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Em todos os excertos analisados nesta seção, sequências avaliativo-argumentativas se materializam. Como pontuamos, isso favorece a formação de ethos no nível da cenografia. Acrescenta-se que, tais quais os enunciados estudados anteriormente, os próximos sob exame propiciam a ativação de mundos éticos que abrigam sentidos de franqueza. São produzidos por meio de assertivas e opiniões diretas e categóricas, com ethé ditos e mostrados. Mas estas não são as únicas possibilidade para caracterização autoral depreendida dos excertos. Eles não estão limitados a estes universos de representação. São igualmente propensos à ativação de mundos éticos da dimensão ideológica, sobretudo aqueles que reúnem imagens, cenas validadas e sentidos de posicionamento do espaço político-ideológico mais à esquerda. É a ativação desses ethé que vamos discutir. Por se tratar especialmente de posicionamentos nos enunciados, a atribuição do ethos passa pela cena do discurso, a englobante.

O primeiro enunciado do excerto seguinte foi analisado na seção anterior, quando abordamos destacadamente o aspecto da franqueza. Nesta seção, incluímos seu prosseguimento, que permanece ativando esse tipo de ethos por intermédio de assertivas cujo tom é, ao mesmo tempo, de revolta e inconformismo. No excerto, essa caracterização está entremeada com ethos perceptível do terreno político de esquerda. Em sublinhas, destacamos segmentos representativos:

(30) Logo que li o título, pensei que o texto fosse exatamente o contrário do que ele é. Mais um clichê arraigado na cabeça de todo esse mundo capitalista e consumista: pra ser feliz, você não pode ter segurança, responsabilidade ou juízo. Precisa viver cada dia cagando pro resto e ligando apenas para o seu ego, suas alegrias, seus prazeres que, na verdade, de nada valem, pois não te preenchem. (Sobre a reportagem Curtir cada dia como se fosse o último é uma filosofia de vida furada).

Se pensarmos em cena genérica, prevalecem, em (30), segmentos típicos de gêneros argumentativos. Não há como precisar um tipo de texto especificamente, contudo a cenografia materializa sequência que, sem grandes entraves, comporiam, por exemplo, resenhas ou crônicas mais argumentativas. O fator argumentativo se estende aos demais enunciados de A analisados nessa seção.

Em (30), os segmentos que comportam os destaques são próximos de ethé mostrados. A construção “mundo capitalista e consumista” marca, com mais ênfase, o discurso característico do terreno político da esquerda que intercepta os enunciados de A e permite ativar o ethos político do autor. No outro destaque, ele descreve e critica um determinado estilo de vida lastreado pelo individualismo. Essa contraposição não é exclusiva das filiações à esquerda, mas é onde se estabelece mais tipicamente. Levando em conta o posicionamento mais marcado do primeiro destaque, o do segundo é, provavelmente, ramificação de discursos do mesmo espectro político. Em nossa percepção, uma representação estereotípica admissível é a do jovem contestador, provocador, provavelmente alinhado ao pensamento contemporâneo da esquerda mais progressista.

Ethé dito e mostrado estão combinados nos enunciados que comportam os destaques em (31). Notamos pistas de dizeres que parecem provenientes do mesmo terreno político-ideológico em foco. O autor critica o que considera ditames e objetivos das empresas conforme o destaque em sublinhas:

(31) É perceptível que eu não gosto de propaganda de beleza, mas eu explico: beleza é um conceito pessoal. Não gosto de ver empresas ditando o que você deve ou não vestir, como deve ou não se apresentar – elas só querem lucrar vendendo os produtos que elas te convencem que são os certos. (Sobre os anúncios de cosméticos da L'Oréal e do Boticário).

