• Nenhum resultado encontrado

Do Modelo Biomédico ao Modelo Biopsicossocial

III. Doença Crónica: Intervenções

1. Do Modelo Biomédico ao Modelo Biopsicossocial

A última década tem sido caracterizada por uma consciencialização crescente da importância dos cuidados centrados na pessoa e numa abordagem holística aos cuidados na demência (Cheston & Bender, 1999; Woods, 2001). A tradicional conceptualização biomédica da doença em geral e da demência (“dano” neurológico), em particular, levou ao desenvolvimento de terapias farmacológicas para aliviar sintomas e intervenções de reabilitação cognitiva para maximizar as capacidades cognitivas. Contudo, reconhece-se que a manifestação clínica da demência não se explica exclusivamente por défices neurológicos, pois os fatores psicossociais também influenciam as condições demenciais. Por exemplo, a não satisfação das necessidades emocionais e os contextos sociais desfavoráveis têm sido identificados como fatores que contribuem para os transtornos de humor e problemas

21

comportamentais na demência (Kitwood, 1990; Woods, 2001). Além disso, este modelo negligencia as pessoas significativas que rodeiam e cuidam da pessoa com demência, olhando apenas o seu papel enquanto recurso e negligenciando os impactos.

O modelo biomédico decorre da visão cartesiana do mundo, em que o funcionamento das pessoas é comparado a uma máquina e em que a compreensão do universo passa pelo conhecimento detalhado de cada parte. Assim, o corpo humano obedeceria a essas leis, ficando reduzido ao aspeto biológico (Reis, 1998, 1999; Ribeiro, 1998). Neste modelo, a doença é comparável a um defeito mecânico (avaria temporal ou permanente da máquina) localizado numa componente física e/ou bioquímica. Este defeito pode ser reparado através de meios físicos (cirurgia) ou químicos (farmacologia). A parte do corpo doente pode ser tratada isoladamente e o processo de cura associa-se à reparação da máquina (Reis, 1998, 1999). Nesta perspetiva, a saúde corresponde à ausência de doença (Reis, 1998) e as pessoas com doença são consideradas vítimas passivas de agentes externos que provocam a doença, sendo o profissional de saúde responsável pelo tratamento. O papel da pessoa doente consiste na obediência aos profissionais de saúde para alcançar a sua cura.

Os pressupostos do modelo biomédico são (cf. Bilton et al., 2002): (a) a doença é uma condição orgânica, logo os fatores não orgânicos não são importantes e tendem a ser ignorados; (b) a doença é um estado orgânico temporário que pode ser erradicado (curado) através da intervenção médica; (c) a doença é vivida por uma pessoa doente que se torna objeto de tratamento; (d) a doença é tratada após a manifestação dos sintomas (a aplicação da medicina consiste num processo de cura reativo); (e) a doença deve ser tratada num ambiente médico (e.g., cirurgia ou um hospital), longe do contexto onde os sintomas surgiram. Esta visão redutora e mecanicista tem sido incorporada em intervenções desenvolvidas junto de pessoas com demência e seus familiares (particularmente do cuidador principal), o que tem vindo a ser criticado. Engel (1977) foi um dos autores que criticou os pressupostos do modelo biomédico, propondo o “modelo biopsicossocial”, como foi referido anteriormente. Este modelo é caracterizado pelos pressupostos que se seguem (cf. Engel, 1977): (a) a saúde e a doença são estados determinados por fatores biológicos, psicológicos e sociais; (b) a importância relativa destes fatores pode variar com a doença e o doente, mas a contribuição dos fatores biológicos, psicológicos e sociais deve ser considerada para avaliar aspetos como a etiologia, diagnóstico, prognóstico e prevenção; (c) os cuidados de saúde adequados requerem o tratamento, não apenas da doença, mas da pessoa que tem a doença. Ao considerar aquelas três dimensões, este modelo afasta a definição de saúde como sinónimo de ausência de doença e permite abandonar o reducionismo biológico. O modelo biopsicossocial é multifatorial, contemplando a interação entre aspetos biológicos, sociais, cognitivos, emocionais e motivacionais; inclui ainda o ambiente sociocultural com as regras e crenças sobre o que é ser saudável ou doente.

O modelo biomédico coloca ainda o profissional como o expert que toma as decisões pela pessoa doente. A pessoa doente é uma figura passiva no tratamento, esperando-se a sua cooperação na adesão e cumprimento (Wade & Halligan, 2004). A saúde tem sido uma atividade intimamente associada ao exercício do poder profissional (Stacey, 1988), pois o

22

controlo da saúde e da doença é colocado nos profissionais de saúde. Já no modelo biospsicossocial (cf. Engel, 1977) existe um equilíbrio de poder entre o profissional de saúde e a pessoa com doença (conhecimento partilhado), permitindo maximizar o funcionamento e competências de coping da pessoa com doença e sua família.

