Capítulo III – Caraterização do Contexto Educativo no 1.º Ciclo do Ensino Básico
3. Fundamentação teórica da pesquisa
3.3. Diversidade cultural: uma sociedade multicultural e/ou intercultural?
Há imensas questões que conduzem à diversidade, seja pela língua falada ou pela cultura de cada povo ou grupo étnico. Há um sem fim de fatores que criam a diversidade. Mas isso não é, nem pode ser, fator de discriminação ou algo negativo. Há imensas potencialidades na diversidade e, uma imensa riqueza cultural por descobrir.
Na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural a cultura é definida como:
“(…) o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afectivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange, além das artes e das letras, os modos de vida, as formas de viver em comunidade, os sistemas de valores, as tradições e as crenças” (UNESCO, 2001).
Ao conceito de cultura surgem associados os termos “intercultural” e “multicultural”, algumas vezes usados como sinónimos, mas existindo na realidade diferenças entre eles. Na Europa dá-se preferência ao termo intercultural enquanto que, especialmente nos Estados Unidos da América, Austrália e Ásia predomina o uso do termo multicultural. Ainda assim, mesmo entre países da Europa por vezes, há diferenças no seu uso (Holm & Zilliacus, 2009). Assim, ainda que interligados convém distinguir ambos.
Cortesão e Pacheco (1991) definem “multicultural” como sendo “uma constatação da presença de diferentes culturas num determinado meio e da procura de compreensão das suas especificidades” (p.32), enquanto que “intercultural” é um percurso “em que a criação da igualdade de oportunidades supõe o conhecimento/reconhecimento de cada cultura, garantindo, através de uma interação crescente, o seu enriquecimento mútuo” (p.32).
equitativa de diversas culturas, assim como a possibilidade de geração de expressões culturais compartilhadas através do diálogo e respeito mútuo.
Vejamos um esquema elaborado por Romero (2003), que apresenta os conceitos de interculturalidade e multiculturalidade:
Proposta de Termos e Conceitos Plano factual ou dos factos
O QUE É
MULTICULTURALIDADE = Diversidade cultural (linguística,
religiosa)
INTERCULTURALIDADE = Relações interétnicas (interlinguísticas, inter-religiosas) Plano normativo ou das
Propostas sociopolíticas e éticas
O QUE DEVERIA SER
MULTICULTURALISMO Reconhecimento da diferença 1. Princípio da igualdade 2. Princípio da diferença INTERCULTURALISMO Convivência na diversidade 1. Princípio da Igualdade 2. Princípio da diferença 3. Princípio da Interação positiva Modalidade 1 Modalidade 2 PLURALISMO CULTURAL
Morgado e Pires (2010) acentuam que com um mundo mais globalizado, os contactos com as civilizações cresceram e acentuou-se a tomada de consciência das diferenças e semelhanças entre culturas, assim como as animosidades e resistências.
Como bem sabemos, a sociedade atual encontra-se cada vez mais globalizada principalmente devido aos constantes movimentos migratórios. A grande circulação de pessoas conduziu ao contacto frequente entre culturas, ou seja, vivemos numa sociedade multicultural. Isso não significa, porém, que exista uma sociedade intercultural.
Para se poder falar de uma sociedade intercultural, tem que existir interação, conhecimento e aceitação entre diferentes culturas (Holm & Zilliacus, 2009, Romero, 2003, 2010). Algo que nem sempre acontece. Como tal, é fundamental incentivar a comunicação e o diálogo intercultural.
Rodrigo (2000) refere que só é possível a evolução de uma cultura através do contacto com outras culturas mas que este contacto pode ter caraterísticas muito diversas. O autor define os principais tópicos a ter em atenção para uma comunicação intercultural eficaz: uma língua comum, o conhecimento da outra cultura, o reconhecimento da própria cultura, a ausência de preconceitos, a capacidade de empatizar, saber meta comunicar-se (passar uma mensagem de modo a que esta possa ser interpretada) e ter uma relação equilibrada. Refere ainda que os maiores obstáculos para esta comunicação são a ignorância, a generalização excessiva, o sobredimensionar as diferenças e universalizar partindo de si próprio.
