Este capítulo terá como foco o desenho do projeto coconstruíido na residência Pilar do Cuidado, estando organizado em três subcapítulos: serão explanados em 4.1. A finalidade e os objetivos de “Uma missão chamada Cuidar”; em 4.2. será apresentada uma planificação das ações; e em 4.3. será explorada a avaliação de entrada. Tendo como referência o modelo de avaliação CIPP, a avaliação de entrada (Stufflebeam & Shinkfield, 1995) terá como objetivo avaliar o desenho do projeto, referindo eventuais constrangimentos ao desenvolvimento do projeto, bem como os indicadores de avaliação.
O longo período de permanência no contexto, cerca de nove meses, permitiu que a interação fosse sendo desenvolvida de forma gradual, procurando atender às necessidades reais dos sujeitos. No apêndice K, encontra-se a sistematização do desenho do projeto. Pela especificidade e importância dos problemas elencados pela equipa técnica, pelas ajudantes de ação direta e pelas pessoas idosas, foi sendo construído um trabalho sólido, tendo sido aprofundada a necessidade de uma mudança ao nível de algumas das práticas institucionais.
Através da exploração dos problemas já apresentada, concluiu-se que os dois iniciais (Isolamento relacional das pessoas idosas; Pouca diversidade de atividades e falta de adequação aos interesses dos idosos) exerciam um impacto direto nos idosos, trazendo dificuldades ao nível do seu bem-estar físico e psíquico, bem como no domínio da adaptação no seu processo de institucionalização. Estes problemas também careciam de compreensão por parte dos profissionais, pelo que foi preponderante a sua discussão com este grupo. Os três últimos problemas (Reduzida coesão grupal e existência de relações conflituosas entre ajudantes de ação direta, Desmotivação por parte da equipa de ajudantes de ação direta e falta de supervisão, Prestação de cuidados desajustada às necessidades de cada idoso) tinham como principais intervenientes as ajudantes de ação direta e a equipa técnica, verificando-se que era necessário serem salvaguardados e dignificados os cuidados prestados aos idosos, do ponto de vista da humanitude que se pretendia que existisse.
Assim, desenhou-se o projeto que seguidamente se apresenta.
4.1 A F
INALIDADE E OS OBJETIVOS DE“
UMAM
ISSÃO CHAMADAC
UIDAR”
A principal finalidade do projeto “Uma missão chamada Cuidar” foi melhorar a qualidade de vida das pessoas idosas, promovendo a sua participação ativa e o empoderamento dos principais prestadores de cuidados para uma intervenção mais humanizada.
Sendo importante que a intervenção seja efetuada de forma integrada, é necessário que todos os profissionais e pessoas idosas sejam envolvidas na mesma, quer na tomada de decisões, quer no reconhecimento de que os cuidados devem ser ajustados às necessidades de cada idoso. Na Pilar do Cuidado, verificamos que existia a urgência de os profissionais e idosos serem ativamente envolvidos em todo o processo, tendo sido delineadas estratégias que incluíram os diferentes protagonistas na ação. Para a intervenção ser integrada, consistente e com atuação nos reais interesses e necessidades dos idosos, após a identificação dos problemas foram delineados objetivos gerais (OG) e objetivos específicos (OE), que se apresentam de seguida (ver Ap. K).
No que concerne ao P1 – Isolamento relacional entre idosos, foi delineado o OG1 Melhorar as relações interpessoais dos idosos e os OE: [que a pessoa idosa seja capaz de] Expressar de forma autónoma e livre a sua opinião, gostos, interesses e sentimentos (OE 1.1.) e Interagir de forma positiva com os diferentes elementos do grupo, com recurso ao diálogo, partilha de ideias e estratégias de negociação (OE 1.2); e [que a equipa técnica seja capaz de]
Conhecer e valorizar a iniciativa dos sujeitos (OE 1.3) e Criar condições para fortalecer a comunicação entre os idosos (OE 1.4).
Relativamente ao P2 – Pouca diversidade na programação das atividades e falta de adequação aos interesses dos idosos, foram definidos objetivos gerais e específicos, relacionados com a equipa de profissionais (técnicos e não técnicos). O OG 2 foi: Contribuir para o bem-estar dos sujeitos, de modo a garantir um envelhecimento bem-sucedido. Os OE foram: Conhecer e apoiar os sujeitos, valorizando a sua iniciativa (OE 2.1); Reforçar a autonomia dos sujeitos nos momentos de lazer (OE 2.2.); Reorganizar os espaços, adaptando-os às necessidades de cada sujeito (OE 2.3); e Realizar um apoio psicossocial individualizado (OE 2.4).
