Capítulo 2 DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL DOS ADOLESCENTES NORMAIS E
3. DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL DO ADOLESCENTE NORMAL
Retomando o modelo de desenvolvimento psicossexual concebido por Freud, após a latência surge a puberdade com todas as transformações biofisiológicas que lhe estão associadas. Estas transformações vão ter profundas repercussões ao nível do corpo, o que requer um importante reajustamento quer da parte do adolescente a si próprio, quer das pessoas que o rodeiam « a este novo personagem » (Cordeiro, 1979) .As alterações bruscas que sofrem as proporções do corpo e os caracteres sexuais primários e secundários levam a uma alteração também brusca do esquema corporal : a antiga imagem de si próprio toma-se incompatível com a nova percepção que tem do seu aspecto físico actual. Esta remodelação provoca, em simultâneo, inquietação e interesse pelo seu corpo novo. O significado que o adolescente vai atribuir ao seu corpo novo condiciona todo um conjunto de atitudes em relação a si próprio e aos outros. Nem sempre é fácil apreender todas as modificações de um corpo que pode surgir como estranho, e enquanto alguns aceitam bem a nova imagem do seu corpo sexualizado, outros, pelo contrário, tentarão negá-la. O corpo, pelo importante papel que desempenha nas relações humanas, condiciona, também, a aceitação de si próprio. A atitude e os comentários que os outros têm em relação ao adolescente influenciam a imagem que este constrói de si próprio.adequado e positivo, o que a sociedade considera como próprio do seu sexo.
A maturidade sexual faz passar, também, para primeiro plano a genitalidade. O investimento libidinal é subtraído às emoções pré- genitais e concentra-se nos sentimentos e representações objectais de ordem genital (Freud, 1969) . A energia sexual é reactivada e, como tal, o desejo sexual
*Como afirma López & Fuertes (1989), entre os 6 e os 12 anos, devemos falar de uma dimensão sexual- afectivo sexual- , uma vez que o desejo sexual, enquanto tal, organizado e dirigido para a procura da satisfação sexual no outro, surge apenas a partir da puberdade.
intensifica-se.
Todas estas modificações vão, porém, criar uma instabilidade no Ego e no equilíbrio da fase anterior: é comum o jovem apresentar num dia um comportamento infantil e noutro um mais maduro, ou num momento ser dócil, amoroso, conformista e noutro ser agressivo, revoltado e independente. Segundo Anna Freud (1969) , esta alternância de comportamentos contraditórios é um processo de defesa do Ego para enfrentar o aumento dos impulsos sexuais. Esta intensificação dos impulsos sexuais , faz com que a passagem ao acto pareça normal; porém, se o Ego não for capaz de encontrar mecanismos de defesa perante esta intensificação, o adolescente pode ser dominado pelas forças instintivas, tornando-se impulsivo, incapaz de tolerar a frustração, preocupando-se apenas com a gratificação imediata dos seus desejos. O Ego vai ter que enfrentar, igualmente, o ressurgimento e a necessária reelaboração de todos os conflitos dos estádios anteriores. A revivência do conflito edipiano torna-se inevitável com toda a sua problemática de relações incestuosas e de hostilidade para com os pais. A maturidade sexual alcançada com a puberdade vai desencadear uma intensa angústia e culpabilidade o que provoca uma diminuição da auto-estima, comparável a uma ferida narcísica. Para resolver a perturbação do equilíbrio narcísico e reorganizar o seu sistema de relações com os pais, o adolescente vai ter que rejeitar, fazer o luto dos "imagos" parentais, isto é, desidealizar os pais. Mais especificamente, o adolescente vai ter que superar a sua dependência dos pais, conter, reorientar e reinvestir os seus impulsos agressivos e sexuais nos pares. Este desinvestimento dos pais que foram os objectos primários da sua adesão afectiva e sensual constitui uma perda que vai provocar um doloroso processo de luto, que por sua vez pode provocar uma série de regressões e progressões (Cordeiro, 1979).
