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INTRODUÇÃO 25 1.1REFERENCIAL TEORICO

1.1.5 Diversidade do Extremo Oeste de Santa Catarina

O Extremo Oeste de Santa Catarina (EOSC) caracteriza-se pela diversidade de variedades selecionadas e mantidas por agricultores familiares ao longo das gerações. Como por exemplo, cerca de 50 variedades arroz e 120 de feijão, centenas de mandioca e dezenas de hortaliças mantidas pelos agricultores familiares (VOGT, 2005; OGLIARI et al., 2007; DA SILVEIRA, 2015; OSÓRIO, 2015). Há espécies conservadas somente por agricultores e que não estão disponíveis nos mercados regionais, como o porongo (Lagenaria

siceraria), utilizado para a fabricação da cuia para o chimarrão e a

esponja (Luffa cyllindrica L.), utilizada para lavar louça e tomar banho (CANCI, 2006).

Estima-se que até meados da década de 1960, os cultivos de milhos se baseavam principalmente em sementes produzidas pelos agricultores. Com a promoção do uso das variedades melhoradas como parte do modelo de desenvolvimento produtivista e demandante de insumos, as variedades locais passaram a ser desvalorizadas até próximo à extinção, fazendo com que, em 1994, apenas 2% dos agricultores conservassem sementes de milho (CANCI et al., 2005). O modelo de produção baseado em insumos e sementes de fora da propriedade é indicado por Canci (2006) como uma ameaça para o sistema tradicional da região EOSC dependente do manejo e uso da agrobiodiversidade para

se reproduzir. A conservação da agrobiodiversidade e dos conhecimentos associados são críticos para manter os sistemas tradicionais de produção familiar. Como resposta de resistência, a região concentra uma intensiva articulação impulsionada por organizações sociais junto aos agricultores familiares para a recuperação, conservação da diversidade genética e cultural.

Diante desse cenário, desde o ano de 2002, o Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade (NEABio) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com diversas organizações, instituições, agricultores, vem desenvolvendo e apoiando uma série de pesquisas, atividades, capacitação e extensão a respeito das variedades locais da região EOSC, sobretudo nos municípios de Anchieta e Guaraciaba (Figura 1), o que tem permitido intensificar as ações em torno da agrobiodiversidade da região.

Figura 1 – Localização dos municípios de Anchieta e Guaraciaba, na região Extremo Oeste de Santa Catarina, Sul do Brasil.

Fonte: Costa et al., 2016.

O município de Anchieta tem nas organizações de agricultores e movimentos populares uma das bases para a conservação de variedades locais. Como parte do seu trabalho, no 2000,Anchieta foi reconhecida

como Capital Estadual do Milho Crioulo através da Lei Estadual 11455 (atualmente Lei nº 16722). A identificação do município com as variedades locais reforçou ainda mais a importância das variedades locais cultivadas na região.

Em Guaraciaba, a partir da elaboração dos Planos de Desenvolvimento das Microbacias Hidrográficas (PDMH), me 2005, foi desenvolvido o Kit Diversidade, uma ferramenta desenvolvida no Nepal (STHAPIT et al., 2007) destinada à promoção e a conservação da diversidade genética de diversos cultivos. Para isso, foram selecionadas 16 espécies vegetais (dentre elas milho, milho-pipoca, feijão, melancia, melão, abóbora, moranga, arroz, fava, ervilha) e 52 variedades conservadas pelas famílias agricultoras do município de Guaraciaba. O Kit Diversidade consiste em uma amostra de sementes locais de diferentes espécies produzidas e distribuídas para agricultores familiares.

