136 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS
≥lim sup
"
t2
2 −XZ
{|Xnk|<ε}
t2x2
2 dPnk(x)dnk(x)
# . Ent˜ao,
1
ε2t2 ≥lim sup[1−XZ
{|Xnk|<ε}
x2dPnk(x)]≥0.
Fa¸ca t → ∞, para obter P R
{|Xnk|<ε}x2dPnk(x) → 1. Conclui-se que a soma P
k
R
{|Xnk|>ε}x2dnk(x)→0, pos P
k
R x2dPnk(x) = 1.
O seguinte teorema foi provado independentemente por Berry (1941) e Esseen (1942). Veja Feller (1966) para uma prova.
Teorema 8.3. (Berry-Esseen) Sejam {Xn, n ≥ 1} v.a’s i.i.d, de m´edia zero e variˆancia σ2 e suponha E(|X1|3) < ∞. Seja Fn a f.d de (X1+. . .+Xn)/(σ√
n) e Φa f.d de uma normal padr˜ao. Ent˜ao,
sup
−∞<x<∞
|Fn(x)−Φ(x)| ≤ 33 4
E(|X1|3) σ3
√1 n.
O teorema ´e caso particular de um resultado mais geral. Seja ∆n(x) =|Fn(x)− Φ(x)|. Sob as condi¸c˜oes do teorema (suponhaσ = 1), existe uma constante absoluta C0(δ), para δ∈(0,1], tal que
sup
x
∆n(x)≤C0(δ)L2+δn , onde L2+δn = E(|X1|2+δ) nδ/2 .
Observe que o teorema anterior ´e um caso particular paraδ= 1. V´arios trabalhos subsequentes foram provados no sentido de tornar mais preciso o limite superior do resultado. Veja Korolev e Shevtsova (2010) para uma resenha hist´orica.
(c) Suponha que Xn tenha distribui¸c˜ao binomial, com parˆamteros n e p = λ/n, com λ > 0. Ent˜ao, sabemos que Xn
→D P(λ), ou seja, uma Poisson com parˆametro λ, e f.c eλ(eit−1). Se, para cada n, considerarmos Xn,1, . . . , Xn,n independentes, cada uma Bernoulli, comp=λ/n, ent˜aoXn∼Xn,1+. . .+Xn,n e teremos Xn,1+. . .+Xn,n
→D P(λ).
Esses exemplo s˜ao instˆancias da seguinte situa¸c˜ao. Temos um arranjo triangular X11
X21, X22
X31, X32, X3
· · ·
onde, para cada n, Xn1, . . . , Xnn s˜ao i.i.d. Seja Sn =Pn
i=1Xni. Em cada um dos exemplos acima,Snconverge para alguma v.a. Quais outras vari´aveis aparecem em situa¸c˜oes como essas?
Suponha que Sn
→D X. Seja ϕ f.c de X. Temos que S2n
→D X, mas S2n = (X2n,1+. . .+X2n,n) + (X2n,n+1+. . .+X2n,2n) =Yn+Yn0. As v.a’s{Yn} formam uma fam´ılia fechada, pois P(Yn > ε)2 = P(Yn ≥ε, Yn0 ≥ ε) ≤P(Y2n > ε) e como S2nconverge em lei, a fam´ılia ´e fechada. Portanto, usando o Teorema de Prokhorov, existe uma subsequˆencia {nk} tal que Ynk converge em lei para Y e Yn0k converge em lei para Y0, e pela independˆencia Ynk+Yn0k converge em lei para Y +Y0 e como Ynk+Yn0k converge em lei paraX, temos que X∼Y +Y0.
Seja ϕY a f.c de Y. Segue-se que ϕ(t) = [ϕY(t)]2. De modo similar, ϕ(t) = [ϕZ(t)]k,para alguma v.a Z, e cada k.
Defini¸c˜ao 8.1. Uma v.a X diz-se infinitamente divis´ıvel se, para cada n, existe uma f.c ϕn, tal queϕ(t) = [ϕn(t)]n, sendo ϕa f.c de X.
De modo equivamente, podemos dizer queX´e infinitamente divi´ıvel se, para cada n, existem v.a’s Xn1, . . . , Xnn, que s˜ao i.i.d e tais queX tem a mesma distribui¸c˜ao queXn1+. . .+Xnn.
Exemplo 8.2. S˜ao infinitamente divis´ıveis as distribui¸c˜oes:
(1) Normal (2) Cauchy (3) Poisson (4) exponencial (5) Gama
Teorema 8.4. X ´e infinitamente divis´ıvel se, e somente se, X for o limite em distribui¸c˜ao de uma soma Sn=Xn1+. . .+Xnn de v.a’s i.i.d.
