2 REVISÃO DE LITERATURA
2.5 DRUG-TAKING CONFIDENCE QUESTIONNAIRE (DTCQ)
Para o presente estudo, optou-se por utilizar a versão abreviada do Drug-Taking Confidence Questionnaire (DTCQ-8) por ter sido resultado de pesquisas baseadas no Drug- Taking Confidence Questionnaire (DTCQ-50). Seu aprimoramento científico possibilitou que o DTCQ-8 apresentasse medidas de confiabilidade e validade acerca da medição da autoeficácia para o enfrentamento de situações de alto risco para o consumo de drogas, mostrando uma correlação de 0,97entre os escores totais dos dois instrumentos. A versão de 8-itens (DTCQ-8) foi responsável por 95% da variação no tot1al de itens do DTCQ-50 e correlacionados 0,97 com a pontuação total DTCQ-50, confirmando a confiabilidade e a validade do DTCQ-8 como um importante indicador global de autoeficácia para o enfrentamento de situações de alto risco.
O Drug-Taking Confidence Questionnaire (DTCQ-50) foi desenvolvido em 1985, pelos pesquisadores canadenses Annis e Martin, porém apenas em 1997 os pesquisadores Annis, Sklar e Turner o validaram como uma medida de autoeficácia para o enfrentamento (coping self-efficacy). Neste mesmo ano, esses autores publicaram o Guia de Usuário do DTCQ, com o objetivo de medir o nível de confiança dos usuários de drogas para resistir ao desejo de usar uma droga em situações específicas, chamadas de situações de alto risco ou de crise para recaída (SKLAR; ANNIS; TURNER, 1997).
O DTCQ-50 é instrumento multifatorial que mensura a confiança do usuário de drogas em evitar o consumo da substância diante da ideação antecipatória de situações específicas de alto risco ou de crise para recaída e, assim, manter-se mais distante dos comportamentos de busca pela droga e pelas situações que conduzem ao consumo da substância (SKLAR; ANNIS; TURNER, 1997).
O DTCQ-50 foi desenvolvido com 50 itens no intuito de analisar os fatores importantes no enfrentamento do consumo de drogas. Esses fatores foram organizados em 8 domínios de primeira ordem, de acordo com as categorias de alto risco para recaída segundo
Cummings, Gordon e Marlatt (1980), Marlatt e Gordon (1985). Além disso, 3 domínios de segunda ordem, quais sejam: situações negativas, situações positivas e situações de tentação. Os clientes relataram sua confiança para resistir ao desejo de usar a substância em cada uma das 50 situações. As respostas foram pontuadas em uma escala tipo Likert de 6 pontos que variavam de 0 (nada confiante) a 100 (muito confiante). Os clientes responderam considerando uma determinada substância de abuso, relacionada aos problemas decorrentes deste consumo que motivou o tratamento.
Desta forma o DTCQ-50 foi organizado conforme descrito no Quadro 1:
Quadro 1 – Organização dos domínios e seus respectivos itens
Domínios secundários Domínios primários
Situações negativas Emoções desagradáveis - ED (10 itens), Desconforto físico -DF (5 itens), Conflitos com os outros - CO (10 itens).
Situações positivas Emoções agradáveis - EA (5 itens), Momentos agradáveis com os outros - MAC (5 itens).
Situações de tentação Teste de Controle Pessoal - TCP (5 itens), Impulsos e Tentações para o uso - IT (5 itens), Pressão Social - PS (5 itens).
Fonte: Elaboração própria com base em Sklar, Annis, Turner (1997).
A validação do DTCQ-50 foi desenvolvida com 713 participantes que procuraram tratamento no Centre for Addiction and Mental Health (CAHM), Toronto, Ontário, durante o período de 24 meses.
A validação do DTCQ-50 foi realizada por meio da aplicação dos instrumentos na admissão do tratamento: perguntas demográficas básicas e história de vida; Timeline Follow- Back para o uso de álcool; informações sobre o consumo de drogas; variáveis relacionadas ao uso de substâncias; Hopkins Symptom Checklist-Revised (SCL- 90R); e Stages of Change Readiness and Treatment Eagerness Scale (SOCRATES).
Além disso, os primeiros 50 clientes que indicaram que o álcool era a principal substância de abuso e que motivou seu tratamento também preencheram o Beck Depression Inventory (BDI); o Hopelessness Scale (HS); o Drinking-Related Locus of Control Scale (DRIE); e Outcome Expectancy Scale (OES). Os primeiros 50 usuários de cocaína também completaram o BDI e o HS.
