Parte I – Enquadramento teórico
Capítulo 3 – Patologias e criminalidade
3.2. Comportamentos Aditivos e Delinquência
3.2.2. Drogas e a sobrelotação dos estabelecimentos prisionais
Em Portugal o consumo de álcool é assumido como uma questão cultural, ao invés, o consumo de drogas era praticamente desconhecido há cerca de cinquenta anos atrás. O tratamento era realizado no campo muito restrito, dos domínios da psiquiatria e da saúde mental. A reinserção social era irreal. Com o 25 de Abril, o problema ganhou contornos mais científicos e de maior preocupação, devido á evolução do fenómeno. Entre 1996 e 1997 passou a existir uma maior oferta de tratamentos na área da toxicodependência, tais como, criação de novos Centro de Atendimento de Toxicodependentes (CAT´s) no interior do país, abertura de novas unidades onde existiam grandes listas de espera (Niza, 1998).
SICAD (2017), refere que Portugal devido à sua posição geográfica tornou-se num país muito importante na rota do tráfico internacional.
Esta realidade determina heterogeneidades regionais significativas nos consumos, no continente constata-se que o problema da toxicodependência é mais expressivo no litoral, reportando às cidades do presente estudo, diremos que Aveiro conta com 1 712 utentes em tratamento, Leiria tem 1 315; já no interior centro, em Castelo Branco (que também integra a Covilhã) existem 507 utentes em tratamento31. ([SICAD], Direção de Serviços de Monitorização e Informação [DMI], et al., 2019)
Os dados publicados em SICAD (2017) revelam que o consumo de estupefacientes assumiu proporções preocupantes, alude-se que em 2017 estiveram em tratamento 27 15032
30 “xixa” é feita pelos reclusos, através de fermentação de fruta e açúcar, em engenhosos alambiques que os próprios fabricam.
31 Anexo 19 – Distribuição geográfica de utentes em tratamento de substâncias ilícitas – dados retirados SICAD - Direção de Serviços de Monitorização e Informação [DMI], et al., 2019)
32 Anexo 20 – Utentes em tratamento relacionados com o uso de drogas e população reclusa por tipo de droga - SICAD – 2017
utentes relacionados com o uso de drogas no ambulatório, dos 3 307 utentes que iniciaram tratamento, 1 769 eram novos utentes e 1 538 utentes readmitidos.
A toxicodependência é definida como o “estado psíquico e físico que resulta do consumo de uma ou mais drogas que se carateriza por reações comportamentais e outras, que levam sempre à necessidade compulsiva do consumo” (Branco, 2007, p. 71), com o intuito de conseguir efeitos psíquicos, nomeadamente o de anular o mal-estar decorrente da ausência da substância. A toxicodependência, é entendida como um fenómeno multifatorial, que apresenta componentes genéticos, biológicos, comportamentais, psicológicos, familiares, socioculturais e políticos. Considerada uma doença que atinge essencialmente pessoas dotadas de menores recursos pessoais, familiares e sociais de proteção ou aquelas que no percurso de crescimento se confrontam com situações com as quais não souberam lidar de modo diferente daquele que conduziu à droga. É um problema complexo, segregador de estigmas sociais fortes, com complexas origens e que afetam profundamente a sociedade (Branco, 2007). Poder-se-á afirmar que o consumo de drogas está associado a várias doenças infeciosas ou mentais, também estão associados vários riscos, como o abandono escolar precoce, baixa ou inexistente formação profissional ou ainda marginalização familiar e social (Poças et al., 2006).
Tendencialmente o toxicodependente acaba por ter problemas com a Justiça, de acordo com a recolha de dados da SICAD no ano de 2017, registaram-se 1 631 processos-crime, envolvendo 2 136 pessoas; maioritariamente acusadas de tráfico, 88% destes indivíduos foram condenados e 12% absolvidos. Verifica-se um grande aumento de condenações por tráfico, tráfico de menor gravidade, bem como, “criminalidade indiretamente relacionada com o consumo de drogas” (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências [SICAD] et al., 2017,p.93) em alguns casos com o intuito de obter dinheiro para adquirir as substâncias ilícitas, mas também crimes cometidos sob o efeito destas.