Alves et al. (2004) destacam que 68% dos agricultores que cultivavam milho em Anchieta, a partir de 1995, usavam variedades locais. O aumento do uso das sementes tradicionais pode ser considerado uma revalorização das variedades locais. Segundo Ogliari e Alves (2007), sugere que as cultivares modernas não atendiam ao menos em parte, às necessidades de uso e de cultivo dos agricultores familiares. As pesquisas realizadas vêm demonstrando que as variedades locais conservadas pelos agricultores dos municípios de Anchieta e Guaraciaba apresentam elevado potencial produtivo (Ogliari & Alves 2007; Kist et al., 2010; Ogliari et al., 2013; Kist et al., 2014) e adaptativo, sobretudo frente a estresse de natureza biótica (Sasse, 2008), além de serem importantes fontes naturais de carotenóides, antocianinas e compostos fenólicos (Kuhnen et al., 2009; Kuhnen et al., 2010; Kuhnen et al., 2011; Uarrota et al., 2011; Kist et al., 2014).

No ano 2011, no âmbito do Projeto MAYS I, foi desenvolvido pela equipe do Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade (NEABIO), em pareceria com organizações locais, o Censo da Diversidade. Incluiu os municípios de Anchieta, e Guaraciaba, com o objetivo de identificar variedades crioulas de milho comum, doce e pipoca, conservadas in situ-

on farm. As informações geradas a partir do Censo da Diversidade

permitiram identificar i) a diversidade genética de milho presente na região a partir de características morfológicas como tipo e cor de grão, ii) preferências e valores de uso iii) a riqueza e abundância da diversidade genética do milho com base em características fenotípicas e outros indicadores como o nome da variedade, usos, tempo de cultivo, iv) variedades comuns, raras, aquelas portadoras de características

únicas e ameaçadas de contaminação por milho geneticamente modificados (GM), v) variedades com valor real e potencial, segundo as perspectivas dos agricultores e, vi) as redes sociais de intercâmbio de sementes. Resultados preliminares apontaram a presença de 1513 populações de milho (comum pipoca e doce) nos municípios de Anchieta e Guaraciaba, mantidas e identificadas com um nome próprio dado pelos agricultores, revelando a importância da região no processo de diversificação do milho (COSTA, 2013; SILVA, 2015).

Também foram identificados por Costa (2013) e Silva (2015) alguns dos riscos para a conservação da diversidade, já que uma grande parcela da diversidade de variedades locais está sendo manejada por poucos agricultores e de idade avançada. Ainda aponta-se a presença de milho híbrido e transgênico, próximo aos milhos crioulos, em grande parte das propriedades; e a falta de informações das variedades locais e do conhecimento associado a esses recursos genéticos. Um dos resultados não esperados das entrevistas foram os relatos da presença de populações de teosintos (SILVA et al., 2015) e seu uso para pastagem. A presença de um parente silvestre do milho juntamente com a importante diversidade da espécie domesticada permitiram indicar a região como um microcentro da diversidade do gênero Zea (COSTA et 2016) e agregar ainda mais importância à diversidade da região.

Estudos posteriores com coletas e entrevistas específicas sobre manejo e seleção permitiram identificar a predominância das mulheres na conservação do milho pipoca, suas estratégias de seleção e redes de troca de sementes (SILVA, 2015; SILVA et al., 2016). Foram identificadas novas raças de pipoca com a caracterização de espigas (SILVA et al. no prelo), além da identificação de variedades locais de milhos doces (SOUZA, 2015). Ainda não há informação de como são as estratégias de conservação dos milhos comuns, quais são seus efeitos na diversidade e seus potenciais. Considerando o EOSC como uma microrregião, qualquer estratégia de conservação requer conhecimentos das relações entre os tipos de milhos e teosintos e a evolução de sua diversidade.

Nesse sentido, a presente Tese tem como propósito ampliar o conhecimento da diversidade genética do milho crioulo cultivado nos municípios de Anchieta e Guaraciaba. A mesma foi desenvolvida no âmbito do Projeto Mays, denominado Proposta Integrada e

Participativa de Conservação on farm e ex situ, Manejo e Uso de Variedades Crioulas de Milho- Comum e Milho-Pipoca, Conservadas por Agricultores Familiares do Oeste de Santa Catarina e Sudoeste do

Paraná, coordenado pelo NEABio e aprovado pelo Edital 582010 do

Conselho Nacional de Desenvolvido Científico e Tecnológico (CNPq). 1.2 OBJETIVOS