Desafios para incentivo à mobilidade por bicicleta

No documento Aceitabilidade de uma ciclovia sob a ótica do comércio do seu entorno (páginas 38-41)

2. PLANEJAMENTO E CIRCULAÇÃO DE BICLETAS

2.7 Desafios para incentivo à mobilidade por bicicleta

O incentivo ao uso da bicicleta pode trazer inúmeros benefícios para os usuários e para o ambiente urbano. Entretanto, para que esta afirmativa se torne uma prática corrente é necessário enfrentar as dificuldades estruturais e ao mesmo tempo buscar mudanças comportamentais da população. É possível promover mudanças, desde que haja o planejamento, distribuição equitativa dos espaços de circulação e educação para o trânsito.

Segundo Silveira (2010), alguns aspectos das cidades representam pontos de permanente conflito para a livre circulação das bicicletas, haja vista que a cultura de circulação do Brasil tem predomínio do uso intensivo do automóvel como uma solução para problemas de circulação e de segurança. Esta cultura nacional resulta em um cenário de congestionamentos e emissão de gases nocivos à atmosfera levando à degradação dos sistemas de circulação nas cidades brasileiras e à desumanização dos espaços urbanos. Ainda segundo a autora, cidades que desenvolvem o emprego da infraestrutura direcionada para o incentivo ao uso da bicicleta como meio de transporte desempenham papel importante para o desenvolvimento sustentável e para humanização do trânsito. Neste sentido, as atitudes tomadas para minimizar os impactos causados ao meio ambiente e ao mesmo tempo maximizar a manutenção da qualidade de vida dos seres humanos apresentam grandes mudanças de paradigmas e valores. O uso racional dos automóveis, o investimento em

transporte coletivo e o uso de veículos não motorizados como alternativa de transporte constituem ações de melhorias e mudanças de paradigma.

Para Castro, Barbosa e Oliveira (2013), no Brasil, os Órgãos Governamentais, responsáveis pelo planejamento urbano e transporte, têm tido um papel importante para a promoção da sustentabilidade da mobilidade urbana. Pretende-se com a inclusão da bicicleta ultrapassar barreiras do ponto de vista social, não só no Brasil, pois como em outros países, o automóvel representa um símbolo de status e prosperidade, e a utilização da bicicleta em viagens não é considerada como uma opção adequada para alguns grupos sociais.

Para Teramoto (2008), a bicicleta, por suas características, é uma alternativa para parte da população de baixa renda que enfrenta problemas relacionados ao transporte, principalmente por não possuírem uma condução própria. A aplicação de políticas de incentivo poderia fazer com o que custo mais significativo da bicicleta, que é o de aquisição, não tivesse que ser pago integralmente pela população de baixa renda, ou ainda que fosse objeto de políticas de financiamento especiais.

O autor ainda destaca que a falta de conhecimento sobre aspectos legais do uso da bicicleta como meio de transporte, tanto por parte dos condutores de bicicleta, como dos não condutores, dá margem à ocorrência de uma série de conflitos. A adoção de políticas de informação também poderia melhora as condições de uso da bicicleta ao mesmo tempo em que ajudaria a minimizar estes conflitos. Percebe-se que existem nas campanhas educacionais de incentivo ao uso da bicicleta, mas as informações compartilhadas dão orientações apenas aos ciclistas de como se comportar dentro do sistema viário. Tais políticas de informação deveriam contemplar todos os usuários do sistema viário sobre as características de cada modo de transporte, garantindo a segurança de todos.

Para Pezzuto e Sanches (2004), no Brasil, muitos possuem bicicleta, mas a tradição do ciclismo não está presente na cultura nacional, dificultando a conscientização da população para aceitar este modo de transporte como uma alternativa modal e ao mesmo tempo promover mais respeito aos seus usuários. As autoras ainda ressaltam que além do fator cultural, outros fatores influenciam a decisão que leva a opção pela bicicleta em viagens utilitárias. A Tabela 1 ilustra a natureza complexa de barreiras existentes para o uso da bicicleta e a relativa dificuldades de eliminá-las, considerando principalmente os aspectos relacionados às atitudes e valores dos indivíduos com relação ao ciclismo e à aceitabilidade social deste modo de transporte.

Tabela 1 – Barreiras existentes para o uso da bicicleta

Etapas Fatores que Influenciam

1. Considerações Iniciais Distância e tempo de viagem Responsabilidades familiares Valores e atitudes do indivíduo Exigências do trabalho

2. Avaliação das barreiras na viagem Facilidade de acesso Características das rotas Segurança no tráfego

Clima

3. Avaliação das barreiras no destino Estacionamento para bicicletas Vestiário e chuveiros

Incentivo do empregador

Aceitação pelos colegas

Fonte: Adaptado de Pezzuto e Sanches (2004).

Ainda, segundo Pezzuto e Sanches (2004), observa-se que para os não ciclistas a bicicleta é vista como um transporte não confortável e cansativo, inferior aos modos motorizados nos aspectos de rapidez e conforto e que não pode ser utilizado em qualquer ocasião. Segundos as autoras, a falta de hábito em usar a bicicleta aliada ao fato de não gostar do ciclismo aparece como características de parte da população que não reconhece este modo alternativo de transporte. Embora a não utilização da bicicleta esteja relacionada com a cultura nacional, observa-se a necessidade de implementar políticas mais consistentes para conscientização da população quanto aos benefícios do uso deste modo de transporte, como por exemplo o melhor aproveitamento do espaço viário para o transporte de pessoas.

A Figura 2 compara as situações em que: 69 pessoas são transportadas por ônibus; trafegando em bicicletas; e quando transportadas por automóveis. O espaço ocupado pelo ônibus e pelas bicicletas é semelhante, enquanto que por automóveis ocorre uma ocupação desproporcional do espaço viário.

Figura 2 – Espaço que pessoas, carros, bicicletas e um ônibus ocupam no trânsito.

Fonte: Hub Bike (2012).

No documento Aceitabilidade de uma ciclovia sob a ótica do comércio do seu entorno (páginas 38-41)