CAPÍTULO 1 DA VIOLÊNCIA À EXPERIÊNCIA “NO
1.1 CAMINHOS DA CONSTRUÇÃO DO OBJETO: LUGARES
1.1.3 Do “delinquente juvenil”, do “adolescente em conflito
Não é realizado, no que segue, um estado da arte extenso ou que se pretenda completo, mas uma revisão em que são discutidas as principais linhas de abordagem da relação entre jovens e “delinquência”/“criminalidade” e os limites, continuidades e rupturas estabelecidas a partir do lugar (teórico-etnográfico) em que nos situamos. Serão apresentadas, primeiro, as contribuições das teorias sociológicas clássicas sobre “delinquência juvenil”, seguidas dos trabalhos sobre “jovens em conflito com a lei” no Brasil e, por fim, alguns trabalhos que se afinam com o presente, pois se referem, de alguma forma, às vivências, à experiência dos jovens no chamado “mundo do crime”.
Teorias clássicas sobre a “delinquência juvenil”
De acordo com Helena W. Abramo (1994), a noção de juventude aparece como categoria especialmente destacada nas sociedades industriais ocidentais modernas, pois surge como um problema da modernidade. A autora mostra que o interesse pela juventude se deu na medida em que certos setores juvenis pareciam problematizar o processo de transmissão das normas sociais. No início do século XX, a visibilidade da juventude e sua problematização teórica constroem-se através do surgimento de comportamentos considerados, na época, “desviantes” – o foco eram grupos de jovens denominados delinquentes, excêntricos ou contestadores. Nesse contexto, a própria juventude como condição apareceu como um problema social. Durante todo o século
XX, as questões da delinquência, da rebeldia e da revolta permaneceram centrais na problematização acerca da juventude. Paralelamente, foi-se estruturando uma caracterização da “juventude normal”, mas que não deixa de conter elementos que a definem como uma condição que guarda, sempre, em potência, descontinuidade e ruptura das regras sociais.20
As teorias sociológicas sobre a delinquência juvenil participam desse quadro no qual a juventude passa a ser descrita e constituída como um problema para o qual é preciso desenvolver modelos explicativos e de intervenção.
Em um balanço sobre a sociologia da delinquência juvenil com foco na produção norte-americana e francesa, Gérard Mauger (2009) faz uma síntese das teorias clássicas que informaram – e informam – as pesquisas sobre o tema. De acordo com o autor, nos EUA a delinquência juvenil é, por excelência, o domínio de investigação estudado por todas as tendências da sociologia norte-americana em todos os períodos de sua história, em razão da existência de um corpo de trabalhadores sociais, de carreiras universitárias com formação correspondente e, de modo geral, da perenidade de uma demanda institucionalizada. Nessa tradição, em linhas gerais, a sociologia da delinquência, inspirada na Escola de Chicago (tendo por noção-chave a ideia de desorganização), é sucedida pela linha culturalista (sub-cultura), assim como a sociologia funcionalista (anomia) é suplantada pela interacionista (reação social). Essas escolas e respectivos conceitos-chave são também trabalhados por François Dubet (2008) como constituindo os três principais modelos sociológicos para a explicação da “marginalidade” e do “desvio” dos jovens. No primeiro modelo, centrado na ideia de crise, a delinquência é interpretada como uma reação à ruptura dos modelos de integração provocada por mudanças sociais. Tal modelo foi desenvolvido na “Escola de Chicago” a partir do conceito de “desorganização” (o marginal situado entre dois mundos; crise de referências) e na obra Parsons em termos de “anomia” (delinquência como efeito da indeterminação estatutária nas sociedades industriais modernas). O segundo modelo clássico articula as ideias de frustração e de desvio. Desenvolveu-se também dentro de perspectivas funcionalistas ou neo- funcionalistas; mas, ao invés de privilegiar problemas de integração, faz referência a tensões ligadas às posições dos atores na estratificação social (como na obra de Merton: o desvio como contradição entre expectativas culturais homogêneas e estrutura social desigual). Por fim,
20 Para uma discussão sobre as especificidades da “condição juvenil” partilhada
segundo o modelo do controle social, a delinquência é percebida como resultado dos procedimentos de controle que a identificam, definem, tratam. Nesse modelo o objeto de análise desloca-se do delinquente para as agências de controle e estigmatização que lhe fabricam (polícia, sistema de justiça, sistema prisional). Inserem-se aí as reflexões pautadas na leitura da construção social da delinquência e da criminalidade (“labeling theory”: Becker, Goffman, Matza; Foucault).21
