CAPÍTULO III – RELIGIÃO E MÍDIA
3.3 DO DISCURSO TESTEMUNHAL NO CULTO AO DISCURSO
Segundo o que foi exposto na seção anterior, o gênero de discurso testemunho, na verdade, foi midiatizado, formando, assim, um novo gênero de discurso, o testemunho midiatizado digital. Isso aconteceu por meio do processo de dessacralização, isto é, ele perdeu o seu status de sagrado, uma vez que deixou de estar em universo religioso, passando a ser de um universo midiático.
No que diz respeito ao aspecto sagrado que está associado ao discurso testemunhal, é essencial abordarmos isso por meio dos trabalhos de Eliade (2001). A partir de suas pesquisas sobre o fenômeno religioso, o autor concluiu que cada Religião possui uma concepção diferente do sagrado, o qual é uma manifestação de “[...] uma realidade inteiramente diferente das realidades ‘naturais’ (ELIADE, 2001, p. 12).
Tal realidade se expõe como um poder grandioso, sobrenatural, o qual provoca temor e um sentimento de nulidade, relembrando que o ser humano é apenas uma criatura mortal e finita. Juntamente o sagrado, existe a sua oposição, que é o profano, ou seja, tudo aquilo que pertencente à realidade dos seres humanos, alusivo ao seu dia a dia.
Nesse viés, o sagrado enquanto força sobrenatural além-deste mundo chega a nós a partir de manifestações. Essas são denominadas hierofanias7,
Poder-se-ia dizer que a história das religiões – desde as mais primitivas às mais elaboradas – é constituída por um número considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas. A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, urna pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe solução de continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo “de ordem diferente” – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo “natural”, “profano” (ELIADE, 2001, p. 13).
A manifestação da hierofania ocasiona uma presença do sagrado no mundo comum, ou seja, no mundo profano. No entanto, deve-se levar em consideração que essa relação sagrado x profano não é um simples maniqueísmo, porque
O sagrado, no entendimento do autor romeno, consiste em qualquer força sobrenatural que rompa o mundo comum; assim, mesmo uma força tida como maléfica ou demoníaca seria também uma manifestação do sagrado (MOURÃO, 2013, p. 24).
Tais conceitos formam uma dicotomia profundamente intrínseca, sobre a qual Eliade (2001) chega a afirmar que ambos são formas de ser no mundo. Por causa disso, pode-se inferir que existam dois planos distintos. O plano sagrado, divino, e o plano profano, terreno, sendo que o primeiro, o qual é transcendente, revela-se no segundo por meio da hierofania.
Quando essa ocorre em um lugar físico no plano terreno, o espaço acaba se tornando de igual forma sagrado. Um exemplo disso é a Basílica do Santo Sepulcro, local onde, segundo o Cristianismo, Jesus foi crucificado, sepultado e renasceu no terceiro dia.
Além disso, é interessante ressaltar que o estabelecimento do espaço sagrado pode-se suceder também de maneira contínua e feito por seres humanos. Esse
7 Etimologicamente, essa palavra vem do grego hieros (ἱερός) = sagrado e faneia (φαίνειν)
último é chamado por Eliade (2001) de consagração, ou seja, é uma ação antrópica, a fim de sacralizar um determinado espaço, sendo que
Definitivamente, é graças ao Templo que o Mundo é ressantificado na sua totalidade. Seja qual for seu grau de impureza, o Mundo é continuamente purificado pela santidade dos santuários (ELIADE, 2001, p. 34).
Logo, a consagração de um espaço permite que esse seja um lugar ideal para determinados rituais de uma doutrina específica. No que tange à Igreja Mundial do Poder de Deus, o culto feito nos vários templos da instituição faz parte de um ritual de adoração e de louvor a Deus. Em uma parte da liturgia do culto neopentecostal, ocorre o testemunho de um membro da Igreja, cuja função é promover a evangelização através de um relato envolvendo um milagre proporcionado por Deus.
Nesse caso específico e nesse espaço consagrado, é usado o gênero de discurso testemunho religioso, o qual faz parte de um ritual da instituição religiosa. Existem ali condições sócio-históricas e culturais de produção discursivas singulares, co-enunciadores específicos, com um modo de enunciação distinto e produzindo efeitos de sentido próprios.
Mas, no momento em que a equipe da IMPD registra, retextualiza, edita e o publica no site, já não estamos diante mais de um gênero de discurso testemunho religioso de natureza sagrada, mas sim de um testemunho midiatizado digital de natureza profana, isto é, a dessacralizado.
Em virtude disso, o corpus desta Dissertação é composto por gêneros de discurso do tipo testemunho midiatizado digital, o qual perdeu seu caráter sagrado, bem como sua função e constituição original.
Portanto, após constatar isso, resta-nos examinar os efeitos de sentido proporcionados por esse novo gênero de discurso, a partir das categorias propostas por Maingueneau, no caso, o Interdiscurso, a cenografia e o ethos discursivo, sendo que isso será feito no próximo capítulo.
CAPÍTULO IV –
ANÁLISE DOS DISCURSOS TESTEMUNHAIS
Neste capítulo, dedicamo-nos às análises e examinamos a maneira pela qual a cenografia e o ethos discursivo se configuram nos discursos testemunhais midiatizados de fiéis da IMPD. Assim, consideramos não só os mecanismos linguísticos materializados no corpus, mas também os recursos não verbais nele presentes, articulando-os às condições sócio-históricas e culturais de produção dos discursos selecionados.
A fim de dar conta de nossos objetivos, as análises que empreenderemos se ancoram em categorias propostas por Maingueneau, privilegiando o interdiscurso, cenografia e o ethos discursivo. Desta forma, em um primeiro momento, vamos descrever o corpus, a maneira como ele foi selecionado e agrupado e, em seguida, faremos a análise.