3.1 Entre direitos, regalias, regras e castigos: sentidos de justiça nas cadeias locais
3.1.1 Direitos e regalias
3.1.1.1 Demandas jurídicas e demandas por direitos
Em conexão com o ponto anterior, é preciso refletir sobre o modo como, em um universo de esvaziamento do conteúdo dos direitos, surgem para o/a advogado/a demandas por direitos.
Neste sentido, acredito ser possível distinguir entre o que chamarei de demandas jurídicas (ou jurisdicionáveis) e demandas de direitos. Isso porque, no mundo prisional, demandas por direitos estão, muitas vezes, desassociadas de prestações jurisdicionais, seja porque o modo de acessá-las não passa por uma intervenção judicial, seja porque dizem respeito a regalias que não encontram respaldo legal. Esse último foi o caso da Helena. Ainda que sem fundamento na lei formal, trata-se, efetivamente, de uma demanda de direito, porquanto se
83 E se a juridicidade universal da sociedade moderna perece fixar os limites ao exercício dos poderes, seu
panoptismo disseminado por toda parte faz funcionar, em oposição ao direito, uma maquinaria ao mesmo tempo imensa e minúscula que sustenta, reforça e multiplica a dessimetria dos poderes e torna vãos os limites que lhes traçamos. (Tradução minha).
relaciona com aspectos do mundo nativo que são articulados em termos de direitos. Mesmo quando essas demandas dizem respeito, abstratamente, a direitos formalmente previstos, como as relacionadas ao trabalho no presídio, a forma de acessá-los, muitas vezes, não passa por uma instituição judiciária. Isso porque, na prática, um juiz não pode, por exemplo, ordenar um presídio a dar uma vaga de trabalho a um interno se todas as vagas já estão preenchidas. Outro exemplo disso é o acesso a serviço de atendimento médico nas cadeias. Ainda que haja
mecanismos internos – como o catatau – que permitem a internos e internas requerer
atendimento, percebi a importância da minha intervenção para garantir, aos meus clientes, acesso a este, o que ficou claro nos casos de Beatriz e Maurício, relatados no segundo capítulo. Esse foi também o caso de um dos meus clientes no CDP que usava bolsa de colostomia, de modo que minhas visitas ao Núcleo de Saúde para acompanhar sua situação se tornaram a parte mais importante do meu trabalho com ele. Em qualquer das hipóteses acima, para serem tratadas adequadamente, as demandas requerem uma negociação (um corre) com a administração do presídio ou com os agentes de segurança.
Há ainda aquelas situações em que as demandas que surgem para o/a advogado/a não passam sequer pela administração prisional. Pode ser um pedido para passar um recado para alguém da família; para levar roupas ou dinheiro para a/o interna/o (que devem ser entregues a um agente de segurança); ou mesmo para atender um/a companheiro/a em outro presídio. É preciso lembrar que, no Brasil, pessoas encarceradas tem um contato precário com o mundo da rua, a não ser que tenham meios ilícitos de acessá-lo (como pelo uso de telefones celulares, o que não é um padrão nas cadeias do Distrito Federal). A única forma que essas pessoas têm de se comunicar com pessoas fora do ambiente prisional é por meio de cartas, que chegam a demorar semanas ou mesmo meses, para chegarem aos seus destinatários, e as visitas, que ocorrem semanalmente. Tendo em vista a dificuldade de entrar em contato com parentes e amigos fora da cadeia, o/a advogado/a surge como uma ponte entre dois mundos e acaba fazendo também o papel de pombo correio.
É interessante notar que, entre as pessoas que se encontram presas, não há distinção entre demandas jurídicas e demandas de direitos, digam elas respeito a um recurso de apelação, a um recado a ser passado para a família, à concessão de uma regalia, a uma vaga de trabalho ou atendimento médico. São todas articuladas como parte do trabalho do advogado, contrastando com a visão tecnicista muitas vezes comum entre esses profissionais. Acredito que a ideia de que a advocacia é, essencialmente, um trabalho técnico está relacionada ao ensino do direito nas faculdades jurídicas, que é muito mais centrado no estudo da lei e, em menor
124 grau, jurisprudência, do que em aspectos subjetivos e simbólicos do fenômeno jurídico. Além disso, depois de formados, os bacharéis devem passar pela prova da Ordem dos Advogados do Brasil, que, basicamente, só diz respeito à memorização de leis e peças processuais. Ao fim desse processo, o profissional não está totalmente preparado para lidar e atender a demandas que não sejam estritamente jurídicas, já que não as vêm como sendo parte do seu trabalho.
Minha atuação profissional nas cadeias do DF permitiu uma reflexão sobre a própria advocacia. Formada nessa mesma tradição tecnicista, ainda que sempre crítica a ela, pude perceber como é inadequada à prática profissional em ambientes de forte demanda social, como as prisões. A forma e o conteúdo das demandas que surgiam para mim, associados à situação de angústia decorrente do encarceramento, permitiram-me passar a compreender a advocacia muito mais como um serviço social do que um trabalho técnico e estritamente jurídico. Na realidade, as demandas estritamente jurídicas formam a menor parte do trabalho do advogado na cadeia, especialmente depois da condenação definitiva do cliente. O curioso é que, nesse momento, muitos profissionais param de visitar seus clientes, que articulam esse comportamento como um abandono.
Por fim, a diferenciação entre demandas de direitos e demandas jurídicas – que
pude identificar por meio da minha atuação como advogada na cadeia – dialoga com as
reflexões de Cardoso de Oliveira (2011c) sobre as duas dimensões do direito: a legal e a moral. Enquanto as demandas jurídicas se relacionam à dimensão meramente legal do direito (e da cidadania), as demandas de direitos se vinculam à sua dimensão moral. A predominância dessas últimas no contexto da cadeia vai ao encontro das considerações do autor, que aponta para a importância de atentarmos para a dimensão simbólica do fenômeno do direito se quisermos compreender adequadamente o conteúdo das demandas de grupos sociais por reparação e reconhecimento.
3.1.2 Regras e Castigos.
Vimos anteriormente alguns casos de como se articulam as regras e os castigos nas cadeias locais. No primeiro capítulo, ao narrar duas situações que vivenciei na Colmeia, sugeri que a ideia de que as regras não precisam estar escritas indicaria a instabilidade destas e a seletividade de sua aplicação no universo nativo. No segundo capítulo, a partir das histórias de Tatielle, Beatriz e Maurício, chamei atenção para a associação entre o acionamento de regras não escritas e a distribuição de castigos na cadeia. Sendo estas duas categorias centrais para