DESAFIOS ATUAIS PARA AS PESQUISAS SOBRE GÊNERO, EDUCAÇÃO DA PEQUENA

No documento DESIGUALDADES, DIFERENÇAS E INCLUSÃO: DESAFIOS ATUAIS PARA PESQUISAS EM EDUCAÇÃO (páginas 162-190)

O TDAH NA PERSPECTIVA DA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL

6. DESAFIOS ATUAIS PARA AS PESQUISAS SOBRE GÊNERO, EDUCAÇÃO DA PEQUENA

INFÂNCIA, CULTURA E SOCIEDADE

Daniela Finco

Este capítulo apresenta algumas problemáticas de pesquisas realizadas no contexto do Grupo de Pesquisas Gênero, Educação da Pequena Infância, Cultura e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destacando a importância de examinar os desa-fios de uma Educação Infantil associada à formação da cidadania e à construção de uma sociedade mais justa e democrática, através do aprimoramento das discussões de gênero e da promoção dos Direitos Humanos, incluindo os direitos das crianças1.

O grupo, desde de 2012, desenvolve pesquisas com estudantes de graduação e da pós-graduação em Educação, com professoras e professores da rede pública de Educação Infantil dos municípios de Guarulhos e São Paulo - SP. Tem como foco os estudos no campo da Educação Infantil, visando refletir sobre propostas pedagógicas que tenham centralidade nos bebês e nas crianças pequenas, para a constru-ção de uma Pedagogia das diferenças de gênero. As pesquisas realizadas analisam os desafios contemporâneos para a Educação Infantil, a partir do diálogo entre o campo da Sociologia da Infância, dos Estudos Femi-nistas e dos Estudos de Gênero.

1 Este texto está baseado no trabalho apresentado no 7o. GRUPECI - Seminário de Grupos de Pesquisa sobre Crianças e Infâncias (2021) ampliado e atualizado para esta publicação.

Como categoria analítica, como conceito chave e de base para as pesquisa do grupo, gênero é essencial para a compreensão da lógica de organização social das diferenças expressas em instituições, estruturas, práticas cotidianas e em toda constituição das relações sociais (SCOTT, 1995) e, por isso, coloca-nos questões fundantes para pensar as rela-ções na Educação Infantil. Assim, construir um olhar feminista para os direitos das crianças é um dos desafios do grupo, trazendo, sobretudo, a creche e a pré-escola como lócus histórico de luta feminista, visando outras práticas pedagógicas, buscando transformar a realidade educa-tiva das crianças pequenas, bem como fomentando pesquisas e novas teorias, em busca de práxis emancipatória e descolonizadora.

O processo de construção da igualdade de gênero se inicia na Educação Infantil, um espaço de encontro com as diferenças, um espaço rico em trocas de experiências, um espaço de construções iden-titárias, um território desafiador para a desconstrução dos preconceitos e discriminações de gênero. Neste contexto, as pesquisas têm o desafio constante de problematizar os valores, as seguranças, as expectativas precedentes no cotidiano, descobrir outras possibilidades de olhar sobre a realidade, trazendo à tona novos valores culturais que são desvalori-zados e marginalidesvalori-zados, identificando as brechas, as possibilidades e os espaços de transformação e de resistência. Enfatizam a necessidade de discutir questões que já estão enraizadas na sociedade brasileira e na cultura das instituições de Educação Infantil, notadamente a ques-tão de gênero, que ainda consiste em um tema periférico na formação docente e, portanto, revela-se num campo bastante fértil para pesquisas.

Os diálogos concentram-se nos processos educativos em creches e pré-escolas, na inclusão de gênero nas agendas políticas, no âmbito nacio-nal e internacionacio-nal, nos projetos educativos para a emancipação, respeito e valorização da diversidade, visando estratégias coletivas de enfrenta-mento da discriminação e das violências. São pesquisas que abordam a indissociabilidade entre a educação e o cuidado; as práticas educativas

para emancipação das relações de gênero; os processos de construção de identidade docente considerando a identidade de gênero e a formação docente; a educação compartilhada, a relação com as famílias, seus arran-jos e suas diversidades; as linguagens infantis e as culturas infantis.