Como o Drug-Taking Confidence Questionnaire (DTCQ-50) foi baseado no modelo de antecipação mental programada das situações de crise para recaída (CUMMINGS; GORDON; MARLATT, 1980; MARLATT; GORDON, 1985), a análise fatorial confirmatória
foi utilizada para testar o quanto os dados da DTCQ-50 se ajustavam a esta hipótese do modelo de 8-domínios.
O primeiro modelo (M1) para a análise fatorial reuniu os 8 domínios (ED, DF, EA, TCP, IT, CO, OS e MAC). A análise fatorial exploratória verificou os modelos: M2 (PS e IT); M3 (ED e CO); M4 (PS e IT; ED e CO); M5 (ED, DF e CO agrupados em um único domínio) e EA, MAC, IT, TCP e PS num outro domínio.
O M5 demonstrou que as Emoções Agradáveis e os Momentos Agradáveis com os outros formaram seu próprio domínio. O M6 foi composto por três domínios de segunda ordem e oito domínios de primeira ordem, agrupados desta forma: Situações Negativas (ED, DF e CO), Situações Positivas (EA e MAC) e Situações de Tentação (TCP, IT e PS).
O M6 foi selecionado como o mais adequado, pois originou resultados que viabilizaram uma análise significativa e clinicamente interpretável, constituindo o Drug- Taking Confidence Questionnaire (DTCQ-50).
Para verificar a confiabilidade do DTCQ-50, os autores utilizaram o alfa de Cronbach, obtendo um valor de 0,98 para a pontuação total do instrumento, revelando substancial consistência interna.
Para a validade de construto, Sklar, Annis e Turner (1997) compararam os 8 domínios com as variáveis referentes ao consumo de drogas. Os coeficientes de correlação indicaram que um maior consumo de álcool foi significativamente associado a escores mais baixos de autoeficácia em enfrentar as situações de alto risco na maioria dos 8 domínios do DTCQ-50. Da mesma forma, maior frequência de uso de cocaína foi associado a menores escores de autoeficácia em todos os 8 domínios.
As correlações entre os anos de consumo problemático do álcool e os 8 domínios do DTCQ-50 indicaram que quanto menor o número de anos de problemas com a bebida maior a confiança na própria capacidade em resistir a beber muito em situações de alto risco.
Para usuários de cocaína, as correlações entre anos de consumo problemático dessa droga e os 8 domínios do DTCQ-50 não foram significativas, porém indicaram que a maior quantidade de anos de consumo problemático da cocaína reduzia os escores de autoeficácia.
Entre os usuários de álcool, a maioria dos 8 domínios do DTCQ-50 foi significativamente associada com a gravidade de dependência, indicando o maior nível de dependência do álcool diminuía a confiança na capacidade de resistir ao desejo de beber pesadamente em situações de alto risco, especialmente em situações que envolviam Emoções Desagradáveis (ED) (r = - 0,31) e os Conflitos com os Outros (CO) (r=- 0,32).
Usuários de cocaína com altos escores na Drug Abuse Screening Test (DAST) apresentaram baixa autoeficácia em todos os 8 domínios do DTCQ-50, principalmente nas
situações negativas: Emoções Desagradáveis (r = - 0,31), Desconforto Físico (r = 0,22) e Conflitos com os Outros (r = - 0,31).
Análises adicionais para estabelecer a evidência de validade convergente e discriminante para o DTCQ-50 foram conduzidas por comparações com os seguintes instrumentos: Hopkins Symptom Checklist-Revised (SCL- 90R), Beck Depression Inventory (BDI), Stages os Change Readiness and Treatment Eagerness Scale (SOCRATES), Hopelessness Scale (HS), Drinking- Related Locus of Control Scale (DRIE) e Outcome Expectance Scale (OES).
Portanto, o DTCQ-50, organizado em 8 domínios, mostrou-se, no contexto canadense, um instrumento válido e confiável para medir a autoeficácia dos usuários de álcool e/ou outras drogas para resistir ao desejo de consumir estas substâncias em situações de alto risco.
Annis, Sklar e Turner (1999) prosseguiram seus estudos e, devido à extensão do instrumento de 50 itens (DTCQ-50), à sua aplicabilidade e à viabilidade operacional científica e clínica, decidiram que uma versão abreviada seria mais viável, particularmente em estudos para avaliação de resultados de tratamento, em que a autoeficácia é mensurada antes, durante e após o tratamento. Para atender a essa exigência, realizaram um estudo com 713 participantes para o desenvolvimento da versão abreviada do DTCQ-50.
