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2 SIGNIFICADO DA REVOLUÇÃO FRANCESA NA HISTÓRIA DA

3.2 Desenvolvimento e fases dos direitos humanos

A luta por direitos é uma constante que vem desde os primórdios da vida humana. Os primeiros conflitos entre grupos já demonstravam preocupações por direitos, seja pela alimentação, terra, mesmo favorecendo minorias, já se caracterizava como movimentos para a conquista de um espaço. Era comum que na pré-civilização cada grupo lutasse por si próprio, sendo que aos poucos se pensou no coletivo, no social. O que se pretende frisar é que as lutas assis- tidas pela humanidade sempre envolveram os direitos, independentemente pa- ra quem esses seriam destinados. Vários movimentos e fases deram resultado ao ordenamento que temos atualmente.

Edna Raquel Rodrigues Santos Hogemann (2011) estabelece que a preocupação com os direitos humanos teve seu início com a ordem burguesa, tendo como base as ideias da Revolução Francesa. Devido a essa revolução, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789 teve maior reper- cussão, no entanto, foram os Estados Unidos os pioneiros a declarar os direitos do homem, com a Declaração da Virgínia, em 1776. A Declaração de 1789 foi incorporada à constituição francesa de 1791, fazendo com que os direitos hu- manos fossem contemplados no direito constitucional moderno. Ressalte-se o perfil liberal dos direitos consagrados nas constituições burguesas, cuja con-

cepção revela-se formal e abstrata, sem considerar as condições materiais de sua aplicação. (Edna Raquel Rodrigues Santos Hogemann, 2011, [s.p.].

A partir desse primeiro momento foram criadas várias normas esparsas protegendo os direitos, embora com poucas soluções, como o tráfico de pes- soas e de armas. Com o avanço das diversas normas, os direitos humanos foram se incorporando ao direito internacional. Após a Segunda Guerra Mundi- al, houve a necessidade da criação de mecanismos mais eficazes para a pro- teção da pessoa humana das diversas nações. Com o momento da pós-guerra, foram criados laços internacionais que poderiam reforçar os direitos fundamen- tais, que necessitavam, com urgência, de leis abrangentes que os protegesse. Assim, foram criadas a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948; a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, em 1948, em Bogo- tá; a Convenção Americana dos Direitos do Homem, em 1969, em São José da Costa Rica. Mais do que a organização das leis dos países integrantes às con- venções, o que se procurou foi uma mudança de consciência, para haver uma efetiva mudança social.

José Damião de Lima Trindade (2002) cita a frase de Hitller, que os di- reitos humanos estão acima dos direitos do Estado. Enfatiza que falar em direi- tos humanos é fácil, havendo contradições na prática. O pensamento iluminista propagou a ideia de direito natural e, assim, liberdade e igualdade, o que de- sencadeou na constituição, que preservaria os direitos humanos. A liberdade estava associada à posse, assim como a igualdade, tendo privilégios quem tivesse propriedade. Os proprietários pertenciam à classe burguesa, que foi privilegiada com a Assembleia Constituinte.

O autor enfatiza a Segunda Revolução Francesa, que atingiu as massas, mas não diminuiu as contradições sociais. De um lado, estava a Direita, que tencionava moderar o sistema revolucionário, e, de outro, a Esquerda, que en- tendia ser fundamental uma revolução para não haver a volta do Antigo Regi- me. A Constituição de 1795 estabeleceu a preponderância social e política, envolvendo a burguesia e o capital. Com Napoleão Bonaparte, foi concluída a revolução burguesa e teve o início do regime burguês. Com a derrota de Napo- leão, em 1815, houve um período de restauração, tendo o reacionarismo com a Santa Aliança, envolvendo a Rússia, Prússia e a Áustria.

O mundo continuaria sendo conturbado com novas lutas, pois as con- quistas com as revoluções anteriores se voltavam apenas para pequenos gru- pos. Havia a necessidade de ser transformada a igualdade formal em liberdade real. O século XIX acompanhou a revolta dos trabalhadores ingleses e a aspi- ração do socialismo e outras manifestações que exigiam a igualdade das mas- sas. Em 1848, a Primavera dos Povos teve a presença popular internacional, os direitos humanos deixaram de ter conteúdo para as classes conscientes e a liberdade passou a ser associada à desigualdade. A liberdade pregada pela burguesia levou ao liberalismo e, esse, ao capitalismo, que significou a volta da escravidão.

Trindade ainda cita a Primavera Russa, de 1905, que deixou atordoada a aristocracia semifeudal, antiliberal e antioperária dos czares. A Revolução Mexicana, de 31 de janeiro de 1917, acentuou os direitos econômicos e soci- ais. A Rússia, em fevereiro, assiste a revolução democrático-burguesa e, em outubro, a revolução socialista. Em 4 de fevereiro de 1918 houve o III Congres- so Pan-Russo dos Sovietes de Deputados Operários, Soldados e Campone- ses, sendo proclamada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Ex- plorado, contrapondo proletário à Declaração Burguesa de 1789, iniciando a Primeira Constituição da República Socialista Federalista Soviética, da Rússia, em 10 de julho de 1918. A França e a Inglaterra, no final do século XVIII, repre- sentaram os países desenvolvidos econômica, cultural e militarmente. A Ale- manha teve sua crise econômica com o crack de 1929, tendo seu período de descontentamento com Hitller, assim como a Itália teve com Mussolini. Através das novas revoltas, o homem burguês passou a dar espaço ao que vive em sociedade, que trabalha e luta por seus direitos.