O nosso trabalho prático pretende dar um pequeno contributo para ultrapassar esses obstáculos junto de um grupo de crianças do 1.º Ciclo.
3.3.1. Educação intercultural
Como já enunciámos, a sociedade encontra-se cada vez mais globalizada em função dos movimentos migratórios conduzindo assim à interação de culturas, línguas, religiões e costumes. As escolas, enquanto reflexo da sociedade, são também um lugar de encontro de culturas.
Como refere Martins (2002), a educação intercultural (e multicultural) é um fenómeno social e político que assenta em vários fatores que surgiram nas últimas décadas e que originaram exigências educativas a que as escolas não podem ser indiferentes. Perotti (2003) reforça esta ideia ao referir que “Foi por causa da sua capacidade para enfrentar estes desafios que a educação intercultural foi solicitada a dar o seu contributo ao nível dos conceitos e das práticas educativas como parte integrante da educação para os direitos humanos e da educação contra a intolerância e o racismo (p.20)”.
Morgado & Pires (2010) entendem que a educação intercultural se encontra configurada como um espaço de formação para acolher a diversidade num ambiente cada vez mais diversificado devido à globalização e mundialização económicas. Assim é determinante gerir a diferença. Esta gestão, para as autoras, é entendida como:
“(…) promover a igualdade entre, e a integração de, pessoas tendo em conta as suas diferenças étnico-raciais, de classe social, de género, de opção de identidade sexual, de educação, de valores, ou outras, num mesmo território e em presença de uma cultura dominante e de atitudes culturais hegemónicas que estabeleçam e perpetuam relações de e que negam a certos grupos os seus próprios recursos simbólicos” (p.62).
As autoras acrescentam ainda, citando Oullet (1991), que uma educação intercultural é uma formação sistemática que visa desenvolver, em grupos maioritários e minoritários, atitudes, comportamentos e competências de compreensão de outras culturas e maior interação comunicativa e social, criando assim identidades e sentido de pertença comum à humanidade.
Assim sendo, torna-se essencial que as escolas consigam dar resposta a estas questões. Araújo (2005) indica que a interculturalidade na educação possibilita o fortalecimento da identidade cultural de diferentes sujeitos socias, permite o diálogo entre eles, incentiva ao respeito e à convivência entre grupos étnicos distintos e tenta dinamizar relações não só entre as famílias como também entre a comunidade e a escola. De acordo com a autora, a educação intercultural enquanto ação educativa e prática pedagógica tem em consideração a pluralidade cultural dos alunos. Assim, deve preocupar-se com a coexistência entre culturas, relacionando-se com uma pedagogia
discutam as diferenças culturais, tendo em atenção a legitimidade de todas as culturas. Na escola deve, portanto, haver espaço para discutir temas que envolvam questões e temas interculturais pois é sabido que as diferenças geram tensões e conflitos.
Peres (2001) defende, já há quase duas décadas, que se deve desenvolver uma nova conceção de escola e de professor, ou seja, escolas e professores que promovam sonhos e utopias para a educação. Para ele, as escolas democráticas e interculturais combatem desigualdades socioculturais e promovem o respeito pela diversidade cultural, questionando os discursos monoculturais e desenvolvendo práticas de justiça curricular, social e inclusão de todos os parceiros do processo educativo.
Nesta perspetiva, o professor tem um papel fundamental. É importante que a sua formação seja intercultural para que este possa colaborar de forma ativa na educação intercultural dos seus alunos. Compete ao professor, enquanto agente educativo da educação intercultural, ser mediador e desmistificar preconceitos, respeitar valores, valorizar diferenças culturais, fortalecer os diálogos e as negociações no sentido de enriquecer a compreensão e entendimento do processo de construção das diferenças dentro da diversidade cultural e fundamentalmente (re)conhecer e respeitar o “Outro” enquanto elemento do espaço intercultural. Deste modo, enriquece toda a comunidade: escola, famílias e meio envolvente (Marques & Bastos, 2016; Silva & Rebolo, 2017).
