Segundo estimativas do professor e antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida12, cerca de 25 milhões de pessoas, e um quarto do território nacional, correspondem a povos e comunidades tradicionais. Para Antônio Carlos Diegues (2001, p. 18), as comunidades tradicionais não-indígenas resultam da miscigenação entre “o branco colonizador, o português, a população indígena nativa e o escravo negro”. Essas populações se instalaram em
ecossistemas inadequados para o cultivo de monoculturas de exportação, isolando-se, assim, dos grandes ciclos econômicos do país. Desenvolveram modos de vida próprios, com intensa dependência da natureza, “conhecimento profundo dos ciclos biológicos e dos recursos naturais, tecnologias patrimoniais, simbologias, mitos e até uma linguagem específica, com sotaques e inúmeras palavras de origem indígena e negra” (DIEGUES, 2001, p. 18).
A expressão “povos e comunidades tradicionais” surge apenas no contexto da institucionalização das unidades de conservação, tendo em vista as comunidades que viviam de modo tradicional nessas áreas (FIGUEIREDO, 2013, p. 3).
Vale mencionar, segundo Alfredo Wagner Berno de Almeida (2008, p. 49-50), a diferença terminológica entre “povos” e “populações”. Segundo o autor, discutiu-se no âmbito de implementação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), qual terminologia seria mais adequada para a definição dos tribais e indígenas. Acordou-se que o termo mais acertado seria “povos”. Desse modo, haveria o reconhecimento da existência de sociedades organizadas com identidades próprias. O termo “populações”, por outro lado, remonta à ideia de meros aglomerados de indivíduos que possuem determinadas características culturais e raciais e vem sendo substituído, em algumas leis, pelo termo “comunidades”, considerado mais apropriado, visto apresentar uma “dinâmica de mobilização, aproximando- se, por este viés, da categoria ‘povos’” (ALMEIDA, 2008, p. 27).
Nesse contexto, para que haja melhor delimitação da pesquisa, adotar-se-á a definição legal de povos e comunidades tradicionais. Nos termos do art. 3º, do Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais:
Art. 2º – Para os fins desta Lei, consideram-se:
I – povos e comunidades tradicionais
a. os grupos culturalmente diferenciados b. que se reconhecem como tais e
c. possuem formas próprias de organização social,
d. ocupando territórios e utilizando recursos naturais como condição para sua
reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica
e. e aplicando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela
tradição (BRASIL, 2007, grifo nosso).
O Estado de Minas Gerais, pioneiro ao legislar sobre o assunto, também adota, no art. 2º, da Lei nº 21.147, de 14 de janeiro de 2014, que institui a Política Estadual para o Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Minas Gerais, a mesma definição trazida pelo Decreto.
Além da mencionada lei estadual, a Lei nº 13.123, de 20 de maio de 2015, que dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético, sobre a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado e sobre a repartição de benefícios para conservação e uso sustentável da biodiversidade, também adota a definição do Decreto, em seu art. 2º, IV:
IV - comunidade tradicional - grupo culturalmente diferenciado que se reconhece como tal, possui forma própria de organização social e ocupa e usa territórios e recursos naturais como condição para a sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas geradas e transmitidas pela tradição (BRASIL, 2015).
Ainda no plano normativo brasileiro, a Lei nº 11.284, de 2 de março de 2006, que dispõe sobre a gestão de florestas públicas para a produção sustentável; institui, na estrutura do Ministério do Meio Ambiente, o Serviço Florestal Brasileiro; cria o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal, equipara comunidades locais a populações tradicionais e outros grupos humanos, definindo-os como grupos “organizados por gerações sucessivas, com estilo de vida relevante à conservação e à utilização sustentável da diversidade biológica” (art. 3º, inciso X).
A Lei nº 11.428, de 22 de dezembro de 2006, que dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica, define comunidade tradicional como “população vivendo em estreita relação com o ambiente natural, dependendo de seus recursos naturais para a sua reprodução sociocultural, por meio de atividades de baixo impacto ambiental” (art. 3º, inciso II).
