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7. MODELO PRECEDE-PROCEED

7.2. Diagnóstico epidemiológico

Esta fase do modelo PRECEDE refere-se à recolha e análise epidemiológica de dados para identificar factores que possam contribuir para a situação de situação de saúde identificada.

Como os problemas sociais raramente obtêm financiamento do sector da saúde para a sua resolução a não ser que se demostre uma clara relação entre estes e o estado de saúde de uma população, é importante descrever e caracterizar os principais problemas de saúde de uma comunidade sob o ponto de vista epidemiológico. Esta análise epidemiológica permitirá determinar que os problemas de saúde são objectivamente mais importantes; que comportamentos e factores ambientais contribuem para a ocorrência desses problemas.

A epidemiologia fornece a metodologia que esclarece sobre a magnitude dos problemas de saúde das populações. Os dados descritivos demonstram a importância relativa em termos de morbilidade, incapacidade ou mortalidade e em função de subgrupos popula- cionais (idade, género, estatuto social, local de residência, condições de vida, etc..). A investigação analítica desses dados fornece informação acerca das potenciais causas desses problemas e que podem ser o foco da intervenção dos programas de promoção da saúde.

Avaliar a importância epidemiológica dos problemas de saúde permite

• Estabelecer a importância relativa dos problemas de saúde na população alvo como um todo e nos subgrupos populacionais;

• Fornecer uma base para estabelecer prioridades entre os vários problemas de saúde e os subgrupos afectados;

• Apoiar a distribuição de responsabilidades entre os diferentes sectores e profissionais que participam nos programas de promoção da saúde.

Segundo este modelo, para analisar a relação entre saúde e problemas sociais, pode-se utilizar duas abordagens: a reducionista e a expansionista.

Reducionista. A partir dos problemas sociais faz-se o levantamento dos problemas de

saúde que com eles se relacionam e que não estavam bem esclarecidos. Podem ser usados estudos científicos já efectuados para determinar a prevalência de determinados factores, quais os que têm mais importância e quais os subgrupos populacionais mais afectados.

Expansionista. A partir dum problema de saúde específico, faz-se a análise do contexto

social em que esse problema ocorre. Recorrer a estudos mais alargados pode ser útil para explicar os problemas de saúde em causa.

A avaliação epidemiológica para estabelecer a importância relativa dos problemas de saúde na população alvo como um todo, e nos subgrupos populacionais, pode ser feita a partir de vários indicadores que se passam a descrever sumariamente.

• Taxas e ratios gerais e específicos de ocorrência de fenómenos de saúde/doença – mede a frequência relativa e permite comparação entre grupos;

• Taxas padronizadas – Ajustamentos nas taxas em função da idade, género ou outro subgrupo, para tornar possível a comparação entre grupos populacionais que têm diferente distribuição demográfica.

• Incidência – Mede a ocorrência de novos casos de doença, num determinado período;

• Prevalência – Mede o número total de casos de doença num dado momento;

• Risco populacional atribuível – Quando se conhece a prevalência dos factores de risco é possível estimar o número de mortos ou doentes na população ou determinar a percentagem de mortos ou doentes atribuível à causa;

• Análise custo/benefício – Relação entre a soma do custo do tratamento de todos os problemas de saúde relacionados com determinado factor de risco e da perda de rendi- mento pela ausência ao trabalho ou morte prematura e o total dos custos associados à implementação de medidas para reduzir os factores de risco;

• Sensibilidade e especificidade – Análise aplicada aos testes de rastreio. Se o teste é capaz de detectar todos os casos com muito pouca falhas (poucos falsos negativos)

tem elevada especificidade. Se o teste detecta poucos casos de falsos positivos tem elevada sensibilidade. As questões de custo benefício são muito importantes na aplicação de testes de rastreio.

A análise epidemiológica pode também servir de base para estabelecer prioridades num programa de promoção da saúde. A colocação das seguintes questões pode auxiliar nesta fase:

• Quais os problemas de saúde com maior impacto em termos de mortalidade,

morbilidade, incapacidade ou absentismo?

• Existem subgrupos populacionais em risco especial?

• Que problemas são mais sensíveis a uma intervenção?

• Que problemas estão a ser alvo da intervenção de outros sectores?

• Que factores ou problemas têm o potencial de reflectirem um melhor incremento do estado de saúde se sujeitos a uma intervenção?

• Algum dos problemas de saúde identificados é considerado prioritário a nível local, regional ou nacional?

Assume-se que os problemas de saúde têm causas comportamentais, ambientais ou biológicas. A investigação epidemiológica permite avaliar as causas dos problemas de saúde, ou seja, os seus determinantes, esclarecendo os factores de risco que aumentam a probabilidade de desenvolver a doença/problema. Os programas de promoção da saúde visam reduzir os factores de risco relacionados com os comportamentos ou com o meio. No diagnóstico epidemiológico para promoção da saúde dá-se ênfase aos factores de risco modificáveis mas também deve ser dada atenção aos factores não modificáveis como os biológicos e o clima. Estes factores não determinam intervenções mas devem ser tidos em consideração numa perspectiva de multicausalidade e para identificar populações em elevado risco.

Considerando ainda que o comportamento pode influenciar directamente a saúde através de mudanças nos factores de risco individuais ou actividades que reforçam a resistência e a resiliência; e pode influenciar indirectamente os factores ambientais através de acções colectivas como o controlo à exposição ou o uso adequado dos serviços de saúde. Por isso conhecer os factores protectores é também fundamental quando se pretende implementar um programa de promoção da saúde. Num dos primeiros estudos que fundamentam o investimento na promoção de estilos de vida saudável como medida de redução das mortes prematuras, de Belloc & Breslow referidos por Green & Kreuter (1991), verificou-se que existia correlação positiva com estado de saúde nos indivíduos que dormiam pelo menos 7 horas por dia; tomavam pequeno-almoço quase todos os

dias; raramente ou nunca comiam entre as refeições; tinham o peso ideal para a idade e género; não eram fumadores habituais; não bebiam álcool ou faziam-no com moderação; faziam com regularidade exercício físico. Após nova avaliação, 5.5 e 9.5 anos depois, concluíram que os indivíduos que mantinham as mesmas 7 actividades tinham menos mortalidade (72% nos homens e 57% nas mulheres) do que os que tinham apenas 0 a 3 actividades. Ao conhecer-se a intensidade da associação dos factores de risco ao aparecimento de doença (por exemplo, o risco relativo31) é possível apoiar a tomada de decisão na distribuição de responsabilidades entre os diferentes sectores e profissionais que participam nos programas de promoção da saúde.

Em síntese, a avaliação epidemiológica facilita o estabelecimento de objectivos quer em termos do programa de saúde como na operacionalização das actividades a desenvolver uma vez que responde às seguintes questões:

• A quem se dirige o programa?

• Que benefícios de saúde devem receber?

• O que se espera como resultado?

• Por quanto tempo?

• A quem compete fornecer os serviços?