Distribuição dos conflitos por terra no Pará (2008)

No documento Acesso à qual justiça?: a construção da cidadania brasileira para além da concepção liberal (páginas 156-163)

Fonte: Relatório sobre a situação dos conflitos fundiários rurais no Brasil em 2008, (BRASIL, CNJ, 2010)

Aqui também a luta pela terra não pode ser genericamente concebida, entretanto. Já se tem conhecimento da existência de 240 comunidades quilombolas no estado. No nordeste do Pará, as comunidades quilombolas conhecidas encontram-se nos municípios de Abaetetuba, Acará, Augusto Correa, Baião, Bonito, Bragança, Cachoeira do Piriá, Cametá, Capitão Poço, Colares, Concórdia do Pará, Igarapé-Miri, Irituia, Mocajuba, Moju, Oeiras do Pará, São Miguel do Guamá, Tracuateua, Viseu. Nessa região, 41 comunidades já tiveram as suas terras tituladas entre 1998 e 2005.

As Ilhas de Abaetetura, terra quilombola que abriga as comunidades de Alto e Baixo Itacuruça, Campopema, Jenipaúba, Acaraqui, Igarapé São João, Arapapu e Rio Tauaré-Açu, localizadas no município de Abaetetuba estavam, em 2012, envolvidas, direta ou indiretamente em 05 ações judiciais, das quais três diziam respeito à garantia do seu direito ao território. Entretanto, na maior parte dos casos, quando figuram no polo passivo da demanda, os requeridos são quilombolas individualizados e, com exceção das ações propostas pela

155 União Federal (em Marambaia), todas as outras ações possessórias contra os quilombolas foram propostas por particulares.

Daí se vê que a luta pelo território, protagonizada pelas comunidades quilombolas pode ser facilmente descaracterizada, tomada de forma genérica como conflituosidade

agrária, especialmente no caso das comunidades ainda não tituladas. Esse processo tem

relação com o tratamento que os órgãos do sistema formal de justiça, no âmbito estadual, dispensam à questão. No Pará, das 16 ações judiciais relativas a quilombolas em 2012, 11 tramitavam na justiça federal e cinco na justiça estadual (LERRER et al, 2012). No entanto, esse é um debate que parece não ecoar no âmbito das políticas públicas de justiça.

Por fim, em Pernambuco, dos 185 municípios, 152 são sedes de comarca, o que equivale a 82% do total, contra apenas 18% de municípios não sedes de comarca. Entretanto, apenas a comarca da capital (Recife) possui um alto nível de complexidade e especialização, contando com 129 varas instaladas. Das restantes 151 comarcas, 110 (72,3%) funcionam com vara única ou com duas varas, no máximo: são as comarcas de primeira entrância. Ainda há outras 41 (26,9%) comarcas de entrância intermediária, isto é, que contam com um número maior de varas, garantindo algum nível de especialização.

Os mapas apresentados revelam aspectos do debate acerca do acesso ao sistema de justiça, que uma análise meramente quantitativa é incapaz de apontar. A conformação de novos territórios de justiça passa pela articulação entre critérios genéricos - quiçá esses atualmente utilizados – e outros, ligados às especificidades da conflituosidade sociais. Contudo, essa é uma operação que demanda que se desloque o núcleo teórico da concepção liberal da justiça. Resta evidente, por essa via analítica, que os critérios legais de estruturação do poder judiciário no território – densidade demográfica, movimento forense e receita tributária municipal – desconsideram elementos importantes para a conformação de um padrão de acesso à justiça que transborde aquela concepção liberal de uma justiça retributiva, que se realiza no âmbito dos tribunais.

O critério da densidade demográfica é incapaz de captar aspectos importantes do desrespeito/injustiça, pois estrutura o poder judiciário pressupondo uma homogeneidade da população que ignora o pluralismo das complexas sociedades contemporâneas. Assim, não se diferenciam, exemplarmente, no caso de Minas Gerais ou do Rio Grande do Sul, locais com áreas de concentração de pobreza, nem tampouco se reconhecem aspectos identitários das lutas sociais, associados a coletivos, grupos sociais ou comunidades, por exemplo. Ao

156 contrário, atua-se uma concepção homogeneizante das partes que podem vir a litigar: não existe diferenciação entre elas e o sistema de justiça não se organiza a partir dos tipos de conflitos e ou litigância que podem vir a surgir a partir da diversidade. O resultado é uma perversa reafirmação de estruturas de desigualdade/opressão/exclusão.

