2. ATUALIDADE
2.3 Do encontro entre memória e atualidade – o que ressoa?
Segundo Orlandi, “todo o funcionamento da linguagem se assenta na tensão entre processos parafrásticos e processos polissêmicos” (2015a, p. 34). Enquanto nos primeiros há sempre algo que se mantém (o dizível, a memória, o retorno aos mesmos espaços do dizer), nos segundos o que temos é deslocamento, equívoco, ruptura de processos de significação. Isso considerado, observemos, antes de prosseguir aos capítulos de análise, quais são os pontos de convergência, quais são as regularidades entre os tópicos que abordamos no primeiro capítulo e aqueles sobre os quais discorremos, até o momento, neste segundo capítulo. Em outras pala- vras, o que vem ressoando significativamente na verticalidade do discurso (memória do dizer),
29 Disponível em <https://www.3m.com/3M/en_US/company-us/about-3m/state-of-science-index-sur-
vey/?utm_medium=redirect&utm_source=vanity-url&utm_campaign=3M.com/scienceindex>. Acesso em 16 set. 2018.
por meio de processos parafrásticos, e concretizando-se na horizontalidade da cadeia (atuali- dade), na forma de diferentes realizações linguísticas (SERRANI, 1991).
Devemos notar que alguns aspectos acumularam, ao longo dos séculos, força dis- cursiva tal que fazem soar “ainda um discurso da descoberta” (ORLANDI, 2008b, p. 261), como a relação utilitária com o que é da ordem do natural e o exílio da humanidade para fora da natureza. Em ambos vê-se o engendramento da memória discursiva, espaço móvel de divi- sões, disjunções e deslocamentos, mas também de retomadas, regularizações, réplicas e pré- construídos (PÊCHEUX, 2015). A respeito desses últimos, Pêcheux (2014c, p. 89), citando Paul Henry (1977), esclarece que remetem “a uma construção anterior, exterior, mas sempre independente, em oposição ao que é ‘construído’ pelo enunciado”.
O que se repete, também é preciso dizer, a Análise de Discurso considera dotado de significação particular. Isso porque o próprio ato de dizer a mesma coisa duas – ou múltiplas – vezes introduz modificações e, portanto, efeitos de sentidos, no processo discursivo (OR- LANDI, 1983). Por exemplo, o efeito papagaio ou robótico, resultado do incessante retorno do mesmo, com desgaste e esvaziamento da historicidade (MARIANI, 2018; ORLANDI, 2004b).
Devemos lembrar, ainda a respeito desses dois aspectos que vêm ressoando na ver- ticalidade da cadeira discursiva: “O sujeito do discurso é constituído pela interpelação ideoló- gica e representa uma ‘forma-sujeito’ historicamente determinada” (ORLANDI, 1996, p. 105), sendo a atual a forma-sujeito capitalista (DIAS, 2018). Imbricada, portanto, em forças e práticas econômicas que procuram, desde o século 16, fundamentar-se a partir de uma teoria das rique- zas e da produção (FOUCAULT, 2014) e que não raro tratam a biodiversidade como questão político-estratégica (HAESBAERT, 2006).
Outro aspecto – este de ordem mais ampla, para além das fronteiras nacionais – que remonta ao período das grandes navegações é estarmos novamente diante de uma “categoriza- ção das coisas do mundo” (NUNES, 2006, p. 84). Lançar-se ao mar nos séculos 15 e 16, com os conhecimentos técnicos e científicos então disponíveis, era ter no horizonte ganas de domi- nação, medos e fantasias. Uma combinação semelhante à forma com que, nos dias de hoje e diante das mudanças climáticas, a humanidade desembarca em “território desconhecido” – ex- pressão que circulou em manchetes do noticiário brasileiro e estrangeiro30 na repercussão do
30 Alguns exemplos: “ONU confirma calor recorde e diz que clima entrou em ‘território desconhecido’” (O
Estado de S.Paulo); “Record-breaking climate change pushes world into ‘uncharted territory’” (The Guardian); “Climat: 2016 bat un record de chaleur, la planète entre en ‘territoire inconnu’” (Le Monde). Disponíveis, respectivamente, em <https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,onu-confirma-calor-recorde-e-diz- que-clima-entrou-em-territorio-desconhecido,70001707476>,
<https://www.theguardian.com/environment/2017/mar/21/record-breaking-climate-change-world-uncharted- territory> e <https://www.lemonde.fr/climat/article/2017/03/21/climat-2016-bat-un-record-de-chaleur-la-planete-
lançamento do relatório anual da Organização Meteorológica Mundial (OMM na sigla em por- tuguês ou WMO, do inglês World Meteorological Organization), em março de 2017.