A cena validada implícita, e inferida, é relativa ao discurso publicitário do marketing ou do merchandising. Percebe-se que o contato com estes discursos é uma experiência do autor. O que dá substância a sua crítica às empresas são outros momentos de interpretação seus, nos quais, certamente, deparou-se com o discurso que ora enquadra em seu diário. A interação entre o sujeito e estes dizeres pode ter-se dado de várias formas: no contato com a publicidade de TV ou de internet, com o merchandising em shoppings ou supermercados, com discursos dos setores de marketing ou ainda de outras maneiras. Essas cenas validadas penetram em seu enunciado na forma de discurso enquadrado para receber a crítica negativa. O tipo de juízo de A é próximo dos julgamentos dos territórios discursivos políticos que mencionamos. Por isso, acreditamos que correspondem a filiações suas. Funcionam, então, duas memórias: a dos dizeres que o interpela; a da cena validada, que é a dos dizeres das empresas que, segundo o autor, ditam o que as pessoas devem usar e como devem se expor. No texto do qual se recortou o trecho, o posicionamento do autor irrompe em outras passagens tanto mediante o acionamento de ethos dito quanto de ethos mostrado. Isso fortalece a nossa percepção sobre de qual lugar discursivo os dizeres promanam. Portanto, no que diz respeito ao ethos de dimensão ideológica, o autor pode ser vinculado a estereótipos como o de estudante de esquerda, o de jovem libertário, o de adolescente politizado, entre outros afins.

A dimensão ideológica permanece reverberando em (32). A maneira de pensar do autor do texto lido é negativamente qualificada como “consumista”. Ethé dito e mostrado se combinam:

(32) A moça que escreveu conseguiu começar seu texto instrucional já me dando uma péssima impressão. Desde o início, ela trata os presentes como parte essencial do Natal. Que pensamento mais consumista! Num país de pobres como o nosso, é disso que menos precisamos. Cadê a tão famigerada magia de Natal? Que tal comemorar o aniversário de Jesus, que é o significado da festa? É muito fácil encontrar fotos de presentes natalinos no Facebook nessa época do ano, mas ninguém posta

#HappyBDayJesus ou “Feliz 2.0.1.6, Jê !!!” Nem os cristãos. (Sobre o instrucional 5 passos para

Outro destaque corresponde à ciência do autor do diário acerca da pobreza do país. Isso repercute com ênfase. A cena validada da pobreza brasileira está, decerto, amparada em representações anteriores, implicando uma memória de textos, imagens midiáticas, diálogos, que repercutem o que A ora atualiza. Outra vez, a ativação do ethos político se faz viável. O tom é de inconformismo e insatisfação. No prosseguimento, observamos repercussão de cenas em que se entrecruzam elementos de acentuado caráter simbólico, como o Natal, a religião e as redes sociais. Como examinamos na seção 8.2, esses fatores fazem parte do sistema de referências do autor do diário. Procedem de seu trânsito social, de suas excursões pela memória de arquivo. Eles integram a composição estilística que impulsiona o efeito de humor discutido em 8.2, e servem, em concomitância, como alvo da insatisfação de A. A pobreza brasileira, a “magia” do Natal, a grande exposição da intimidade nas redes sociais, como cenas validadas, só se discursivizam no diário porque existem antes, em representações, com as quais A travou contato no decurso de sua experiência discursiva. O ethos acionado no excerto em pauta é, mais uma vez, o do indivíduo que se posiciona, politicamente, mais à esquerda. Permite-se a crítica da religião, da relação contraditória entre as pessoas e suas próprias valorações, e do que considera consumismo.

O tom do posicionamento de A é mais acentuadamente progressista no texto de que procede o excerto (33), que, por sua vez, representa bem o tipo de posicionamento sobre o qual estamos falando. O texto lido aborda questões concernentes ao racismo. Em sua remissão ao tema, o autor do diário deixa pistas significativas de alinhamento a discursos que têm se sobressaído no debate público contemporâneo do país e que vêm combatendo e denunciando o racismo e outras formas de discriminação. Historicamente, são discursos que vêm se consolidando no espaço político da esquerda de cunho mais progressista, cujas pautas sempre incluem o debate sobre a vulnerabilidade das minorias sociais:

(33) O Mundo está passando por mudanças muito profundas, e eu tenho o privilégio de fazer parte delas. Seja mostrando minha indignação com atos racistas, seja convencendo outras pessoas de que elas estão seguindo o caminho errado [...] / Não sei se um dia poderemos dizer enfaticamente que o racismo foi extinto, mas com certeza, em alguns anos, os seus efeitos estarão tão reduzidos que qualquer pessoa que apresente esse tipo de ideal seja comparada a um nazista nos tempos de hoje. Apoiado por poucos, calado e esquecido pela maioria. (Sobre a lista 25 privilégios de que brancos usufruem simplesmente

por serem brancos).