Outra crítica que tem vindo a ser apontada ao modelo biomédico reside na sua perspetiva deficitária, já que foca a doença (modelo patologizante) (Wade & Halligan, 2004). Ou seja, não dá atenção às componentes salutogénicas que promovem a saúde e competências das pessoas. A World Health Organization (WHO) afirmava que era necessário desenvolver uma abordagem da doença mental mais positiva: “In today’s society no one can

avoid confronting stressful situations and setbacks, and the way in which people react to such stress is a decisive factor for their mental health. A more positive approach to mental health should therefore be developed.” (1997: 67). Essa abordagem tinha suscitado a atenção de

Antonovsky (1987) quando se interessou pelos fatores de saúde e não pelas causas da doença. Neste contexto emergiu o modelo salutogénico, centrado e orientado para as condições e fatores que favorecem a saúde. Os recursos salutogénicos promovem a autoestima e a capacidade de coping, eventualmente fomentando menor dependência dos serviços e profissionais (Morgan & Ziglio, 2010). Esta orientação como fundamento da promoção da saúde dirige os esforços de investigação e ação a todas as pessoas, para potenciar os fatores salutogénicos. A finalidade é o desenvolvimento dos indivíduos, aumentando os fatores protetores (recursos de resistência), facilitando recursos e permitindo que se envolvam na resolução dos problemas. Assim, responsabilizam-se pela sua saúde, das suas famílias e comunidade. Antonovsky utilizava a metáfora do rio para descrever a salutogénese e comparar o pensamento e ação predominantes na área clínica com a perspetiva salutogénica. O rio simboliza a vida e a pessoa encontra-se sempre a nadar num rio mais ou menos perigoso. A orientação patogénica do modelo biomédico procura retirar as pessoas do rio perigoso, enquanto a salutogénica aposta na capacidade das pessoas como nadadores (defesa contra a perigosidade do rio). Ou seja, é essencial que as pessoas criem recursos e competências para se poderem debater com os agentes de perturbação. As intervenções devem considerar os fatores salutogénicos no confronto com a doença.

Por outro lado, o modelo biomédico tende a isolar a pessoa do seu contexto (perspetiva individualista) familiar, social e cultural. Trata-se de um modelo reducionista (cf. Wade & Halligan, 2004), pois reduz a explicação da patologia ao elemento mais básico: a biologia. Em consequência, fomenta uma visão fragmentada da pessoa (um corpo, com defeito em alguma parte), impedindo perspetivá-la como um complexo sistema dinâmico de componentes físicas, intelectuais, sociais, espirituais e emocionais (Fleisher et al., 2006). Canguilhem (1990: 42) colocou a seguinte questão: “O que é um sintoma sem um contexto ou pano de fundo?”. Para o autor, a “doença do médico” só poderia ser entendida considerando a experiência das pessoas na relação com o seu contexto. Kleinman (1992: 252) refere que: “No paradigma biomédico

ocidental, patologia significa mau funcionamento ou má adaptação de processos biológicos e psicológicos no indivíduo; enquanto enfermidade (estar doente), representa reações pessoais

23

interpessoais e culturais perante a doença e o desconforto, imbuídos em complexos nexos familiares, sociais e culturais. Dado que a doença e a experiência de doença fazem parte do sistema social de significações e regras de conduta, são fortemente influenciadas pela cultura e por isso socialmente construídas.” Assim, uma intervenção deverá ser capaz de perspetivar a

pessoa como um todo, considerando o seu contexto familiar, social e cultural.

É importante realçar que o modelo biomédico é eficaz, principalmente, perante doenças agudas. A partir do modelo biomédico desenvolveram-se várias terapêuticas farmacológicas e outras terapias biológicas, oferecendo ajuda significativa para lidar com diversas doenças. Mas, principalmente no contexto da doença crónica, é necessário ressignificar a doença e as pessoas envolvidas na doença; ou seja, o modelo biomédico permite que as famílias recebam explicações biológicas (geralmente, apreciado pelas famílias); no entanto, essas explicações são efetuadas num contexto psicossocial vago ou inexistente. Assim, é primordial que, além dos cuidados médicos, as intervenções considerem a vertente emocional, social e educativa, seguindo as premissas do modelo biopsicossocial proposto por Engel, em 1977.

Documentos relacionados