Esforço de “categorização das coisas do mundo” que se materializa, por exemplo, nas discussões acerca da nomenclatura do nosso tempo geológico (vide subcapítulo 2.1). Ou na busca por expressões que deem conta de explicar novas condições climáticas: “O que é o fenô- meno ‘Terra estufa’ e por que estamos caminhando para ele, segundo novo estudo”31, anunciava
uma chamada do UOL Notícias em 7 de agosto de 2018.
Nessas condições de produção as narrativas jornalísticas sobre o ano mais quente foram constituídas, formuladas e postas em circulação. Temos por hipótese que certos aspectos interdiscursivos – alguns deles já seculares – podem comprometer o lugar de significação da divulgação científica voltada a problemáticas ambientais. Não no sentido de que exista uma significação ideal, mas no de considerar que as mudanças climáticas têm se movimentado em “circuitos que não nos sensibilizam mais. Narrativas cujas forças foram desgastadas” (DIAS S.
et al., 2016, p. 57). Mensagens inaudíveis ou que soam como exercício de futurologia (MAR-
QUES, 2016). Resultando em não mais do que inércia, quietismo (LATOUR, 2014).
A própria mídia não parece alheia a isso, ao dizer(-se): “Climate change is behind the global heat wave. Why won't the media say it?” (“A mudança climática está por trás da onda global de calor. Por que a mídia não diz?”, Los Angeles Times); “The great climate silence: we are on the edge of the abyss but we ignore it” (“O grande silêncio climático: estamos à beira do abismo mas ignoramos”, The Guardian); “Ninguém presta atenção aos recordes de temperatura global” (Folha de S.Paulo). Como já dissemos, há prejuízos ainda para a entrada da problemá- tica na interface ciência-política: “Crise ecológica some dos debates presidenciais” (Piauí)32.
Em especial no primeiro dos exemplos acima, vê-se o funcionamento da referenci- ação da mídia pela mídia, em um gesto de retornar a si mesma como fonte, inscrever-se em um lugar de seriedade, produzindo efeitos de verdade e autoridade (MARIANI, 2018; ORLANDI, 1983). Estamos em guarda, contudo, de que até mesmo a dita realidade está submetida à linguagem em sua relação com a historicidade e à ideologia (MARIANI, 2018).
entre-en-territoire-inconnu_5097869_1652612.html>. Acessos em 17 set. 2018.
31 Disponível em <https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/bbc/2018/08/07/o-que-e-o-
fenomeno-terra-estufa-e-por-que-estamos-caminhando-para-ele-segundo-novo-estudo.htm>. Acesso em 17 set. 2018.
32 Disponíveis respectivamente em <http://www.latimes.com/opinion/op-ed/la-oe-stokes-heat-wave-media-
climate-change-20180715-story.html>, <https://www.theguardian.com/environment/2017/may/05/the-great- climate-silence-we-are-on-the-edge-of-the-abyss-but-we-ignore-it>,
<https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloleite/2016/08/1805012-ninguem-presta-atencao-aos-recordes- de-temperatura-global.shtml> e <https://piaui.folha.uol.com.br/crise-ecologica-some-dos-debates-
E assim, do geral, vamos ao particular. Vamos à superfície linguística do nosso
corpus. Questionando, com Orlandi (2004a, p. 140), “qual é a qualidade do discurso da ciência
que circula?” Que deslizamos para “qual é a qualidade do discurso sobre a ciência que circula?” e para “qual é a qualidade do discurso sobre os recordes climáticos que circula?” A última para pensarmos – e esta é mais uma hipótese – se a construção de narrativas jornalísticas baseadas apenas (ou majoritariamente) no discurso científico não é também outra regularidade a com- prometer a significação sobre o ano mais quente, pelos ruídos e silêncios que acarreta.
3. DA SUPERFÍCIE LINGUÍSTICA AO PROCESSO DISCURSIVO