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3. DIREITOS E GARANTIAS DO RÉU COLABORADOR

3.5 Direito de Retratar e Direito de Rescindir o Acordo

Iniciadas as negociações entre o Ministério Público, a autoridade policial e o membro integrante da organização criminosa que decidiu cooperar, é possível que o colaborador desista de realizar o acordo de colaboração premiada. Trata-se do seu direito de retratação, colacionado no § 10 do Art. 4º da nova Lei de combate ao crime organizado, o qual dispõe que “As partes podem retratar-se da proposta, caso em que as provas autoincriminatórias produzidas pelo colaborador não poderão ser utilizadas exclusivamente em seu desfavor”.

Da leitura do dispositivo, aduz-se que o legislador pretendeu assegurar ao informante, mais uma vez, a manifestação de sua liberdade individual, cedendo-lhe a possibilidade de deliberadamente reconsiderar a escolha de colaborar, retratando-se das alegações prestadas na jurisdição. Nesse caso, a norma não estipulou qualquer restrição,

37 STF, Tribunal Pleno, HC 127.483/PR, Rel. Min. DIAS TOFFOLI. Julgamento: 27/08/2015.

sendo cabível, inclusive, que o cooperante se arrependa sem que apresente para tanto qualquer justificativa plausível.

Embora o ordenamento não tenha exigido motivação, os doutrinadores discutem acerca da existência de uma premissa temporal, à qual se submeteria a validade da retratação.

Autores como Rogério Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto, por exemplo, defendem que a retratação só pode ser feita em momento anterior à homologação judicial38, visto que o dispositivo expressamente fala em “proposta”, e não em “acordo”.

Nesse caso, a retratação só será eficaz quando requerida antes da sanção do magistrado. Nessa perspectiva, entendeu o STF, no julgamento do já supramencionado Habeas Corpus nº 127.483 – PR, que a proposta é retratável, mas não o acordo. Dessa forma, caso o colaborador decida não cumprir os termos, não se cuidará de retratação, mas de simples inexecução do negócio jurídico firmado entre as partes39.

Cada situação produz efeitos diversos. A retratação não afeta a presunção de inocência ou não-culpabilidade do colaborador, uma vez que as provas por ele produzidas não poderão ser utilizadas pela Autoridade Ministerial para incriminá-lo. Contudo, cumpre observar que as provas permanecem válidas em relação aos demais acusados delatados, desde que posteriormente corroboradas por outros meios de prova, diversos das declarações do colaborador arrependido.

Ademais, da retratação também decorre o efeito de que o arrependido automaticamente perde o direito de ser beneficiado pelos prêmios da colaboração, conforme assentado, por unanimidade, pela Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça ao apreciar o HC nº 120.45440, de relatoria da Ministra Laurita Vaz. Vejamos um trecho

da ementa:

1. Não obstante tenha havido inicial colaboração perante a autoridade policial, as informações prestadas pelo Paciente perdem relevância, na medida em que não contribuíram, de fato, para a responsabilização dos agentes criminosos. O magistrado singular não pôde sequer delas se utilizar para fundamentar a condenação, uma vez que o Paciente se retratou em juízo. Sua pretensa colaboração, afinal, não logrou alcançar a utilidade que se pretende com o

38 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Crime Organizado. Comentários à nova lei

sobre o crime organizado (Lei nº 12.850/13). 3ª ed. Salvador: JusPodium, 2014. P. 73.

39 STF, Tribunal Pleno, HC 127.483/PR, Rel. Min. DIAS TOFFOLI. Julgamento: 27/08/2015.

Publicação: DJe-021 DIVULG. 03/02/2016 PUBLIC 04/02/2016.

40 STJ - HC: 120454 RJ 2008/0249917-0, Relator: Ministra LAURITA VAZ, Data de Julgamento:

instituto da delação premiada, a ponto de justificar a incidência da causa de diminuição de pena.

Destarte, a contar da data em que efetivada a sanção judicial do acordo, não cabe retratação do acusado. A partir do momento em que o acordo é oficialmente firmado, o cumprimento dos termos pactuados torna-se compulsório, sob pena de rescisão. Após a condenação, a matéria só poderá ser discutida através de apelação ou de Habeas Corpus. Conforme citado anteriormente, a rescisão não se confunde om a retratação, tampouco seus efeitos.

A rescisão a que deu causa o colaborador acarreta a perda de todos os seus benefícios, e diversamente do que ocorre com a retratação, a quebra das cláusulas estabelecidas possibilita a utilização de todas as provas já produzidas em seu desfavor.

Logo, uma vez rescindido o acordo em razão de fato imputável ao colaborador, todos os benefícios pretendidos restam prejudicados, sem qualquer prejuízo da licitude e da admissibilidade das provas produzidas pelo cooperador, ainda que sejam utilizadas para incriminá-lo, quando a sentença ainda não houver sido prolatada. Se já proferida a sentença, o colaborador fica obrigado ao cumprimento da pena fixada originalmente na decisão, vedando-se a incidência de privilégios como o cumprimento em regime inicial mais benéfico, por exemplo.

Conforme se observa na prática, os acordos de colaboração premiada da Operação Lava Jato contam com um título específico para as cláusulas de rescisão e suas implicações, que consistem em comportamentos como o fato de o colaborador descumprir, sem justificativa, qualquer das cláusulas firmadas, sonegar a verdade ou mentir em relação aos fatos em apuração, se recusar o cooperador a prestar qualquer informação de que tenha conhecimento, bem como recusar-se o delator a entregar documento ou prova sob sua guarda ou de sujeito a sua autoridade ou influência, quebrar o sigilo do acordo, fugir ou praticar outro crime doloso de mesma natureza dos fatos em apuração.41

Destaca-se que em casos específicos o Ministério Público também pode ser apontado como o causador da rescisão, como quando firma o acordo sem observar os

41 Termo de Acordo de Colaboração Premiada de Paulo Roberto Costa

https://www.conjur.com.br/dl/lava-jato-acordo-delacao-paulo-roberto.pdf Acesso em 08/05/2018 às 23:24.

direitos previstos no art. 5º da Lei nº 12.850/2013 ou se rompe o sigilo acerca deste acordo, assim como na situação em que deixa de pleitear em favor do colaborador os benefícios legais que foram ajustados.

Nessa casuística, os acordos geralmente preveem cláusulas que possibilitem ao colaborador a faculdade de fazer cessar a cooperação caso julgue oportuno, preservadas as garantias já ofertadas e o lastro probatório angariado.

Destarte, a norma assegura ao réu cooperante o direito de retratação, e do mesmo modo, por outro lado, admite que seja responsabilizado por quebra de compromisso com o ente público nas situações em que der causa à rescisão do acordo premial.

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