O autor, acionando ethos dito, posiciona-se com entusiasmo e um certo otimismo em relação às mudanças do mundo. Em princípio, o enunciado pode sugerir apenas um atento

observador do que ocorre na vida social. No entanto, logo depois, igualmente ativando ethos dito, A enuncia: “Seja mostrando minha indignação com atos racistas, seja convencendo outras pessoas de que elas estão seguindo o caminho errado [...]”. Este enunciado faz pensar no sujeito em atividade, aquele que não só observa, mas tenta reagir, discursivamente, em prol do que acredita e quando pensa ser necessário. O ethos dito político está, mais uma vez, passível de acionamento. Pode-se pensar, por exemplo, no estudante de esquerda, no jovem defensor dos direitos humanos ou no indivíduo que defende a democracia e a inclusão social. Uma cena validada implícita que auxilia a formação desse ethos é depreendida de “O mundo está passando por mudanças muito profundas [...]”. É possível que a representação dessas mudanças seja formada pela iconografia, pelas imagens e discursos de protesto, reivindicações e campanhas de minorias sociais. São elementos simbólicos, compartilhados no meio social. No contexto da produção do diário, ajudam a suscitar o ethos político de seu autor, uma vez que são eles que parecem validar a cena implicitamente reportada no enunciado de A.

É necessário focalizar, em (34), o ethos de indivíduo franco, pois seu acionamento, neste excerto, vai, de alguma maneira, suscitar contraste com o posicionamento do autor, definido à esquerda. A circunstância contrastante ocorre devido à assunção franca de A sobre a possiblidade do dinheiro de gerar felicidade ao seu possuidor. Esse discurso não está fora do espectro político de esquerda de modo cabal, mas, a nosso ver, pode ser considerado incomum. No enunciado, se por um lado, o autor enxerga a felicidade, também como uma possiblidade da condição econômica, por outro seu juízo não é absoluto. Embora assuma posição relativamente parecida com a do autor do texto lido, A emprega o expediente argumentativo por meio do qual o operador ‘mas’ faz rebaixar uma determinada posição em benefício de outra conforme o destaque. Para o autor:

(34) Me diverti muito mais lendo essa crônica do que a reportagem sobre o hippie jesus 2.0, mas não compartilho exatamente das mesmas opiniões que o meu xará Pondé, talvez uns 80%. Tipo, é tão claro pra mim quanto pra ele que o dinheiro pode trazer felicidade sim, mas colocar o poder aquisitivo acima de qualquer coisa já me soa muito Sr. Sirigueijo, e eu não gosto do Sr. Sirigueijo. (Sobre a crônica

Patético).

Nesse caso, a impressão que temos é de mútua influição entre filiações discursivas aparentemente contrastantes no posicionamento do autor. Apesar disso, em razão da operação argumentativa, o feixe discursivo político mais à esquerda incide, novamente, sobre os dizeres de A, e aparenta prevalecer, uma vez que nesse território discursivo, o poder aquisitivo não

costuma aparecer como fator primordial para a felicidade, seja qual for a noção que se tenha dela. Assim, o ethos dito é político. Passa pelos estereótipos de estudante consciente, politizado e moderado, possuidor de bom senso, entre outras representações parecidas. Esse excerto dá uma amostra tangencial de outro mundo ético que pode ser acionado mediante a leitura do diário sob exame: o que abarca representações de equilíbrio, moderação e simplicidade. Trata-se de outro espaço de influxo recorrente na construção do ethos de A. No prosseguimento do mesmo texto, isso se acentua, como veremos na próxima seção.