3 O CONSERVADORISMO MODERNO NA ESTRUTURAÇÃO DA ÁREA DE ARTES PLÁSTICAS NA ESCOLA DE MÚSICA E BELAS ARTES DO PARANÁ
3.2 SELEÇÃO DOS PROFESSORES-FUNDADORES
3.2.3 Destaques nos campos da arte e da educação
A preocupação inicial foi identificar a movimentação dos professores-fundadores no meio artístico. O recorte temporal foi delimitado a partir das primeiras exposições individuais e segue até o momento em que foram indicados para comporem o quadro de docentes, em 1947. Nesse sentido, procurou-se compreender as produções artísticas que estavam em evidência e se tal condição pôde contribuir para a construção do quadro de docentes de artes plásticas da EMBAP.
Da trajetória coletiva dos professores-fundadores buscou-se identificar pontos de interseção em suas carreiras, considerando os mecanismos de consagração, a lógica do campo artístico da época e os grupos organizados que representavam a arte do Paraná na década de 1940.
O quadro abaixo (quadro 17), mostra uma síntese da produção dos professores-fundadores da EMBAP.
Quanto às filiações, as produções artísticas da maioria dos professores-fundadores situam-se no “objetivismo visual”, termo cunhado pela crítica de arte Adalice Araújo e já discutido no tópico 2.3.1. Em suas palavras:
Foi o Paraná de certa forma privilegiado por não ter passado por uma forma rigidamente acadêmica, como ocorreu em outros Estados brasileiros. Como fruto da contribuição de Mariano de Lima e Alfredo Andersen, dentro do objetivismo visual, de tendência realista, é que estaria situada a produção dos artistas plásticos paranaenses das primeiras gerações do século XX (ARAUJO, 1976, p. 24).
Fazendo parte desta classificação se encontravam as produções artísticas de Theodoro de Bona, Athur Nísio, Freyesleben, Traple, Woiski e Peon. Ainda pertencendo ao objetivismo visual houve uma parcela de artistas, como Lange de Morretes, Turin e Oswald Lopes, que destinaram parte de suas produções para a vertente paranista. Para Adalice Araújo (1976, p. 25), “o espírito inovador deste último não irá, porém, se manifestar na pintura, mas sim no âmbito da programação visual”.
Araújo classifica o Paranismo nas artes plásticas como um movimento pré-modernista do estado do Paraná.
QUADRO 17: PROFESSORES-FUNDADORES DA EMBAP. QUADRO PROSOPOGRÁFICO DO DEPARTAMENTO DE ARTES PLÁSTICAS – PARTE 2. FONTE: TABELA COMPILADA PELO AUTOR, JAN.
2017.
A pinha e o pinhão formaram uma estética própria no paranismo, sendo exploradas em composições harmônicas, lineares, em que a repetição e a simetria ganharam destaque. Cada artista, à sua maneira, procurou uma forma de se expressar dentro das premissas de valorização do Paraná e da possibilidade simbólica que os elementos escolhidos pudessem proporcionar. David Carneiro e Osvaldo Pilotto também se aproximaram do Paranismo, embora não tenham produzido em artes plásticas.
O surgimento do Paranismo nas artes plásticas foi decorrente de um desejo de aproximação da modernidade. Todavia, na década de 1940 a visão de modernidade nas artes plásticas já havia mudado. No modernismo, a instabilidade de valores, de regras e padrões, ao mesmo tempo em que é desejada, provocam em certa medida uma insegurança, retirando certezas que, em muitos casos, haviam acabado de ser construídas. No Paraná, o modernismo não foi considerado um movimento organizado, mas viu-se refletido nas produções de artistas que se identificavam com a arte de vanguarda europeia.
Nesse sentido, as produções ligadas ao objetivismo visual, abrangendo inclusive o Paranismo, na década de 1940 passaram a ser relacionadas de forma pejorativa com a “tradição” em artes plásticas. O modernismo73 no Paraná, por sua vez, ganhou visibilidade na produção de artistas como Guido Viaro e Poty Lazarotto.
Viaro se assumiu como artista moderno desde sua chegada em Curitiba em 1930 e reforçou essa postura durante toda sua trajetória na arte e na educação74 (OSINSKI, 2006).
Para Adalice Araújo, a obra de Viaro se encontra na vertente modernista com aproximação da estética expressionista. Sua produção artística visual se encaixa ainda no humanismo. “Partindo de um humanismo social, suas figuras são dramáticas e o espaço em que se movem é tridimensional. [...] Com visão subjetiva, respeita a integridade dos seres, embora variem as técnicas e temas” (ARAÚJO, 1976, p. 42).
73 Em função das diferenças entre os termos modernidade, modernização e modernismo, utiliza-se nessa teutiliza-se a expressão modernismo para tratar da produção artísticas no Paraná, embora nas fontes apareceram em muitos momentos termos como: a produção moderna, os modernos ou a modernidade no Paraná.
74 Para aprofundar as questões sobre a modernidade na obra de Guido Viaro, ver a tese “Guido Viaro: modernidade na arte e na educação” de Dulce Regina Baggio Osinski, defendida em 2006.