A despeito das diferenças entre elas, o primeiro e o segundo modelo compartilham o fato de se dedicarem a explicar as motivações e as causas da delinquência, do desvio, do problema. As explicações variam de acordo com as escolas, com as linhas teóricas; e, em cada uma delas, são acionadas diferentes categorias, como desorganização, subcultura, reação social e anomia. Tais teorias fornecem chaves de leitura, de compreensão e explicação para a as motivações e causas das ações “delinquentes”, mas outras dimensões da questão não são investigadas, descritas e analisadas: como são essas vivências; o que produzem. Na maior parte delas, ainda, os jovens em questão são percebidos como um problema social; e, por conseguinte, estão implicados, em cada teoria, caminhos de intervenção com vistas à normatização, ao controle dos agentes e das condutas. A perspectiva desses modelos explicativos clássicos, por fim, insere-se em uma métrica em que há um único padrão pressuposto e legítimo – um modelo de sociedade pautado pela ideia de ordem e de contrato social. Aquilo que escapa a esse padrão é, então, “lido” como delinquência (infrações em relação à lei penal) ou como desvio (condutas fora da norma), daí serem teorias negativas no sentido da descrição focada na transgressão, no desvio. No capítulo 3, ver-se-á que o tipo de explicação produzida nesse corpus clássico não pode ser desconsiderado, mas a maneira como delineamos a questão abre outras dimensões e pode permitir que se
21
Dubet (2008) faz apontamentos interessantes no que toca aos limites dos três modelos (p. 201-207). De acordo com o autor, as teorias clássicas não dão conta, por exemplo, da “raiva” que marca a situação da “galére”: expressão de um sentimento de dominação e não apenas de exclusão entre os jovens imigrantes e pobres por ele estudados nos anos 80 na França. Daí propõe uma interpretação em termos de “classe perigosa”: o crime porta uma revolta de classe perigosa, é um dos seus modos de ação, mas não toma forma de nenhuma relação social. Aqui é possível alocar a posição de Dubet em lugar teórico próximo ao de Wieviorka na medida em que as expressões de “violência” são lidas como resquícios, como excessos que escapam ao social, que nada estruturam posto que distantes do princípio de conflitualidade.
construa uma “teoria etnográfica” acerca do que a vida no crime produz e não somente daquilo que ela nega.
Voltando ao balanço de Mauger (2009), o autor discorre que, mais recentemente, a renovação teórica se operou em duas etapas: nos anos 60 com a teoria do “controle social” e nos anos 70 com as “teorias da ação”. Nessas últimas entra cena o “ator racional”, e a explosão da delinquência se explicaria pela multiplicação das ocasiões de delinquência. Esse novo paradigma levou ainda à renovação das políticas de segurança: inspirou técnicas de “prevenção situacional”; a teoria da “janela quebrada”, por exemplo, levou ao desenvolvimento de uma polícia de proximidade. Para Mauger, o predomínio desse paradigma se deve muito mais a mudanças no campo intelectual e político – o deslocamento para o polo subjetivista, o retorno da filosofia utilitarista individualista – do que a sua capacidade de resolver enigmas sociológicos. Vale ressaltar que aquilo que pensamos em termos da articulação entre subjetividade, processos de subjetivação e violência está mais afinado com as teorias do controle e da reação social do que com a teoria da ação nos termos em que está descrita pelo autor.22
De acordo com Mauger, ao contrário do que acontece na América do norte, na França o tema seria uma espécie de “primo pobre”. Predominam os estudos no campo da psicologia e do direito; e no campo sociológico o objeto é considerado indigno. Para o autor, o deslocamento do foco das pesquisas sobre os desviantes em direção à questão da “reação social” foi uma tentativa de enobrecê-lo. Desde os anos 70, prevalece no país o paradigma do “controle social” (um encontro entre a crítica epistemológica institucional e o movimento social), representado por autores como Foucault, Goffman, Castels. Na década de 90, houve uma renovação da sociologia da delinquência dos jovens de classes populares a partir de pesquisas de uma nova geração de pesquisadores estrangeira às polêmicas que opunham etiologia (causas) e reação, controle social. Como deslocamento recente, ainda, Mauger aponta que
22 É preciso lembrar que o chamado “paradigma da ação” é muito heterogêneo.
