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Dunas fixas, móveis, frontais e paleodunas

Fortaleza foi cedendo áreas naturais para a especulação imobiliária. Belos e vistosos campos de dunas foram sendo ocupados por edificações diversas. Algumas áreas dunares estão bem descaracterizadas pelo processo de ocupação urbana, outras irreconhecíveis. Alguns conjuntos residenciais e loteamentos irregulares foram edificados sobre as dunas. Outras não tiveram o mesmo fim e ainda se encontram relativamente conservadas, o que reforça a necessidade de protegê-las para evitar a destinação das que foram impermeabilizadas pela ocupação antrópica. Um dos poucos remanescentes se encontra na área de estudo, no entorno do rio Cocó.

Os campos de dunas associados são constituídos predominantemente por areias quartzosas acumuladas em decorrência do transporte eólico, se constituindo como depósitos geológicos holocênicos. Possui granulação fina a média e bem selecionada, apresentando coloração clara (MEIRELES et al, 2001).

As dunas, por seus processos genéticos, podem ser distribuídas em três classes distintas, a saber: dunas móveis, dunas fixas e semi-fixas e dunas edafizadas. Para fins de delimitação de APP, utiliza-se apenas a divisão entre fixas e móveis, pois essa divisão vai ter aplicabilidade na esfera legal, presente na legislação ambiental. Mas a abordagem a partir de processos genéticos vai ser discutida teoricamente neste trabalho.

De acordo com a Lei Estadual nº 13.796, de 30 de junho de 2006, a diferença entre as dunas móveis e dunas fixas é que estas possuem a cobertura vegetal, conforme

se vê a seguir nos incisos VI e VII do artigo 2º da supracitada lei:

VI - Dunas móveis: unidades geomorfológicas de constituição predominantemente arenosa, com aparência de cômoro ou colina, produzidas pela ação dos ventos, situadas no litoral ou no interior do continente sem cobertura vegetal;

VII – Dunas fixas: unidades geomorfológicas de constituição predominantemente arenosa, com aparência de cômoro ou colina, produzidas pela ação dos ventos, situadas no litoral ou no interior do continente recoberta por vegetação;

De modo geral, as dunas vêm acompanhando a linha da praia, sendo orientadas pela direção dos ventos dominantes de leste, apresentando um perfil com declive suave a barlavento e de maior declividade a sotavento.

Na área de estudo, logo após a linha de praia é possível encontrar dunas frontais, de baixa amplitude, estáveis, se desenvolvendo à retaguarda de praias de baixa energia (GUERRA; CUNHA, 2009). São recobertas por vegetação de gramíneas e possuem como solos predominantes os Neossolos Quartzarênicos. Pelo fato das dunas frontais estarem bem descaracterizadas pelo processo de ocupação urbana, optou-se por não inserir no mapeamento, pela pouca representatividade, em porcentagem, dentro da área de estudo.

As dunas fixas relativamente conservadas da área de estudo estão presentes nos bairros Sabiaguaba, Futuro, Dunas e Cocó.

Já as dunas móveis são encontradas principalmente nos bairros Sabiaguaba e Dunas (pequeno fragmento).

Também é possível encontrar um pequeno fragmento de paleoduna no bairro Dunas, nas proximidades do Loteamento Cidade Fortal. De acordo com Parecer Técnico36 da SEMA, no Loteamento Cidade Fortal, é possível verificar uma área degradada de aproximadamente 1,69 ha, onde já ocorreu desmonte de dunas para extração mineral de areia. O parecer acrescenta que podem ser observados “processos

claros de atividades de lavra onde os sedimentos arenosos do capeamento de dunas fixas foram totalmente retirados, expondo os sedimentos inconsolidados de coloração avermelhada, caracterizado como paleoduna”.

36 Parecer Técnico Nº 18/2016-CETIC/COAFI SEMA.

O uso da ferramenta do Modelo Digital de Terreno (MDT), por meio das curvas de nível e da base altimétrica (dados de altitude/altura) dos terrenos inseridos na área de estudo, fornece bases para identificar o campo de dunas de diferentes gerações e sua categorização como espaço territorial especialmente protegido (APP) e como praticamente últimos remanescentes da cidade de Fortaleza (Anexo C).

A partir dessa utilidade e para ter um melhor mapeamento destas unidades geoambientais, foi utilizada a ferramenta Modelo Digital de Terreno - MDT, gerada por meio de interpolação geoestatística, através da ferramenta 3D Analyst/Create TIN, no software ArcGis 9.3, a partir de curvas de nível fornecidas pela Prefeitura Municipal de Fortaleza - PMF (1995).

Apesar de sua distinção, as dunas fixas, móveis e paleodunas foram agrupadas (unicamente) no mapa a partir de uma só Unidade geoambiental, haja vista serem integradas e com funções ecológicas semelhantes, fato que é defendido nesta pesquisa como de relevante interesse ambiental para proteção. Entretanto, na Figura 15 é possível ver a localização destes campos de dunas.

Claudino-Sales (2010), conforme já discutido, traz a diferenciação entre dunas fixas, semi-fixas e móveis. Em seu artigo, a autora explica que as datações indicam que as dunas do Cocó situadas na ARIE Municipal das Dunas do Cocó possuem idade em torno de 2.200 anos (CLAUDINO-SALES, 2010). No artigo, é mencionado que a idade das dunas do Cocó (de fixação das areias) foi estimada, a partir de datações por termoluminescência (~1m), como da ordem de 1,900 +/_ 250 anos.