Já anteriormente, Peter Bios (1962) tinha descrito a adolescência como um segundo processo de individuação, que consistia na aprendizagem, por parte do jovem, da necessidade de separar-se de alguns vínculos emocionais que o
ligavam aos pais, isto é, reconhecendo que a satisfação das suas necessidades emocionais e sexuais deve ser procurada fora da família. Este processo de separação em relação aos pais é acompanhada de inevitáveis sentimentos de isolamento, solidão e confusão, assim como por conflitos e labilidade emocional. O abandono de alguns vínculos afectivos com os pais, na opinião de Bios (1993), deixa livre determinada energia psíquica que pode ser reinvestida na amizade. O amigo íntimo com o qual o adolescente mantém uma relação de elevada
componente narcísica, de partilha de si, dos seus desejos e segredos, vai permitir- Ihe confirmar a sua identidade e ensaiar formas de relacionamento que irão facilitar, a médio prazo, o investimento heterossexual (Menezes , 1990). O amore a paixão, tão frequentes nesta fase, correspondem à necessidade de novas formas de relação para substituir a intensidade das ligações à família anteriormente existentes e para ultrapassar os sentimentos de perda que se lhe seguem (Bios, 1993).
Durante este processo de individuação-autonomia em que o adolescente desenvolve a capacidade de se separar dos pais e de se aproximar e identificar aos pares , podem surgir situações de acentuado conflito.
A desidealização dos pais, antes percebidos como autoridades poderosas e infalíveis, altera não só a estrutura de relações do adolescente com os pais, como também a imagem que tem de si próprio. Dado que duvida de si próprio, procura afirmar-se duma forma arrogante e por vezes agressiva, tenta chamar a atenção através das suas proezas e excentridades. Para ser ele mesmo, para se afirmar a si próprio, nesta situação nova para ele, vai ter que separar-se e diferenciar-se daquilo que tenha relação com a sua situação anterior (Menezes , 1990) . Estas manifestações de autonomia e afirmação assumem, no início, a forma de oposição e dirigem-se essencialmente aos país que, por sua vez, lhe recordam constantemente a sua infância, o que era antes, levando o adolescente a demonstar-lhes que mudou e que já não é a mesma pessoa. Em contraste com estes conflitos com os pais relacionados com a problemática da dependência/autonomia, os adolescentes têm uma atitude conformista em relação aos pares. Tentam parecer aquilo que não são, assumem comportamentos sexuais que lhes garantem a admiração dos pares. Adoptam estilos de vestir, de falar e de comportamento característicos do grupo de pares, o que lhes permite integrar-se neste, reforçando as suas semelhanças com os pares e, em simultâneo, diferenciar-se dos adultos.
Como já dissemos atrás, com o início da puberdade verificam-se muitas transformações nomeadamente no corpo, na imagem de si, nas emoções, no humor, nas relações com os pares e com a família, nos valores pessoais e sociais e nos projectos de vida. O desenvolvimento da capacidade de raciocinar formalmente durante a adolescência responde à necessidade de um nível superior de abstracção que permita a racionalização dos conflitos entre as expectativas interpessoais ou sociais e as idiossincráticas ou interpessoais. As novas competências incluem o pensamento hipotético e a consideração de
diversas possibilidades em relação a si próprio e ao futuro, o que permite ao adolescente repensar criticamente os seus valores, crenças e imagens do mundo (Costa, 1998).
Para aceder à vida adulta, o adolescente vai ter que realizar tarefas fundamentais como a da conquista da autonomia, a construção da identidade, a definição da orientação sexual e a elaboração de projectos de futuro.
A realização destas tarefas desenrola-se ao longo de três períodos distintos em que se pode dividir a adolescência.
No primeiro, verifica-se o arranque da puberdade e é caracterizado pela adaptação a um corpo que muda todos os dias. Estas alterações corporais podem ser vivenciadas de forma diferente de adolescente para adolescente. Sentimentos como a vergonha, a timidez, o pudor e a ansiedade podem surgir, nomeadamente em casa, perante os pais e os irmãos e na escola perante os colegas e as colegas. Estes sentimentos são naturais perante um corpo que se torna próximo do do adulto e em que acontecem coisas novas, implicando uma nova preservação do espaço pessoal, ao nível físico e social. No plano erótico, ocorre um aumento do desejo sexual e das fantasias que os jovens ainda não se sentem capazes de concretizar. O objecto de desejo são, frequentemente, ídolos ou pessoas que constituem modelos ideais para os jovens. Estas fantasias só progressivamente é que se vão objectivando noutros jovens mais próximos e concretos. A masturbação surge como uma forma de descoberta do corpo e de novas sensações e de permitir a descarga da tensão e a obtenção de prazer sexual. Desejo sexual e paixão amorosa inicialmente parecem ter dificuldades em convergir. O erotismo continua ainda autocentrado e, a maior parte das vezes, incapaz de integrar as relações afectivas que os jovens estabelecem (Félix, 1995) .