Gilmar Antônio Bedin (2002) estabelece que os direitos do homem foram colocados em definitivo nas agendas política e jurídica dos últimos anos, sendo que as lutas são anteriores. Os séculos XVIII, XIX e XX se caracterizaram co- mo tempo da evolução e da continuidade. No século XX, a história foi como um enigma, que pode mudar de direção. O reconhecimento dos direitos foi como um sinal de progresso. As ideias podem ser distintas, mas podem ir a uma mesma direção, chegando a um ponto comum. Citando o desenvolvimento dos direitos do homem, propõe a classificação que divide os direitos em gerações.

Os direitos de primeira geração, do século XVIII, são os civis, tendo sua origem com as revoluções. As Declarações de Direito de 1776, da Virgínia, e de 1789, da França, são os chamados direitos civis ou liberdades civis clássi- cas, considerados direitos negativos, estabelecidos contra o Estado. Houve a divisão entre a esfera pública, o Estado, e a sociedade privada, a civil. São di- reitos de primeira geração a liberdade física, contemplando a integridade física, o direito de locomoção, à segurança individual, à individualidade de domicílio, direitos de reunião e de associação e mais ainda, o direito à vida. Seguindo, a liberdade de expressão envolve a livre expressão e manifestação de pensa- mento, tendo destaque a liberdade de imprensa. Ligada à liberdade expressão e de pensamento está a liberdade de consciência, tendo sua formação através das várias correntes de pensamento. O direito à liberdade privada é um ponto forte, vindo das Declarações em geral, embora esteja passando por reformula- ções a fim de garantir os direitos sociais. Na lista dos direitos dessa geração ainda aparecem os da pessoa acusada, considerando os princípios da reserva legal, da presunção de inocência e do devido processo legal. A garantia desses direitos pode ser dada através da petição, que é uma forma de invocar o esta- do para que se manifeste sobre dada situação.

Os direitos de segunda geração, do século XIX, são os políticos ou liber- dades políticas. São direitos positivos, de participar do Estado, com nova pers- pectiva de liberdade, autonomia e participação do poder e da soberania nacio- nal. Constituem esses direitos o sufrágio universal, tendo seu surgimento no século XIX e, consolidação no século XX, que concede ao cidadão o direito de eleger, ser eleito e participar da organização e das atividades do poder estatal. Outro direito dessa geração é o de construir partidos políticos, sendo essa uma ideia recente, embora o direito seja mais antigo.

[...] o direito de constituir partidos políticos é bastante antigo, mas es- ses não existiram antes do século XIX e os partidos de esquerda sur- giram no final do século XIX e início do século XX. (BEDIN, 2002, p. 59).

Os direitos de terceira geração, do século XX, são os econômicos e so- ciais. O início do presente século teve a influência da Revolução Russa, da Constituição Mexicana, de 1917, e a Constituição de Weimar, de 1923. Os di- reitos garantidos por meio do Estado são os de crédito, voltados par ao socia- lismo e não mais para o capitalismo. O primeiro direito apontado é o relativo ao

homem trabalhador, referente ao produtor de bens e enquanto partícipe de uma relação empregatícia, compreendendo os direitos individuais e os coleti- vos. Depois, são citados os direitos relativos ao homem consumidor, compre- endendo o direito à seguridade social, à educação e à habitação.

Ainda são citados os direitos de quarta geração, na metade do século XX, também chamados de direitos de solidariedade, que tiveram como marco o ano de 1948. São direitos do homem no âmbito internacional. Não são direitos contra o Estado, de participar do Estado ou por meio do Estado, mas direitos sobre o Estado. A desnacionalização dos indivíduos surgiu de cartas e declara- ções internacionais Compreende o direito ao desenvolvimento, ligado ao fenô- meno do subdesenvolvimento, que entravava o reconhecimento e o respeito aos direitos do homem que levavam à solidariedade e à justiça. Também faz parte dessa geração o direito ao meio ambiente sadio, referente ao crescimen- to urbano e aos danos provocados à natureza, significando a luta por um ambi- ente saudável e equilibrado. “[...] o direito ao desenvolvimento é uma reivindi- cação dos países pobres em relação aos países ricos que, em termos geográ- ficos, se expressa na dicotomia norte/sul.” (BEDIN, 2002, p. 75).

O autor salienta que todos os direitos foram uma conquista da humani- dade. Cada direito que fora conquistado significou uma vitória. Mas sempre apareceram perigos, entraves. O neoliberalismo é apontado como problemas para uma sociedade que requer a intervenção estatal. Esse movimento eco- nômico, político e jurídico constituiu-se como um modelo, mas que pode levar à exclusão, não considerando o coletivo.

Cada época histórica teve suas necessidades e, assim, os direitos con- siderados prioritários. Atualmente, todas as gerações de direitos são funda- mentais, não se podendo optar por uma ou outra. A essas são podem ser so- mados ainda outros direitos que são imprescindíveis. O direito a um ambiente sustentável não era reconhecido quando se iniciou a discussão sobre direitos humanos. Hoje, está ligado à própria vida do homem, pois sem um ambiente sadio, não há qualidade de vida. Assim, com o desenvolvimento e o progresso serão somados outros direitos advindos das novas necessidades vindas com as mudanças sociais.

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