3 A MUDANÇA DE PARADIGMA NO TRATAMENTO DE

3.2 Doutrina da situação irregular x doutrina da proteção integral

3.2.2 A doutrina da proteção integral

Andréa Rodrigues Amin (2013, p. 52), por sua vez, aduz que a doutrina da proteção integral é constituída de um conjunto de enunciados lógicos, organizada por meio de normas interdependentes, que representam um valor ético superior.

Nesse registro, diferentemente de se constituírem como objetos sobre os quais o Estado deve exercer a sua tutela, conforme preceitua a doutrina da situação irregular do menor, a criança passa a ser considerada como pessoa, sujeito de direitos, com a peculiaridade de estar em processo de desenvolvimento. Ela passa a usufruir, nessa perspectiva, além dos direitos garantidos aos adultos, de direitos especiais, em virtude de sua condição. Dentre esses, destaca-se o direito à convivência familiar, o que significa “o direito de não serem separados arbitrariamente do continente afetivo da família e das vinculações socioculturais com o seu meio de origem” (SIMONETTI; BLECHER; MENDEZ, 1994, p. 18).

Na esteira dessa compreensão, a criança, à medida que adquire maturidade, passa a ter o direito de se expressar e emitir opiniões, devendo estas serem consideradas. É consagrado também o princípio do interesse maior da criança, sendo que

1. Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem estar social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior da criança.(Decreto nº 99.710, de 21 de novembro de 1990, art. 3, item 1).

Observa-se assim uma mudança paradigmática no tratamento das crianças, que deixam de ser coadjuvantes em sua história, devendo o seu interesse e opinião serem considerados, à medidaem que se desenvolvem. Os direitos conferidos à elas passam a ser compreendidos sob a égide dos direitos humanos fundamentais, na esteira da evolução dos direitos das classes historicamente excluídas, como as mulheres, homossexuais e as pessoas com deficiência.

Ao lado da Convenção dos Direitos da Criança, outros documentos destacam-se como referenciais na proteção de direitos dos infantes. São eles: 1) Regras mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça de Menores, conhecidas como Regras de Beijing, de 29/11/85; 2) Regras das Nações Unidas para a Proteção dos Menores Privados de Liberdade, de 14/12/90; 3) Diretrizes das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência Juvenil,

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conhecidas como Diretrizes de Riadh, de 14/12/90. (BELOFF, 1999, p. 17).Merece destaque ainda a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica, de 1969, promulgada pelo Brasil por meio do Decreto 678/92. Este documento especializou o tratamento judicial concedido a crianças e jovens, e também estabeleceu uma corresponsabilidade da família, sociedade e Estado na proteção infanto- juvenil (AMIN, 2013, p. 53).

Após a promulgação da Convenção Internacional dos Direitos da Criança, coube aos Estados signatários do documento adequar as suas legislações internas aos preceitos estabelecidos pela Convenção. De acordo com Mary Beloff (1999, p.18-20), pode-se afirmar que uma lei se encontra em conformidade com a proteção integral dos direitos das crianças quando os direitos das dessas forem definidos. Estabelece-se que no caso de algum deles vierem a ser ameaçados ou violados, é dever da família, da sociedade e do Estado recuperar o exercício do direito que tenha sido desrespeitado, seja por meio de mecanismos e procedimentos administrativos ou também judiciais, se for esse o caso. Sendo os direitos definidos, as categorias vagas e imprecisas desaparecem, como por exemplo “risco”, “perigo moral ou material”, “situação irregular”, etc.

Na esteira desse pensamento, a autora aduz que quando o direito de alguma criança ou adolescente é ameaçado ou violado, quem se encontra em “situação irregular” não são eles, mas sim alguma instituição do mundo adulto, sejam elas a família, a sociedade e o Estado. As competências pelas políticas sociais e às questões relativas ao Direito Penal são claramente definidas, sendo que o reconhecimento dos direitos das crianças e dos adolescentes encontra- se imbricado ao adequado desenvolvimento de políticas sociais.

Mary Bellof(1999, p.18-20) ressalta queé possível afirmar que uma lei se encontra de acordo com a doutrina da proteção integral quando esteja embasada em uma matrizque apresente as seguintes características: descentralização da política pública de atendimento, que passa a ser implementada pela sociedade e pelo Estado, focalizada nos municípios; substituição daconcepção de menores, definida de forma negativa e pejorativa, pela ideia que crianças e adolescentes são sujeitos de plenos direitos;desjudicialização das questões referentes à falta ou carência de recursos materiais; universalização da proteção dos direitos da criança e do adolescente, não se referindo apenas aos menores, em situação irregular.