Os grupos de amigos continuam, na maioria dos casos, a ser monossexuais, essencialmente devido à necessidade psicológica de mostrar claramente a si próprio e aos outros que se pertence a um sexo bem definido, com características muito específicas e opostas ao outro sexo. A relação com o sexo oposto é, predominantemente, uma relação ambivalente de provocação e de distanciamento.
No segundo período da adolescência, as mudanças biofisiológicas e corporais continuam, mas a um ritmo mais lento e de uma forma mais suave. A timidez, o medo é muitas vezes substituído pelo risco, pelo desafio, pela aventura e pela experimentação da nova identidade pessoal e do novo corpo. A pouco e
pouco aproxima-se do outro sexo. A ambivalência característica da fase anterior tende a desaparecer para dar lugar a uma explicitação mais clara das preferências sexuais, quer em termos da orientação do desejo (hetero, homo ou bissexual), quer em termos de escolha de parceiros ou parceiras. As formas de expressão sexual são ainda experimentais, envolvendo, no entanto, um progressivo contacto físico e as primeiras experiências de relações heterossexuais e, nalguns casos, homossexuais. Os grupos tendem a ser partilhados pelos dois sexos, embora o grupo homossexual possa continuar a ser, em muitos casos, o grupo de pertença. Podem ocorrer as primeiras relações amorosas, muitas vezes sem carácter duradouro, em que as primeiras relações sexuais com penetração. Estas relações habitualmente não são programadas e são acompanhados por um elevado grau de expectativa e por uma sensação de desafio comum às coisas não vivenciadas e desejadas. Esta é uma situação em que o jovem se vê perante a necessidade de tomar decisões difíceis do tipo :«Quero ou não envolver-me em determinadas relações?».
Como consequência destes acontecimentos, vão-se consolidando os sentimentos, as atitudes e os valores pessoais face à sexualidade, assim como a compreensão dos papeis sexuais masculinos e femininos. É verdade que para tal também contribui a forma como os pais e os familiares mais próximos reagem em relação à sexualidade dos rapazes e das raparigas, ou em relação a coisas tão importantes como o grau de liberdade e autonomia, à repartição de tarefas domésticas..., influenciando por este meio a consolidação de sentimentos e de atitudes de dominação ou de igualdade entre os sexos. Igualmente a partir de agora, afectos como atracção interpessoal, o desejo, a paixão, o amor, a ternura associam-se em maior ou menor grau, em simultâneo ou alternadamente ao desejo sexual (Zapian, 1993).
No último período da adolescência, com as mudanças pubertárias já concluídas, o corpo torna-se praticamente adulto e a vivência sexual dos jovens assume muitos dos traços da sexualidade adulta. Estabelecem-se relações amorosas duradouras nas quais podem ocorrer relações sexuais. Alguns jovens casam ou coabitam, completando assim o seu processo de autonomia face às famílias de origem. Outros, desenvolvem essas relações continuando a partilhar o seu quotidiano com as famílias, sujeitando-se a uma maior ou menor interferência destas na sua intimidade. Consolidam-se um conjunto de atitudes, valores, face à sexualidade e ao amor, nomeadamente no que se refere aos papeis masculinos e femininos e às normas de relacionamento entre os sexos. Os
sentimentos tornam-se mais estáveis e os jovens, agora mais autónomos, tornam- se mais capazes de tomar decisões no que diz respeito à sua vida em geral e à sexualidade em particular. Os grupos integram os dois sexos e vão evoluindo cada vez mais, de modo a incluir as relações do casal que os seus membros vão constituindo. Define-se e consolida-se a orientação do desejo sexual num processo que envolve as fantasias, os desejos, as atracções e os relacionamentos (Félix, 1995).
Conforme o sexo do objecto sexual preferido, este pode ser heterossexual, homossexual ou bissexual. No entanto, para alguns homossexuais ou bissexuais este processo torna-se mais doloroso e complexo, uma vez que os seus desejos estão em contradição com as normas dominantes, levando-os a interrogarem-se sobre a "normalidade" dos seus sentimentos e a certeza das suas preferências. Mais, não conseguem, além disso, com facilidade encontrar pessoas com quem possam partilhar os seus segredos ou a quem possam pedir ajuda.
4. DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL DA