CAPÍTULO IV UM CORPO QUE VIAJA:
EXPERIÊNCIAS CORPÓREAS: O QUE NOS PASSA
5.2 DAS PRIMEIRAS OBSERVAÇÕES OU DAS PRÁTICAS DE JOGO E DE DANÇA
5.2.2 Dos Modos de Dançar: coreografias num baile
Figura 55: Bailarinas (George Barbosa) fonte: www.artemaior.com.br
Outro dia de observação se inicia e uma atividade diferente se apresenta na pauta escrita no quadro: „Ensaio para a festa agostina‟. Não demorou muito para que isso acontecesse, a professora Joseane havia acabado de iniciar a aula e a outra professora chamava o grupo para o ensaio. Este, porém, não era qualquer ensaio, mas sim: „O Ensaio Final‟. Sábado daquela semana seria a festa tão esperada.
Rapidamente, pequenos corpos se movimentam e constroem uma fila nada linear de pares para a dança. Já no pátio, um pequeno rádio está instalado junto a uma caixa de som. Entretanto, somente o primeiro funciona e não há tempo para o conserto do outro. A dança começa mesmo assim.
(...) Balançando ao ritmo da voz da professora, as crianças fazem constantes brincadeiras entre si e não demora muito para que a educadora reclame da falta de organização dos alunos. Ela tenta mais uma vez a caixa de som: „Desisto, não funcionará hoje mesmo. Vamos sem ela‟. A dança recomeça e a professora critica os movimentos despreocupados do grupo: „Gente... Dança é beleza. Olha a graça... Cadê o sorriso... Olha o espaço de um colega para o outro... Cadê a sincronia de ritmo e dança?‟
Incessantemente, ela pede delicadeza dos movimentos: „Delicadeza gente... Faz assim gente‟ (ela mostra o passo que deseja que os estudantes reproduzam). E a dança continua, e a professora insiste em conduzir os alunos para movimentos mais próximos possíveis da perfeição, exercitando princípios harmônicos, métricos e quase
sagrados para toda a ação ali presente. „Quero sorrisos gente... Olha a gentileza, mostrem que somos educados‟. (DB 22/08)
Educados, civilizados, com boas maneiras... Diversos podem ser os predicados dados aos estudantes pelos seus sorrisos na hora de apresentação da dança no CA. Sorrisos que, por sua vez, não podem ser risadas. Rir retiraria a delicadeza do dançar, já o sorriso traz, ao mesmo tempo, seriedade e leveza aos movimentos realizados. Nesse sentido, pergunto-me: a que serve a dança nas apresentações escolares? Penso que talvez ela possa convir com a demonstração que na escola constituímos sujeitos que prezam por costumes e tradições, sujeitos a que denominamos de civilizados. Seriam nessas datas, em que a comunidade entra na instituição, que a escola presta conta do modelo de sujeito que ela quer formar, mas
(...) é essencial sublinhar que as ‗boas maneiras‘ também formam uma linguagem ou um discurso que cria – mas do que se contentaria em regulá-las – as categorias da percepção e da experiência corporais; a este título, as boas maneiras constituem uma retórica eficaz que afirma, defende e legitima um estatuto social (ARASSE, 2008, p. 581).
No caso do ensaio da festa agostina, sob o filtro da minha observação, esse estatuto social remonta a um discurso que prioriza corpos bem organizados e dispostos no convívio social. Lembro-me do enunciado proferido pela professora: Quero sorrisos gente... Olha a gentileza, mostrem que somos educados. Entretanto, além do sorriso no rosto, outra exigência da educadora me remeteu a tal estatuto: a necessidade de precisão dos movimentos coreográficos. Ela persiste na sincronia ritmo-movimento e nas manipulações graciosas e perfeitas do espaço. Enfim, o que percebo é uma dança que entra em funcionamento enquanto
(...) axioma sobre o qual repousa a construção do corpo como representação social de si mesmo e artefato civilizado admitindo que, por seu porte e seus movimentos, o corpo dá uma ideia das disposições do espírito (ARASSE, 2008, p. 584).