Conforme vigorava na doutrina da situação irregular, os direitos não eram reconhecidos à universalidade das crianças e adolescentes, mas apenas àquelas que se

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encontrassem em situação “irregular”, e que por isso se constituíam como objetos a receberem a intervenção do Estado.

Outra característica das leis instituídas sob a égide da doutrina da situação irregular é que crianças e adolescentes não são incapazes, pessoas incompletas, mas sim pessoas completas cuja característicaé que estão em desenvolvimento;reconhecimentodo direito da criança ser ouvida, devendo sua opinião ser considerada;Estabelece-se que o juiz deve se ocupar com questões de natureza jurisdicional, sejam elas na seara do direito público (Direito Penal) ou do direito privado (família), nos limites da lei e das garantias instituídas.No que tange aos adolescentes autores de ato infracional, estendem-se a estes todos os direitos reconhecidos aos adultos nos juízos criminais, de acordo com asconstituições nacionais de cada país e com os documentos internacionais vigentes. Além desses direitos, garantias específicas são auferidas, destacando-se o direito de ser julgado por tribunal específico, com procedimentos específicos, e o direito de possuir uma responsabilidade diferenciada da do adulto, com consequências jurídicas diferenciadas. Essas garantias independem do fato de crianças e adolescentes serem considerados inimputáveis. Estabelece-se medidas a serem aplicadas quando um adolescente cometer um ato infracional, sendo que a medida excepcional a ser tomada, a “ultima ratio”, é a privação de liberdade em instituição especializada. Esta, por sua vez, deverá ser aplicada como consequência do cometimento de um delito grave, como último recurso, com tempo determinado em todos os casos, e pelo tempo adequado, que seja o mais breve possível.Outras medidas são previstas, como a advertência, a admoestação, os regimes de semiliberdade, sendo que todas elas devem ser estabelecidas por tempo determinado (BELLOF, 1999, p.18-20).

Faz-se mister observar que a instauração da doutrina da proteção integral por meio das constituições nacionais e da legislação interna dos países da América Latina estabeleceu um giro hermenêutico no que diz respeito ao tratamento concedido às crianças e adolescentes. Na esteira da evolução dos direitos humanos, crianças e adolescentes deixam de ser objetos a serem tutelados e passam a usufruir das garantias individuais estendidas a todos os cidadãos em um Estado Democrático de Direito, com direito a ter sua opinião ouvida e respeitada, direito à participação e responsabilização progressiva. Esses novos direitos estatuídos reverberam-se em diversas áreas, sejam elas na seara dos direitos fundamentais, do Direito Civil e do Direito Penal.

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No Brasil, o art. 227 da Constituição da República de 1988 institui a doutrina da proteção integral, derrogando a doutrina da situação irregular (AMIN, 2013, p. 54), senão vejamos:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.(Constituição da República Federativa do Brasil de 1988).

Nessa perspectiva, o caput do artigo supramencionado preleciona ser responsabilidade não somente do Estado e da família, mas também da sociedade assegurar os direitos garantidos às crianças, adolescentes e jovens, sem distinção de gênero, raça, cor e classe social. Muito embora a Constituição tenha rompido com o paradigma da situação irregular, instituindo um sistema garantista de direitos, o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei n.º 8.069, de 13 de julho de 1990, foi responsável pela sistematização dos direitos garantidos na Constituição(AMIN, 2013, p. 56).

O Estatuto da Criança e do Adolescente constitui-se como um microssistema, estatuindo normas de direitos civis, administrativos e penais. Dentre as mudanças preconizadas por esse instituto, destaca-se que os direitos são garantidos à todas as crianças e adolescentes, indistintamente; a descentralização administrativa do sistema, sendo que o Município passa a ser o ente executor da política de atendimento; alteração da atuação do Juiz, que passa a limitar-se à função jurisdicional.

No que tange à seara penal, observa-se que muitas foram as modificações no tratamento dos adolescentes em conflito com a lei, modificações essas que serão estudas de forma mais pormenorizada no próximo tópico.

3.3 A doutrina da proteção integral e seus reflexos no tratamento de adolescentes em

No documento Diálogos entre a justiça restaurativa e o direito socioeducativo brasileiro no tratamento de adolescentes em conflito com a lei (páginas 62-65)