CAPÌTULO II – Formação e Posição da Identidade do Sujeito Constitucional.
5. Desconstrução e identidade constitucional.
No derradeiro item do presente capítulo, pretende-se fazer a ligação entre as considerações teóricas constantes da primeira parte e o conceito de identidade constitucional apresentado na segunda parte. Já à primeira vista, percebe-se que o processo de desenvolvimento do sujeito constitucional, que se origina da busca do “eu” pelo “outro”, visando o estabelecimento de sua auto-identidade, deriva diretamente da ética e da ontologia presentes na desconstrução, que igualmente propõe a procura pela superação da distância entre o “eu” e o “outro” como requisito fundamental constante de qualquer exercício interpretativo. Nesse sentido, todas as considerações relativas ao exercício interpretativo, constantes da primeira parte do capítulo, são similarmente aplicáveis à identidade constitucional, que pode ser encarada como uma espécie particular de interpretação jurídica103.
Uma vez que a interpretação vinculada à identidade constitucional em nada difere da interpretação em geral, e da interpretação jurídica em especial, todas as características da interpretação identificadas por Rosenfeld são igualmente aplicáveis à identidade constitucional. A primeira conclusão a que se pode chegar é que a identidade constitucional
103 Particular, principalmente, na medida em que se encontra aberta a todos os membros da comunidade
política, e porque as decisões tomadas na esfera constitucional acarretam conseqüências éticas, políticas, econômicas e sociais, além de jurídicas, bem mais perceptíveis e graves do que as de uma mera decisão jurídica comum. Considerações sobre o impacto das decisões constitucionais podem ser encontradas em ROSENFELD, Michel. Constitutional Adjucation in Europe and the United States: Paradoxes and Contrast. HENKIN, Louis. A New Birth of Constitutionalism: Genetic Influences and Genetic Defects. In.: ROSENFELD, Michel (ed.). Constitutionalism, Identity, Difference and Legitimacy: Theoretical
Perspectives. p. 39-53. e JACOBSON, Arthur J. Transitional Constitutions. In.: ROSENFELD, Michel (ed.). Constitutionalism, Identity, Difference and Legitimacy: Theoretical Perspectives. p. 413-422.
não se resume à mera atividade política104, ou seja, os processos de construção e reconstrução da identidade constitucional, bem como o desenvolvimento lógico da auto- identidade do sujeito constitucional, devem se pautar por critérios jurídicos, ou melhor, por critérios oriundos do constitucionalismo, e não por considerações derivadas de preocupações políticas, econômicas, etc., que não tenham sido anteriormente filtradas pela própria identidade constitucional e ajustadas aos seus termos.
Em outras palavras, considerações não jurídicas oriundas de outras identidades presentes na comunidade política só podem constar da identidade constitucional na medida em que elas tenham sido selecionadas e re-significadas pelos requisitos do constitucionalismo. A inclusão dos padrões do constitucionalismo como fundamento essencial da identidade constitucional insere esta, naturalmente, na perspectiva desconstrutivista, uma vez que o constitucionalismo exige o respeito à diferença e à diversidade. Dessa forma, toda identidade constitucional necessariamente se pauta pela ética da identidade e da diferença.
A identidade constitucional não pode ser parcial e tendenciosa em relação às várias concepções de bem nela presentes, ou seja, nenhuma das concepções de bem constantes da comunidade política pode ser tornar a concepção que orienta a identidade constitucional. Pelo contrário, as várias concepções de bem são aceitas pela identidade constitucional na medida em que são ajustadas e re-significadas a partir da ética desconstrutivista, que visa sempre a superação da distância entre o “eu” e o “outro”.
Desse modo, garante-se que uma dada identidade constitucional não tenderá a supraproteger ou a infraproteger direitos fundamentais105, nem poderá ser acusada de favorecer determinadas concepções de bem, já que os elementos das várias concepções de bem são aproveitados e aceitos visando justamente que nenhuma dessas concepções prevaleça sobre as outras, garantindo assim a diversidade e o pluralismo.
