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CAPÍTULO 4 UNIDIMENSIONALIDADE DO AGRONEGÓCIO PRESENTE

4.2 FORMAS DE DIVULGAÇÃO DO PROJETO VIA COMUNICAÇÃO SOCIAL

4.2.6 Discurso neoliberal e defesa do agronegócio

O oitavo critério da análise teve como objetivo observar de que maneira foi apresentado o discurso relativo aos conceitos neoliberais. Nesse sentido, a posição pode ser avaliada em questões como redução da participação do Estado, aumento da iniciativa privada nos projetos, posicionamento com relação ao capital globalização, agronegócio, competitividade e mercado.

De uma maneira explícita ou não, praticamente todos os textos trazem uma posição favorável em relação ao modelo neoliberal, abertura de mercado, globalização e iniciativa privada. Entre o material analisado, 100 textos fazem alusão a tal proposta, sendo 58 releases do governo do Estado e/ou prefeituras.

Inicialmente, o discurso já trata o ‘Paraná 12 Meses’ como um projeto de transformação no campo, o que significa ‘mudança sem mudar’, ou seja, em direção ao modelo do agronegócio. O secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento, Antônio Leonel Poloni, destacou no release “Governo lança Paraná 12 Meses ao pequeno produtor” (DIÁRIO DA MANHÃ, 03/02/1998) que o mercado é mais exigente após a abertura econômica, por isso a situação atual do pequeno produtor deveria ser mudada. Defesa mais incisiva ao chamado neoliberalismo aparece no artigo “Agente de transformação”, do próprio secretário, em que afirma que não há espaço para paternalismos no campo. Indicava que o governo iria atuar em parceria com a iniciativa privada e organizações não governamentais (ONGs), duas instituições muito presentes nos governos neoliberais de então, em substituição à estrutura do Estado, principalmente de pessoal (FOLHA DE LONDRINA, 28/07/1999).

Ainda em relação à iniciativa privada, em diversos momentos foram notícias as parcerias com empresas e instituições. O governo buscou apoio, por exemplo, de cooperativas, como mostra matéria de encontro do secretário Antônio Leonel Poloni com representantes da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), em que ele pediu ajuda para “mudar a mentalidade dos pequenos agricultores cooperados”. Mudança de mentalidade, em tese, significava aderir ao modelo do agronegócio. Em 2001, a Fundação Araucária financiou universidades e faculdades interessadas em desenvolver projetos para as vilas rurais. O secretário da Habitação da época, Rafael Dely, fez questão de elogiar a participação de faculdades privadas no processo e não falou das públicas.

A opção por menor presença do Estado aparece também em notícias relativas às vilas rurais, como a busca de parcerias para desenvolver atividades produtivas entre vileiros. Nesse sentido, destacam-se acordos fechados com frigoríficos, cooperativas e empresas privadas.

QUADRO 12: Destaque dado às parcerias com a iniciativa privada Fomento: Poloni quer ajuda das cooperativas para execução do PR 12 Meses Folha de Londrina 04/03/1998

Universidades têm projetos à Vilas Rurais O Paraná 20/02/2001

Parceria garante renda nas vilas rurais Folha de Londrina 25/06/1999

O discurso de que o ‘Paraná 12 Meses’ representa a transformação no campo, presente em vários textos, identifica formas próprias de trabalho como atrasadas e o modelo proposto, do agronegócio e neoliberal, como o moderno e transformador. Nesse sentido é que alguns textos mostram a clara intensão de redução do Estado. A própria fala do secretário Antônio Leonel Poloni, como já foi demonstrado, indica a opção pela iniciativa privada. O secretário aponta, em tom de crítica, que no ‘Paraná Rural’ (projeto anterior ao ‘Paraná 12 Meses’), dos 140 milhões de dólares investidos, 70 milhões foram para a “manutenção da máquina pública”. Em entrevista para a Folha de Londrina, o governador Jaime Lerner também defendia a participação da iniciativa privada no projeto.

QUADRO 13: Críticas ao Estado e defesa da iniciativa privada Paraná 12 Meses já está no campo

Poloni concluiu que 50% dos recursos do Paraná Rural foram aplicados no custeio da máquina. Segundo ele, de um total de US$ 140 milhões que foram gastos em 7 anos, US$ 70 milhões foram para a manutenção de pessoal e apenas US$ 50 milhões chegaram ao campo. Folha de Londrina de 10/02/1998.

Lerner garante apoio ao campo

“É desta forma, dividindo responsabilidades com a iniciativa privada e com a sociedade civil organizada que, no Paraná, estamos conseguindo avançar, desenvolvendo ações que vão contribuir para que, em pouco tempo, tenhamos no campo um novo agricultor. Moderno, ágil, eficiente e capaz de competir no mercado em igualdade de condições com os agricultores dos países mais adiantados”.

Folha de Londrina 28/07/1999

Nesse contexto é que inicia fortemente uma discussão sobre modernização do serviço de extensão rural, por exemplo. A ideia era fechar convênios da Emater Paraná com prefeituras, que repassariam recursos para a empresa. O objetivo, segundo noticiado, era atender melhor os agricultores, incluindo o ‘Paraná 12 Meses’. Percebe-se que a intensão era dividir responsabilidades e, assim, evitar investimentos na extensão. Segundo Sepulcri (2005), o quadro de efetivos da Emater reduzia ano a ano. Em 1980 eram 1981 funcionários e em 2000 já tinha caído para 1542, número que baixaria ainda mais nos anos seguintes. Também

impactou sobre o quadro da Emater, a contratação de empresa terceirizada para prestar assistência social para vilas rurais, trabalho que era feito pela empresa.

QUADRO 14: Redução do Estado e ampliação das propostas de terceirização Emater reformula e moderniza política para melhorar atendimento ao agricultor

Diário da Manhã 27/01/1999

Assistência social volta às vilas rurais

Sobre contratação de empresa terceirizada para fazer a assistência social. Diário da Manhã 15/05/2002

Vale ressaltar que os veículos de comunicação pactuavam com o modelo político eleito em 1994 e reeleito em 1998, tanto na esfera federal como estadual. Com isso, além do aspecto publicitário e de gastos de verbas públicas para publicidade nos veículos, como destacam Fanini, Souza e Pereira (2015), havia boa vontade em publicar assuntos com o mesmo viés ideológico que convergia para a unidimensionalidade. Por isso a análise mostra o mesmo modelo de texto dos releases repetidos em matérias, principalmente na questão da ausência de pluralidade de vozes. Apenas um texto, de um jornal de fora, tem posição diferente. Trata-se da matéria ‘Vila Rural melhora moradia’, da Folha de São Paulo de 22/03/1998. Trata-se de um texto crítico ao programa pela dificuldade de gerar renda. Diz que a área é pequena e que os moradores têm que trabalhar fora. A matéria aponta outros problemas, como falta de água para a produção e de experiência para viver em comunidade, além de falta de crédito.