As pesquisas carregam também o constante desafio de cons-trução de procedimentos de pesquisa com crianças, para o estudo das culturas produzidas pelas crianças, considerando a diversidade cultural brasileira, tendo como eixos norteadores as brincadeiras, as múltiplas linguagens, as diferenças e a diversidade. Para tanto, as pesquisas con-tam com as contribuições dos Estudos Sociais da Infância, que têm um papel central para a compreensão da concepção de criança, de seu status social legítimo, um sujeito participante, portanto, agente ativo na socie-dade (FARIA; FINCO, 2011). O debate amplia o nosso entendimento sobre diversos aspectos das complexas e intrincadas relações de gênero, de classe, geração e relações étnico-raciais na infância, além de requerer lentes refinadas para desvendar e desconstruir as lógicas da dominação, na qual teorias feministas e de gênero, bem como teorias decoloniais, são poderosas ferramentas para desvendar a articulação dos inúmeros eixos de poder, relacionados à gênero-raça-idade.

Com o intuito de promover o desenvolvimento de novas pro-blemáticas de pesquisas na interseção entre os campos da Educação Infantil e dos Estudos de Gênero e Estudos Feministas, este capítulo apresenta a seguir algumas problemáticas de pesquisas, tais como: Pers-pectiva de gênero nas políticas de Educação Infantil; Gênero, cuidado, educação e a divisão sexual do trabalho; Normatividades de gênero no processo de institucionalização da infância; Diferentes dimensões do preconceito e da violência na vida das crianças.

Perspectivas de gênero nas políticas de Educação Infantil

Ao analisar as perspectivas de gênero nas políticas de Educação Infantil é possível compreender as tensões de gênero e seus múltiplos

reflexos na educação. Reflexões sobre gênero no cenário político apon-tam para os impactos das tensões de gênero nas políticas públicas de educação, que atualmente ocupam espaço privilegiado nos discursos políticos educacionais, influenciando os debates sobre gênero, assim como as ofensivas conservadoras antigênero (DUARTE; CESAR;

FERNANDES, 2021).

Desse modo, são importantes as contribuições de pesquisas que identificam e analisam as bases legais para impor o enfrentamento destes temas na Educação Infantil, que apontam a necessidade de trabalhar questões ligadas à gênero desde a infância e que ajudam a destacar diretrizes educacionais. Há importantes marcos políticos que ajudam a entender a elaboração dos planos e as responsabilidades do Estado para as questões de gênero na formação docente e na educação em seu conjunto.

Considerando as mudanças recentes do debate sobre gênero, com ofensivas conservadoras antigênero como um fenômeno transnacional e adensado pelas produções sobre aspectos diversos da Educação Básica (VIANNA, 2020), o campo de pesquisa na Educação Infantil vem pro-blematizando a “ideologia de gênero”, que apresenta-se como nefasta para a educação de crianças, suscitando um pânico em relação ao fim da família e confusão identitária (MISKOLCI, 2018). O contexto que vivemos hoje exige que o debate sobre as questões de gênero deixe de ser silenciado e que seja tratado de forma mais aberta e dialógica, uma vez que os preconceitos e as desigualdades de gênero se evidenciam de forma exacerbada.

Ao analisar o cenário das políticas públicas educacionais, pesqui-sas apontam para os avanços e os impactos das tensões de gênero no campo da educação. A inclusão da perspectiva de gênero no âmbito das políticas públicas nos ajudam, desse modo, a compreender as mudanças no contexto e a questionar o atual cenário e o contexto da Educação Infantil, diante dos desafios colocados pelo contexto cultural e político,

que avança suas pautas ultraconservadoras com a tentativa da exclusão do gênero no campo da educação (MARQUES, 2020; FERNANDES, 2021; DUARTE, 2021).

Tais pesquisas revelam os avanços, entraves e desafios para a inser-ção do debate de gênero e apontam para as negociações e embates sobre as discussões de gênero na formação docente, alertando para a potencia-lidade e a urgência desse debate. Diante do preocupante cenário político, no qual movimentos antigênero questionam a pertinência da discussão de gênero no âmbito educacional, e do aumento dos casos de violências de gênero, é bastante relevante refletir sobre a inserção de gênero no processo de formação docente. Nesse sentido, ajudam a compreender também como as experiências formativas podem fomentar a construção de pensamento crítico e favorecer a construção de práticas educativas emancipatórias e democráticas para educação (DUARTE, 2021).