O problema 3 – Reduzida coesão grupal e existência de relações conflituosas entre ajudantes de ação direta, teve como OG 3 Promover um ambiente favorável à coesão grupal e trabalho em equipa, e como OE: [Que as ajudantes de ação direta sejam capazes de] Comunicar de forma assertiva (OE 3.1.) e Desenvolver estratégias de negociação em situações de conflito (OE 3.2.); [que a equipa técnica seja capaz de] Desenvolver canais de comunicação e articulação eficazes entre equipas (OE 3.3) e Gerir de forma positiva os conflitos (OE 3.4).
Em relação ao P4 – Desmotivação por parte da equipa de ajudantes de ação direta e falta de supervisão, o OG 4 foi Promover relações interpessoais mais positivas entre profissionais e melhorar a supervisão e os OE: [que os idosos e a equipa técnica sejam capazes de] Reconhecer a importância desta equipa no trabalho desenvolvido com os idosos (OE 4.1); [a equipa técnica] Reconheça a importância das relações de proximidade entre equipas e promova a supervisão das ajudantes (OE 4.2).
Considerando o P5, Prestação de cuidados desajustada às necessidades, definiu-se como OG 5 Melhorar os cuidados prestados às pessoas idosas, de modo a contribuir para a sua identidade pessoal, bem-estar e dignidade de cada um dos sujeitos e como OE: [que as ajudantes de ação direta sejam capazes de]
Reconhecer a importância de a prestação de cuidados ser ajustada às necessidades e interesses dos sujeitos e que estes são detentores de uma história de vida peculiar (OE 5.1); Refletir acerca das suas práticas profissionais (OE 5.2); Desenvolver relações de proximidade significativas, de modo a potenciar o bem-estar dos sujeitos (OE 5.3); e Conhecer estratégias mais adequadas e positivas com o efetivo desenvolvimento de práticas mais adequadas (OE 5.4).
4.2 P
LANIFICAÇÃO DAS AÇÕESDe modo a concretizar os objetivos, foram desenhadas quatro ações, que procuraram contribuir para colmatar os diversos problemas identificados com a participação das pessoas idosas, equipa de ajudantes de ação direta e equipa técnica. A atribuição dos nomes às ações resultou da reflexão conjunta da mestranda e dos diferentes atores sociais, ao longo do desenvolvimento do
projeto, tendo a escolha recaído em nomes relacionados com os objetivos.
Apesar de terem surgido durante o desenvolvimento do projeto, esses nomes vão ser utilizados a partir desta secção, pois facilitam a organização do relatório e a compreensão do trabalho realizado. Ficou acordado que a ação número 1 seria designada “Quero os meus dias com sentido”, a segunda ação “Letras que escrevo, coração que aquece”, a terceira ação “Uma missão chamada Cuidar” e a última ação “Refletir para crescer”. As duas primeiras estavam associadas aos OE mais diretamente relacionados com os idosos; a terceira ação com a equipa de ação direta; e, por fim, a quarta ação foi desenvolvida com a equipa técnica.
A ação 1 “Quero os meus dias com sentido” teve como principais objetivos:
Melhorar as relações interpessoais dos idosos (OG 1) e Contribuir para o bem-estar dos sujeitos, de modo a garantir um envelhecimento bem-sucedido (OG2).
Pretendia-se, assim, com esta ação, intervir de modo a colmatar os P1 – Isolamento relacional entre idosos e P2 – Pouca diversidade na programação das atividades e falta de adequação aos interesses dos idosos. Como estratégias de intervenção foram selecionadas: as conversas intencionais; os grupos de reflexão e discussão; a criação de dois ateliês, lúdico e de cinema (“Voltamos às Matinés”), música; passeios pedonais no exterior e idas ao jardim. Acrescenta-se ainda a existência de apoio psicossocial realizado a nível individual, podendo configurar-se como relações de ajuda.
A ação 2, “Letras que escrevo, coração que aquece”, foi planificada para intervir junto do P1 - Isolamento relacional entre idosos, com o propósito de dar resposta ao OG1: Melhorar as relações interpessoais dos idosos. Como estratégias de intervenção destacam-se: as conversas intencionais; a troca de cartas e a existência de momentos de convívio com um grupo de 11 idosos, de outra ERPI, também do norte de Portugal.
A ação 3 “Uma missão chamada Cuidar” foi planificada com o propósito de resolver ou colmatar o P3 - Reduzida coesão grupal e existência de relações conflituosas no grupo de ajudantes de ação direta, e o P5 - Prestação de cuidados desajustada às necessidades de cada idoso. Procurou responder ao objetivo geral 3: Promover um ambiente favorável à coesão grupal e trabalho em equipa e OG 55: Melhorar os cuidados prestados às pessoas idosas, de modo a contribuir para a sua identidade pessoal, bem-estar e dignidade de cada um dos sujeitos. Como estratégias de intervenção destacam-se: (a) as conversas
intencionais; (b) existência de momentos de partilha e reflexão em equipa, (c) realização de exercícios de dinâmica de grupo e (d) ações de formação externas.
