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2.2 Congestion Charging e Congestion Pricing

2.2.3 Dificuldades

A presente seção tem o propósito de trazer à tona algumas dificuldades referentes à implantação de sistemas de congestion charging.

2.2.3.1 Dificuldades políticas

Como explicitado na seção 2.2.1, existe uma dificuldade política muito grande relativa à implantação de sistemas de congestion charging, uma vez que ele representa a imposição de um desembolso ao usuário na hora de realizar sua viagem.

No entanto, existe grande esperança neste tipo de medida para aliviar o congestionamento urbano, pois apesar de outrora ter sido considerada como “suicídio político” (Frighetto, 2010; Hurst, 2013), os sistemas de congestion charging têm sido intensamente estudados (ver Figura 2.6), sendo Cingapura, Londres e Estocolmo três desses casos.

Um exemplo de sucesso político é o caso de Londres, onde o prefeito Ken Livingstone foi reeleito mesmo com propostas de extensão da área de cobrança e aumento da tarifa.

Também se pode mencionar aqui o caso de Estocolmo, onde o apoio público aumentou consideravelmente após a implantação do sistema de tarifas (Winslott-

Hiselius et al., 2009). Outro estudo (Eliasson, 2010) aponta ainda uma curva representando o apoio popular antes e depois da implantação do sistema de congestion charging. A aceitabilidade inicial cai quando se aproxima do instante de implantação, porém após exposição às vantagens do sistema, a aceitabilidade cresce e supera os valores iniciais Figura 2.7.

Figura 2.6 Produção científica encontrada com os termos "congestion charging" e "congestion

pricing" na base digital da Science Direct

Fonte: Elaborado pelo autor com dados do portal Science Direct.

Uma das formas de aumentar o apoio popular e político desta medida é mostrar que receita do sistema de tarifas será utilizada para investir em:

 Melhorias infraestruturais (ex: ampliação de vias); e

 Melhorias no sistema de transporte público (ex: novas linhas de ônibus, metrô, corredores de ônibus).

Além da questão da imposição de mais um tributo aos cidadãos, uma pergunta que geralmente é levantada é relativa à equidade e à justiça dessa tarifa. Seguem as perguntas mais comuns: “A implantação de um sistema destes institucionalizaria a possibilidade de compra de espaço público?” e “É justo que o usuário do automóvel pague uma tarifa que financia principalmente melhorias no sistema de transportes coletivos, sendo que o próprio pagante da tarifa não receberá nenhum benefício

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concreto, como expansão do sistema viário?”. Deve ficar claro que o presente trabalho não busca responder a essas perguntas. No entanto, os propositores de medidas como o congestion charging devem estar preparados para respondê-las.

Figura 2.7 Aceitabilidade e apoio a sistemas de congestion charging

Fonte: (Eliasson, 2010) (tradução nossa)

2.2.3.2 Dificuldades quanto à transparência

Já foi mencionado no item 2.2.1 a dificuldade de manter os potenciais motoristas informados sobre o sistema e as tarifas vigentes quando há muita complexidade envolvida.

A transferência de informação ao usuário é extremamente importante, pois o sistema de tarifas é geralmente concebido supondo usuários bem informados. Caso a informação não seja transmitida de forma clara e compreensível ao usuário, sua resposta à informação disponível (ou à falta dela) pode ir absolutamente contra o esperado e até mesmo piorar a situação do congestionamento. Não se deve perder de vista também que o congestion charging é uma forma de sinalizar ao indivíduo sobre a externalidade negativa que sua viagem causa. O funcionamento do sistema pode ser comprometido caso esse sinal não seja compreendido.

Apoio ideia detalhamento início vantagens aceitação

Deve se ater também à complexidade do sistema, não só à transparência dele. Sistemas extremamente complexos, como o adjetivo sugere, são mais difíceis para o público compreender.

Portanto, apesar de ser aparentemente ideal que um sistema tenha diferenciação por distância rodada com atualização de preços em tempo real e tarifas diferentes para veículos diferentes em diversas zonas, tal sistema corre o risco de ser muito caro e também difícil demais para um potencial usuário compreender e tomar decisões racionais bem informadas.

A complexidade do sistema deve ser tal que o usuário se sinta confortável e consiga compreender onde ele possa trafegar, a que horas e quanto custaria para usar determinadas vias, entre outras questões pertinentes para a sua tomada de decisões referentes à sua potencial viagem.

Outro ponto que não pode deixar de ser levantado, especialmente quando se trata de um estudo para aplicar um sistema destes em São Paulo, é a transparência financeira. Os desvios de dinheiro por conta da corrupção são uma triste realidade da administração pública brasileira, realidade esta que conta com a participação de elementos da esfera privada (Seabra, Sofia e Amora, 2013). Portanto, para garantir a credibilidade de um sistema de congestion charging em São Paulo, deve-se estudar uma forma de garantir a transparência total deste sistema para os cidadãos para que não se caia no descrédito da mesma forma com que ocorreu com a CPMF (Aquino, 2011). As informações a serem disponibilizadas deverão ser não só de ordem financeira (receitas e custos, por exemplo), mas também de todos os aspectos do sistema (principais movimentos do sistema, pontos mais congestionados, relatórios de medição de congestionamento, entre outros). Também se deve levar em consideração a opinião da população no momento de reinvestir o dinheiro arrecadado em elementos do sistema de transporte coletivo.

2.2.3.3 Dificuldades legais

Invariavelmente surgirá o questionamento acerca de aspectos legais de um sistema de congestion charging. As duas principais questões a serem levantadas muito provavelmente serão:

Um sistema de congestion charging pode ameaçar o direito básico de ir e vir garantido pela Constituição de 1988? O trecho relevante é explicitado a seguir:

é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens. (Brasil, 1988) Cap. I, Art. 5, Inc. XV.

 Em que categoria se encaixa o valor cobrado? Trata-se de imposto, taxa, tarifa, contribuição ou empréstimo compulsório?

Vale indicar que em Estocolmo, durante o processo de licitação do sistema de congestion charging, o valor cobrado ao usuário passou de uma “tarifa ambiental municipal” para um imposto estadual, dada uma investigação legal que defendeu ser ilegal que a cidade cobrasse veículos em movimento em vias já existentes (Eliasson, 2010).

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