Assistimos nos últimos anos a disseminação de um discurso rea-cionário que, entre outras coisas, afirma haver uma conspiração mundial contra a família, e a escola passa a ser, segundo este discurso, espaço estratégico para a imposição de uma ideologia contrária à natureza humana: a “ideologia do gênero”, e professores e professoras buscaram usurpar dos pais o protagonismo na educação moral de seus filhos, para doutriná-los com ideias contrárias às convicções e aos valores da família (JUNQUEIRA, 2018).

Nesse sentido, compreender a práticas e política pública anti

“ideologia de gênero” nas instituições de educação, baseadas nos discur-sos de proteção à família e às crianças, que promovem a entendimento de que gênero, desvirtuariam as crianças, a partir de uma orquestração gay e feminista que defende a sexualização das crianças, o estímulo à homossexualidade e a destruição da família (LEITE, 2019). Diante deste cenário, o desenvolvimento de pesquisas no campo da Educação Infantil assume esse compromisso, problematizando as desigualdades de gênero e seus reflexos na vida das crianças, de suas famílias e das

creches e pré-escola, na direção da garantia dos direitos de meninas e meninos. (GIBIM; SILVA; FINCO, 2020; FERNANDES, 2021).

Um comprometimento que inclui a investigação de ferramentas de contra-poder que precisam ir contra práticas normativas, que pro-curam silenciar temáticas que atravessam os corpos e as vidas infantis, a fim de garantir os direitos e a dignidade das crianças desde peque-nas. Não tratar as questões de gênero e sexualidade na educação das crianças, protege aqueles, que negociam com as violências, isto é, os agressores, deste modo, são assuntos fundamentais para a infância, que não podem ser silenciados, porque beneficiam um pacto de silêncio de abusos e violência contra as crianças (BONFANTI; GOMES, 2018).

A pesquisa de Fernandes (2021), neste sentido, contribui para pensar nas relações entre a instituição de Educação Infantil e as famí-lias, tendo como documento balizador Indicadores de Qualidade da Educação Infantil Paulistana (SÃO PAULO, 2016). Analisa como o documento aborda as questões de gênero na Educação Infantil, buscando fortalecer a relação e o diálogo da família com a unidade edu-cacional, revelando como tal documento é potencializador de reflexões e diálogos coletivos, essenciais para a construção de novas formas de pensamento, que ultrapassem os discursos de culpabilização, rompendo com silêncios existentes, problematizando as desigualdades de gênero presentes no processo educacional e dando ênfase ao respeito às dife-renças das crianças (FERNANDES, 2021).

Aponta para um olhar importante sobre documentos que reve-lam uma criança-cidadã, sujeito de direito, garantindo-lhe que tenha voz diante de situações que lhe dizem respeito, como análises dos “Indi-cadores de Qualidade da Educação Infantil Paulistana” (SÃO PAULO, 2016), que trazem a discussão sobre as questões de gênero como uma das dimensões da qualidade na Educação Infantil. Os indicadores abor-dam as questões de gênero na Educação Infantil a partir da realização da Autoavaliação Institucional Participativa da Educação Infantil, com

vistas à qualidade social da educação voltada para as crianças peque-nas. O documento construído coletivamente tem como princípios os direitos fundamentais das crianças, incluindo a dimensão das “Relações Étnico-raciais e de Gênero”. O documento paulistano destaca que os bebês e crianças em suas vivências e experiências na Educação Infantil são marcados/as por diversas identidades, inclusive de gênero, que se intercruzam nas relações entre seus pares e com adultos, reconhecendo o papel fundamental da educação no que tange ao combate a toda e qualquer forma de discriminação, assumindo o compromisso com a pro-moção da igualdade étnico-racial e de gênero (SÃO PAULO, 2016).

As pesquisas envolvem ainda análises de documentos e expe-riências internacionais que também nos ajudam a compreender que estas são questões necessárias num cenário mundial. Como o “Guião de Educação, Gênero e Cidadania pré-escolar” (PORTUGAL, 2015) publicado pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), em articulação com o Ministério da Educação de Portugal, política afirmativas envolvendo um projeto de promoção da elaboração de materiais para trabalhar as questões de gênero numa perspectiva de educação para a cidadania iniciando na educação pré-escolar (FER-NANDES; FINCO, 2021). Este documento traz para o debate as questões de gênero na educação a partir de situações com as quais as crianças se deparam no cotidiano, sempre de forma crítica, junto às crianças e seus familiares, ainda que tragam polêmicas e discussões (ALVARENGA; CARDONA, 2018), busca promover entre docentes uma maior consciência das suas atitudes e convicções, para que rever-berem em suas práticas educativas, na perspectiva de criação de novas cidadanias, dando ênfase à escuta da criança (CARDONA, 2015).

