Capítulo 5 – Colocando em árvores: uma proposta explicativa
5.5 Derivando a forma ‘ir’ irrealis + infinitivo
O último estágio, fundamental para o processo de mudança, ocorreu com o maior uso de ‘ir’irrealis no sistema linguístico (cf. Capítulo 4). Tal estrutura, primeiramente, enfrentou
‘haver-de’, e, posteriormente, eliminou a forma sintética da língua. Até o século XVIII, a estrutura formada por ‘ir’ + infinitivo era só usada com uma interpretação de um evento iminente, com ideia de prospecção (cf. (200)). Porém, no fim do mesmo século, início do século XIX, quando a estrutura ‘haver-de’ perdeu força no sistema, a forma ‘ir’ + infinitivo com uma leitura futurizada compôs o quadro das variantes para a expressão de futuro no português brasileiro.
Como mencionado, a estrutura ‘ir’ + infinitivo entrou no sistema linguístico do português brasileiro licenciando um traço prospectivo, como (202). A partir do século XIX, ‘ir’ sofreu gramaticalização e passou a ser interpretado como um auxiliar de futuro. Nesse contexto, em termos formais, Roberts & Roussou (2003), ao observar o fenômeno da gramaticalização nas línguas, argumentam que a principal generalização que se pode fazer é que tal fenômeno cria um novo material funcional que sempre envolve simplificação estrutural e reanálise de movimento. Dessa maneira, a reanálise de ‘ir’ deveria ser captada em
termos de mapeamento sintático, ou seja, a estrutura sintática de ‘ir’ deveria ser modificada, a fim de captar essa mudança.
Dito isso, o verbo ‘ir’, veiculando evento em potência, por ser um auxiliar cuja dependência morfossintática é selecionar um verbo não finito, tem traços uV[ ]. O verbo c- comandado pelo auxiliar tem traços iV[IRREALIS], realizado foneticamente como infinitivo (cf. LUNGUINHO, 2006, 2011). ‘Ir’irrealis também tem traços que, em LF, levam a uma leitura de
um evento em potência. Assim, tal item carrega consigo traços não interpretáveis uWoll[IRREALIS]. Além disso, ‘irirrealis’ não é categoricamente um simples Aux – é um
elemento composto de [Aux+Woll], revisitando Roberts & Biberauer (2009). Dessa forma, vejamos como ocorre a derivação de (206).
(206) Eu sempre vou sentir muito orgulho de ter sido apaixonado por você. (Mario Viana, século XX)
Primeiramente, o verbo principal é inserido na derivação na concha do VP para atuar na seleção semântica dos seus argumentos. Em seguida, V se move para o núcleo de vP e, quando o DP é inserido em Spec, v, o verbo checa seu papel temático. Em seguida, o auxiliar
‘ir’irrealis é introduzido com traços uV[ ], agindo como uma sonda a procura de um alvo que
porta traços iV[IRREALIS]. A relação de Agree com o verbo valora seus traços como [IRREALIS], o que licencia um VP infinitivo. Caso, ao invés de um verbo infinitivo, um verbo com traços iV[PERFECTIVO] fosse inserido, a sentença seria agramatical, pois a dependência
morfossintática de ‘ir’ não seria satisfeita (cf. LUNGUINHO, 2006, 2011 e Capítulo 3) – iV[PERFECTIVO] é realizado morfologicamente como particípio (cf. (207)). A derivação de
(206) é representada em (208) até o momento em que AuxP é inserido: (207) a. *O Ricardo vai olhado[perfectivo] a nova casa amanhã
(208)
Após a relação de Agree do Aux com o verbo, para que a sentença seja interpretada com uma leitura futurizada no componente semântico, é necessário que os traços uWoll[IRREALIS] do Aux sejam deletados. Para tanto, WollP é inserido na derivação. O traço iWoll[ ] de WollP entra em uma relação de Agree com o traço uWoll do auxiliar. Agree é estabelecido e o traço iWoll de WollP é valorado como [IRREALIS] e o traço uWoll é apagado. Além disso, o auxiliar é formado por [Aux+Woll], o que licencia seu movimento para WollP. Caso o advérbio ‘sempre’ faça parte da Numeração, com traços de [+QUANTIFICADOR UNIVERSAL] (cf. AMBAR et al., 2004), ele sobe para uma posição abaixo de TP, trazendo
uma leitura de evento. (Para fins de clareza na apresentação, não se deriva neste momento o advérbio ‘sempre’, pois isso é feito na Seção 5.8 deste Capítulo). Após completado o AdvP, o núcleo de TP é projetado e a derivação continua normalmente com o movimento do DP sujeito para Spec, T:
(209)
Todos os traços foram valorados e os que são não interpretáveis foram deletados. WollP, por ter um traço valorado como [IRREALIS], no componente semântico, vai veicular uma leitura de futuridade à sentença.
