172 Dessa análise, coube questionar porque o José escolheu integrar este grupo, já

No documento Alunos em ambientes de modelagem matemática: caracterização do envolvimento a partir da relação com background e o foreground (páginas 173-176)

que ele não tinha familiaridade com o tema do projeto. Na entrevista, ele explicou:

Foi a convite dela [Maria Estela], [...]. A gente, como estava no começo do curso, estava conversando muito, várias afinidades, [...]. Apesar do meu tema, que eu tinha sugerido e, depois, outras pessoas aderiram a esse tema, e eu acabei ficando de fora. Foi transporte público, sabe, que é uma coisa que é mais notória, assim. Você vê que a cidade está um caos e tal, que ninguém consegue circular por causa do transporte. Acabei indo para o grupo dela. Mas isso... até outras pessoas compartilham a respeito, sabe, não entendia muito bem o que era pra fazer e tal, [...].(JOSÉ, ENTREVISTA, 04/11/2011) Dessa forma, compreendo que a boa razão (ALRØ; SKOVSMOSE, 1996) para o José integrar tal grupo era constituir amizades naquele primeiro período do curso. Para ele, naquele momento, isso era mais importante que integrar um grupo, cujo tema fosse de seu interesse.

O caso do José vem ao encontro da minha hipótese, de que o envolvimento dos alunos no ambiente de modelagem é influenciado por inúmeros fatores. Neste caso, o envolvimento do José não é uma consequência do interesse pelo tema, como já foi defendido em alguns estudos na área (ARAÚJO 2002; BARBOSA, 2001; BASSANEZI, 2004; BORBA; MENEGHETTI; HERMINI, 1999; JACOBINI, 2004; MALHEIROS, 2009).

Pra mim, ficou claro que o José não estabelecia uma relação do tema da atividade com aspectos do seu background e foreground (SKOVSMOSE, et. al., 2009). Suas expectativas estavam relacionadas ao seu envolvimento no desenvolvimento do projeto de modelagem. A meu ver, essa foi a razão de agir (CHARLOT, 2000) do José no desenvolvimento do projeto, principalmente quando ele sentiu que estava sendo excluído pela Maria Estela.

Nesse caso, não ter muito conhecimento ou interesse pelo tema do projeto de modelagem não implicou em seu desinteresse em desenvolver o projeto de modelagem. Mas, a meu ver, a não familiaridade do José com o tema do projeto favoreceu certo desconforto em relação a seu envolvimento no desenvolvimento do projeto.

O José demonstrou não ter entendido o tema do projeto, como já tratei acima. E, a Maria Estela demonstrou certo afastamento em relação ao que já havia sido desenvolvido da parte da matemática. Para isso ficar mais claro, retomo as falas (137) e (139) da Maria Estela:

Porque na verdade ele refez, a gente refez essas tabelas aí. Quem fez essas tabelas?

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Uai! Mas então, a gente não vai usar essas, não? [Fala (139)]

Na terceira reunião, como pode ser compreendido a partir dos episódios 6, no momento em que a tutora-orientadora estava analisando os slides, destacou a falta da parte matemática. Isso levou a Maria Estela a solicitar a participação do José. Retomo os dados, para explicitar melhor meu entendimento:

Porque, assim, eu não entendi direito que gráfico é esse, José. [Tutora-orientadora:

Fala (153)]

Pois é. Cadê a função? [Maria Estela: Fala (154)] Que gráfico é esse, José? [Tutora-orientadora: Fala (155)] Foi o gráfico baseado na tabela que fizemos no dia 6. [José: Fala (156)]

Mas, cadê a função que chegou na média? [Maria Estela: Fala (157)]

Também é possível perceber a não concordância da tutora-orientadora com o que o José fez. Diante dessa situação, a Maria Estela passou a vislumbrar a atuação do José, como se ele estivesse pouco interessado. Retomo a fala (179), por meio da qual é possível compreender isto:

Porque se eu não tomar a frente das coisas e não faço, a parte do trabalho escrito foi isso; daí essa parte dos gráficos e da tabela não estar saindo, por causa disso; porque

não tem ninguém a frente que chegue e fale, porque trabalhar em grupo é assim mesmo. Então, é muito complicado, né?

Porque a intensidade dos interesses é diferente. [fala (179)]

Mais que isso, a Maria Estela passou a dar menos credibilidade à atuação do José, como pode ser percebido pela fala (167):

José, você não pode ficar fazendo tudo [fala (167)]

No episódio 7, a Maria Estela demonstrou sentir segurança sobre o que precisava fazer em relação à parte matemática. Isso se deu após a explicação da tutora-orientadora. Ao mesmo tempo, o José assumiu a discussão, explicando e buscando entender mais sobre o que foi feito pelo grupo em relação à parte matemática.

Na fala (193), a Maria Estela explicita que está assumindo a responsabilidade em fazer o que faltava para concluir o trabalho do grupo:

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Eu vou sentar amanhã, vou passar o dia inteiro fazendo isso, vou fazer esses slides da apresentação, ver o que é que já tem aqui, complementar. [Fala (193]

Sentindo-se segura, quanto à parte matemática, e, assumindo a responsabilidade em desenvolvê-la, a Maria Estela acabou excluindo a participação do José. Mas, este novamente não se “acomodou” e continuou atuando no trabalho. Na minha compreensão, o José reagiu à ação da Maria Estela, não permitindo que ela anulasse a sua participação no trabalho, como pode ser percebido na fala (207):

Deixa eu prestar atenção também. [Fala (207)]

Mesmo diante da ação do José, a Maria Estela continuou assumindo a responsabilidade em relação à parte da matemática como pode ser percebido em momento posterior a esse, na fala (249):

O que eu estou pensando em fazer aqui é pegar a população de Minas, dividir pelo gasto por parte da saúde; vou achar o gasto per capita. Depois o que é que eu vou fazer: exatamente esses passos aqui. E aí sim, eu vou ter aquele dado que ela talvez

queira, um cálculo “desses cabulosos” no meu trabalho. [Fala (249)]

A análise da fala (249) faz entender também que a Maria Estela estava insatisfeita com o que foi obtido matematicamente. Isso pode ser compreendido também pela fala (240):

Agora me deixa entender aqui. Como é que a gente pode colocar isso aqui no cálculo?

[Fala (240)]

A meu ver, a Maria Estela já não confiava na possibilidade do José desenvolver a parte matemática. Diante disso, optou por buscar entender o que fazer e excluir o José dessa responsabilidade. A não confiança da Maria Estela no José, para mim, modificou seu foreground (SKOVSMOSE, et. al., 2009) em relação à matemática, pois teria que atuar nessa parte. E mais: também limitou o envolvimento do José no desenvolvimento do projeto de modelagem.

Em síntese, a análise desta categoria me leva a considerar que o envolvimento do José esteve condicionado a três principais fatores e a relação entre ele, a saber:

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No documento Alunos em ambientes de modelagem matemática: caracterização do envolvimento a partir da relação com background e o foreground (páginas 173-176)