Nas incursões que a professora realiza no ensaio da dança, métricas e distâncias ideais tomam forma e aparecem manifestadas na coreografia. Elas reforçam o discurso insistente da educadora de que é preciso ter beleza, graça e sincronia. Eis que o movimento adquire modos geometrizados de ser e o dançar passa a constituir-se num
exercício corporal e [num] divertimento ritualizado, geométrico (de espaços a percorrer, figuras e gestos, a cumprir, posturas a executar) e tem, por isso, a seriedade de um prazer quase sagrado, mesmo quando é praticado e amado (PELLEGRIN, 2008, p. 168).
Algo que também me pôs a pensar nas palavras da aluna Luiza, após a festa:
Eu: Como foi a festa?
Luiza: Eu estava linda, professor. Eu: E como foi a dança?
Luiza: A gente dançou direitinho, todo mundo bem certinho, menos o Didi.
Eu: Ah é! O que aconteceu?
Luiza: Você sabe professor... Ele não tem ritmo, ele não estava na sincronia.
Eu: Como assim?
Luiza: Ai professor, até parece meio besta! Ele dançou torto, todo mundo deu espaço de um para o outro e ele não. Ele não fez o círculo certinho, não fez... Pegou na minha cintura direito. Só sei que a gente dançou e bateram palmas. (DB 27/08)
Ao mobilizar meu pensamento na possível relação entre a geometrização do espaço e o ato de dançar, lembrei-me das descrições do Ballet Comique de La Reyne, elaboradas por Beaujoyeux, em 1581.
[As bailarinas] dançaram o grande balé de 40 passagens às figuras geométricas, estas em
diâmetro, ora em
quadrado, ora em círculo e de muitas e variadas maneiras, e logo depois em triângulo, acompanhadas de alguns outros pequenos quadrados e outras pequenas figuras [...]. Essas evoluções em figuras geométricas eram ora em triângulo cujo ápice era a rainha; elas se transformavam em círculo, entrelaçavam-se em cadeia, desenhando figuras variadas com um conjunto e um sentido das proporções que maravilharam a assistência.
(VIGARELLO, 2008, pp. 321-322)
Senti-me no direito de associar a dança dos alunos a questões geométricas de tomada do espaço como havia feito o autor, utilizando, para isso, as anotações escritas durante as observações.
Os bailarinos estão todos espalhados pelo palco da apresentação. Não há uma relação da disposição entre eles, cada um ocupa o espaço que deseja. Enquanto alguns se encontram parados, outros gesticulam e circulam pelos pequenos grupos que se formam. De repente, o maestro-professora dá o tom e as cortinas vão logo se abrir. Eis que o espetáculo pode começar a qualquer momento. Figura 56: Ballet comique
Fonte: operabaroque.fr
Figura 57: Antes do Ensaio Fonte: a pesquisa
A cortina se abre e os corpos estão enfileirados, cada um toma o seu espaço, formando duas linhas retas. Todos são um só agora. Todos são uma coreografia orquestrada
pela sistematização
geométrica do espaço. Os corpos se dispõem em distâncias precisas, um braço. Embora todos sigam a sequência de passos, alguns ainda deformam a geometria da dança, mas
são rapidamente corrigidos pelo maestro-professora.
A linha reta de meninos é contorcida até formar um círculo, validado pelo desenho inscrito no chão do palco. Num ato análogo, as meninas giram entorno do círculo de meninos, construindo outro de maior diâmetro. Constitui-se, assim, um princípio de translação entre pares. Meninas transladam sobre o grupo de meninos até se dispor lado a lado com seu par. Um dança do casal acontece. Dois para lá, dois para cá. Eis que a distância milimetricamente calculada não sofreu
perversões pelo
movimento.
5.3 DA PRIMEIRA OFICINA OU DO ESPAÇO DE UM CORPO