“função socionegativa do riso” (BERGER, 2017, p. 104), nota-se que sua experiência é vividamente sentida pelos protagonistas das cenas evangélicas. O cristianismo nascente, perseguido pelas autoridades judaicas representadas pelo Sinédrio, martirizadas pelo Estado Romano, ridicularizado pela intelectualidade grega experimentou, na condição de vítima, a exclusão, a desagregação imposta pelo riso escarnecedor. Ora, se Cristo, a maior representação divina existente para o cristianismo, não tinha o hábito de (sor)rir, cabia então à igreja fazer o mesmo. O riso torna-se seara do diabólico, como expõe Bakthin que:
A maneira como é tratada a personagem do diabo faz também ressaltar a diferença entre os dois grotescos. Nas diabruras dos mistérios da Idade Média, nas visões cômicas de além-túmulo, nas lendas paródicas e nos fabliaux, etc., o diabo é um alegre porta-voz ambivalente de opiniões não-oficiais, da santidade ao avesso, o representante do inferior material, etc. Não tem nada de aterrorizante nem estranho [...]. Às vezes, o diabo e o inferno são descritos como meros “espantalhos alegres”.
Mas no grotesco romântico, o diabo encarna o espanto, a melancolia, a tragédia. O riso infernal torna-se sombrio e maligno. (BAKTHIN, 2008, p. 16).
O (sor)riso passou a ser associado à falta de pudor, aos cultos idolátricos e ao pecado, o que contribuiu bastante para a desconfiança dos teólogos cristãos no valor e na utilidade da irrisão.
O tom está dado: em toda parte em que se fala explicitamente de riso no Novo Testamento, é para condená-lo como zombaria ímpia, sacrílega. Não há nenhuma menção ao riso positivo. Daí o surgimento do famoso mito do qual se tirarão consequências mortais para os cristãos: já que não se fala que Jesus riu, é porque ele não riu. (MINOIS, 2003, p. 121)
Nesse sentido, a Idade Média é rica na representação do Diabo e do riso. A figura do inimigo precisa contrastar, e muito, com a figura salvífica de Cristo e seus santos. Nos autos, as representações teatrais promovidas nas igrejas para seus fiéis, esses caracteres precisam ser bem pontuados, exacerbados até, na expectativa de evidenciar o contraste. Conforme afirma Nogueira:
As diversas formas de apresentação da figura do Maligno seguem uma tradição mais ou menos consciente: tanto o tentador como o instrumento de sua tentação e o cortejo de entidade inferiores que participam da esfera do mal aparecem com caracteres burlescos, objetos de uma ridicularização, que mostrem a sua inferioridade implícita frente a figuras revestidas de santidade. O Diabo faz medo e faz rir, treme-se ao ver o Inimigo, mas também se vê Deus, que será mais forte, e as consciências se tranquilizam. Nas representações da Paixão, o Diabo fazia o papel de zombeteiro, e o seu papel se torna cada vez mais proeminente. (1986, p. 38)
Como já se disse anteriormente, a época medieval deve ser compreendida não como um bloco monolítico de pensamento, mas como um período fértil para ideias. Nela conviviam os debates e as oposições, e entre essas, muito espaço para concepções híbridas. Por certo, houve sim quem considerasse a comicidade também um dom divino, embora quase nunca de maneira expansiva ou imoderada. O próprio Aristóteles condenava o riso bufônico, de pilhéria, que se transformava em injúria (MINOIS, 2003, p. 73), a ponto de considerar a tragédia uma arte superior à comédia, pois “esta quer representar os homens inferiores, aquela quer representá-los superiores aos homens da realidade.” (ARISTÓTELES, 2002, p. 10) A Escolástica é, de certa forma, uma cristianização do aristotelismo, de modo que uma posição conciliadora entre riso e religião deve ser admissível.
Todavia, na mesma medida em que correntes filosóficas, talvez em um certo prenúncio de humanismo, tenderam a reconsiderar e resgatar o (sor)riso, embasadas na lógica e na observação dos costumes humanos, houve correntes que o condenaram. Essas últimas, mais dogmáticas e apegadas ao texto sagrado, provavelmente foram as mais primitivas concepções sobre o problema do (sor)riso, visto serem herdeiras diretas do pensamento da igreja nascente.
Os primeiros cristãos não se colocam esse problema [do riso]. Para eles, o riso é diabólico. Essa atitude inscreve-se na mentalidade apocalíptica, marcada pela obsessão do diabo, em que se situa o cristianismo nascente. Satã, extremamente discreto no Antigo Testamento, no qual desempenha um simples papel de acusador e de oponente, surge brutalmente como a potência do mal nos meios sectários apocalípticos que proliferam na Palestina, no início de nossa era. (MINOIS, 2003, p.
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Importa notar que boa parte dos escritos que reprovam o (sor)riso foram produzidos em contextos monásticos, nos quais o ascetismo e a severidade davam a tônica nas relações sociais. Logo, para além de uma explicação antropológica, faz-se necessária uma fundamentação teológica, corroborada por citações bíblicas. No que tange ao Novo Testamento, é notável o silêncio dos evangelistas sobre situações em que Jesus riu. A Regra de São Bento, um dos documentos mais importantes a constituir a vida monacal, faz algumas referências ao riso. No capítulo quarto, a respeito de “Quais são os instrumentos das boas obras”, o texto é taxativo ao recomendar “Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso. Não gostar do riso excessivo ou ruidoso.” (REGRA DE SÃO BENTO, 2022). No capítulo sexto, sobre “O silêncio”, o aspecto negativo do riso é ainda mais acentuado: “Já quanto às brincadeiras, palavras ociosas que provocam riso, condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura.