Segundo Juliana Santilli (2004, p. 84), a Lei do SNUC conceituou populações tradicionais, ainda que indiretamente, ao definir as reservas extrativistas e de desenvolvimento sustentável. Nos termos do art. 18, a subsistência das populações extrativistas tradicionais “baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte”, já em relação às reservas de desenvolvimento sustentável, a existência das populações tradicionais “baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica” (art. 20).
Menciona-se, ainda, a Portaria nº 22, de 10 de fevereiro de 1992, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), que cria o centro nacional de desenvolvimento sustentado das populações tradicionais e aprova seu regimento interno. Na motivação da Portaria há a definição de populações tradicionais, para a atuação do mencionado
centro, como “aquelas que tradicional e culturalmente têm sua subsistência baseada no extrativismo de bens naturais” (IBAMA, 1992).
No que diz respeito ao plano normativo internacional, segundo Leandro Mitidieri Figueiredo (2013, p. 8), e, considerando a legislação acima mencionada, o conceito de povos e comunidades tradicionais se enquadra no de povos tribais, previsto no art. 1º, 1, “a”, da Convenção 169, da OIT13. Explica-se.
Os povos tribais são conceituados como aqueles “cujas condições sociais, culturais e econômicas os distingam de outros setores da coletividade nacional, e que estejam regidos, total ou parcialmente, por seus próprios costumes ou tradições ou por legislação especial” (art. 1º, 1, “a”, da Convenção 169, da OIT). Ressalta-se que a consciência da identidade tribal é essencial para determinar se as disposições da Convenção serão aplicadas (art. 1º, 2, da Convenção 169, da OIT).
Pode-se extrair, portanto, das normas acima expostas, que os povos e as comunidades tradicionais apresentam relação diversa da estabelecida pelas sociedades urbano-industrial ou sociedade hegemônica14, com os recursos naturais, dos quais dependem para reprodução
cultural, social, econômica e religiosa. O conhecimento é transmitido de geração em geração e origina-se da tradição. Os povos e comunidades tradicionais possuem íntima relação com o ambiente natural e formas próprias de organização social que contribuem para a conservação dos ecossistemas. Ademais, apresentam consciência de sua identidade.
Conforme Juliana Santilli (2004, p. 85):
As populações tradicionais são também definidas pela sua relação de relativa simbiose com a natureza, pelo conhecimento aprofundado da natureza e de seus ciclos e pela noção de território ou espaço onde se reproduzem econômica e socialmente. Convém destacar que a própria formulação do conceito de populações tradicionais está associado a um novo modelo de conservação (socioambiental), que considera a enorme diversidade cultural existente no Brasil, e as formas culturalmente diferenciadas de apropriação e utilização dos recursos naturais. Esse novo modelo vê as populações tradicionais como parceiros na conservação.
Considerando todo exposto, não há um rol taxativo de povos e comunidades tradicionais, já que tanto o conceito, quanto o processo de identificação e afirmação desses povos são dinâmicos (FIGUEIREDO, 2013, p. 8). Antônio Carlos Diegues (2001, p. 18) menciona, apenas a título exemplificativo, os caiçaras que habitam o litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná; os caipiras, do sudeste; os varjeiros, habitantes de rios e várzeas das regiões
13Promulgada pelo Decreto nº 5.051, de 19 de abril de 2004.
14Terminologias utilizadas na presente pesquisa para descrever a relação com a natureza das populações
norte e nordeste; os pantaneiros, comunidades do Pantanal mato-grossense; e os pescadores artesanais, como os jangadeiros do litoral nordestino.
Leandro Mitidieri Figueiredo (2013, p. 8-10) detalha outros exemplos, entre os quais se destacam os ribeirinhos, povos que vivem em áreas alagáveis próximas de rios (várzeas), cujos modos de organização e reprodução social baseiam-se na contínua interação com os rios e encontram-se presentes na maioria do território nacional. As quebradeiras de coco-babaçu, das regiões norte e nordeste, as quais asseguram o sustento próprio e de suas famílias realizando a extração da amêndoa com machado. Por fim, os seringueiros, castanheiros e coletores de frutos, sementes, ervas medicinais, óleos e resinas habitam nas florestas (FIGUEIREDO, 2013, p. 8- 10).
