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Conforme orienta a bibliografia referente à pesquisa etnográfica, na análise, os dados receberam tratamento qualitativo. Para isso, selecionamos núcleos temáticos delimitados a partir dos objetivos, do referencial teórico e dos discursos dos próprios participantes. Embora a análise seja mais intensa após o término da geração dos dados, na perspectiva de pesquisa que trabalhamos, consideramos que esta etapa deve ocorrer, simultaneamente, ao trabalho de campo, visto que nos motivamos pelas leituras e fomos relacionando os discursos aos objetivos e perguntas da pesquisa para construir a análise.

Para exemplificarmos, trazemos duas notas do diário de campo, feitas logo após a entrevista com Awa Weradju, quando ele disse: “a escola é o braço mais forte do Estado dentro da Terra Indígena”, imediatamente registramos no diário “analisar esse discurso sob perspectiva de colonialidade do poder” (Diário de campo, novembro de 2019). Do mesmo participante, outro trecho, que também foi, rapidamente, relacionado à teoria construída e, consequentemente, escolhida como tópico na análise foi este: “Opa!!! Não, essa escola tem que começar a ser diferente”. No diário de campo escrevemos: “Este excerto remete ao conceito de decolonialidade, educação decolonial”. (Diário de campo, novembro de 2019). Assim como estes, houve muitos excertos de entrevistas e das interações em outras situações que também nos ajudaram na definição das temáticas de análise, mesmo antes dessa etapa ser efetivada formalmente.

Para a fase da análise propriamente dita, inicialmente, ouvimos os dados (gravados) integralmente sem pausa. Posteriormente, realizamos uma nova audição, fazendo pausas, para anotar aquilo que se relacionava aos objetivos e perguntas de pesquisa. Em seguida, demos início às transcrições. Assim, devido ao grande número de dados gerados e, também, com a finalidade de dar mais celeridade a essa atividade, optamos por realizar uma transcrição seletiva.

Na transcrição, procuramos reproduzir os discursos tais quais foram proferidos pelos participantes; para isso, transcrevemos inclusive expressões comumente usadas na oralidade,

tais como: “né”, “prá”, dentre outras. Também optamos por usar uma convenção para a escrita dos dados, conforme quadro sinóptico apresentado abaixo.

QUADRO 4: CONVENÇÃO UTILIZADA NA TRANSCRIÇÃO

Situação Convenção

Qualquer pausa ...

Incompreensão de palavras ou segmentos ( ? )

Entonação enfática MAIÚSCULAS

Explicação fornecida pela pesquisadora ((xxx))

Supressão de um trecho (...)

Transcrição dos discursos analisados Letras em itálico e negrito para dar ênfase

FONTE: Elaborado pelas autoras, a partir de Kondo (2013)

Finalizadas as transcrições e definidos os tópicos de análises, conforme pode ser observado nos capítulos 5 e 6, empregamos a análise qualitativa, com a finalidade de “[...]

entender, interpretar fenômenos sociais inseridos em um contexto” (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 35). Isto significa olhar para todos os dados gerados a partir de diferentes instrumentos e sob diferentes ângulos. É interessante relatarmos que a geração de dados ocorreu paralelamente à construção da teoria, portanto, as seções e subseções que compõem os capítulos de análises também foram surgindo à medida que dialogávamos com nossos interlocutores e íamos nos situando na opção decolonial, pois assim como Santos, Jung & Silva, (2019, p. 148),

“[c]onsideramos que trazer a história vivenciada, antes e durante a investigação, seja fundamental para pesquisas etnográficas”.

Ainda sobre a análise, esclarecemos que, embora os dados tenham sidos gerados a partir de diferentes instrumentos, estes foram analisados de forma complementar. Todavia, consideramos importante registrar o objetivo que almejamos ao empregar cada instrumento.

Com as rodas de conversas, objetivamos estabelecer um diálogo mais aberto, no qual todos se sentissem livres para discutir sobre currículo, documentos norteadores da educação escolar indígena e educação decolonial. As entrevistas semiestruturadas tiveram como função aprofundar esses temas junto aos participantes, bem como verificar o engajamento deles nas práticas letradas e, também, o posicionamento em resposta às vozes oficiais. Já as observações, nos auxiliaram na compreensão de como a educação escolar indígena ocorre na prática e de como eles usam a língua (guarani / portuguesa) nos eventos de letramentos e também nas outras em suas práticas de resistência e reexistência.

Assim, considerando que os dados foram gerados, concomitantemente, optamos em analisá-los também sob esta perspectiva. No entanto, para fins organizacionais, ao final dos extratos analisados registramos a partir de qual instrumento cada dado foi gerado, assim como

mês e ano. Além disso, nos excertos das rodas de conversa, acrescentamos uma nota de rodapé, indicando o tema discutido.

A análise realizada, sob essa perspectiva é denominada como triangulação de dados, entendida como o momento que em o pesquisador entrecruza os dados entre si com a teoria construída. No caso desta pesquisa, a triangulação nos permitiu explorar complementações e contradições no entrecruzamento das vozes dos participantes, bem como suas vozes em relação com que preconizam os documentos norteadores da educação escolar indígena, compreendidos por nós, neste trabalho, como as vozes do Estado, visto que é por meio deles que o Estado exerce seu poder controlador na manutenção de cultura e conhecimentos hegemônicos. Para Triviños (1987, p. 138),

[a] técnica da triangulação tem por objetivo básico abranger a máxima amplitude na descrição, explicação e compreensão do foco em estudo. Parte de princípios que sustentam que é impossível conceber a existência isolada de um fenômeno social, sem raízes históricas, sem significados culturais e sem vinculações estreitas e essenciais com uma macro realidade social.

Evidentemente que a atitude de analisar os dados a partir de diversas perspectivas está, também, intrinsecamente ligada ao pensamento decolonial, que rejeita toda epistemologia que se apresenta como absoluta e superior. Assim, ressaltamos que a análise aqui empregada é somente uma dentre as muitas possibilidades de interpretação possíveis.

Finalizada esta seção, na qual descrevemos e refletimos sobre os instrumentos e procedimentos de análise, damos início, na sequência, à teoria que sustentou e orientou esta pesquisa.

3 EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA: DA COLONIALIDADE À DECOLONIALIDADE

Conforme objetivos específicos delineados e explicitados na introdução desta tese, é nossa intenção compreender o processo de elaboração do currículo, bem como as negociações (linguísticas, interculturais e de saberes). Para tanto, neste capítulo, fazemos uma discussão acerca de educação decolonial, tendo como base o pensamento decolonial, que denuncia a colonialidade (QUIJANO, 2005, 2010) e a diferença colonial (MIGNOLO, 2003, 2010), e também embasada na compreensão de desobediência epistêmica (MIGNOLO, 2008).

Finalizamos este capítulo, fazendo uma discussão sobre a relevância de uma educação decolonizadora para o contexto pesquisado.