Nem todas as linhas trabalham com a ideia de “ator racional”. Na antropologia, por exemplo, há perspectivas centradas na discussão sobre agência que inclusive questionam concepções substancialistas, universalizantes, como em Sherry Ortner (2005). Há também as “teorias da performance” (LANGDON, 1996), centradas na ação mas pautadas pela ideia de sujeitos que emergem nas relações, em contexto.
La sociogenèse des trajectoires délinquants dans la societé française contemporaine apparît sous- tendue par une économie du “capital symbolique”, de l‟ “importance sociale”, de la “reconnaissance”, ou, comme on dit dans les banlieues, du “respect”, de la “réputation”, c‟ést- à-dire aussi des “raisons de vivre” (MAUGER, 2009, p. 99)23.
É notável o quanto esses elementos, essa “economia” que se mostra importante para os jovens das periferias francesas, não estão distantes daqueles que aparecem entre os interlocutores da presente pesquisa, como será aprofundado no decorrer do trabalho. Também chama a atenção a questão da renovação do campo a partir das pesquisas de jovens pesquisadores, o que também se mostra presente entre nós.
Apesar dos apontamentos críticos feitos acerca das teorias sociológicas clássicas, há uma série de contribuições nesses trabalhos – e vale ressaltar aqui a chamada Escola de Chicago, pois muitas obras desenvolvidas em seu âmbito apresentam contribuições para o campo não datadas, extremamente pertinentes. A descrição que segue foi feita a partir da obra L‟interactionnisme symbolique, de David Le Breton (2008), na qual há um capítulo dedicado aos estudos da Escola de Chicago sobre delinquência e desvio. Seguindo as considerações do autor, por muito tempo, especialmente até os anos 30, a sociologia norte-americana considerou a delinquência um fato incontestável induzido por uma ruptura da lei. Nesse contexto a pesquisa versava sobre as condições sociais que predispunham à delinquência e sobre a cultura que regia seu funcionamento. Na primeira “Escola de Chicago”, ainda, a noção de desorganização, derivada da noção durkheiminiana de anomia, predominou. Tal noção procurava traduzir a ruptura provocada pelas tentativas individuais e coletivas que ajustam mais mutuamente. Via-se essa situação como um sintoma de perda de autoridade da cultura e do controle social no interior de uma comunidade. O contexto de pesquisa eram as comunidades de imigrantes pobres vindos de outros horizontes culturais e que acumulavam uma dupla desvantagem aos olhos da sociedade americana. Apesar de todas as críticas feitas por autores de fora e da própria Escola à ideia de “desorganização”, os
23“A sociogênese das trajetórias delinquentes na sociedade francesa
contemporânea aparece subtendida por uma economia do “capital simbólico”, da “importância social”, do “reconhecimento”, ou, como se diz nas periferias, do “respeito”, da “reputação”, quer dizer das “razões de viver” (tradução nossa).
trabalhos já da primeira “Escola de Chicago” trouxeram contribuições para o campo. Le Breton (2008) aponta, por exemplo, que o desejo de compreender como o delinquente definia as situações em que estava envolvido levou esses sociólogos a lhes darem a palavra e, sobretudo, a escutá-los. Por exemplo, ainda na década de 30, foi publicada por Clifford Shaw (1966) a primeira história de vida de um “menino delinquente”, trabalho inaugural e com o qual dialogamos no capítulo 3.
A partir de autores como Sutherland e Becker, que fazem parte de um segundo momento da Escola, o tipo de questão passou a se transformar radicalmente. Com a “sociologia do desvio”, a delinquência deixou de ser considerada um dado evidente e passou a ser objeto de interrogação: quem decide sobre o desvio, onde e como? O desvio passa a ser visto não como propriedade do comportamento, mas da interação entre a pessoa que comete o ato e os que reagem a tal ato. A obra de Howard Becker “Outsider”, dos anos 60, renova os trabalhos sobre desvio evidenciando em sua origem um processo social de designação em que “O desvio é menos a consequência mecânica da ruptura da lei sancionada pela sociedade do que um jogo de interação sutil entre uma transgressão e o olhar colocado sobre ela pelos atores sociais” (LE BRETON, 2008, p. 81, tradução nossa). Daí sua teoria ser chamada “labeling theory”, “teoria da etiquetagem”.
