1. O design como reflexo do comportamento social
1.3 Design, identidade e representação social
De acordo com Hall (2005), existem três concepções do sujeito influindo na identidade, sendo eles a concepção do sujeito do Iluminismo, do sujeito sociológico e do sujeito pós-‐ moderno. As concepções explicitadas por Hall (2005) ajudam-‐nos a compreender o cerne desta pesquisa, que, em suma, aborda a transposição e uso de linguagens produzidas dentro de grupos excêntricos e usados como interface gráfica para a comunicação empresarial entre indivíduos não pertencentes aos grupos sociais onde a linguagem se origina, mediado pelo design tipográfico. Nesse sentido, esta seção não tem a pretensão de se aprofundar na teoria social acerca das identidades e sim possibilitar que façamos um paralelo entre a teoria social exposta por Hall (2005) acerca das questões relativas à identidade e as transformações percebidas em decorrência da evolução do design tipográfico na transição do século XX ao XXI.
A definição proposta por Hall (2005), sobre o sujeito do Iluminismo, descreve um indivíduo caracterizado pelo individualismo, visto que sua identidade se estabelecia no momento do seu nascimento e se desenvolvia durante a sua vida. Já a noção de sujeito sociológico refletia a complexidade do mundo moderno e a compreensão de que sua identidade não poderia ser autônoma e independente e sim a soma das relações com outros indivíduos relevantes a ele, que mediavam, para o sujeito, os valores, sentidos e a cultura do universo ao qual ele/ela pertenciam. Hall (2005) afirma que, no sujeito sociológico, sua identidade é formada pela interação entre o eu e a sociedade. Nele o sujeito possui uma essência, que a todo instante é formada e modificada por um diálogo contínuo com culturas distintas a sua de origem. Isso pode ser claramente observado nos projetos de design oriundos do Estilo Internacional, desenvolvido nas escolas de design europeias. O design tipográfico produzido por essas escolas traduzem bem esse conceito de pluralidade explicitado por Hall (2005) sobre o sujeito sociológico, o que pode ser claramente observado, por exemplo, nos projetos desenvolvidos por Adrian Frutiger, mais notadamente na fonte tipográfica Univers (Figura 23).
Figura 23 – Fonte tipográfica Univers, criada por Adrian Frutiger na década de 1960.
Fonte: Dodd, 2006, p.135.
A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior”— entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-‐os “parte de nós”, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, “sutura”) o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis. (HALL, 2005, p.13).
Hall (2005) afirma que, devido a esse cenário, o sujeito que, anteriormente, poderia ser caracterizado por possuir uma identidade unificada e estável, agora se estabelece como detentor de uma identidade fragmentada, constituída não somente de uma única, mas do resultado de interações entre diversas identidades, até mesmo contraditórias entre si e identidades ainda não resolvidas. Esse processo é característico do sujeito pós-‐ moderno, que não se constitui a partir de uma identidade fixa e permanente.
A identidade torna-‐se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. (HALL, 1987 apud HALL, 2005, p.13).
Assim, o sujeito assume identidades distintas, de acordo com o contexto no qual ele se encontra inserido em um dado instante. Essa pluralidade de possibilidades de identificação demarca um território em constante adaptação, visto que, de acordo com
Hall (2005), essas identidades não se consolidam entre si, podendo apontar para caminhos opostos.
A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada unia das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. (HALL, 2005, p.13).
Santos (2001) afirma que, na contemporaneidade, as identidades culturais não podem ser caracterizadas como sendo algo rígido e imutável, por serem o resultado de processos de identificação essencialmente voláteis.
Mesmo as identidades aparentemente mais sólidas, como as de mulher, homem, país africano, país latino-‐americano ou país europeu, escondem negociações de sentido, jogos de polissemia, choques de temporalidades em constante processo de transformação, responsáveis em última instância pela sucessão de configurações hermenêuticas que de época para época dão corpo e vida a tais identidades. Identidades são, pois, identificações em curso. (SANTOS, 2001, p.135).
Tendo como princípio que o design articula-‐se a todo instante com o contexto social e tem o seu desenvolvimento impregnado pelas questões relativas ao comportamento social, faz-‐se necessária, neste momento, uma pequena introdução acerca da teoria das representações sociais que, em conjunto com as questões relativas à formação de identidades, trazem à tona a influência das experiências sociais vividas pelos designers no desenvolvimento dos seus projetos. De acordo com Tavares (2004), os seres humanos vivem embrenhados em um mundo social bastante complexo, sempre mediado pela linguagem. Entre muitas formas de comunicação possíveis, a linguagem é que possibilita a criação, a modificação e a ampliação das representações. Ainda de acordo com Tavares (2004), cada indivíduo de um grupo constitui uma representação, que a recebe e transmite por meio da comunicação. Dessa forma, as representações individuais podem se converter em representações coletivas, e o contrário também pode acontecer.
Elias (1994) afirma que cada pessoa está presa por viver em permanente dependência funcional de outras. O indivíduo é um elo nas cadeias que ligam outras pessoas, assim como todas as demais, direta ou indiretamente, são elos nas cadeias que a prendem. Essas cadeias se configuram subjetivamente e, por conseguinte, são mais elásticas, mas variáveis, mais mutáveis, porém não menos reais. Ainda de acordo com Elias (1994), é a essa rede de funções que as pessoas desempenham umas em relação às outras, a ela e
nada mais, que chamamos “sociedade”. Ela representa um tipo especial de esfera, com estruturas denominadas “estruturas sociais”. E, ao falarmos de “leis sociais” ou “regularidades sociais”, não nos referimos a outra coisa senão a isto: leis autônomas das relações entre pessoas individualmente consideradas.
Arruda (2002) afirma que, nas sociedades contemporâneas, é necessário compreender a diferenças como especificidade. Como acontece nos movimentos minoritários, a representação social seria uma forma de conhecer típica dessas sociedades, cuja velocidade vertiginosa da informação obriga a um processamento constante do novo, que não abre espaço nem tempo para a cristalização de tradições, processamento que se desenvolve no olhar de quem vê. A representação social, portanto, não se configura como uma cópia da sociedade e sim uma tradução, assim como o design, que, em uma de suas vertentes, se estabelece como uma interface de comunicação, impregnada de valores semânticos, com o objetivo de viabilizar a receptividade da mensagem.
A partir dos conceitos expostos, percebe-‐se que as transformações na criação e uso do design tipográfico na transição do século XX ao XXI estão notadamente relacionadas com as transformações sociais vivenciadas pelos designers. Dodd (2006) aponta que por mais de quarenta anos a tipografia e o design gráfico estiveram apoiados nos dogmas do Estilo Internacional. A inibição das representações emocionais pela racionalidade modernista, apoiada pelo constante aprimoramento teórico nas relações comunicacionais, criou a base para que essas transformações de linguagem no design gráfico fossem possíveis, assim como as modificações relativas a identidades propostas por Hall (2005), observadas na transição do conceito de identidade do sujeito sociológico para o sujeito pós-‐moderno.
Como já foi descrito anteriormente, esse reflexo social, aqui notadamente evidenciado na criação e uso do design tipográfico, pode ser visto primeiramente nos trabalhos desenvolvidos pela dupla Odermatt & Tissi, na Suíça, durante a década de 1960. O caminho percorrido, desde então, nos traz a possibilidade da quebra de paradigmas estabelecidos pelas escolas de design e propicia um trabalho composto pela aglutinação de diversas linguagens gráficas, resultado da influência do contexto social nos designers gráficos.
CAPÍTULO 2
2. A constituição dos movimentos culturais urbanos no século XX