3.3.2. Aprendizagens interculturais: relevância da utilização de contos tradicionais lusófonos
A aprendizagem intercultural é um dos recursos fundamentais da educação intercultural. Esta aprendizagem refere-se ao processo individual que envolve atitudes, comportamentos e experiências relacionadas com a interação entre culturas diferentes. Deste modo, a aprendizagem intercultural relaciona-se com a compreensão e o conhecimento do contexto cultural onde estamos inseridos, respeitando e valorizando os outros. É um processo longo e complexo, de descoberta que desafia a identidade de cada um com o objetivo de alcançar o equilíbrio e a compreensão mútua (Marques & Bastos, 2016).
Dolan (2014), remetendo para Short (2009), define a educação intercultural como uma orientação em que os alunos:
• Exploram as suas identidades culturais e compreendem o conceito de cultura; • Desenvolvem consciência e respeito pelas diferentes perspetivas culturais; • Aprendem sobre questões relevantes e com significado pessoal, local e global; • Valorizam a diversidade de culturas e perspetivas do mundo;
• Demonstram responsabilidade e compromisso para fazer a diferença no mundo; • Desenvolvem-se enquanto seres humanos que questionam, conhecedores e
De acordo Banks (2004, citado por Banks, 2016), para se tornarem cidadãos eficazes, os alunos devem atingir conhecimentos, valores e habilidades necessárias para participar na sua cultura comunitária e doméstica, em outras culturas dentro do seu país, da cultura cívica do país e na comunidade global.
A literatura infantil, como referem Silva et al. (2017), é uma forma das crianças e jovens se expressarem e apropriarem da cultura, trabalharem a igualdade de direitos, transformarem a realidade social num contexto “plural e multíplice”, vivenciar e respeitar a diversidade dentro da sua cultura e das culturas de outros povos.
O tema geral da literatura considerada multicultural, em que incluímos os contos tradicionais, é diversidade. O estudo da diversidade de culturas oferece às escolas um potencial mais rico em vez de uma atitude de uniformidade e cultura única. Deste modo, ao abordar a literatura multicultural o professor não deve valorizar uma cultura em função da outra, mas sim valorizar, aceitar e desenvolver um trabalho com os alunos, com cada criança enquanto ser único, devido à sua cultura e ir além da mesma (Vieira, 2006). Deste modo, a literatura multicultural permite a aquisição de aprendizagens interculturais. Assim, a escolha de contos de países lusófonos, nomeadamente de países africanos, assim como de Portugal e do Brasil, permite dar a conhecer às crianças aspetos das diferentes culturas de onde os contos são originários, pois como refere Balça (2015), os contos tradicionais estão presentes em diversos pontos do globo e geograficamente distantes mas ainda assim apresentam semelhanças.
Há vários estudos que defendem que o contacto de crianças do Ensino Básico com livros multiétnicos, assim como com outros materiais de ensino com essas caraterísticas, contribui de forma positiva para o desenvolvimento de atitudes de tolerância e aceitação das diferenças culturais e étnicas (Gomes, 2008). Se considerarmos os contos tradicionais da mesma forma e aliados à temática animal, que sempre fascinou e prendeu a atenção das crianças, temos uma possível fórmula de sucesso para desenvolver aprendizagens interculturais junto de alunos do 1.º Ciclo do Ensino Básico.
Morgado & Pires (2010), referindo-se às estratégias pedagógicas para desenvolver a educação intercultural com recurso à literatura infantil, defendem que estas se baseiam na análise do conteúdo das obras e no diálogo sobre ele, podendo este assumir a forma de troca de ideias, análise colaborativa ou de atividades performativas – encenar histórias, reescrevê-las, ilustrá-las, comparar com outras, etc.
Concordamos com Vieira (2006), quando esta afirma que “As crianças ao ler, ao ouvir ler e ao conversar sobre histórias que apresentem uma visão multicultural da sociedade, serão capazes de compreender a diversidade do mundo em que vivem e estabelecer ligações entre a experiência que têm desse mesmo mundo com o que lêem e ouvem” (p.62). A relação criada entre o modo de vida da criança e o mundo