Cabe, ainda, mencionar a importância do trabalho de Sykes e de Matza (APUD LE BRETON, 2008) acerca das “técnicas de neutralização moral”, que serão discutidas no terceiro capítulo. Além disso, a noção de “associação diferencial” de Matza (APUD LE BRETON, 2008), a noção de “mundos sociais” utilizada por Becker (IDEM), bem como o trabalho de Edwin Sutherland “The professional thief” (1988), trazem muitos elementos para a reflexão sobre trânsitos entre mundos, entre domínios da realidade.
Trabalhos sobre “jovens em conflito com a lei” no Brasil
A relativamente recente categoria jurídica adolescente ou jovem “em conflito com a lei” é um dos principais modos de descrição, de nominação, utilizados no Brasil para circunscrever os sujeitos interlocutores da pesquisa, adolescentes que já passaram por um processo de incriminação e de institucionalização24. Há uma série de
trabalhos acerca do “adolescente em conflito com a lei” no campo do
24 Sobre a categoria “adolescente em conflito com a lei”, ver no segundo
direito, da educação, do serviço social, dentre outros. Centraremos nosso foco naquilo que está sendo produzido pelas ciências humanas. Serão discutidos um balanço da produção recente, uma coletânea da área da sociologia e um Dossiê composto por trabalhos etnográficos. Por fim, serão apresentados, ainda, dois trabalhos com os quais temos afinidades além do já citado Dossiê.
A revisão de literatura de Maria Cristina G. Vicentin (2005) mostra-se pertinente para o presente trabalho, pois as obras por ela analisadas são as que focalizam o sujeito e a construção de seus territórios existenciais coextensivamente às estruturas sociopolíticas, bem como a situação limite que atravessa os “adolescentes em conflito com a lei”. A autora realiza um balanço da literatura dos últimos 30 anos, período em que um pensamento crítico das instituições totais pôde exercitar-se na esteira do processo de redemocratização. Além disso, são reflexões produzidas por autores que trabalharam como dirigentes da FEBEM (SP e RS) ou que lá estiveram na condição de internos.
Um trabalho ícone dos anos 70 seria o de Maria Lúcia Violante com uma perspectiva marxista atravessada pelo modelo conceitual da revolução: os comportamentos dos marginalizados são pensados como manifestações de revolta, mas não são considerados revolucionários por se restringirem ao nível individual, desorganizado, e por não serem transformadores das condições de vida. Contudo, não são percebidos como a causa da desordem social, mas como sua denúncia. Vicentin salienta que, ainda assim, Violante sustenta uma positividade na ação desses jovens ao formular sua constituição subjetiva aos moldes de um dilema, o do “decente malandro”: uma “forma de subjetivação que coloca no jovem, como efeito identitário, uma tensão, um conflito permanente entre sentir-se „decente‟ e ter de ser ou um „regenerado‟ ou um „malandro‟” (VICENTIN, 2005, p. 199). Vê-se nessa formulação a ideia de uma deriva entre polos separados e opostos. No capítulo quinto, essa questão, que não é nova na Sociologia (há trabalhos da Escola de Chicago nesses moldes), será discutida a partir da ideia de comensurabilidade entre mundos e da decência “no crime”, e não como algo fora dele.
