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Desenvolvimento sustentável e sustentabilidade

3 PERSPECTIVAS: A CONCRETIZAÇÃODA CIDADE LEGAL E SUSTENTÁVEL

3.1 Instrumentos técnicos e jurídicos para implementação do desenvolvimento

3.1.1 Desenvolvimento sustentável e sustentabilidade

É comum assinalar que a crise ambiental começou com a Revolução Industrial na Inglaterra, em 1750, e deu origem ao que mais tarde seria conhecida como Civilização Industrial. No entanto, a sua percepção e conceitualização, enquanto problemática social e política global, é próprio da história recente. A discussão sobre a superação da crise socioambiental foi um fenômeno instalado no imaginário social mundial, em um processo dialético de construção e socialização, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial.

Considera-se geralmente que o grande marco que colocou este problema na agenda pública mundial foi a realização, pela Organização das Nações Unidas (ONU), da Primeira Conferência sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, 1972.Alguns autores ainda apontam que a origem bem sucedida do debate da política ambiental global deva considerar, juntamente com a conclusão da Conferência de Estocolmo, a realização, em 1970, do “Dia da Terra”, nos Estados Unidos, quando os cidadãos foram chamados para lutar contra a poluição que os afetava, e a publicação do relatório do Clube de Roma, Os Limites do Crescimento, em 1972.

Foi, inclusive, esse informe do Clube de Roma publicado em 1972 sob a denominação Os Limites do Crescimento que apresentou, em escala mundial, a

ideia de sustentabilidade e uma visão crítica da ideologia do crescimento sem regramentos, fazendo soar o alarme dos limites físicos do planeta para prosseguir a marcha cumulativa da contaminação e explosão demográfica. Previa o fim da civilização caso não estabilizasse o crescimento econômico e populacional em âmbito mundial, uma vez que o planeta apresentava barreiras físicas intransponíveis, incapazes de suportar o aumento e exploração dos recursos naturais tal como vinha ocorrendo (MEADOWS; MEADOWS, 2008).

Mas o desenvolvimento sustentável tem suas raízes no Relatório Brundtland ou “Nosso Futuro Comum”, publicado em 1987 na Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Para Tybusch e Araújo (2013, p. 42),

O ser humano responsável ambientalmente é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades. A busca do desenvolvimento sustentável requer a união de diversos sistemas: político, econômico, social, administrativo e de produção. Promover o desenvolvimento sustentável é promover a consciência ecológica.

E com a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, celebrada no Rio de Janeiro, em 1992, o discurso de desenvolvimento sustentável foi oficializado e amplamente difundido. Desde então, o mundo vem realizando, a cada 10 anos, conferências para analisar o andamento das políticas socioambientais, seus avanços e, infelizmente, também seus retrocessos.5 Até porque, como diz Sachs (2013), continuamos na trilha de um desenvolvimento social ruinoso, com poucas exceções, muito embora o balanço não seja unicamente constituído de elementos negativos. Do lado positivo podemos registrar uma conscientização da gravidade do problema ambiental e sua relação com o problema social.

O desenvolvimento sustentável surge, assim, como uma reação ao estilo de desenvolvimento ecologicamente predatório na utilização dos recursos naturais, socialmente perverso com geração de pobreza e extrema desigualdade social, politicamente injusto com concentração e abuso de poder, culturalmente alienado em relação aos seus próprios valores e eticamente censurável no respeito aos direitos humanos e aos direitos das demais espécies. Trata-se de um modelo econômico, político, social, cultural e ambiental equilibrado, que satisfaça as

necessidades das gerações atuais, sem comprometer a das gerações futuras. Como bem coloca Leff (2006, p. 137), um desenvolvimento “que permite satisfazer as necessidades da população atual sem comprometer a capacidade de atender às gerações futuras”. Mais, o

desenvolvimento sustentável não significa somente a conservação dos nossos recursos naturais, mas sobretudo um planejamento territorial, das áreas urbanas e rurais, um gerenciamento dos recursos naturais, um controle e estímulo às práticas culturais, à saúde, alimentação e sobretudo qualidade de vida, com distribuição justa de renda per capita (CARRERA, 2005, p. 07).

Sachs (2007, p. 12) complementa ao defender que o desenvolvimento no cenário atual significa a “superação da heterogeneidade social”. Ainda, destaca que entre as muitas definições de desenvolvimento6 existentes é imprescindível adotar a

ideia de

efetivação universal do conjunto dos direitos humanos, desde os direitos políticos e cívicos, passando pelos direitos econômicos, sociais e culturais, e terminando nos direitos ditos coletivos, entre os quais está por exemplo, o direito a um meio ambiente saudável.

O desenvolvimento sustentável, desse modo, pressupõe a evolução em todas as esferas, de forma a suprir as necessidades dos homens sem com isso afetar os recursos ambientais e comprometer a sustentabilidade. Consiste, portanto,

na exploração equilibrada dos recursos naturais, nos limites da satisfação das necessidades do bem-estar da presente geração, assim como de sua conservação no interesse das gerações futuras. Requer como seu requisito indispensável, um crescimento econômico que envolva equitativa redistribuição dos resultados do processo produtivo e a erradicação da pobreza, de forma a reduzir as disparidades nos padrões de vida e melhor entendimento da maioria da população (SILVA, 2009, p. 26/27).