Primeiramente, utilizaram três perguntas como indicadores de expectativa: “Quanta dificuldade você acredita que tem para parar de beber ou de usar drogas?”; “Quanto de motivação você acredita que tem para parar de beber ou de usar drogas?”; “Quanta confiança você tem que será capaz de evitar beber ou usar drogas?”. Todas estas perguntas foram medidas por meio de uma escala tipo Likert de 6 pontos, que variaram de “nenhuma” a “quantidade extremamente grande”. No intuito de verificar a validade de construto, Annis, Sklar e Turner (1999) correlacionaram os escores com três indicadores de expectativa: motivação para parar, dificuldade com o abandono, confiança em se abster de beber ou de usar drogas.
Aplicaram ainda o Hopkins Symptom Checklist-Revised (SCL-90R) para identificar psicopatologia (DEROGATIS, 1979). No entanto, para os participantes do estudo de validação da DTCQ-8 foram considerados apenas os escores para depressão, estado mental que interfere na autoeficácia para o enfrentamento de situações de alto risco. Aplicaram o Stages of Change Readiness and Treatment Eagernees Scale (SOCRATES) revisado por Miller em 1991, no intuito de identificar o estágio de mudança de uma pessoa, a saber: pré- contemplação, contemplação, determinação, ação e manutenção. Esses instrumentos foram comparados com os dados do DTCQ-8.
Posteriormente, os autores fizeram regressão linear com todos os 50 itens do DTCQ-50. Alguns itens se agruparam em domínios iguais, originando uma seleção de 16 itens com estrutura estável. A correlação de 0,99 entre os escores totais do DTCQ-50 e os 16 itens do
DTCQ-16 indicou que as duas medidas foram equivalentes. Prosseguiram a seleção dos melhores itens para representar cada domínio e, assim, obtiveram uma medida de 8 itens (DTCQ-8), os quais foram responsáveis por 95% da variância do DTCQ-50. O coeficiente alfa do DTCQ-8 foi de 0,89, sendo a correlação do total de escores entre ele e o DTCQ-50 de 0,97.
Annis, Sklar e Turner (1999) recomendam que o DTCQ-8 álcool e DTCQ-8 outras drogas seja aplicado separadamente, mesmo que a única diferença seja a substituição das palavras “beber” por “usar drogas”, por acreditarem que esta estratégia preserva a acurácia da medida de autoeficácia por meio da concentração do usuário em uma única substância. Recomendam ainda que o DTCQ-8 seja utilizado por outros países e idiomas.
A presente pesquisa de adaptação transcultural e validação do Drug-Taking Confidence Questionnaire para uso no Brasil com usuários de álcool e/ou outras drogas em tratamento em CAPSad, subsidiará as intervenções dos profissionais da área de saúde que cuidam desta clientela, onde se insere o enfermeiro, contribuindo para o aprimoramento da assistência prestada por esse profissional. Destarte, o usuário de álcool e/ou outras drogas também será beneficiado diante de mensurações objetivas de sua autoeficácia como evidência científica e clínica de sua evolução no tratamento.
Do exposto e tendo em vista a abrangência e a prevalência do consumo de álcool e/ou outras drogas, considera-se a necessidade da utilização do DTCQ-8, na prática clínica, por ser um instrumento válido e confiável, capaz de identificar áreas de baixa autoeficácia dos usuários. Ademais, o DTCQ-8 proporcionará a avaliação dos eventos de recaídas, da gestão e do manejo, bem como contribuirá para a compreensão das interferências de fatores biológicos, psicológicos, terapêuticos e ambientais no processo de cuidar dessa clientela.
A utilização desse instrumento poderá fornecer evidências científicas importantes para direcionar ações de cuidado prestado ao usuário de álcool e/ou outras drogas e sua família, no intuito de melhorar a autoeficácia, otimizando o tempo e os recursos, além de contribuir para o sucesso do tratamento dessa clientela.
A aplicação do DTCQ-8 álcool e DTCQ-8 outras drogas contribuirá para o desenvolvimento de pesquisas científicas e projetos de extensão, proporcionando a aquisição de conhecimentos nessa temática durante a formação profissional.
A realização deste estudo é também importante na divulgação do instrumento para a prática clínica, motivando outros profissionais que cuidam de usuários de álcool e/ou outras drogas e suas famílias em qualquer nível de atenção à saúde, dentre eles o enfermeiro, a aplicarem o instrumento em outras realidades brasileiras.
3 OBJETIVOS
Neste capítulo estão expostos os objetivos geral e específicos desta tese.