Na década seguinte, predominaram as ideias de “rebelião da pobreza”, de “cultura da violência”, de delinquência como meio de luta pela própria vida. As obras de Emir Sader e Maria Ignês Bierrenbach colocam os delinquentes em posição similar ao do “bandido social” e os descrevem em termos de uma “dupla orfandade”: situados no espaço vazio entre a institucionalidade liberal e o classismo sindicalista – orfandade política - incapazes de se constituírem como sujeitos de suas
próprias lutas. É interessante notar que tal perspectiva se aproxima àquela de François Dubet (2008) no trabalho que este conduziu também nos anos 80.25
Acerca das pesquisas mais recentes, Vicentin aponta para a centralidade do “paradoxo moral dos adolescentes em conflito com a lei”. Cita, então, a pesquisa de Isa Guará, que toma a reiterada e atual expressão dos internos da FEBEM de que “o crime não compensa, mas não admite falhas” como expressão máxima do paradoxo que os atravessa. Na perspectiva de Guará (APUD VICENTIN, 2005) entre esses adolescentes há uma dualidade de referências de ação, presentes em duas ordens morais: a da ética do trabalho – definida pela comunidade e família pobre – e a do código e exigências do mundo da criminalidade. Na primeira afirmação – “o crime não compensa” –, pode-se ler, ainda de acordo com Guará, a compreensão dos perigos e dos riscos (punição, morte, frustração) envolvidos em sua escolha de vida, reveladora de uma consciência moral utilitária, que cogita controlar-se em função das desvantagens e consequências das transgressões. Na segunda afirmação – “o crime não admite falhas” –, a autora entende que há uma coincidência com o pensamento dos modernistas na certeza de que, se a vida é perigosa, deve ir-se até as últimas consequências, matar ou morrer. Trata-se, para Guará, de uma moral “híbrida” ou “dilacerada” em que se busca continuamente encontrar uma unidade e na qual o bem e o mal são continuamente relativizados:
Os jovens que convivem com essa dupla vinculação moral sentem-se, de certo modo, tolhidos pela perda de poder e de reconhecimento e submetidos à dominação das forças perversas que presidem as atividades e a cultura da criminalidade. Por outro lado, é a adesão a essa mesma cultura que oferece a ilusão da onipotência e a fantasia da dominação. Sua identidade é marcada por essa indefinição: são ao mesmo tempo os filhos “humildes” dos trabalhadores pobres urbanos e os corajosos ladrões que provocam o medo social (GUARÁ APUD VICENTIN, 2005, p. 204).
25 Ver nota de rodapé sobre o autor no trecho sobre As teorias clássicas sobre a
Para Guará (APUD VICENTIN, 2005), ainda, tais jovens produzem um discurso maniqueísta, próprio de uma moral heterônoma, linear e pouco flexível. Além disso, eles não têm vivido situações que promovam seu “desenvolvimento moral” e sua condição social; e o ambiente moral da sociedade como um todo não tem contribuído para uma mudança nos padrões morais desses jovens. O aumento da repressão – via alteração legal – apenas reforçaria a moral heterônoma, fazendo pautar sua vida não em metas de desenvolvimento, mas em estratégias de acomodação aos “códigos perversos do crime”. Nesse trabalho de Guará, aparece a ideia de deriva e, em adição, a de uma moral “híbrida” (dupla vinculação) ou “dilacerada”: “ética do trabalho” e “códigos perversos do crime”. Nossos dados, bem como os de uma série de pesquisas no campo (DASSI, 2010; FELTRAN, 2008; LYRA, 2010), têm apontado que talvez haja mais do que dois polos opostos e que aquilo que descreve cada polo não seja tão simples, tão límpido, como nas descrições habituais e exteriores a quem vive tal experiência: há muito da “ética do trabalho no crime”, bem como códigos marcados pela virtude e não pela “perversidade”. A ideia de uma “consciência moral utilitária” também não parece se sustentar, pois, se assim o fosse, por que embarcariam em um “negócio” no qual é “hospital, cadeia, caixão”?
Vamos à obra “Juventude em conflito com a lei” (PAIVA; SENTO-SÉ, 2007). Na “Introdução: o debate sobre a juventude em conflito com a lei”, Vanilda Paiva apresenta os trabalhos que compõem o livro (muitos deles textos apresentados no Seminário de encerramento do projeto “Educação e Cultura: medidas sócio-educativas e pesquisa entre jovens em conflito com a lei, suas famílias e comunidades”). Algo interessante em seus apontamentos é que a autora coloca a questão da “juventude em conflito com a lei” não como um “problema” brasileiro, mas como algo de certo modo partilhado num cenário global e que não pode ser explicada apenas por fatores como pobreza:
Os jovens de periferias urbanas atravessadas por uma pesada exclusão na inclusão mais ampla deixam ver que a violência potencial não tem necessariamente relação com a fome ou o frio, ou seja, com carências primárias às quais ela foi por muito tempo associada. Está perto da pobreza,