138 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS Prova: (⇐) feito acima.
(⇒) ´Obvio, pois se X for infinitamente divis´ıvel, ent˜ao, para cada n, X ∼ Xn1 + . . .+Xnn. .
Teorema 8.5. A classe das distribui¸c˜oes infinitamente divis´ıveis ´e fracamente se-quencialmente fechada (isto ´e, sePn⇒P, e sePn for infinitamente divis´ıvel, ent˜ao P tamb´em o ser´a).
Prova: Para cadan, sejamXn1, . . . , Xnn infinitamente divis´ıveis, tais quePn
i=1Xni tenha Pn como sua distribui¸c˜ao. Como Pn ⇒ P, Pn
i=1Xni →D X, onde X tem distribui¸c˜ao P. Logo, P ´e infinitamente divis´ıvel, pelo teorema anterior. .
Teorema 8.6. Seja ϕ a f.c de uma distribui¸c˜ao infinitamente divis´ıvel. Ent˜ao, ϕ(t)6= 0, para todot.
Prova: E suficiente mostrar que´ |ϕ(t)|2 6= 0, para todo t. Observe que |ϕ(t)|2 ´e, realmente, a f.c de uma distribui¸c˜ao infinitamente divis´ıvel (i.d). De fato, seja X i.d com f.c ϕ e X0 independente de X e com a mesma distribui¸c˜ao que X. Ent˜ao, X−X0 ´e i.d e sua f.c ´e |ϕ(t)|2.
Seja g(t) = |ϕ(t)|2 e seja hn(t) a n-´esima raiz real de g(t): hn(t) = [g(t)]1/n. Ent˜ao,h(t) ´e uma f.c e limn→∞hn(t) existe e ´e igual a zero, se e somente seg(t) = 0 e igual a 1, caso contr´ario. Tamb´em, comog´e uma f.c, existeε >0 tal queg(t)>0, para todo|t|< ε (pois g´e cont´ınua na origem). Segue que limn→∞hn(t) = 1, para
|t|< ε. Seh(t) ´e o limite, h(t) ´e cont´ınua no zero e portanto ´e uma f.c. Logo, h ´e cont´ınua, dondeh(t) = 1, para todot. Logo, g(t) n˜ao pode ser zero. .
Defini¸c˜ao 8.2. Seja X uma v.a com f.cϕ. Sejam X0, X1, . . . v.a’s i.i.d, Xi ∼ X, X0 = 0. Seja N uma v.a independente de Xi, para todo i, tendo distribui¸c˜ao de Poisson, P(λ). Defina Y =PN
i=0Xi. Dizemos que Y tem distribui¸c˜ao de Poisson composta.
A f.c de Y ´e dada porψ(t) =eλ[ϕ(t)−1]. Al´em disso,Y ´e infinitamente divis´ıvel.
Veja o Problema 2.
Para o resultado a seguir, necessitamos de alguns fatos sobre vari´aveis complexas.
SejaS um espa¸co topol´ogico e f :S → C, cont´ınua. Dizemos que f tem logaritmo cont´ınuo se existir uma fun¸c˜ao cont´ınua g : S → C tal que f = eg. A fun¸c˜ao g ´e
´
unica sobre cada componente de S, a menos de uma constante da forma 2πim. O resultado vale para S=R ef cont´ınua, n˜ao nula.
Teorema 8.7. X´e infinitamente divis´ıvel se, e somente se,X ´e o limite em distri-bui¸c˜ao de uma sequˆencia de distribui¸c˜oes de Poisson compostas.
Prova: (⇐) Segue do Problema 2 e Teorema 8.5.
(⇒) A f.c de X,ϕ(t) , n˜ao se anula nunca, pois X ´e infinitamente divis´ıvel. Logo
Morettin - mar¸co/2018
ϕ admite um logaritmo cont´ınuo g, ou seja, ϕ(t) = eg(t). Como ϕ(0) = 1 e como g ´e ´unica a menos de uma constante, 2πim, podemos escolher uma g ´unica com g(0) = 0.
Tamb´em sabemos que ϕ(t) = [ϕn(t)]n, para cada n, onde ϕn ´e uma f.c; ϕn(t) nunca se anula, logo pelo mesmo argumento, existe um logaritmo cont´ınuo gn, tal queϕn(t) =egn(t) e gn(0) = 0.
Note queegn´e uman-´esima raiz deϕ, logo pela unicidade do logaritmo cont´ınuo, obtemos g = ngn+ 2πim. Como g(0) = gn(0) = 0, segue-se que m = 0, logo gn(t) =g(t)/n. Portanto,
n→∞lim en(ϕn−1)= lim
n→∞e[eg/n−1]≈eg,
usando ex−1≈x. Mas en(ϕn−1) ´e a f.c de uma distribui¸c˜ao de Poisson composta.