Essas pesquisas contribuem para o processo de construção de orientações e instrumentos avaliativos, além de favorecer e incentivar o debate crítico sobre a cidadania da infância e sobre as relações de gênero na Educação Infantil. Trazem ainda o desafio de intercruzar

em seus procedimentos metodológicos de coleta de dados os sabe-res profissionais de professoras(es) com as experiências e culturas das famílias; assim como incluir as vozes das crianças, para que seus dese-jos, suas ideias e seus pensamentos sejam levados em consideração. A participação infantil é um fator decisivo e poderoso para combater a exclusão das cidadãs-crianças nos processos de negociação e tomada de decisão acerca dos seus cotidianos, com a desocultação de suas vozes (SOARES, 2005). Pesquisas que se dedicam a ouvir as crianças, suas ideias e manifestações sobre como vivenciam as relações de gênero, em seu dia a dia, contribuem para romper com silêncios e colocar em xeque posturas sexistas, adultocêntricas e hierarquizadas.

Gênero, educação, cuidado e a divisão sexual do trabalho

A Constituição Brasileira de 1988 assegura como opção da família o direito da criança, desde os primeiros meses de vida, de ser educada em um contexto coletivo e de esfera pública. A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica oferecida em creches e pré-escolas, possui características específicas envolvendo o educar e cuidar na docência dessa etapa da educação. Ao retomar o caráter his-tórico da docência na Educação Infantil, podemos compreender como ela foi considerada como uma profissão de gênero feminino, sendo exercida principalmente por mulheres, pois estava atrelado às funções tradicionalmente femininas como o cuidado, a vigilância e a educa-ção (CERISARA, 1999; SAPAROLLI, 1997; MARCONDES, 2015;

MARCONDES et al., 2020).

Pesquisas recentes continuam a aprofundar este debate, ainda necessário, problematizando o trabalho nas creches e pré-escolas, quando envolvem homens e mulheres na relação do cuidado de bebês e crianças pequenas. Desse modo, outra problemática que permeia as pes-quisas desenvolvidas no grupo destacam a importância de trazer para o debate a relação entre gênero e cuidado, envolvendo a organização do

trabalho docente na Educação Infantil e os processos de construção de identidade docente. Especificamente em relação ao cuidado infantil, a articulação conecta a problemática da divisão sexual do trabalho, pro-blematizando a ideia da presença das mulheres como responsáveis pelo cuidado e educação das crianças nas creches (FARIA, 2021).

As pesquisas visam aprofundar os estudos de gênero na Educação Infantil, refletindo principalmente sobre a necessidade de problemati-zar os espaços pré-definidos para homens e mulheres, para meninas e meninos, buscando desconstruir práticas educativas naturalizadas e ainda presentes nos espaços de creches e pré-escolas. Desse modo, gênero consiste em uma importante ferramenta de análise utilizada para designar as relações sociais entre os sexos, para rejeitar as justifi-cativas biológicas, de maneira a indicar as construções sociais, a criação inteiramente social das ideias sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres (SCOTT, 1995).

O contexto atual nos traz urgência para investigar a dimensão de gênero e desconstrução das desigualdades sociais, aprofundando o debate de gênero no contexto da Educação Infantil. Desse modo, tam-bém é importante retomar a necessidade de discussão da função social das creches e pré-escolas, que nascem no Brasil como instrumentos emancipadores das relações entre homens e mulheres e chama aten-ção para esta dimensão educativa que não pode ser esquecida (TELES SANTIAGO; FARIA, 2018).

Destaca-se a importância de conhecer e investigar importantes documentos e diretrizes no campo da Educação Infantil, que histori-camente trouxeram suporte para as discussões de gênero nesta etapa da educação. Como o documento pioneiro “Creche Urgente” (1987), elaborado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) e pelo Conselho Estadual da Condição Feminina (CECF), que trouxe a ideia de creche enquanto uma instituição educativa na esfera pública, que fornece um espaço complementar à esfera privada da família para

a educação e o cuidado da criança. O documento é um importante registro da luta histórica pela creche, como uma conquista das lutas feministas pela participação das mulheres na sociedade.