Toda identidade constitucional, a partir da ótica desconstrutivista, é uma escritura. Assim, além de ser uma tentativa falha da busca pela reconciliação entre “eu” e “outro”, a identidade constitucional igualmente projeta-se para o passado e para o futuro, de modo que ela é igualmente uma re-escritura de uma escritura passada, uma escritura presente, e a escritura passada de uma re-escritura futura106. Todavia, a identidade constitucional, em si, é inapreensível. Nessa medida, ela só pode ser vislumbrada por meio de construções plausíveis, que se convertem em re-escrituras da escritura constituída por uma dada identidade constitucional.
Logo, toda construção da identidade é uma re-escritura da identidade constitucional, parcial e incompleta, sempre aberta a novas possibilidades de interpretação. Ademais, toda reconstrução é uma re-escritura da construção que tem por base, construção que, nesse contexto, funciona como escritura para a re-escritura que é a reconstrução. Dessa forma, a identidade constitucional se projeta temporalmente, de forma vertical, e se projeta discursivamente, de forma horizontal (por se tratar de um mesmo momento histórico).
105 Uma vez que o nível de proteção adequado é aquele consoante com o reconhecimento de igual dignidade e
respeito ao “eu” e ao “outro”.
106 É exatamente por isso que um quadro completo da identidade constitucional teria que necessariamente se
projetar para o passado, até os constituintes originários, e para o futuro, infinitamente rumo às gerações vindouras. Do mesmo modo, a exigência de coerência, integridade e unidade do Direito (e da identidade constitucional) pode ser derivada do fato de toda identidade constitucional ser uma escritura.
O sentido e o significado de uma determinada identidade constitucional, portanto, dependem tanto da seqüência de continuidade e coerência interpretativa ao longo da linha temporal de sua existência, quanto das várias possibilidades de construções e reconstruções plausíveis em um dado momento histórico107. Dessa forma, é a interação entre a história da identidade constitucional e o seu contexto específico e momentâneo que estabelece os critérios de legitimidade, plausibilidade e razoabilidade das várias construções e reconstruções da identidade constitucional.
Percebe-se, assim, que toda identidade constitucional, bem como suas construções e reconstruções legítimas, são, em algum momento, escrituras nas quais figura uma tentativa falha de reconciliação entre o “eu” e o “outro”. A identidade constitucional deve estar sempre aberta à interpretação, é sempre incompleta, também porque a desejada
107 Logo, a identidade constitucional, suas construções e reconstruções podem ser interpretadas como textos
inseridos em um processo histórico e em um contexto específico. Suas exigências éticas e interpretativas decorrem tanto do processo e do contexto, quanto da necessidade de busca pelo “outro”.
reconciliação, a partir da concepção desconstrutivista, é sempre adiada, é sempre deixada para o futuro. É na seqüência temporal e lógico-discursiva de evolução das construções e reconstruções da identidade constitucional que se podem perceber as falhas, os sucessos, e os elementos que devem ser re-combinados na permanente busca pela superação do abismo entre o “eu” e o “outro”.
Logo, o sentido das escrituras e re-escrituras vinculadas à identidade constitucional é necessariamente intersubjetivo. Toda construção e reconstrução da identidade constitucional, portanto, é uma re-escritura colaborativa, tanto em seu aspecto temporal quanto eu seu aspecto lógico-discursivo.
Nesse sentido, abre-se espaço para o conceito de comunidade aberta de intérpretes, e as marcas semânticas inerentes ao discurso constitucional passam a depender dos consensos e desacordos existentes na comunidade política (que integram a identidade constitucional), e não da mera decisão política, ou ainda da decisão jurídica vinculada a um grupo de juízes108.
Igualmente, são as marcas semânticas constantes do discurso constitucional que garantem a possibilidade de continuidade de uma dada identidade constitucional, pois elas possibilitam a compreensão do sentido e do significado ao longo do passado, do presente e do futuro.
108 Seja esse grupo uma corte constitucional, ou todos os juízes, legitimados pelo controle difuso de
Destarte, as práticas vinculadas à identidade constitucional, ou seja, suas construções, reconstruções, e a própria tomada de decisões constitucionais são procedimentos essencialmente discursivos. O próprio Rosenfeld defende que a identidade constitucional funciona como a linguagem apta para que o “eu” e o “outro” na comunidade política possam buscar a almejada reconciliação entre identidade e diferença, e para que possam dialogar em defesa e promoção de seus próprios direitos e interesses. É a partir dessa sugestão lingüística que se desenvolverá o segundo capítulo.