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2.3 Natal e a primeira modernização urbana (1850-1950) 98

2.3.1 Diferenças entre a Cidade Alta e a Ribeira 121

No século XX, a Ribeira passou a se destacar em relação à Cidade Alta, tornando-se novo centro de Natal. Vencidos os obstáculos de acessibilidade entre os dois bairros, a Ribeira passou a abrigar diversas atividades, principalmente as comerciais, com destaque também para atividades menos tradicionais na cidade (cabarés, cinemas e bares), o que tornou o bairro palco de acontecimentos marcantes na história da cidade e espaço de vivência cultural e política significativa (SILVA, 2002).

De acordo com Cascudo (1999) o primeiro centro comercial foi consolidado em torno das ruas Dr. Barata e General Glicério, e depois que chegou à Rua do Comércio (atual Rua Chile), perto do cais Tavares de Lyra (Caderno 02 – Mapa 01). Além dos armazéns de exportação característicos, concentravam-se na Rua do Comércio lojas de artigos refinados e residências.

O jornal A República, muito influente nesta época, só dava conta da proliferação de edifícios com três pavimentos, o que era uma novidade para o padrão da cidade. Em geral, as edificações eram construídas ou reformadas com linhas de “arquitetura moderna” (OLIVEIRA, 2014) e estas edificações modernas e de três pavimentos se concentravam na Ribeira23.

Neste sentido, passou-se a ter uma diferenciação espacial e funcional entre os bairros Ribeira e Cidade Alta. Na Cidade Alta instalou-se a rede de saneamento e abastecimento de água, que estimulou a ocupação dos lotes vazios, a derrubada de quase todas as árvores existentes, a remodelação das edificações mais antigas e a transferência de alguns estabelecimentos comerciais e de serviços para a Ribeira; enquanto a Ribeira abrigou os armazéns e o principal comércio atacadista e varejista de Natal, como já mencionado. Assim, o antigo núcleo urbano se torna progressivamente uma capital moderna, com pretensões metropolitanas (TEIXEIRA, 2009). Giovana Oliveira (2014) chama atenção para as escavações necessárias ao saneamento que também eram associadas à ideia da destruição do existente por parte da população, pois não existia referência anterior ou experiência comparável ao impacto vivido.

Contudo, a intervenção no tecido urbano da cidade existente é pontual. No esquema gráfico da Cidade Alta, à exceção da reforma da Praça André de Albuquerque e da implantação do reservatório central, não havia proposta de retificação das vias existentes, realinhamento dos edifícios ou de regularização dos quarteirões; apenas expansões da malha urbana existente. Na área hoje correspondente ao SHN, as modificações mais evidentes se verificam no nível do edifício; não das vias e espaços públicos preexistentes, herdados do período colonial. Mesmo as edificações muitas vezes “maquiadas” em suas fachadas, no intuito de expressar novos gostos estéticos, escondiam características espaciais muito comprometidas com a espacialidade colonial, sobretudo nas residências de menor escala. Nas residências de alto padrão, pertencentes às famílias mais abastadas, e nos edifícios públicos de caráter monumental, já se verificavam mudanças mais radicais.

23 Neste caso, estamos nos referindo ao período da primeira modernização, caracterizado pelo saneamento e

No blueprint elaborado pelo Engenheiro Henrique de Novaes em 1924 (Figura 37), podemos perceber as dimensões dessa expansão de Natal e a manutenção das linhas gerais do traçado urbano herdado do período colonial (DANTAS, 2003).

Figura 37 - Blueprint do projeto de saneamento da Ribeira e Cidade Alta, elaborado pelo engenheiro Henrique de Novaes em 1924

Fonte: Acervo Hidroesb

A cidade colonial, portanto, vai aos poucos se transformando com o alargamento e retificação das ruas, a derrubada das casas, sobrados e quarteirões ditos insalubres, muitas vezes refazendo fachadas ou construindo novos prédios com novas tendências estilísticas em voga na Europa e no sul do Brasil. Todas estas transformações, para além dos imperativos e diretrizes técnicas, não podem se desvencilhar do conjunto de formulações do pensamento social e histórico do Brasil da virada do século XX (DANTAS, 2003). Porém, para esta cidade em plena transformação, foram verificadas manifestações de resistência. Como por exemplo, as obras justificavam a derrubada de quase todas as árvores nas ruas da Cidade Alta, especialmente as que estavam plantadas nos passeios da Avenida Rio Branco (OLIVEIRA, 2014). De acordo com Giovana Oliveira (2014):

A desordem era necessária e positiva. As ruas do centro da cidade, cheias de areia, barro, pedras e buracos apenas refletiam a transformação por que passavam. A cidade crescia e sua população, no final da década de 1930, já ultrapassava os 50 mil habitantes, daí a necessidade de investir para tornar a cidade mais atrativa, mais embelezada, com maiores oportunidades e com melhores condições de vida (OLIVEIRA, 2014).

Por influência dos novos padrões urbanísticos em voga, as novas áreas de expansão da Cidade Alta receberam uma trama regular nas suas expansões que se contrapunha à malha urbana precedente. Por causa da implantação desses novos padrões, os bairros da Cidade Alta e Ribeira, agora não apenas únicos na cidade, se contrapunham ao novo bairro chamado Cidade Nova, que foi implementado pela Resolução nº 55 de 30 de dezembro de 1901. Enquanto a Cidade Nova, destinada à elite da cidade, simbolizava a limpeza, higiene e ordem por meio de vias largas, retilíneas e bem ventiladas, a Cidade Alta e a Ribeira representavam a sujeira, locais de doenças e desordem pelas ruas tortuosas. Contudo, os bairros mais antigos de Natal receberam vários melhoramentos urbanos como escavação de poços e a regularização de vias, principalmente a Ribeira (FERREIRA et al., 2002; SILVA, 2002).

Agora, em constante processo de transição, Natal não era mais a “aldeia” precária, mas também não era ainda a cidade moderna almejada pelas elites. Em 1921 existia a insatisfação com a dificuldade de manter os signos modernos havia pouco instaurados. Os dois únicos estabelecimentos de diversão (cinemas Polytheama e Royal) estavam quase para fechar, caso não fossem reformados e modernizados (DANTAS, 2003). Neste sentido, o processo de modernização parecia regredir. Porém, com a entrada de Natal na II Guerra Mundial, a cidade passa a progredir ainda mais na modernização dos seus espaços.