2.2 MULTIPLICIDADE DE CONCEPÇÕES DE SUSTENTABILIDADE
2.2.1 Dimensões da sustentabilidade segundo Ignacy Sachs
Ignacy Sachs é polonês formado em economia no Brasil e considerado um Ecossocioeconomista por entender que ecologia, sociologia e economia estão ou devem ser vistos de forma integrada e participou das três grandes conferências internacionais da ONU - Estocolmo 72, Rio 92 e Rio 2012.
Inclusive, sobre a Conferência de Estocolmo, explica que uma das consequências mais incisivas dessa reunião foi a passagem de uma concepção socioeconômica bidimensional para
a noção tridimensional de eco-sócio-economia.400
Sachs lançou a ideia da necessidade de novo paradigma de desenvolvimento, baseado na convergência entre economia, ecologia, antropologia cultural e ciência política. A ecossocioeconomia. Ele estabelece dimensões da sustentabilidade, dividindo-a em social, cultural, ambiental, ecológica, territorial, econômica e política, num amplo processo de transformação do desenvolvimento tecnológico, do processo de produção, das políticas públicas nacionais e internacionais, buscando efetivar a qualidade de vida para todo ser humano.
Para o autor, mesmo as diversas conceituações da sustentabilidade evidenciam que seus objetivos se coadunam com as estratégias refletidas no trabalho decente, pois enquanto este visa o respeito aos direitos no trabalho, a promoção de mais e melhores empregos, a extensão da proteção social e o fortalecimento do diálogo social, aquela impele ainda a buscar soluções
triplamente vencedoras (Isto é, em termos sociais, econômicos e ecológicos), eliminando o crescimento selvagem obtido ao custo de elevadas externalidades negativas, tanto sociais quanto ambientais, como assevera Ignacy Sachs401, afirmando, ainda que desenvolvimento
verdadeiro significará soluções triplamente ganhadoras, contrastando com as configurações triplamente perdedoras no seu oposto, com retrocesso social, ambiental e econômico.402
400 SACHS, Ignacy. De volta à mão visível - os desafios da Segunda Cúpula da Terra no Rio de Janeiro. Estudos
Avançados [online], São Paulo, v. 26, n. 74, p. 5-20, 2012. p. 8.
401 Id. Desenvolvimento..., p. 15.
402 Id. Inclusão social pelo trabalho: desenvolvimento humano, trabalho decente e o futuro dos empreendedores
125 Em outra obra Sachs evidencia a contradição do discurso do desenvolvimento sustentável e a sua inoperância no mundo globalizado e capitalista em que vivemos, pois afirma que o desenvolvimento sustentável é, evidentemente, incompatível com o jogo sem restrições
das forças do mercado403, eis que este possui apenas um objetivo maior: a obtenção de lucro a
qualquer custo.
Em contrapartida a sustentabilidade estaria diretamente ligada ao desenvolvimento includente, que segundo Sachs:
[...] consiste precisamente na universalização do conjunto dos direitos humanos das três gerações: civis, cívicos e políticos; econômicos – a começar pelo direito ao trabalho decente -, sociais e culturais; por fim, os direitos coletivos do meio ambiente, à infância, à cidade, ao desenvolvimento.404
Quanto às sustentabilidades apresentadas por Ignacy Sachs, sendo elas, social, cultural, ecológica, ambiental, territorial, econômica e política405, resta evidente que a sustentabilidade vai muito além de desenvolvimento econômico com viés ambiental e perpassa a gestão dos recursos naturais, pois exige a transformação do modelo social, econômico e ambiental em que vivemos.
A dimensão social da sustentabilidade é considerada pelo autor enquanto fundamental diante da iminência de um colapso social, até mesmo antes da catástrofe ambiental, especialmente nos muitos lugares onde a injustiça social e as desigualdades já tomaram espaço e forma ameaçadora. E os critérios apontados por Sachs para a realização dessa dimensão da sustentabilidade são: alcance de um patamar razoável de homogeneidade social; distribuição
e renda justa; emprego pleno e/ou autônomo com qualidade de vida decente e, igualdade no acesso aos recursos e serviços sociais.406
Quanto à sustentabilidade cultural o autor a compreende enquanto um corolário que só será efetivado através: de mudanças no interior da continuidade (equilíbrio entre respeito à
tradição e inovação); capacidade de autonomia para elaboração de um projeto nacional integrado e endógeno (em oposição às cópias servis dos modelos alienígenas); bem como autoconfiança combinada com abertura para o mundo.407
403 SACHS, Ignacy. Caminhos para o desenvolvimento sustentável..., p. 55.
404 Id. O tripé do desenvolvimento includente. Hileia: Revista de Direito Ambiental da Amazônia, Manaus, n. 2,
p. 105-107, jan./jun. 2004. p. 107.
405 Id. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de Janeiro: Garamond, 2008. p. 11. 406 Id, Caminhos para o desenvolvimento sustentável..., p. 85.
126 A dimensão ecológica diz respeito à necessidade de se preservar e aumentar o potencial dos recursos naturais na produção de recursos renováveis e a de estabelecer limitações à utilização daqueles recursos que não sejam renováveis.