Juliana Santilli (2004, p. 89) menciona, ainda, os agricultores tradicionais. Para a autora, os mesmos se enquadram nas definições de povos tradicionais e desempenham relevante papel para a manutenção da agrobiodiversidade, através da adoção de “mecanismos de seleção e melhoramento genético, domesticação e intercâmbio de sementes que asseguram a variabilidade genética das plantas cultivadas e a conservação da agrobiodiversidade” (SANTILLI, 2004, p. 89).
Nesse contexto é valido mencionar a distinção que o direito brasileiro faz entre os povos indígenas, as comunidades quilombolas e as comunidades tradicionais, tendo em vista a pouca proteção jurídica destes últimos, quando comparada à daqueles (SANTILLI, 2004, p. 42). Não obstante, o fato de haver disciplinas jurídicas distintas não invalida que se tratam todos de povos tradicionais em sentido lato, enquadrando-se nas definições legais acima apresentadas (FIGUEIREDO, 2013, p. 12).
A Constituição Federal de 1988 cuidou de separar um capítulo para tratar dos povos indígenas, qual seja, o capítulo VIII, do Título da Ordem Social. Por meio do art. 231, reconheceu aos índios a sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam15, sendo que compete à União definir e proteger tais terras, bem como fazer respeitar todos os seus bens. O §1º, do art. 231, define essas terras como aquelas habitadas em caráter permanente pelos índios. Certo é que essas áreas, de acordo com o mencionado dispositivo, não possuem apenas caráter patrimonial, configuram-se em espaço essencial para a subsistência dessa coletividade, para sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. O §4º, do art. 231 afirma, ainda, que tais terras são inalienáveis e indisponíveis e o direito sobre elas é imprescritível.
15 Os povos indígenas possuem direitos originários e imemoriais às terras, sendo reconhecidos como primeiros e
Tendo em vista o caráter existencial que a terra representa para os grupos indígenas, a Constituição Federal, em seu art. 231, §5º, veda a remoção de tais povos, exceto em caso de catástrofe ou epidemia que os ponha em risco, ou no caso de interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, restando garantido o retorno imediato logo que se findar o risco, em quaisquer das hipóteses.
Observa-se o fragmento extraído da Petição nº 3.388, julgada pelo Supremo Tribunal Federal:
DIREITOS "ORIGINÁRIOS". Os direitos dos índios sobre as terras que tradicionalmente ocupam foram constitucionalmente "reconhecidos", e não simplesmente outorgados, com o que o ato de demarcação se orna de natureza declaratória, e não propriamente constitutiva. Ato declaratório de uma situação jurídica ativa preexistente. Essa a razão de a Carta Magna havê-los chamado de "originários", a traduzir um direito mais antigo do que qualquer outro, de maneira a preponderar sobre pretensos direitos adquiridos, mesmo os materializados em escrituras públicas ou títulos de legitimação de posse em favor de não índios. Atos, estes, que a própria Constituição declarou como "nulos e extintos" (§ 6º do art. 231 da CF) (BRASIL, 2009, p. 3).
Segundo Antônio Carlos Diegues et al. (2001, p. 27), embora as populações tradicionais indígenas16 e não-indígenas possuam características comuns no tocante à conservação e conhecimento sobre a biodiversidade, elas não se confundem. Para os autores, a história dos povos indígenas é prévia à da sociedade atual, ou seja, a presença indígena é pré-colombiana; além do mais, alguns povos indígenas possuem línguas próprias, características não presentes nas comunidades tradicionais definidas acima.
No que se refere às comunidades quilombolas17, a Constituição Federal assegura, tal como aos povos indígenas a, direitos territoriais especiais (SANTILLI, 2004, p. 117-118). Segundo o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.