.
Queremos encontrar a forma geral da f.c de uma distribui¸c˜ao infinitamente di-vis´ıvel. Sabemos que, se X for infinitamente divis´ıvel e ϕ´e a sua f.c, [ϕn]n = ϕ, ent˜ao en(ϕn−1) →eg =ϕ, ou seja, n(ϕn−1)→logϕ. Portanto, podemos escrever
Z
(eitx−1)·n·dFn(x)→logϕ(t), ondeFn´e a f.d correspondente aϕn.
Como P{|Xnk| > ε} → 0, as medidas ndFn(x) colocam mais e mais massa no zero, quando n→ ∞. Portanto, considere
n→∞lim Z
(eitx−1)1 +x2 x2
x2
1 +x2ndFn(x).
Essa integral apresenta uma dificuldade, a saber, o integrando torna-se infinito parax= 0. Logo, consideramos
n→∞lim Z
(eitx−1− itx
1 +x2)1 +x2
x2 dGn(x) +it Z x
x2+ 1ndFn(x),
chamando 1+xx22ndFn(x) = dGn(x),e notando que o termo entre parˆentesis na pri-meira integral ´e da ordem det2x2 perto de zero e a segunda integral ´e aproximada-mente igual aitR
x−1dGn(x).
O resultado a seguir d´a a representa¸c˜ao da f.c de uma distribui¸c˜ao infinitamente divis´ıvel.
Teorema 8.8. (L´evy-Khintchine) (a) X ´e infinitamente divis´ıvel, com f.c ϕ se, e somente seϕ=eψ, onde
140 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS
ψ(t) =itγ+ Z ∞
−∞
(eitx−1− itx
1 +x2)1 +x2
x2 dG(x), (8.13) ondeγ ´e uma constante eG´e uma fun¸c˜ao crescente e de varia¸c˜ao limitada.
(b) A f.cϕdetermina univocamenteγeG, isto ´e, a representa¸c˜ao de L´evy-Khintchine
´ e ´unica.
Observa¸c˜ao: O integrando em (8.13) ´e definido como−t2/2 emx= 0. SeGcoloca massaσ2 em zero, podemos escrever
ψ(t) =itγ−σ2t2 2 +
Z ∞
−∞
(eitx−1− itx
1 +x2)1 +x2
x2 dG(x),ˆ (8.14) onde ˆG´e uma medida sem massa no zero. Outra maneira de escrever ´e
ψ(t) =itγ−σ2t2 2 +
Z ∞
−∞
(eitx−1− itx
1 +x2)ν(dx), (8.15) ondeν ´e chamadamedida de L´evy.
Se X satisfaz (8.13), escreveremos X∼(γ, G).
Prova do Teorema: (a) (⇒) Seja ϕ a f.c deX, ent˜ao ϕ(t) = [ϕn(t)]n. Tamb´em, ϕ(t) =eg, ϕn(t) =egn e n[ϕn(t)−1]→g(t).
Defina
h(t) = Z t
−∞
x
1 +x2ndFn(x), na qual Fn ´e a f.d correspondente aϕn.
Antes de prosseguir, vamos considerar os seguintes fatos.
[1] Existe uma constante A tal que
nPn{[−a, a]c} ≤Aa Z 2/a
−2/a
|g(t)|dt, sendo Pn a distribui¸c˜ao de probabilidade deFn.
De fato, usando o Lema 7.4,
nPn{[−a, a]c} ≤a Z 2/a
−2/a
n|ϕn(t)−1|dt.
Masn[|ϕn(t)−1|]→g(t), logo pelo TCD, Z 2/a
−2/a
n[|ϕn(t)−1|]dt→ Z 2/a
−2/a
|g(t)|dt.
Morettin - mar¸co/2018
[2] Existe uma constante A tal que Z 1
−1
x2ndFn(x)≤A, ∀n.
De fato, temos que n[1− Rϕn(1)]≥
Z 1
−1
[1−cosx]ndFn(x)≥C Z 1
−1
x2ndFn(x),
sendo que na ´ultima integral usamos a expansa˜ao de Taylos de cosx at´e primeira ordem. Mas n[1− Rϕn(1)] → g(1) 6= 0, logo existe uma constante A1 tal que A1g(1)≥R1
−1x2ndFn(x),para todox.
[3] SejaHn(∞) =R
(x2)/(1 +x2)ndFn(x). Por [1] e [2],{Hn(∞), n≥1}´e limitada.
Defina Gn(t) = Hn(t)/Hn(∞), de modo que Gn ´e uma medida de probabilidade.