Diferentemente das estruturas aventadas na literatura (cf. WURMBRAND 2007; LUNGUINHO, 2011), propõe-se aqui que o verbo ‘ir’ não se move para a posição de T, como observado em (209).
O primeiro motivo se refere ao fato de que o advérbio ‘sempre’, na nossa proposta, ficaria posposto ao verbo, V_ADV, caso ‘ir’ se movesse para T, e tal ordem não é considerada a mais aceita pelos falantes (cf. AMBAR et al., 2004; CYRINO, 2013; REINTGES & CYRINO, 2018) e nem foi a ordem atestada nos dados diacrônicos para o verbo ‘ir’, mas foi a ordem preferida para os verbos na forma sintética.
Outro motivo pelo qual o auxiliar não se move até T é o fato de que, em uma leitura de futuridade com o verbo ‘ir’, não há nenhum traço temporal associado a T para ser lido pelo componente semântico. Contrariamente, como mostrado no Capítulo 3, Wurmbrand (2004) assume que o futuro no inglês é composicional, a partir da interação do núcleo Woll com T:
(210) Composição do futuro inglês: (i) woll + T(presente) = will (ii) woll + T(passado) = would
Em (210), woll, por ser um modal abstrato responsável pela marcação de posterioridade, interage com o tempo presente sendo realizado foneticamente como will. Por outro lado, o mesmo modal, quando estabelece uma relação com T[PASSADO], é realizado em
PF como would.
Porém, em PB não há traços temporais de presente em ‘ir’irrealis que o faz estabelecer
uma relação de Agree com TP, muito menos se mover para T. Além disso, por ser uma forma analítica, ‘ir’ + infinitivo é formado por [Aux+Woll], revisitando Biberauer & Roberts (2009). Segundo Fedele (2010), o verbo mira sua projeção funcional semanticamente associada para licenciar valores de Tempo, Aspecto e Modo. Do mesmo modo, Pesetsky & Torrego (2006) argumentam que a interpretação semântica de um traço requer valoração desse traço como pré-condição, ou seja, requer que uma relação de Agree seja estabelecida. Diante disso, um traço F só pode ser checado caso ele seja interpretado como F na interface semântica.
Uma boa maneira de se verificar se uma sentença tem uma determinada interpretação temporal é incluir um advérbio temporal, como já se fez aqui. Na sentença em (211), caso fosse incluído um advérbio de passado, como em (211b), claramente a sentença seria agramatical, pelo fato de que ‘ir’ não tem uma leitura passada. Porém, caso seja concatenado um advérbio de presente a (211a), a sentença continua sendo gramatical, porém a leitura não é a do seu sentido original, como mostra (211c). Nesse caso, se está diante de uma leitura de prospecção e não de futuridade. Ou seja, logo após (211c) ser dito, o cachorro é sacrificado. Por outro lado, caso à (211a) for inserido um advérbio temporal de futuro, a sentença passa a ser gramatical e a transmitir uma ideia de futuridade, como em (211d):
(211) a. Meu cachorro vai ser sacrificado
b. *Ontem meu cachorro vai ser sacrificado c. Meu cachorro vai ser sacrificado (agora)
d. (Amanhã/daqui a alguns dias/hoje) meu cachorro vai ser sacrificado (amanhã/daqui a alguns dias/hoje)
Isso pode fornecer evidências para o fato de que ‘ir’irrealis + infinitivo’ não compartilha
traços de presente com T, conforme se explicita abaixo. Porém, pode-se levantar a seguinte pergunta: como, então, o verbo ‘ir’ expressa futuridade e é flexionado no presente do indicativo?. Para responder a essa pergunta, é preciso considerar que os itens lexicais possuem traços com regras morfofonológicas. Adger (2003, p. 137) quando observa que
verbos como eat, ‘comer’ trocam sua vogal para ate no tempo passado, postula a seguinte regra:
(212) Pronunciar ‘eat’, ‘comer’, como ‘ate’, ‘comi’, quando ‘eat’ está adjacente a um traço v[uInfl: past], e nesse caso, não pronunciar v[uInfl: past].