A modernidade na educação brasileira, por sua vez, esteve ligada ao Movimento pela Escola Nova (MEN). Do grupo estudado, Erasmo Pílotto foi um dos intelectuais do Paraná que defendeu os princípios do MEN. De acordo com Vieira,
O MEN representou, em escala mundial, a expressão mais forte da presença do ethos da modernidade no campo educacional, pois esse movimento impulsionou sua retórica de maneira a afirmar a ciência como a principal fonte para o trabalho pedagógico (VIEIRA, 2011, p.
41).
Entretanto, Pilotto não aderiu completamente às tendências teóricas hegemônicas do MEN, mantendo referências anteriores, entre as quais valorizou as ideias de teóricos como Tolstói, Rousseu e Pestalozzi. No plano das organizações culturais, Pilotto colaborou com a criação do Grupo Editorial Renascimento do Paraná (GERPA), com a publicação da revista Joaquim, com a fundação da Sociedade de Cultura Artística Brasílio Itiberê (SCABI) e com a criação do Salão Paranaense de Belas Artes (VEIRA, 2011).
Os professores-fundadores participavam de várias associações, configurando uma ampla rede de sociabilidades. Dentre suas agremiações, as que tiveram maior adesão dos professores-fundadores de artes plásticas da EMBAP foram: a SAP, o CLP, a SAAA e a SCABI (quadro 17). Todas as associações tinham como propósito desenvolver a cultura do Estado e estavam empenhadas em criar a Escola Oficial de Arte.
As premiações, sobretudo as do Salão Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e do Salão Paranaense de Belas Artes, em Curitiba, conferiam distinção a quem as conquistasse. As demais participações em exposições e salões somavam-se às atividades no campo da arte, configurando instâncias de consagração, em um primeiro momento, das obras de arte, com indicação de preferências estéticas e por consequência de trajetórias artísticas, agregando valor simbólico aos currículos artísticos pessoais a cada evento que participavam.
Todos os professores-artistas realizaram exposições individuais, participaram de exposições coletivas e de salões de arte. Não obstante, as exposições aqui apresentadas foram selecionadas a partir do critério de maior representatividade do grupo ou da própria projeção do evento, não pretendendo em momento algum dar conta da totalidade das produções individuais.
O tradicional Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro75, um dos eventos de maior expressão do período no Brasil, teve a participação de representantes do Paraná em diversas edições. Em 1927, Lange de Morretes recebeu medalha de bronze. Em 1934, Traple recebeu medalha de bronze em pintura. Em 1939, o evento contou com a participação de Theodoro De Bona. Em 1941, na 47ª Edição, Viaro e Lopes participaram e Woiski recebeu Menção Honrosa.
As premiações conferiam destaque aos artistas, fato que pode ter influenciado na seleção dos convidados para atuar na docência. De Bona, Traple e Oswald Lopes foram premiados em 1944. Arthur Nísio, Woiski, Lange de Morretes, Turin, Oswald Lopes e Viaro ganharam prêmios em 1947. Traple foi novamente premiado em 1948.
Freyesleben participou do primeiro SPBA, mas só foi premiado em 1951.
Um detalhe importante a destacar é que Fernando Corrêa de Azevedo, David Carneiro, Oscar Martins Gomes, Saul Lupion e Nelson Ferreira da Luz compuseram a comissão julgadora do quarto SPBA, em 1947, ano em que Azevedo estava responsável pela seleção dos docentes da EMBAP (ATAS, 1948). Assim, as discussões sobre a qualidade das obras, ou mesmo sobre a atuação dos artistas nos circuitos oficiais de artes plásticas, podem ter contribuído para o reconhecimento das habilidades artísticas, que seriam consideradas junto aos demais critérios de seleção de docentes.
Foram premiados no IV SPBA em 1947: Arthur Nísio, recebendo Medalha de Ouro; Guido Viaro conquistando a medalha de prata; Leonor Botteri a medalha de Bronze; Prêmio em dinheiro para Miguel Bakun, Lange de Morretes, Curt Boiger, Gene Woiski, Isolde Hötte, Oswald Lopes e menção honrosa para Sílvio Nigri, David Elias, João Woiski, Ida Hanemann, Guilherme Mater, Rudi Dietzold e medalha de ouro em escultura para João Turin. Dentre os premiados, seis artistas (com nomes sublinhados) foram convidados para fazer parte do corpo docente da EMBAP (ATAS, 1948). Leonor Botteri, também uma das premiadas, foi convidada para o cargo de funcionária administrativa76 (HISTÓRICO, 1979).
75 O Salão Nacional de Belas Artes (1934-1990) foi uma continuidade do evento Exposições Gerais de Belas Artes, promovido pela Academia Imperial das Belas Artes (AIBA) desde 1840, porém, aberto à participação de artistas que não estivessem vinculados à instituição.
Anteriormente a esta abertura as exposições se restringiam às produções artísticas de professores e alunos da AIBA desde 1829 (LEVY, 1980).
76 Mais tarde Botteri fez parte do corpo docente da instituição, na cadeira de Natureza Morta (ESCOLA, 1979).
O Salão Paranaense de Belas Artes foi um evento concatenador de ideais estéticos, envolvendo intelectuais, artistas e a elite política do Estado. Ao ganhar destaque nos salões, os artistas conquistavam prestígio e distinção entre seus pares.