“O uso de droga e a criminalidade estão entrelaçadas na trajetória de vida dos indivíduos que constituem a população reclusa. A droga e o delito estão interligados em que um complementa o outro: ora o delito é cometido para a aquisição de drogas, ora a droga é consumida para a prática do delito, numa parceria de transgressão, sugerindo que ambas funcionam para transgredir” (Agra cit. In Silva, 2013, p.31).
Desta forma, as drogas estão associadas à sobrelotação dos estabelecimentos prisionais portugueses, já que, após a explosão do consumo, verificou-se um aumento significativo do número de reclusos e a consequente sobrelotação do sistema por crimes associados ao consumo e/ou ao tráfico (Poças et al., 2006; Torres & Gomes, 2002). Aliás, consequência comum a quase todos os países desenvolvidos (Torres & Gomes, 2002).
Numa tentativa de diminuir os consumos, alguns estabelecimentos prisionais estão dotados de unidades específicas para tratamento de reclusos toxicodependentes, os quais são colocados em alas ou pavilhões separados da demais população prisional e regularmente sujeitos a teste de despistagem ao consumo de estupefacientes.
Nos casos em que os EPs não dispõem deste tipo de unidade, o tratamento dos reclusos toxicodependentes é feito com o recurso ao CAT mais próximo, já que a DGRSP estabeleceu protocolos para facilitar o acesso a programas de tratamento, com o propósito de iniciarem tratamento ou de o continuarem, caso o tenham iniciado, ainda em meio livre.
Mas é imediatamente prestada assistência médica ou medicamentosa33 a todos os reclusos que entrem no sistema prisional com a síndrome de abstinência por opiáceos.
Certo é que a desvinculação das drogas não se faz por mero encarceramento dos toxicodependentes, mas Pinto (2018) menciona que um forte incentivo ao abandono das drogas, é o facto de se sentirem presos e almejarem a liberdade. Tendo estes, consciência que com a ausência de consumo de drogas podem lograr a liberdade condicional34. Contudo, por se tratarem de indivíduos que frequentemente se encontram psicologicamente fragilizados, quanto maior for o controle, a proximidade e o apoio que a este nível for feito, melhores e mais garantidos serão os resultados obtidos no tocante à sua desintoxicação, sendo também aqui essencial o apoio que a nível psicológico recebam dentro do estabelecimento prisional. No entanto os serviços de psicologia não funcionam todos os dias e na maior parte das vezes não conseguem dar resposta às reais necessidades.
Este tipo de população apresenta outro tipo de problemas, são indivíduos que por consequência dos consumos, têm os dentes muito danificados/inutilizados, raízes infetadas ou mesmo ausência de dentes. É de referenciar que os toxicodependentes são os reclusos que mais necessitam de intervenções urgentes na área da estomatologia logo que entram no Estabelecimento Prisional. Refira-se que muitos deles só iniciam e dão continuidade às consultas de estomatologia após detenção, ou por estas serem gratuitas ou porque a ausência de dentes faz a correlação com a toxicodependência. Muitos deles param ou diminuem os consumos, tanto por ausência de estupefacientes no estabelecimento prisional ou porque a oferta é escassa ou ainda porque é vendida mais cara, não sendo acessível a todos; “Eu imaginava que a prisão fosse muito pior. Estou-me a constatar que esta prisão é um caso especial. Primeiro não há droga aqui (…) depois como somos poucas, temos guardas connosco e não há coisas como elas contam de outras prisões, em que entra droga, telemóveis, há mais negócios. Não sei se é assim, mas é o que elas contam, como são prisões maiores…”. (Frois, 2017, p.231).
33 Anexo 21 – Assistência médica ou medicamentosa em caso de síndrome de abstinência por opiáceos.
34 Liberdade Condicional: saída antecipada ao termo de pena.
De facto, as drogas têm um papel dominante no sistema prisional, tanto relativo aos crimes cometidos como no que respeita a consumos dentro e fora de muros. A relação entre o consumo e a reincidência criminal é muito elevada e delineadora de um ciclo contínuo
“consumo- delinquência-reclusão” (Torres & Gomes, 2002).