No escopo do presente trabalho, assume-se que para explicar o fato de que a expressão de futuridade no PB é veiculada a partir de um verbo flexionado no presente do indicativo, uma regra morfofonológica especial também se aplica; para tanto, propõe-se a seguinte:
(213) Pronunciar o item lexical L que estiver no núcleo de WollP com as regras flexionais de presente do indicativo quando L estiver adjacente a um traço uWoll[IRREALIS].
Tal regra é capaz de explicar o fato de que a futuridade no PB é instanciada não só pelo verbo ‘ir’, flexionado no presente, mas também pelo verbo ‘haver-de’, flexionado no presente, até mesmo pelo verbo ‘ir’ lexical e qualquer outro verbo flexionado no presente, como mostrado no Capítulo 3:
(214) Pode deixar que eu te envio as informações que estão faltando.
Portanto, infere-se que regras morfofonológicas também estão presentes no conjunto dos traços dos itens lexicais. Assim, como o “pouso” final de ‘ir’irrealis, de ‘haver-de’, da
forma de presente é o núcleo de WollP, uma vez que tais formas não sobem para T, já que não são interpretados como T presente, elas são pronunciadas como presente do indicativo, via a Regra em (213). Isso explicaria, por exemplo, a observação geral de que os auxiliares mantêm sua forma no presente, uma forma canônica, default. Com o auxiliar na forma de presente, pode-se derivar uma expressão de passado Eu tenho.PRS dormido mal nos últimos dias,
presente o João está.PRS dormindo, ou futuro o João vai.PRS dormir às 22 horas).
Por outro lado, caso o “pouso” final do verbo não seja o núcleo de WollP, o verbo será pronunciado a partir de regras morfofonológicas associadas ao valor da sua projeção funcional de pouso: Tpresente = regras morfofonológicas de presente; Tfuturo = regras
morfofonológicas de futuro; Tpassado = regras morfofonológicas de passado. Essa proposta
sintética: o verbo, para satisfazer os requerimentos do seu composto [Aux+Woll+T], tem como pouso final T. Lá, quando enviado para as interfaces, ‘ir’ é pronunciado de acordo com as regras do núcleo que o hospeda, algo como (216):
(215) Irei cantar na festa de sábado.
(216) Pronunciar o item lexical L que estiver no núcleo de TP com as regras flexionais do valor do traço de L, quando L estiver adjacente a um traço uT[FUTURO].
Isto é, em (217), uma vez que o verbo ‘irei’ se encontra no núcleo de T, para satisfazer o elemento composto [Aux+Woll+T], tal verbo será submetido à regra em (216). Ou seja, como ‘irei’ porta traços uT[FUTURO], já que é um verbo sintético (cf. BIBERAUER &
ROBERTS, 2009), tal item lexical será pronunciado a partir das regras flexionais do valor do traço [FUTURO], uma vez que tal item está no núcleo de T e está adjacente ao traço
uT[FUTURO].
(217)
E, por fim, o verbo auxiliar ‘ir’ em (206) não sobe até TP para valor traços de [FUTURO], pois a temporalidade futura foi perdida no PB com a queda da sua forma sintética,
como argumentado na Seção 5.2. Dessa forma, o verbo ‘ir’, na sua forma perifrástica, está inteiramente associado à modalidade irrealis (WollP), enquanto a forma sintética está associada com a temporalidade da sentença (TP). Isso vai ao encontro de Fleischman (1982), quando faz uma generalização para a evolução do futuro das línguas românicas, repetida em
(218), e vai também ao encontro de Biberauer & Roberts (2009), ao considerarem que as formas sintéticas se movem para T, pois são formadas por [V+T], mas as perifrásticas não.
(218) Generalização da evolução do futuro (2a versão):
Formas primárias de TEMPORALIDADE tendem a ser sintéticas e formas primárias de MODALIDADE tendem a ser perifrásticas, em que formas sintéticas são formadas por [V+Woll+T] e formas perifrásticas por [Aux+Woll].