Depois de uma maior aproximação com o livro Ubirajara, foi possível perceber que esta obra alencariana se compõe de duas formas e "histórias" paralelas: uma narrativa propriamente dita, com intenções literárias, seguindo os modelos externos de idealização, mas sem fugir totalmente da cultura brasileira, representada pelo índio com seus costumes, sua língua, e pela natureza, com sua fauna e flora; e às margens, atuando como justificativa, na busca do conhecimento sociocultural e histórico que poderia sedimentar uma desejada sensibilidade nacional. Só que, em vez de partir da observação direta, Alencar se apóia na escassa bibliografia disponível na época: relatos de viagens, crônicas, narrativas históricas. Importante ressaltar que, via de regra, trata-se de olhares estrangeiros, com exceção de Gonçalves Dias, como vimos. Alencar, através da perigrafia de Ubirajara, recoloca a história em confronto com o real. Não que o revele, porque o real se esconde sempre, mas o que se intui por trás da tentativa de demonstrá-lo.
Chegou o momento de — como disse Alencar na "Advertência" — "escoimar os fatos". O olhar estrangeiro sobre a natureza brasileira, o nativo e seus costumes foi utilizado por José de Alencar para apoiar sua caracterização do selvagem brasileiro, como forma de aproximação do real, buscando maior confiabilidade para suas discussões, como afirma Flora Süssekind (1990): "É fora do romance, noutro texto que o romancista procura uma 'certidão de verdade' para o que seria, na realidade, 'matéria ficcinal'".
Dos cronistas, missionários e viajantes citados por Alencar, grande parte eram franceses que levavam para seus países descobertas, novidades e invenções sobre a terra recém-descoberta, "O Novo Mundo", havendo também os de outras nacionalidades. Süssekind questiona a credibilidade desses autores e cita Araújo Porto Alegre com o seguinte trecho:
A leviandade da maior parte dos viajantes franceses e a superficialidade com que encaravam as coisas que encontravam na nossa pátria, unidas a um
desejo insaciável de levar ao seu país novidades, têm sido a causa desses grandes depósitos de mentiras que se acham espalhados por muitos livros daquele povo, que a mais das vezes sacrifica a verdade às facécias do espírito e o retrato fiel dos usos e costumes de uma nação ao quadro fantástico de sua imaginação ardente, auxiliada livremente pela falta de conhecimento da língua e pela crença de que tudo o que não é França está na última escala da humanidade. (SÜSSEKIND, 1990, p. 51)
Alencar fez alguns comentários com referência a esses cronistas fantasiosos que exageraram em suas descrições quanto ao selvagem brasileiro, como Staden e o Pe. Simão de Vasconcelos, que em alguns momentos denegriram a imagem do índio e seus costumes. Entretanto, nosso autor também se firmou em descrições e relatos que iam de encontro à intenção de engrandecer, de comprovar o caráter, a honra e a moralidade dos índios. Esses relatos nos despertam para um questionamento: até onde ia a veracidade desses relatos? Afinal, os cronistas exercitavam seu potencial imaginativo diante dos fatos que presenciavam, das leituras de outros cronistas ou mesmo das belas paisagens que despertavam sua sensibilidade, sua emoção, pois essa é uma característica inerente a todo ser humano.
Sobre esse assunto, Abreu (2000) comenta:
Ao apensar notas-de-rodapé aos seus romances, Alencar respondendo aos ataques da crítica quanto à inverossimilhança nos seus romances não considerando que o discurso dos cronistas era também uma forma de imaginação. Aliás, ele considerava isso, mas quando lhe era interessante: basta, para isso, lembrarmos da "Advertência" ao romance Ubirajara, em que o escritor assevera a necessidade de "escoimar os fatos dos comentos", isto é, ao serem os índios adequadamente, ao seu ver, bem descritos, estavam os "comentos" corretos; do contrário, não passariam de "caraminholas impingidas ao pio leitor". (ABREU, 2000, p. 119)
Esses cronistas estrangeiros tiveram certa importância no estudo de nossa história, etnografia e outras ciências, afinal foram eles que fizeram os primeiros registros do Brasil colonial. Contudo, é preciso um olhar atento às leituras desses escritores e seus registros, pois uns eram mais fantasiosos, outros mais objetivos e fiéis à realidade, outros mais radicais, etc., mas suas contribuições são inegáveis.