Situação similar se verifica quando se considera os outros dois critérios legais usualmente concebidos como vetores para organização do judiciário no território: movimento forense e receita tributária. A exigência de um movimento forense mínimo, conforme já apontado, gera enormes distorções no âmbito das lutas de cidadania, especialmente quando se considera o acesso de minorias ao sistema formal de justiça. Em primeiro lugar porque se desconsidera o fenômeno da “demanda reprimida”, pela pressuposição da igualdade formal entre as partes, a obscurecer as diferenças “inferiorizantes”, e desconsiderar que as barreiras (culturais e sociais) de acesso não estão igualmente distribuídas. Mas, principalmente, porque a orientação quantitativa (em detrimento da análise qualitativa da conflituosidade) de organização do sistema de justiça opera na construção da invisibilidade de determinados atores e demandas sociais, na dimensão da cidadania.

Por fim, conforme já argumentamos, o critério da receita tributária inverte a lógica de ampliação do acesso à justiça, em parâmetros igualitários, no âmbito da dimensão econômica, considerando que as barreiras de acesso à justiça – econômicas, sociais, culturais e simbólicas – operam mais severamente em face dos contingentes mais pobres da população. O vetor legal, no entanto, promove a concentração das estruturas do judiciário estadual em municípios “mais ricos”.

Não por acaso, ao se relacionar a divisão judiciária com variáveis empíricas que diagnosticam a desigualdade entre a população, medida pelo Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, revela-se a inadequação flagrante dos critérios legais com uma concepção de justiça que avance os parâmetros liberais. Em verdade, o poder judiciário, do modo como está organizado, reforça padrões de desigualdade no território.

O paradigma do “desenvolvimento humano implica a construção de uma ordem de valores na qual as dimensões econômica e política se transformem de fato em instrumentos de superação das privações materiais e culturais dos seres humanos”, o que requer “não apenas a ausência de obstáculos institucionais à tomada de decisões e ações (instituiões democráticas, direitos humanos), mas também reais chances materiais, físicas e simbólicas para tomar decisões e

157 executar ações (acesso à ocupação produtiva, ao rendimento, aos estudos e a uma vida saudável)” (Relatório de Desenvolvimento Humano, PNUD Brasil, 2005, p. 55).

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é bastante útil no âmbito de qualquer análise socioeconômica, pois funciona como um importante indicador de desigualdade social no território, que sintetiza três dimensões: educação, renda e longevidade. A educação é medida pela taxa de matrículas no sistema de ensino e pela taxa de analfabetismo; a longevidade, pela esperança de vida ao nascer, e a renda, pelo PIB per capta98. Para fins analíticos a um IDH até 0,499 se atribui a classificação de baixo desenvolvimento humano, entre 0,500 e 0,799 considera-se médio desenvolvimento humano, e acima de 0,800, alto desenvolvimento humano.

Em 2000 o Brasil era o 74º colocado no ranking do IDH (0,789), classificado entre os países com médio desenvolvimento humano (entre 0,500 e 0,800), e os municípios brasileiros com baixo IDH (abaixo de 0,500) eram 22, nos quais residiam 232.185 habitantes. A região Nordeste e a Amazônia ocidental eram as regiões com IDH mais baixo. As áreas com médio/alto desenvolvimento humano compreendiam as regiões Sul, Sudeste (exceto o nordeste de Minas Gerais) e Centro-Oeste, e os estados de Rondônia e Pará. Em oposição, a região Nordeste, e os estados do Acre, Amazonas, Amapá e Roraima caracterizavam-se por médio/baixo desenvolvimento humano.

Assim é possível dizer que os níveis de desenvolvimento humanos estão desigualmente distribuídos no território. O Distrito Federal é a unidade da federação com os mais altos índices, seguido dos estados de Santa Catarina e São Paulo. O Rio Grande do Sul aparece em quarto lugar (0,814) e Goiás em oitavo lugar (0,776), seguido de Minas Gerais (0,773). Pará está classificado na décima quinta posição (0,723) e Pernambuco na décima nona (0,705).