Pinheiro (2009) elaborou uma classificação das gerações de dunas do litoral de Fortaleza, identificando três gerações de dunas, utilizando a classificação de Claudino- Sales (2002).

Com base nessa classificação, nas dunas de primeira geração podem ser inseridas as dunas frontais e nebkas da Sabiaguaba. Possuem idade entre duzentos e trezentos anos.

As dunas de segunda geração possui período de formação de 300 e 400 anos a 1,2 ka37. Correspondem às dunas móveis, sendo encontradas na Sabiaguaba e na Praia do Futuro.

A terceira geração de dunas possui idade entre 1,2 ka e 2,7 ka e corresponde às dunas fixas, principalmente do tipo parabólicas hairpin. São encontradas na Sabiaguaba,

37 ka= milhares de anos

Cocó e Futuro.

Claudino-Sales (2010) discorre que as dunas parabólicas têm forma em meia-lua (croissant), com braços dispostos longitudinalmente à direção do vento principal, antecedendo o corpo principal da duna. A autora explica que as dunas parabólicas são opostas às dunas barcanas, que também têm mesma forma, porém com segmentos laterais posteriores ao corpo principal da duna. Ela explica que tais tipos de dunas “potencializam a formação de ecossistemas paticulares, pois no seu interior comumente

ocorrem lagoas, formadas pela deflação, que evolui com o vento removendo areias até atingir o nível do lençol freático, o qual então aflora.” (CLAUDINO-SALES, 2002)

Segundo o Plano de Manejo das Unidades de Conservação da Sabiaguaba, APA e Parque Natural Municipal das Dunas da Sabiaguaba (Fortaleza 2010), as dunas móveis correspondem a 152 hectares e as dunas fixas/semifixas a 83 hectares totalizando 235 hectares. Para fins de comparação, na área de estudo são mais de 440 hectares (cerca de 441,79 ha), dos quais cerca de 44,05 hectares entraram na proteção do Parque Estadual do Cocó. A maior parte dos outros quase 400 hectares ficou sem a proteção legal do SNUC, considerando que ficaram de fora do Parque Estadual do Cocó, ARIE das Dunas do Cocó e da APA e Parque Natural Municipal das Dunas da Sabiaguaba.

Em termos de biodiversidade, a formação vegetacional encontrada nesta geofácie corresponde à Vegetação Pioneira Psamófila (restinga), sendo que nas dunas fixas ou estáveis e semi-fixas, situadas à vanguarda das dunas móveis, acham-se parcial ou totalmente fixadas por vegetação pioneira, tal como a salsa (Ipomaca péscaprae), oró (Phaseus pondeiratus), bredinho-da-praia (Iresine portulacoides), cipó-da-praia (Remirea maritima), dentre outras (MEIRELES et al, 2001). SEMA (2016) informa que as principais espécies florísticas que compõem as dunas fixas são: o murici (Byrsonima

crassifolia), o cajueiro (Anarcadium occidentale), o guajiru (Chrysobalanus icaco), o

batiputá (Ourateia fieldingiana), a ubaia (Eugenia sp.), o mofumbo (Combretum

leprosum), a ameixa (Ximenia americana) e o feijão-bravo (Cynophalla flexuosa).

As dunas móveis acham-se contínuas à linha de costa. Elas migram livremente pela planície costeira quando não há obstáculos estruturais à mobilização de sedimentos – tal migração acha-se bastante comprometida na atualidade, em função da urbanização. Formavam campos originariamente caracterizados pelas feições barcana (ou meia lua) e

cordões longitudinais, que não existem mais, ou existem apenas localmente (Praia da Sabiaguaba).

Porém, nas áreas de dunas fixas, paisagens predominantes do campo de dunas da área de estudo, foram registradas por pesquisadores mais de 100 espécies vegetais nativas38. Este levantamento foi coordenado pelo botânico Antônio Sérgio F. Castro (2013), sendo identificadas 125 espécies vegetais nativas na ARIE Dunas do Cocó, em 47 famílias botânicas, todas, características de ambientes dunares. Destas espécies vegetais, 78 são lenhosas (arbustos e árvores) e 47 são ervas, subarbustos e cipós. Por equivalência ecossistêmica, supõe-se que os demais ambientes dunares encontrados nas margens do rio Cocó apresentem diversidade florística igual ou superior ao encontrado na ARIE das Dunas do Cocó. Com o desenvolvimento da pesquisa, Antônio Sérgio F. Castro acabou chegando a 173 espécies botânicas (Anexo B), divididas entre 59 famílias, confirmando ainda mais a relevância deste ecossistema.

Todo o receio do movimento socioambiental de que estas áreas fossem desmatadas e loteadas para implantação de edificações não foi em vão. Recentemente, durante o processo de discussão da atualização da Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS) de Fortaleza, foi aprovada emenda modificativa que revogou a lei que criou a Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) das Dunas do Cocó, criada em 2009. E o prefeito a sancionou. Importante relembrar que esta área já havia sido projetada para um empreendimento denominado “Jardins Fortaleza”, ligado ao ramo imobiliário. O Ministério Público Estadual então ajuiza, no dia 31 de agosto de 2017, Ação Civil Pública contra a revogação da Lei Municipal que cria a ARIE Dunas do Cocó. Menciona-se que, no âmbito estadual, esta ARIE ficou inserida na Zona de Amortecimento do Parque Estadual do Cocó recém-regulamentado. De fato, qualquer degradação nesta relevante duna milenar também afeta a integridade do Parque do Cocó.

As comunidades que se encontram nos campos de dunas são Boca da Barra da Sabiaguaba, Terra Prometida II, Síto Olho D´Água e Barreiros.