A sustentabilidade ambiental se refere ao respeito e realce da capacidade de autodepuração dos ecossistemas naturais, considerando que ela possui duas dimensões: os
sistemas de sustentação da vida como provedores de recursos e como recipientes para a disposição de resíduos.408
Outro corolário é a dimensão territorial que deve realizar a distribuição espacial dos
recursos, das populações e das atividades409 através dos seguintes critérios:
- configurações urbanas e rurais balanceadas (eliminação das inclinações urbanas nas alocações do investimento público);
- melhoria do ambiente urbano;
- superação das disparidades inter-regionais;
- estratégias de desenvolvimento ambientalmente seguras para áreas ecologicamente frágeis (conservação da biodiversidade pelo ecodesenvolvimento).410
No que tange à sustentabilidade econômica, adverte o autor que é uma necessidade da sociedade, contudo não pode ser entendida como condição primeira para as demais sustentabilidades. Essa sustentabilidade deve ser construída através da segurança alimentar; do desenvolvimento econômico equilibrado entre os setores da economia; do melhoramento e modernização das ferramentas de produção e alcance de cada vez mais elevados níveis de autonomia no aparato tecnológico e na pesquisa científica e, de uma participação soberana no mercado mundial.
A sustentabilidade política apresentada por Sachs se divide em política nacional e internacional, ambas pressupõem o diálogo, mas em diferentes escalas e efeitos.
Na dimensão da política nacional o que se prima é pela governabilidade democrática baseada na apropriação universal dos direitos humanos; no aprimoramento do Estado em efetivar políticas públicas através do diálogo com a sociedade e em firmar parcerias com os empreendedores a fim de promover um processo mais efetivo na proteção da biodiversidade e dos anseios sociais.
A sustentabilidade política internacional vem para promover a paz, evitando guerras e permitindo que haja um sistema internacional de administração da sustentabilidade, até para
408SACHS, Ignacy. Desenvolvimento..., p. 15. 409 Ibid., p. 15.
127 que haja a justiça ambiental entre países. Os critérios estabelecidos pelo autor para a efetivação dessa dimensão são:
- eficácia do sistema de preservação de guerras da ONU, na garantia da paz e na promoção de cooperação internacional;
- um pacote Norte-Sul de co-desenvolvimento, baseado no princípio de igualdade (regras do jogo e compartilhamento da responsabilidade de favorecimento do parceiro mais fraco;
- controle institucional efetivo do sistema internacional financeiro e de negócios;
- controle institucional efetivo da aplicação do Princípio da Precaução na gestão do meio ambiente e dos recursos naturais; prevenção das mudanças globais negativas; proteção da diversidade biológica (e cultural); e gestão do patrimônio global, como herança da humanidade;
- sistema efetivo de cooperação científica e tecnológica internacional e eliminação parcial do caráter de commodity da ciência e tecnologia, também como propriedade da herança comum da humanidade.411
Em artigo sob o título De volta à mão visível - os desafios da Segunda Cúpula da Terra
no Rio de Janeiro, Sachs salienta que a Justiça está no cerne do desenvolvimento sustentável e
antes que seja tarde, a humanidade precisa aprender a caminhar com as duas pernas: justiça
social e prudência ambiental.412 A considerar que a Justiça se apresenta em três dimensões:
nacional, entre países e entre geração presente e as futuras.
E considerando que o ponto significativo da sustentabilidade é a justiça distributiva entre gerações, o autor explica que:
Se quisermos adotar estratégias de longo prazo que levem em conta o bem- estar de todos os nossos atuais e futuros companheiros de viagem humanos (e, esperamos, geonautas) na espaçonave Terra, temos de nos voltar para a Mão visível e seus cinco dedos: um contrato social renovado, planejamento democrático de longo prazo, segurança alimentar, segurança energética (os dois pilares do desenvolvimento includente e sustentável) e cooperação internacional.413
Contudo, além da importância da consideração do assunto na esfera internacional, o autor explica que devem ser criadas alternativas locais e regionais, com tecnologia apropriada, também no espaço rural, para que as dimensões de sustentabilidade possam ser efetivadas.
Noutro ponto, depreende-se da análise de Sachs que o tempo para a busca da sustentabilidade está se esgotando, mas ainda não acabou. Por isso, mesmo estando longe do
411 SACHS, Ignacy. Caminhos para o desenvolvimento sustentável..., p. 87-88.
412 Id. De volta à mão visível - os desafios da Segunda Cúpula da Terra no Rio de Janeiro..., p. 8. 413 Ibid., p. 10.
128 objetivo, a humanidade ainda tem condições de buscar a realização da sustentabilidade e, quem sabe, aumentar seu tempo na terra:
Ainda estamos longe de atingir esse objetivo. Para alcançá-lo, temos de atravessar uma porta estreita, possivelmente o “olho da agulha” bíblico. Mas a porta existe e não há motivo para compartilharmos a visão apocalíptica de Cassandra. Como o presidente Obama gosta de afirmar, “Sim, nós podemos”; mas será que devemos dizer, “Sim, nós ainda podemos”? O fato é que o tempo para realizarmos as mudanças necessárias nas estratégias globais de desenvolvimento está se esgotando.414
Assim, a realização das dimensões da sustentabilidade, necessariamente, deve passar pela valorização do ser humano, da cultura e da diversidade de saberes, olhando a realidade e os problemas que afetam a sociedade de maneira ampla e completa, considerando que as políticas públicas e privadas devem focar para muito além da gestão dos recursos naturais, considerando todos os aspectos que influenciam a vida no planeta.