98 A inclusão da longevidade como uma das dimensões do desenvolvimento humano se justifica pelo fato de que uma vida longa (e saudável) é uma precondição para ampliação das capacidades e potencialidades dos indivíduos. Já a educação, relacionada ao acesso ao conhecimento, expressa o potencial das oportunidades existentes para a tomada de decisões racionais ao longo da vida, para o aumento da produtividade e do rendimento pessoal e familiar. A renda, por fim, é um meio para medir a condição de manutenção de um padrão de vida digno, o acesso das pessoas a oportunidades e recursos (ocupação, emprego, renda, tecnologias, crédito, terra, etc.). Evidentemente que podem ser dirigidos alguns questionamentos ao índice pelo fato de que a taxa de matrículas no sistema de ensino não indica, de forma alguma, qualidade, como também porque o PIB per capta é uma ilusão, principalmente em um país desigual como o Brasil, cujo índice de Gini para a renda era 0,609 em 2000. Contudo, apesar desses problemas, dada a abrangência do índice, utiliza-se o IDH nessa análise, porém com ressalvas.

158 Gráfico 1: Índice de Desenvolvimento Humano municipal (Todos os estados do Brasil, 2000).

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2000.

Ademais, a aplicação do Índice de Desenvolvimento Humano para o cálculo das desigualdades entre grupos etnico-raciais revela que boa parte da população negra foi mantida na pobreza, no sentido de terem sistematicamente reduzidas as suas capacidades mais essenciais da vida, indiretamente medidas pela falta de acesso ou acesso deficiente a bens, infraestrutura e serviços públicos (água potável, saneamento, saúde, educação, energia, comunicações). A desagregação do IDH por grupos étnicos e raciais permite compreender melhor o quadro das desigualdades estruturais no Brasil, especialmente, nos termos aqui propostos, no âmbito da conformação da ideia e da prática da cidadania.

Segundo o Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano (PNUD Brasil, 2005, p. 56-57), em 2000 a população branca do Brasil apresentava IDH-M de 0,814 enquanto o índice era de 0,703 para a população negra. Não havia região brasileira em que o IDH-M fosse alto, tampouco acima de 0,750 para a população negra: com exceção do Nordeste, onde o IDH-M era baixo (0,652), nas outras regiões o indicador era médio (0,746 no Sudeste, 0,728 no Sul, 0,706 no Centro-Oeste e 0,702 no Norte). Esses dados sugerem que há uma combinação entre desigualdades regionais e raciais, mas as discrepâncias regionais esclarecem apenas parcialmente as diferenças entre os indicadores nacionais de negros e brancos, se

159 considerarmos que em nenhuma região do país o IDH-M dos negros era igual ou superior ao dos brancos, em 2000.

A diferença entre o desenvolvimento humano da população branca e negra do Brasil está ligada, sobretudo, à renda: essa é a dimensão do IDH-M em que a desigualdade é maior, considerando que a renda per capta dos negros, em 2000, representava apenas 40% da dos brancos. Ademais, do total dos rendimentos de todas as fontes apropriadas pelas famílias brasileiras em 2000, 74% provinha da população branca (50% de homens brancos e 24% de mulheres brancas). Por outro lado, apenas 18% do total de rendimentos eram detidos por homens negros e 8% por mulheres negras, somando míseros 26% do total de rendimentos disponíveis para as famílias no Brasil cuja origem estava em alguma forma de remuneração de pessoas negras.

A disparidade de renda entre brancos/as e negros/as reflete, em grande medida, as desigualdades no mercado de trabalho. Conforme já mencionado, essas diferenças são evidentes não apenas na propoporção de pessoas desempregadas, que é maior entre as mulheres (em comparação com os homens na mesma condição), entre homens negros (em comparação com os demais homens na mesma condição) e entre as mulheres negras (em comparação com as demais mulheres na mesma condição). As diferenças se estendem à mão- de-obra ocupada, com acentuadas diferenças nas ocupações sem remuneração e, especialmente, entre os empregadores, em desvafor da população negra. Ademais, no setor informal, que se caracteriza por uma ocupação de baixa qualidade, a participação dos negros/as é superior a dos/as brancos/as.

