações no seu gesto, porém, após algumas tentativas, estava já executando com mais facilidade.
Uma dificuldade em comum dentre as duas voluntárias era a de traduzir no gestual a musicalidade, além da marcação do andamento. A corporalidade da/o regente de forma clara e simultânea deveria transmitir diversas informações para as crianças, e isso exige um estudo dos gestos em favor da expressividade. Propus que o gestual também fosse realizado dançando, isto é, marcando o ritmo pela movimentação corporal, podendo também favorecer a construção e compreensão do caráter mais ritmado desta canção.
Regente: regendo esta música em dois, preciso de 4 tempos para conseguir me preparar bem para dar a entrada
Comentei com o grupo que cada uma delas buscasse compreender qual forma de dar entrada seria mais segura. A ideia era de que ao começar a música a regente estivesse preparada para prosseguir no andamento correto. Como não havia ninguém no grupo com experiência em regência, entendo que neste momento seria importante motivar a atuação independente das dificuldades, principalmente considerando-se que estávamos no começo do projeto.
Por fim, cantamos algumas vezes a música, o que também entendi que seria importante que todos conhecessem o repertório. Como eu conduziria o primeiro ensaio com as crianças conclui ser importante explicitar às estagiárias quais são as minhas considerações para planejar um ensaio, fornecendo a elas pelo menos uma referência.
Assim, encerramos o primeiro encontro com uma visita ao espaço físico do PRODECAD, junto à coordenação do espaço.