No caso de Alencar e outros autores românticos, as citações desses cronistas e seus relatos não eram somente para dar mais credibilidade aos textos; elas iam ao encontro de suas
intenções e projetos literários. Alencar poderia ter feito referência a vários outros autores, porém, se ateve àqueles que correspondiam ao seus interesses dentro do projeto histórico e literário de Ubirajara.
Mas não é só porque seus autores lhes parecem "respeitáveis". Muita coisa nesses relatos de viajantes - naturalistas - caberia como uma luva no projeto literário desses primeiros ficcionalistas e, sobretudo, na formação do ponto de vista narrativo dominante nessa prosa novelesca produzida durante a primeira metade do século XIX no Brasil. (SUSSEKIND, 1990, p. 117)
José de Alencar, em Ubirajara, revolveu o nosso passado histórico baseando-se em intensa gama de documentos, como representação da realidade. Para isso, ele carrega o texto com argumentos que remetem à história, a fim de convencer o leitor de que sua invenção representa uma realidade específica, nesse caso, a situação do selvagem brasileiro antes da colonização.
A argumentação é importante, porque responde à resistência, vinda principalmente da vertente crítica positivista-naturalista em sua demanda, a um romântico convicto, por maior "realismo" — ou fidelidade à realidade representada. (BOECHAT, 2003, p. 31)
No discurso argumentativo de Alencar, presente nas notas, é possível observar que ele pouco citou os missionários da Companhia de Jesus, os jesuítas; apenas o padre Simão de Vasconcelos e o Pe. José Gumilla foram rapidamente citados.
Na conquista da América - especificamente no caso da colonização brasileira - os missionários constituíam o instrumento mais eficaz de dominação ideológica com que os colonizadores portugueses e espanhóis puderam contar. A imposição religiosa, a catequese, depois da guerra, era a melhor maneira de dominar os índios, pois a liberdade desses povos opunha-se ao projeto religioso, administrativo e econômico dos invasores europeus.
A dominação é, pois, o pressuposto essencial da pedagogia Jesuíta. Claro que ela é, entretanto, um simples meio prévio de assegurar a permanência e a docilidade dos índios nas aldeias jesuíticas. A guerra se faz aos índios hostis ou resistentes à inserção na ordem colonial e, de modo mais impositivo e sem quartel, aos grupos aliados de estrangeiros e hereges. (RIBEIRO; MOREIRA NETO, 1992, p. 175)
Além da imposição religiosa, existia também o interesse econômico de usar os índios como servos e na exploração material do Brasil. Isso dava à igreja mais poder e riqueza.
Os Jesuítas detiveram, por largo espaço de tempo, uma posição privilegiada na formulação e execução da política indígena nos territórios portugueses da América. No Maranhão, em particular, tinham o monopólio da posse e distribuição da mão-de-obra indígena, única força de trabalho disponível na região. Isso lhes conferiu um poder extraordinário, frequentemente desafiado pela oposição rancorosa dos colonos. (RIBEIRO; MOREIRA NETO, 1992, p. 341)
Alencar, na nota que se refere à "religião" indígena - Jaguarê Agradece a Tupã - afirma que os jesuítas podiam ter feito um estudo aprofundado das crenças, tradições e costumes indígenas. No entanto, exageravam na ferocidade e ignorância dos selvagens, com "interesse de tornar indispensável sua catequese". Gomes (1991) segue a mesma linha de pensamento:
Na verdade, a elaboração intelectual sobre o índio não foi abundante no Brasil colonial. Os Jesuítas não se interessaram em desenvolver qualquer argumentação mais aprofundada a esse respeito, não mais além do que a discussão sobre a capacidade ou não do índio de converter-se a fé cristã, tanto porque a sua base intelectual era a escolástica, quanto porque o seu interesse era puramente utilitarista e religioso. Nesse mister logo descobriram que a conversão não vivia simplesmente pela palavra, mas só depois da subjugação física e cultural. Só pelo jugo da espada e da vara de ferro no dizer de Anchieta é que a catequese poderia ser efetuada. (GOMES, 1991, p. 111)
Essa imagem histórica de repressão aos índios, presente também em seus relatos, fez com que Alencar não citasse os missionários jesuítas; nem mesmo o padre José de Anchieta, estudioso da língua tupi, e o padre Antônio Vieira, defensor dos índios, foram referidos pelo autor de Ubirajara. Ele preferiu destacar os missionários franceses, que melhor se relacionaram com os selvagens, e por isso trouxeram maior contribuição etnográfica para o Brasil.29
Na busca pelas origens, na tentativa de reafirmação do nativismo, Alencar investe na investigação crítica dos registros deixados pelos cronistas, para desfazer a imagem negativa
deixada por alguns desses, pois ele acreditava que dessa forma estaria remontando nosso passado histórico e construindo uma literatura verdadeiramente brasileira, tendo por base o elemento significativo e genuíno do nosso passado: o índio - nesse caso, Ubirajara.