Para tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca” (idem, 2022). O capítulo
subsequente condena o riso, instruindo o monge a abster-se dele como condição necessária para atingir o décimo e décimo-primeiro graus de humildade (ibidem, 2022). Conforme Macedo:
Os polemistas cristãos, em virtude da natureza da crença que professavam, não reconheceram qualquer grau de sacralidade, nem reconheceram qualquer vinculação do riso com a divindade, tal qual ocorria na tradição pagã que tanto procuraram combater. Nos sistemas de valor do cristianismo, este foi dessacralizado e reduzido à categoria de gesto profano. Como podia ser diferente? Na condição de gesto, todavia, o mesmo seria revestido de conotações negativas. Negá-lo equivalia a abrir caminho para o encontro consigo próprio e com Deus. Signo do caos e da desordem, o riso cederia passo, na escala de valores defendida pelo cristianismo, à sobriedade e continência moral. (2022, p. 4)
A defesa da severidade e condenação dos gracejos é muito mais frequente em textos da patrística que da escolástica, como se nota, por exemplo, em São João Crisóstomo:
Ele coloca os ditos indecentes com os maliciosos; e tu ris? O que são os ditos picantes?
Inúteis. No entanto, tu que és monge, ris, expandes o riso pelo rosto? Crucificado, revestido de luto, ris. Dize-me. Onde ouviste que Cristo agiu assim? Em parte alguma, mas frequentemente aparecia triste. Quando viu Jerusalém, chorou; e quando pensou no traidor, perturbou-se; e quando ia ressuscitar a Lázaro, lacrimejou; e tu ris? Se alguém não sente os pecados alheios, merece censura; quem pelos seus não tem dor alguma, mas ri, merece perdão? O tempo presente é de luto e aflição, de purificação e de servidão, de certame e de suores; e tu ris? Não vez Sara repreendida? Não escutas Cristo dizer: “Ai de vós, que agora rides, porque chorareis!”? (2014, p. 497)
Logo, pela oposição, uma vez que “Cristo não ri”, seu grande inimigo provavelmente e indubitavelmente o faz. Crisóstomo consegue diferenciar gradações de riso, condenando o riso desmedido. Ele o associa ao pecado original, no sentido de que o humano, em sua imperfeição, tende à derrisão. Essa tendência não o torna melhor, pelo contrário, ela o afasta de Deus, uma vez que a palavra sagrada dá tantos e tantos exemplos de sofrimento. Rir não apenas afasta o fiel de Cristo, mas os põe em oposição. Aquele que se opõe a Cristo está, portanto, do lado das trevas.
E que mal existe, perguntas, em rir? O riso não é mau, mas é ruim o desmedido, o inoportuno. Temos o riso dentro de nós. Quando vemos um amigo após muito tempo, assim procedemos. Diante de pessoas feridas e temorosas, com um sorriso animemo- las, não para nos sobrecarregarmos, e rirmos sempre. O riso existe em nós para algumas vezes nos distendermos, não para difluirmos. Em nós há concupiscência carnal, e não por tudo devemos empregá-la, ou sem medida, mas a dominemos, e não digamos: Uma vez que a temos, empreguemo-la. Serve a Deus com lágrimas, para poderes apagar os pecados. (2014, p. 498)
Para Crisóstomo, o (sor)riso é mundano, é vil, é a expressão das baixezas do ser humano. O mundo material, imperfeito como é, não pode ser fonte de alegrias, uma vez que a
verdadeira alegria se encontra na esfera celeste. Logo, de uma maneira análoga ao platonismo, alegria mundana que provoca o riso é falsa, contrária à alegria da beatitude, experimentada no paraíso, “sincera, sem fraude nem dolo”, e que “não contém insídias, nem qualquer mistura”
(CRISÓSTOMO, 2014, p. 498).
Desqualificado como está, o riso deve ser combatido e policiado. Conforme Macedo:
No caminho reto para o reencontro com Cristo, melhor seria imitá-lo. E Cristo, segundo Crisóstomo, manteve-se sempre como agelasto, sem jamais ter rido. Pelo contrário, argumentava o pensador, o Evangelho mostra-o em constante tristeza. E, apoiando-se uma vez mais em São Paulo, afirmava ter Cristo chorado de noite e de dia, por três anos. Como então, perguntava, consumir-se no riso vão? E arrematava:
os que rissem muito não seriam dignos de perdão, enquanto os que servissem a Deus com lágrimas seriam lavados do pecado e isentos de punição. (MACEDO, 2022, p. 7)
Dessa forma, enquanto o (sor)riso afasta o homem dos preceitos de Deus, ao mesmo tempo, aproxima-o da figura demoníaca, caracterizando-a como uma das suas marcas: o (sor)riso maligno. Crisóstomo (2022, p. 451) é categórico sobre o assunto: “Não é Deus que nos inspira este gosto pelo divertimento, é Satã”. Essa tradição, a de um Diabo que ri, que escarnece, que zomba, que gargalha e, obviamente, também sorri, caminha ao longo de toda a Idade Média e Moderna, mais ou menos preponderante, mas sempre presente. Será, então, um pano de fundo cultural, um eco iconográfico, um tropo a ser utilizado pela cinemática, conforme se verá na análise fílmica apresentada a seguir.