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conhecer, reunir e andar junto

DUELO DE VOGUE

nas comunidades negras, latinas e periféricas nos anos 1980. O voguing, como estilo de dança foi inspirado na revista Vogue e é caracterizado por movimentos angulares, lineares e estiliza- dos em poses semelhantes às das modelos da revista. Surgiu em festas chamadas “Ballrooms”, quando ainda era chamado de “apresentação”. Mais tarde é chamado de “performance” e posteriormente com movimentos mais complexos, passa a ser chamado de Vogue. Os bailes eram sediados por houses, coletivos de dançarinos em sua maioria LGBTs. Toda house tem uma mãe que põe ordem na casa e cuida dos filhes. Isso tinha e ainda tem muito a ver com a expulsão dos jovens LGBTs de casa. Nas houses eles encontravam orientação, cuidado e um pouco de segurança.

Em Belo Horizonte, o movimento surge em 2013 e hoje é considerado o mais importante na América Latina. As aulas e as festas são espaços de acolhimento, empoderamento e formação para LGBTs que encontram conforto nesses ambientes e na dança um meio de expressão libertador. O evento mais regular é a Festa Dengue que geralmente acontece na Casa Matriz, localizada na Praça Raul Soares. Anualmente acontece também o BH Vogue Fever, Festival Internacional de Dança que celebra o Vogue e a cultura Ballrom na América Latina. Eventu- almente as festas acontecem em espaços de uso público da cidade.

Gui Moraes - performer, bailarino, mc e criador da festa Dengue

“A gente começou o Duelo de Vogue em 2013, o primeiro do Brasil. Em 2015, eu fiz uma parceria com o Duelo de Mcs, a Família de Rua, e foi a primeira vez que fizemos a Dengue de rua. Foi incrível, mais do que misturar todas as linguagens, para mim o mais incrível, importante e diferente dos outros duelos, foi que realmente estávamos ali abaixo do Viaduto Santa Tereza, ali na Aarão Reis, onde tem muitos moradores de rua. Então a gente estava assim, na casa deles. Então eles tomaram conta do duelo, maravilhosas. Acho que já é uma população que já tem uma fluidez maior de gênero né? As mulheres são muito mais fortes e prontas e “não mexe comigo” e na hora da runway63 babe ficam todas “princesas”, tanto as mulheres quanto

os homens, começam a rebolar, mandam beijo e tudo. Foi incrível, maravilhoso. Tem uma foto com uma mulher que ficou abraçada comigo o duelo inteiro, que falou comigo “muito amor, muito amor, muito amor”. Isso para mim foi o melhor, mais do que o rap, essa outra camada queer que faltava, que são os marginalizados de verdade. Eu acho que, ali naquele momento foi tipo, nó, agora bateu! Sempre tem procura de LGBTs pela Vogue tanto na rua quanto em espaços fechados, mas vejo que ainda não chega em uma parte da população LGBT. Na rua, são os transeuntes que passam, param e ficam e se apaixonam e dizem “nunca vi uma coisa dessas” pelamor de deus, qual é seu telefone? quero ir sempre. Não acho que tenha uma coisa procurada programada, é mais de ir de encontro sabe? Ali no meio, eles começam a tirar fotos e ligar pras amiga, aí lota.”

Tetê Moreira - bailarina, professora de dança, integrante do Trio Lipstick

“O movimento do Vogue, essa cultura ballroom, ela vai surgir com força mesmo em 2013 quando o Gui faz a primeira Dengue. Já tinha umas pessoas que treinavam Vogue, a parte da dança. Eu e as meninas do Lipstick, a gente já treina Vogue desde 2009. Mas o começo de cultura das balls que é esse duelo e outras coisas que envolvem o duelo, aconteceu mesmo na Dengue em 2013. Aí foi uma experiência muito inicial, engraçada, porque ninguém ali sabia o que era Vogue. A única que foi e sabia era eu, porque as outras meninas também não puderam ir e aí fui, batalhei, ganhei e nesse momento eu já fiz essa amizade com o Gui e em 2014 o Lipstick já entra nessa parceria com a Dengue, tentando trazer um pouco essa parte mais técnica da dança, as informações sobre a cultura ballroom, para fazermos algo com a cara de Belo Horizonte, mas respeitando a cultura original, criada em Nova Iorque. Em 2014 começamos a fazer vários duelos. Nesse momento já ocupávamos alguns espaços públicos - como a Virada Cultural que aconteceu no SESC Palladium, foi no saguão e foi lotado. Já ocupamos parques, o Parque Municipal, algumas Dengues de rua, uma embaixo do Viaduto e uma em cima, uma no FID. E ano passado no edital Cena Plural, ocupamos embaixo do Viaduto Santa Tereza, um dia de dia que foi bem legal.

Tudo que fizemos até hoje tanto em locais públicos ou privados, diria que 95% das pessoas que se interessam e entram nas batalhas são LGBTs. Quando é na rua a experiência é muito interessante. Quando foi embaixo do Viaduto de Santa Tereza, vários moradores de rua da região entraram. E tinha as gays, as mulheres trans. Participaram e fizeram uma farra, a iden- tificação é imediata. E os héteros também, acaba que todo mundo entra na farra. Mas essa identificação dos LGBTs baterem olho e colar acontece muito.

A Dengue foi a primeira faísca, em festas menores e depois maiores. E aí tivemos o primeiro BH Vogue Fever, e o Art Burnet veio e tivemos a primeira ball internacional nos moldes das balls internacionais, o mainstream e desde então nunca mais paramos. A Vogue continua, o BH Vogue Fever está no quinto ano de existência e hoje virou a grande referência da América Latina, ela pára para vir e participar ou mesmo para ver de longe. Um grande momento. Somos uma grande referência, Belo Horizonte, está neste lugar.

É importante falar dos cuidados de ocupar um espaço público levando o Vogue e a cultura Ballroom. Por falar sobre corpos e pessoas em situação de marginalidade mesmo, pessoas periféricas, travestis e bichas pretas, sapatonas masculinas, o tanto que é importante ter esse cuidado na hora de ocupar pensando na segurança das pessoas. A gente sabe que a cidade ainda é um espaço muito agressivo, violento e truculento com esses corpos, então no momento que a gente decide ocupar os espaços públicos, nós que normalmente produzimos, precisamos ter todo esse cuidado. Porque às vezes preferimos fazer em lugares fechados para garantir mesmo a segurança, conseguimos definir bem as regras, orientar as seguranças, colo- car seguranças desse recorte também. Seguranças mulheres, seguranças travestis e lésbicas

que entendam melhor, evitando a violência. Pensar o cuidado em ocupar espaços públicos, até pensando em polícia.”

No documento Cidade queer: uma autobiografia plural (páginas 90-93)