Adaptação Psicossocial na Adolescência
1. Coping e a vinculação nos adolescentes
1.2. Desafios e problemáticas na avaliação do coping
Por ser um conceito muitas vezes de difícil operacionalização, o coping frequentemente tem sido alvo de inúmeras críticas. A avaliação do coping começa a tomar mais notoriedade com a criação de escalas de avaliação, muitas vezes baseadas em listas de pensamentos e comportamentos (checklists) que as pessoas habitualmente desenvolvem em situações de stress. Em geral a avaliação do coping apela a uma descrição retrospectiva mediante instrumentos estandardizados, o que implica que se assuma que a mesma estratégia de coping está presente em todos os contextos situacionais e temporais. No entanto, a questão da estabilidade pode ser questionada tendo em conta que os indivíduos vão assumindo estratégias diferentes face à diversidade das demandas, pelo que uma estratégia adaptativa num primeiro momento pode não o ser num segundo momento. Desta forma, se vários momentos são identificados, torna-se importante assumir que existem várias estratégias de
coping, pondo de parte a ideia da existência de uma resposta específica face às situações de stress (Schwarzer & Schwarzer, 1996). Por outro lado, o uso de instrumentos de medida do coping levanta simultaneamente várias questões, não só relacionadas com a estandardização das estratégias para todas as situações, mas também com aspectos ligados à variação temporal (onde os indivíduos têm oportunidade de elaboração e desenvolvimento de pensamentos mais construtivos). Torna-se assim inviável limitar a avaliação do coping à retrospecção. Ao mesmo tempo, as escalas muitas vezes constroem-se em função de constructos inadequados implícitos às checklists, contendo respostas de difícil adequação e interpretação à amostra (Folkman & Moskowitz, 2004).
Outra questão relevante para o coping e tal como já foi abordado, constitui o desafio de encontrar uma nomenclatura comum para as várias estratégias, sendo um tema desde sempre polémico na comunidade científica (Folkman & Moskowitz, 2004). As soluções diferem geralmente em função da amostra e da situação stressora. Em muitos casos as respostas de coping são definidas em clusters, usando empiricamente a análise factorial, ou derivando teoricamente categorias. Tendo como ponto de partida a teoria de Lazarus (1991), Billing e Moos (1981) propõem uma conceptualização do coping em três factores, o activo cognitivo, o activo comportamental que implicam o “coping focado no problema” e finalmente o evitante, onde se insere o “coping focado na emoção”.
Apesar de tudo constata-se que continua a existir um tipo de coping onde são usadas estratégias cognitivas para a compreensão do significado das situações, identificando-se por isso o “coping focado no significado” (meaning-focused coping) (Folkman & Moskowitz, 2004). Park e Folkman (1997) propuseram um factor de “significação-acção” (meaning- making) como forma de pensar sobre os esforços realizados no coping, onde os indivíduos traçam valores, crenças e metas de modificação de significados nas situações de stress, nomeadamente em casos de stress crónico que podem não ser abrangidos pelo “coping focado no problema”.
Note-se que a categorização do coping, por mais precisa que possa resultar, mantém o risco de mascarar diferenças importantes entre as categorias, isto porque a mesma estratégia de coping (como, por exemplo, a retirada), pode ser uma estratégia adaptativa quando a pessoa reconhece um problema e necessita de tempo para elaborar internamente, ou ser uma estratégia desadaptativa quando encarada como um evitamento ou negação, podendo estar
Capítulo IV- Adaptação Psicossocial na Adolescência
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ambas estratégias inseridas na categoria de “coping focado na emoção” (Folkman & Moskowitz, 2004). Esta questão torna controversa a classificação de coping enquanto elemento funcional ou disfuncional, já que, de acordo com o que se tem discutido, as estratégias parecem adequar-se às necessidades imediatas, pelo que mesmo que as respostas traduzam fuga, evitamento ou internalização, elas permitem que o jovem encontre uma forma de atingir estabilidade emocional que lhe permite elaborar os conflitos internos de forma distinta no futuro.
Por outro lado, existe uma questão relevante que constitui uma dificuldade acrescida na investigação do coping, prendendo-se com a crença de que perante as diferentes culturas existem formas de coping mais ou menos efectivas, que promovem o bem-estar emocional. Desta forma, a investigação assume que é necessário avaliar as qualidades adaptativas dos processos de coping nos contextos onde eles ocorrem, tendo em conta que um processo de coping pode ser eficaz numa cultura e não o ser em outra. Assim, sendo o contexto dinâmico, considera-se que a avaliação do coping num modelo contextual requer uma apreciação, adequando as estratégias de coping às demandas específicas da situação (Folkman & Moskowitz, 2004). Note-se que muitas vezes as pessoas mostram capacidade para modificar as estratégias de coping consoante as exigências, o que se designa por flexibilidade, sendo empregue uma variedade de estratégias mais do que uma aplicação rígida do coping (Lester, Smart & Baum, 1994).
Todavia, e perante as dificuldades na operacionalização do coping, alguns trabalhos neste âmbito continuam a ter grande relevância para a avaliação, clarificação e desenvolvimento do conceito. Seiffge-Krenke (1993) cujo trabalho se desenvolve em torno do estudo do coping realiza, entre outros, estudos com adolescentes naturalmente sujeitos a inúmeras mudanças sob o ponto de vista do ciclo vital, que obrigam em certa medida a um constante confronto com situações de stress. Desta forma, tenta integrar diferentes tipos de stressores, procurando ao mesmo tempo adequar respostas de coping. Baseando-se na teoria de Lazarus, a autora realiza a distinção entre coping funcional e coping disfuncional. O coping funcional inclui o coping activo e coping interno sendo de algum modo similar às estratégias usadas na resolução de problemas (problem solving), onde o problema é definido e soluções alternativas são geradas e aperfeiçoadas; por outro lado, o coping disfuncional refere-se ao controlo dos sentimentos, onde os problemas não são imediatamente resolvidos e onde as
soluções encontradas não assumem adaptatividade (Seiffge-Krenke, 1993). Na aplicação destes conceitos, a autora constrói o Coping Across Situation Questionnaire (CASQ), um instrumento bidimensional para avaliação do coping, onde são incluídas as três dimensões (coping activo, interno e retractivo) e 20 estratégias de coping que se distribuem por 8 áreas problemáticas.
No presente estudo foi tido em conta a linha de investigação desta autora, o que permitiu assumir os conceitos pertencentes a esta perspectiva de coping e possibilitar a realização do estudo que se segue, pese embora tenham sido consideradas algumas diferenças na compreensão dos estilos de coping, possivelmente pelas diferenças culturais, facto que irá ser discutido mais adiante no capítulo da metodologia.