6 Sachs propõe desenvolvimento sem adjetivos porque hoje, para atender a diplomacia, o certo é desenvolvimento econômico-social-político-cultural-sustentável e humano. O debate começou a meio século atrás e desenvolvimento era sinônimo de crescimento econômico. Depois as pessoas deram- se por conta de que não poderiam insistir apenas no crescimento econômico, pois existia o social. Na sequência os politógolos ressaltaram a importância da política e os antropólogos o aspecto cultural. Passou-se a ter um desenvolvimento econômico social-cultural-político. Não bastasse, veio a revolução ambiental com o eco-desenvolvimento e, mais tarde, o desenvolvimento ecologicamente sustentável. Ultimamente o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) considerou ainda que devemos acrescentar o adjetivo humano. A proposta de Sachs é acabar com os adjetivos e redefinir o pensamento sobre desenvolvimento.

Ou seja, e de acordo com a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que originou o Relatório Brundtland, em 1987, o desenvolvimento sustentável depende de três componentes fundamentais: proteção ambiental, crescimento econômico e equidade social.

Por outro lado, tal modelo de desenvolvimento, muito embora geralmente apareça como sinônimo de sustentabilidade, não o é.

A ambivalência do discurso do desenvolvimento sustentado/sustentável se expressa já na polissemia do termo sustainability, que integra dois significados: o primeiro, traduzível como sustentabilidade, implica a incorporação das condições ecológicas – renovabilidade da natureza, diluição de contaminadores, dispersão de dejetos – do processo econômico; o segundo, que se traduz como desenvolvimento sustentado, implica a perdurabilidade no tempo do progresso econômico (LEFF, 2006, p. 137).

Ao passo que o desenvolvimento sustentável versa em usar os recursos naturais respeitando o meio ambiente e os seres vivos que o integram, logo, perpassa por um desenvolvimento que reconhece os limites dos recursos naturais e concilia o crescimento econômico à preservação da natureza; a sustentabilidade é a apenas a manutenção do status quo ante os diversos ambientes: natural, artificial, do trabalho, cultural, genético, sendo que

[...] quando usarmos o termo sustentabilidade deve estar implícita a expressão sociedades sustentáveis, pois abrange a integridade dos recursos e processos ambientais naturais, com base em sistemas políticos plurais (democráticos). [...] a perspectiva de um mundo ambientalmente sadio, onde as diversidades biológica, cultural, étnica, racial e religiosa são parte integrante dos pressupostos da sustentabilidade (BORN, 2003, p.109).

Entre tantas, uma das abordagens mais importantes sobre as dimensões da sustentabilidade nos últimos anos é a de Sachs (2002), que assim se apresenta: 1) a social, propõe homogeneidade social, distribuição de renda justa, qualidade de vida e igualdade social; 2) a cultural, sugere equilíbrio, tradição e inovação, autonomia na elaboração de projetos nacionais integrados e a combinação entre confiança e abertura para o mundo; 3) a ecológica, sugere a preservação do capital natural e a limitação no uso desses recursos; 4) a ambiental, engloba o respeito aos ecossistemas naturais; 5) a territorial, trata do equilíbrio entre as configurações urbanas e rurais, da melhoria do ambiente urbano e das estratégias de desenvolvimento de regiões; 6) a econômica, aborda o equilíbrio econômico entre setores, a segurança alimentar, a modernização dos meios produtivos, a realização

de pesquisas científicas e tecnológicas e a inserção na economia internacional; 7) a política nacional, envolve a democracia, os direitos humanos e a implantação de projetos nacionais em parceria com os empreendedores; 8) por fim, a dimensão política internacional, trata da promoção da paz e da cooperação internacional, do controle financeiro internacional, da gestão da diversidade natural e cultural e da cooperação científica e tecnológica.

As oito dimensões da sustentabilidade propostas por Sachs (2002) permitem visualizar os elementos envolvidos e afetados pelas interações existentes em um contexto de desenvolvimento territorial ou regional, contudo, na perspectiva organizacional, os critérios abordados não são claros. Como exemplo, destaca-se o critério que trata da distribuição de renda justa, encontrado dentro da dimensão social, mas que poderia estar contemplado não somente, mas principalmente, na dimensão econômica, ou, ainda, o critério da segurança alimentar, que se encontra dentro da dimensão econômica, mas que poderia compor, principalmente, a dimensão social e/ou política.

As diferentes compreensões ocorrem em razão das interpretações que envolvem os estudos da sustentabilidade, mas restam longe de definir o certo e o errado. O que se pode afirmar é que de todas as dimensões para sustentabilidade, três delas são consensuais entre autores, quais seja, a econômica, a social e a ambiental, e vão ao encontro dos componentes do desenvolvimento sustentável.

A tentativa de compatibilização entre desenvolvimento e sustentabilidade envolvendo processos econômico-social-político-cultural e humano foi objeto de uma série de críticas e conflitos na agenda da sustentabilidade dos anos 90. Instrumentos técnicos jurídicos foram elaborados e aprovados, prefigurando uma estratégia discursiva para dissolver ou, ao menos amenizar, as contradições entre meio ambiente e desenvolvimento. Entre eles destacam-se pela importância que assumem para a tomada de decisão nas políticas públicas brasileiras atuais: a Agenda 21 e o Estatuto da Cidade7.