Dessa forma, exigiam-se fontes fidedignas, documentos autênticos, informações positivas, ou se correria o risco de ver posta em dúvida a veracidade do fato relatado. Em outras palavras, para afirmar uma identidade, os indivíduos se apropriam de recursos preexistentes que, no caso dos romances indianistas, foram as narrativas dos viajantes, missionários e cronistas, ao registrarem as condições primitivas da paisagem, do índio, e dos grupos sociais daqui. Durante séculos, essas observações foram definindo a América, tanto para valorizar o paraíso e a exuberância de fertilidade, quanto para criticar a ausência de civilização. Na tentativa de contrariar esse pensamento, as notas-de-rodapé de O Guarani, Iracema e Ubirajara procuram inverter essa perspectiva e fazem do Brasil objeto a ser exclusivamente valorizado, a despeito dos primeiros contornos atribuídos pelos cronistas. (ABREU, 2000, p. 126)
Pensando no universo épico e mitológico do romance Ubirajara, Alencar não precisava dessas "fontes fidedignas", desses "documentos autênticos", para comprovar uma lenda, como chamou o próprio autor na "Advertência": "Este livro é irmão de Iracema. Chamei-lhe de lenda como ao outro." Uma lenda tem valor por si só, não possui compromisso com a verdade e não necessita de explicações e comprovações. No entanto, Ubirajara e
Iracema faziam parte de um projeto de retorno às origens; Ubirajara especialmente, por
remeter à gênese literária: o selvagem puro, livre de qualquer contato externo, o índio perfeito. O mito fundamenta e completa a história; como afirma Moraes Pinto (1995), o mito é contaminado pela dimensão histórica:
Com efeito, definido o mito como uma história sagrada, que aconteceu nos tempos fabulosos do início e admitindo que na ontologia primitiva, um ato só é real ao imitar ou repetir um arquético, a grandeza do selvagem só adquire, em Alencar, seu verdadeiro sentido, quando lembra os ancestrais paradigmáticos. Evidentemente o mito, o tempo-mítico, está aqui contaminado pela dimensão histórica. (MORAES PINTO, 1995, p. 101)
Em Ubirajara, José de Alencar, como um bom romântico, com seus ideais nacionalistas, assumiu o compromisso de representação histórica, buscando raízes nacionais que afastassem toda idéia que remetesse à cultura do colonizador europeu.
Em parte, no caso da busca do momento exato da origem de uma literatura com características peculiares no Brasil, não se trata apenas de um desejo de investigação crítica ou de reafirmação do nativismo, mas também de uma espécie de topos de que se servem escritores e historiadores para, diante da dificuldade de remontar com exatidão às tais possíveis raízes ou ao marco de "descoberta da realidade ou recuperação de uma posição idealmente pré portuguesa", sugerirem a si mesmos e à própria geração como agentes privilegiados dessa retomada ou de uma verdadeira fundação artística da nacionalidade e de uma história da literatura nacional. (SÜSSEKIND, 1990, p. 16)
"Diante da dificuldade de remontar com exatidão nossas raízes", num desejo persistente de construção da nacionalidade brasileira, Alencar arquitetou o romance
Ubirajara de uma forma diferente, com reforço nas bases, dispondo dois textos que, ao
mesmo tempo que são complementares, são também contraditórios. Nosso autor elabora um texto ideal (o da narrativa) e outro que tende para o real (o das notas), ficção e "verdade", texto principal e texto periférico. Ficção e fricções alencarianas.
O índio idealizado, descrito com magnanimidade no texto principal, e o compromisso com a representação histórica, etnográfica, investida insistentemente nas notas de rodapé, causaram algumas fricções entre esses dois textos, ou seja, eles divergem em alguns pontos.