As disparidades de remuneração entre brancos/as são ainda mais notáveis, o que só pode ser parcialmente explicado pelas disparidades de escolaridade entre os dois grupos, haja vista o fato de que entre grupos com o mesmo tempo de estudo, a desigualdade entre negros/as e brancos/as permanece, evidenciado, sobretudo, entre as mulheres negras no grupo de escolaridade mais elevada (nível superior). A convergência dos níveis educacionais não se traduz, portanto, em convergência de rendimentos (Relatório Nacional do Desenvolvimento Humano, PNUD Brasil, 2005, p. 64-5). As desigualdades raciais estendem-se à educação, em que pese os avanços mais recentes.

Por aí se compreende a utilidade da análise de indicadores desagregados por cor/raça e sexo na percepção do panorama social brasileiro. Contudo, o desenvolvimento inclui outros aspectos, além dos econômicos, sociais e políticos, no sentido que para que os indivíduos

160 possam expandir adequadamente suas capacidades, é essencial a generalização da experiência de autorrespeito pela universalização do acesso aos direitos. A isonomia de direitos requer, dentre outras coisas, acesso igual às instituições que integram o sistema formal de justiça.

Para a análise que aqui se procede, que pretende captar dinâmicas regionais na conformação das desigualdades de acesso à justiça pela via dos direitos, foram utilizados diferentes intervalos de IDH (conforme Quadro 4, abaixo), respeitando as particularidades de cada estado. Esses intervalos foram medidos a partir de uma distribuição estatística (quintil), que dividiu os municípios em um conjunto ordenado de IDH em cinco partes iguais. Assim, a distribuição do IDH corresponde à realidade de cada estado, sendo o primeiro intervalo correspondente aos 20% de municípios com IDH mais alto, considerando os parâmetros estaduais, e o quinto intervalo corresponde aos 20% dos municípios com IDH mais baixo no estado. Os intervalos para cada estado foram distribuídos da seguinte forma:

Quadro 4: Distribuição dos intervalos do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) por Estado UF/ Intervalos IDH -2000 Intervalo 1 Max-min. (azul) Intervalo 2 Min. (verde) Intervalo 3 Min. (amarelo) Intervalo 4 Min. (laranja) Intervalo 5 Min. (vermelho) RS 0,870-0,817 0,798 0,777 0,754 0,666 PE 0,862-0,669 0,633 0,604 0,581 0,467 MG 0,841-0,770 0,744 0,708 0,668 0,568 GO 0,834-0,762 0,743 0,730 0,711 0,600 PA 0,806-0,710 0,681 0,662 0,631 0,525

Fonte: PNUD Brasil; IPEA; FJP. Atlas do Desenvolvimento Humano, 2003.

Cabe ressaltar que a distribuição a partir do quintil possibilita analisar, na comparação com a divisão judiciária, se há ou não variação na distribuição do IDH. Ou seja, tendo uma distribuição igual em cinco partes no IDH nos munícipios, veremos se essa distribuição sofre alguma variação quando filtramos pela divisão judiciária (munícipios sede de comarcas e munícipios não sede), e com isso verificar se há alguma relação entre a desigualdade social (medida pelo IDH) e a ausência ou presença de estruturas jurídicas (divisão judiciária).

161 Na confecção dos mapas, por outro lado, cada intervalo foi relacionado a uma cor específica, de modo que os mapas têm uma mesma identidade visual. Foram confeccionados, para cada estado, três mapas, que correspondem: ao IDH dos munícipios; ao IDH somente das sedes; e ao IDH somente dos múnicpios não sedes. Inicia-se com a apresentação da distribuição territorial do IDH tendo como referência todos os municípios (sede e não sede de comarcas). Em seguida, apresentam-se os mapas, agrupando os estados a partir das três configurações descritas anteriormente sobre a relação da divisão judiciária e o total de municípios.

Assim, mesmo que não possamos agrupar os estados a partir dos intervalos de IDH, poderemos analisar a distribuição territorial dos serviços judiciários de duas formas: por um lado, a partir da distribuição socioeconômica de cada estado e sua relação com a distribuição dos serviços jurisdicional; e por outro lado, a partir de um grupo de estados que tem em comum a relação do número de municípios sedes e não sedes com o total de municípios.

Mapa 15: Índice de Desenvolvimento

No documento Acesso à qual justiça?: a construção da cidadania brasileira para além da concepção liberal (páginas 156-163)