Temos vários documentos que nos alertam para o papel da Educa-ção Infantil, creches e pré-escolas, como espaços sociais, onde as crianças interagem, estabelecem relações, vivenciando experiências, dialogando, aprendendo a conviver, aprender com a pluralidade, construindo suas identidades. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil - DCNEI (2010), por exemplo, apontam para a gênero como marcador, vinculado a outros marcadores sociais, ressaltando a impor-tância de combater as desigualdades desde a infância, garantindo à criança o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade e respeitando assim todas as infâncias e suas pluralidades.

Esses documentos buscam construir uma intencionalidade peda-gógica de gênero, trazem uma referência orientadora para as práticas educativas, destacando o papel docente frente às questões de gênero, focando no pleno bem estar das crianças, que busca garantir os direitos das crianças pequenas, serem educadas em ambientes educativos prote-gidos dos preconceitos. Desse modo, um percurso de pesquisa bastante promissor e relevante concentra-se na investigação das mudanças de tais bases legais, nacionais, municipais, assim como experiências inter-nacionais. As análises desses documentos consistem em suportes para iniciar um debate e auxiliar no enfrentamento das questões de gênero na Educação Infantil.

Analisar a relação entre gênero e o trabalho docente na Educa-ção Infantil nos permite também compreender o trabalho educativo nessa instituição, envolvendo homens e mulheres na relação do cuidado de bebês e crianças pequenas. Especificamente em relação ao cuidado infantil, essa articulação conecta a problemática da divisão sexual do trabalho, considerando que as mulheres, no interior das famílias, seguem responsáveis pela provisão do cuidado. Faz-se necessário

com-preender os processos de desconstrução das desigualdades de gênero na Educação Infantil para acelerar o ritmo de superação da concentra-ção de mulheres e homens em determinadas profissões consideradas femininas e masculinas. É fundamental questionar a menor valorização social das profissões comprometidas com o cuidado, tradicionalmente exercidas por mulheres (CARREIRA et al., 2016).

Pesquisas pioneiras sobre esta temática já retrataram na década de 90 a divisão sexual do trabalho apontando para o trabalho educativo na Educação Infantil, a partir das desigualdades sociais estabelecidas em nossa cultura, revelando como as desigualdades de gênero atra-vessavam os ambientes da Educação Infantil (SAPAROLLI, 1997).

Apontaram ainda o estranhamento direcionado ao corpo masculino que exercia os cuidados de bebês e crianças pequenas, problematizando a rejeição de sua presença nos espaços de cuidado e educação, como as creches (CRUZ, 1998).

Pesquisas que nos ajudam a compreender como ainda ocorrem a resistência à presença de homens na creche, problematizando concep-ções de Educação Infantil que, ainda fundamentadas numa tradição assistencialista de creche, considerada como substituta da mãe, que predomina uma perspectiva doméstica em oposição a uma perspectiva profissional (CERISARA, 1999). As contribuições da pesquisa de Silva (2014) também alertaram para como a docência na Educação Infantil é complexa, portanto, uma vez que há uma série de relações que estão presentes entre as crianças pequenas e as/os adultas/os nos espaços da Educação Infantil, há que se conviver e aprender com um universo de saberes, possibilidades, vivências e as diferenças desde a tenra idade.

Pesquisas que nos permitem refletir sobre a construção social de tenta-tiva de distanciamento entre a figura masculina e a Educação Infantil diante de noções de masculinidade hegemônica e de concepções de infância que ainda permeiam o imaginário social (MONTEIRO, 2014;

OLIVEIRA; FINCO, 2020).

A produção das pesquisas nos ajudam a compreender os entra-ves e desafios para transformar os espaços das creches e pré-escolas que ainda continua sendo fortemente marcado pelas desigualdades de gênero, diante do crescimento das desigualdades sociais e da intensifi-cação do cenário conservador que vivemos em nossa sociedade. Alertam

A produção das pesquisas nos ajudam a compreender os entra-ves e desafios para transformar os espaços das creches e pré-escolas que ainda continua sendo fortemente marcado pelas desigualdades de gênero, diante do crescimento das desigualdades sociais e da intensifi-cação do cenário conservador que vivemos em nossa sociedade. Alertam

No documento DESIGUALDADES, DIFERENÇAS E INCLUSÃO: DESAFIOS ATUAIS PARA PESQUISAS EM EDUCAÇÃO (páginas 162-190)