Por fim, a última ação, “Refletir para crescer”, acabou por abordar todos os problemas referidos anteriormente (P1, P2, P3, P4 e P5). Teve como intenção contribuir para concretizar os cinco objetivos gerais referidos. Sendo que trabalhamos mais no sentido de colmatar algumas das necessidades sentidas ao nível do problema 4 – Desmotivação por parte da equipa de ajudantes de ação direta e falta de supervisão.
Como estratégias selecionaram-se: as conversas intencionais; os momentos de reflexão, reuniões, discussão de casos; existência de momentos de convívio entre profissionais (equipas técnica e de ação direta).
Ao longo do capítulo 5, serão explanadas de uma forma mais alargada as quatro ações, assim como a avaliação de processo.
4.3 A
VALIAÇÃO DE ENTRADAA avaliação de entrada prevê-se como um importante momento avaliativo. É nesta fase que é possível refletir acerca dos métodos e explicar e analisar em profundidade o que se planificou (Stufflebeam & Shinkfield, 1995, p. 197). Prevê que o investigador possa olhar a realidade numa base de questionamento e reflexão acerca dos recursos e das potencialidades do contexto para o desenvolvimento do projeto (Stufflebeam & Shinkfield, 1995). Tendo em consideração os problemas que foram priorizados, é nesta fase que é avaliado o grau de coerência entre os objetivos, ações e estratégias (Stufflebeam &
Shinkfield, 1995).
Pelo facto de o contexto se encontrar em constante mudança, o que coloca a nu a sua imprevisibilidade, pressupõe-se que possam surgir constrangimentos ao longo do desenvolvimento das ações, pelo que é fulcral que todas as ações que se encontrem bem delineadas e orientadas, sustentando-se na escolha de um conjunto de métodos e técnicas ajustados aos constrangimentos e limitações que possam surgir ao longo do processo (Stufflebeam & Shinkfield, 1995).
Assim, é importante que, nesta fase, e tendo sido delineados os objetivos, estes
funcionem como “unidades de análise” (Ventosa, 2002, p. 119), para ponderar acerca de cada uma das ações planeadas (Serrano, 2008), e se reflita acerca dos indicadores de avaliação utilizados/a utilizar para a avaliação das ações desenvolvidas (Stufflebeam & Shinkfield, 1995).
A mestranda renuiu primeiramente com os idosos. De seguida com a equipa técnica e por fim com as ajudantes de ação direta, no sentido de identificarem os constrangimentos que poderiam surgir no desenvolvimento deste projeto.
Em conjunto refletiram acerca da finalidade que todos os atores sociais queriam atingir com o desenvolvimento do projeto e quais os recursos que poderiam agilizar para alcançar a finalidade almejada. Tendo em consideração as estratégias delineadas e com o intuito de percebermos se as ações delineadas estavam a colmatar os problemas e as necessidades identificadas, bem como se estavam a alcançar os objetivos definidos foram estabelecidos indicadores de avaliação.
No projeto “Uma missão chamada Cuidar” foram identificados os seguintes constrangimentos: horário incompatível entre as profissionais de ação direta dos diferentes turnos de trabalho, que poderia implicar dificuldade ao nível da organização das sessões, desenvolvidas na ação 3; o facto de haver um elemento da direção que controla excessivamente todas as iniciativas que decorrem na instituição, o que poderia impedir o desenvolvimento de algumas ações do projeto; por fim, verificamos que a existência de alguns hábitos muito enraizados na Pilar do Cuidado, como a falta de utilização do jardim da instituição, poderia implicar maior dificuldade na alteração de certas práticas.
Apesar de todos estes constrangimentos, que poderiam dificultar o desenvolvimento do projeto, a mestranda considerou que o seu processo de integração na instituição nunca foi dificultado, o que, em grande medida, se deveu à postura adotada (disponibilidade e interesse em participar nas rotinas;
fazer uso da sua escuta ativa; interesse genuíno quando alguma das pessoas a procurava), e a algumas das suas competências pessoais.
Tendo em consideração a dimensão dos problemas trabalhados, e na impossibilidade de serem referidos neste corpo de texto todos os indicadores de avaliação definidos, pede-se a leitura do Apêndice K. Acrescenta-se que estes foram delineados tendo em consideração os problemas definidos e os objetivos que se pretendiam alcançar com o desenvolvimento do projeto.