Ent˜ao, {Gn, n ≥ 1} ´e fechada, por [1] e [2], desde que Hn(∞) seja bounded away from zero, poisGn{[−a, a]c} ≤C.aR2/a
−2/a|g(t)|dt, que est´a pr´oxima de|g(0)|, quando a´e grande e g(0) = 0. Logo, pelo Teorema de Prokhorov, existe uma sequˆencia nk e uma distribui¸c˜ao de probabilidadeGtal queGnk →Gem pontos de continuidade de G. Podemos escolhernk tal queHnk(∞) =Ank →A.
Portanto, temos que
logϕ(t) =g(t) = lim
nk→∞n[ϕn(t)−1] = lim
nk→∞
Z
[eitx−1]nkdFnk(x) =
= lim
nk→∞Ank
Z
eitx−1− itx 1 +x2
1 +x2
x2 dGnk(x) +itγn
.
Como Gnk → G e o integrando ´e cont´ınuo, esse tende para uma integral com dGnk substitu´ıda por dG. ComoAnk →A, uma parte do limite em quest˜ao resulta A{R
[eitx−1−1+xitx2]1+xx22dG(x)}, logo γn→γ, para algum γ.
(⇐) Suponha que x teha f.c. ϕ=eψ, com (8.13) v´alida. Mostraremos queX ´e id.
Escreva ψ como um limite de somas da forma ψn=X
k
eitak−1− itak 1 +a2k
1 +a2k
a2k [G(ak)−G(ak−1].
Esse ´e o logaritmo da f.c de uma soma de v.a’s independentes, com distribui¸c˜oes de Poisson compostas. O limite deeψn ´e eψ, que ´e cont´ınua no zero, logo eψ ´e uma f.c. Segue que X ´e id, pois ´e o limite em distribui¸c˜ao de v.a’s i.d’s (uma soma de v.a’s independentes e com distribui¸c˜oes de Poisson compostas ´e i.d.)
142 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS (b) (Unicidade) Seja ϕ=eg, ondeg tem a forma canˆonica. Queremos provar queg determinaγ e Gunivocamente. Defina
h(t) = Z t+1
t−1
g(x)dx−2g(t).
Ent˜ao, g determinah univoamente. Defina, agora, H(t) = 2
Z t
−∞
[1−sinx/x](1 +x2)/x2dG(x).
Ent˜ao, h(t) = R
eitxdH(x), logo h dtermina H univocamente (pois h ´e a trans-formada de Fourie deH). Mas o integrando em H(t) ´e positivo eH(A) = 2R
A[1− sinx/x](1 +x2)/x2dG(x), logo H determina G univocamente. Segue que g deter-mina G e eitγ1+R[···]dG1 =eitγ2+R[···]dG2,da qual segue G1 =G2 e eitγ1 =eitγ2, para todo te finalmenteγ1=γ2.
Exemplo 8.3. (a) Se X ∼N(0, σ2), ent˜ao G coloca massa pontual σ2 no zero, e γ = 0. SeE(X) =µ, ent˜aoγ =µ.
(b) SeX∼P(λ), ent˜ao Gtem massa pontual de tamanhoλ/2 em 1 eγ =λ/2.
Teorema 8.9. (da continuidade) Seja Xn infinitamente divis´ıvel com parˆametros (γn, Gn) e X com parˆametros (γ, G). Ent˜ao, Xn →D X se, e somente se, γn → γ, Gn→G nos pontos de continuidade deG esupnGn([−a, a]c)< ε,para todoε >0 e adependendo deε.
Prova: (⇐) Imediata (⇒) SeXn
→D X , ent˜ao ϕn(t)→ ϕ(t), para todot; como ϕn, ϕ n˜ao s˜ao nunca nu-las, temos que logϕn(t) → ϕ(t). Ou seja itγn +R
[· · ·]dGn converge para itγ + R[· · ·]dG. Argumentando como na prova do teorema anterior, mostra-se que a sequˆencia{Gn(+∞), n≥1}´e limitada e existem uma subsequˆencianke uma medida Gˆ tal que (Gnk(x))/(Gnk(∞))→G(x) andˆ Ank(∞)→A. Segue-se que
Ank Z
[· · ·]dGnk An,k →A
Z
[· · ·]dG,ˆ
pela defini¸c˜ao de convergˆencia fraca, pois o integrando ´e limitado e cont´ınuo . Como, acrescentando-se itγn ao primeiro termo da rela¸c˜ao anterior e itγ ao segudo, con-tinuamos a ter convergˆencia, por unicidade devemos ter G = AG, de modo queˆ Gnk(x) → G(x) nos pontos de continuidade de G. De fato, Gn(x) → G(x) e, por-tanto, γn→γ, pois eitγn →eitγ, para todot.