Durante as conversas, as casas que são comumente lembradas, independente do estilo que carregam ou da ascendência de seus habitantes que pudesse interferir em sua arquitetura, são lembradas por apresentarem alguma singularidade histórica ou afetiva ante sua presença, ou devido a algo singular em sua construção, tamanho, ou por sua localização (em que passa a ser ponto de referência aos locais em sua localização na cidade). Estas casas têm um grau de recorrência maior ou menor entre os habitantes.
Como foi dito, este trabalho não se atém à categorização das casas em sentido técnico ou formal, mas crê-se válido delimitar certos traços arquitetônicos mais recorrentes na região e citados pela memória dos entrevistados, haja vista que sua recorrência em certas regiões ainda resulta numa padronização na paisagem local. Todos os relatos foram permeados por itens aqui citados nas lembranças da infância, na casa dos pais ou de pessoas próximas. Desta forma, a sociabilização familiar é frequentemente dada em residências dispostas nesta estrutura, como numa recorrência do padrão e disposição do que vinha a ser uma 'família' em o que vinha a ser uma 'casa' – ou ao menos o que devia ser uma família e uma casa.
De acordo com as entrevistas e o convívio com os locais, percebe-se que, embora aos visitantes e aos que se prestem ao estranhamento haja claramente traços que personalizem a arquitetura local dando-a ares ‘brusquenses’, estes traços e soluções arquitetônicas em sua grande maioria são tidos pelos locais como ‘normais’ ou
Ilustração 9 : Recorrência de soluções arquitetônicas empregadas em casas da Rua Dom Joaquim, principal acesso à região Oeste da Cidade.
'invisíveis', sem importância, quando não consideradas casas velhas, ou casas simples, mesmo estas casas permeando suas recordações. Retomando o quadro anterior, são casas em padrão recorrente há anos na cidade, sendo então casas 'velhas' e sem arquitetura.
Talvez futuramente, com a falta de exemplares desta arquitetura recorrente na região, que chamamos aqui de casas de operários e definidas abaixo, haja um sentimento de falta de algo, de alguma arquitetura de referência - como é o caso atualmente do lamento pela perda de edificações referenciais, em que algumas casas já demolidas e poucas preservadas são lembradas como valiosas por algum motivo que as referencie aos habitantes, e por serem únicas de algum modo. É possível que se sinta falta das casas de operários futuramente, quando estiverem quase extintas, ‘se acabado’, e haja um sentimento de perda que hoje sente-se pelas casas antigas que eram ponto de referência aos habitantes e não existem mais.
Ilustração 1 0 : Casas que mantém soluções similares, na Rua Primeiro e Maio, principal via de acesso aos bairros ao Sul da cidade. Via de acesso também ao parque fabril da indústria têxtil Renaux.
À parte do enxaimel, ilustrado na figura da página seguinte, com sua aparência caracterizada pelas traves de madeira que armam a parede da casa e lhe dão estrutura, não foi detectada nenhuma valoração por alguma outra arquitetura ou técnica de edificação especificamente, apenas por casas específicas por seu porte, beleza ou localização ou fato pitoresco. O que reitera que a valoração ou lembrança da arquitetura que ambientou a vida local ou pessoal não se fia na arquitetura em si, em seus critérios técnicos, mas na vivenciação das construções e na sensibilização estética que ela provoca.
Os critérios arquitetônicos largamente verificados como características recorrentes na arquitetura local de residências, e com visível adensamento na região central da cidade e no entorno das fábricas foi por este trabalho deliberadamente encerrado pelo termo casa de operário.
Define-se neste termo, pois, conforme as entrevistas, fotos pesquisadas e análise em campo, além de a grande maioria das famílias do século passado ter nas fábricas o local de trabalho para principal fonte de renda, mesmo a cidade até muito recentemente ter a maior parte de sua população em área rural, o campo era mantido para suprir apenas a família que cuidava da terra. Era cuidado na maior parte do tempo pelos pais e crianças nos horários disponíveis, ou em certos casos, as funções com os animais e plantação eram delegadas especificamente a um ou mais dos membro(s) dessa família. Assim, poucas famílias subsistiam estritamente do campo. Portanto o custeio da construção à manutenção de suas famílias e de suas casas veio das fábricas, essas famílias tendo pasto, horta ou não. Dependiam das fábricas, e localizar estas casas ajuda a localizar o estrato social de seus habitantes – família de renda 'contada' (não pobres, mas sem riquezas) que vendiam sua mão de obra para subsistência em uma terra de fábricas: casa de operários.
Além disso, devido ao espaço menor entre os terrenos no perímetro urbano, estas casas se adensavam nestas áreas da cidade, especialmente nas ruas de acesso às fábricas dos perímetros industriais. Portanto, mesmo com a demolição de muitas destas casas, ainda hoje é comum verificar a proximidade de alguma fábrica de mais de 60 anos pelo adensamento deste padrão de edificações. Sobre este padrão, seguem os recursos empregados em sua edificação:
A - aproveitamento do telhado com uso de sótão como área útil, não
para depósito. Para viabilização deste espaço, recorre-se frequentemente ao uso de
B - empena estendida (parede na altura do telhado, que forma uma
parede junto às águas do telhado),
C - janelas de empena (janelas na parede que faz lado com as águas do
telhado), para ventilação do sótão
D - telhado Gambrel (tipo “celeiro”), e
E - lucarnas em águas furtadas (janelas que se projetam do telhado para
ventilação e aproveitamento da luz natural).
Pouco uso de adornos na fachada, quase que eminente mente restritos à (E) cornijas (frisos horizontais), e
F - guarnição das aberturas (saliências no entorno de portas, janelas e
demais aberturas).
Ilustração 1 1 : Casa Brusque, centro de cultura e memória por membros da sociedade civil. Sendo edificação remontada, é a última remanescente legítima da técnica de enxaimel no centro da cidade (apena outra foi localizada, para uso particular).
- Utilização da técnica de enxaimel (uso de escoras de madeira para estrutura e sustentação da casa, dispostas de modo a se tornarem estáveis entre si, e preenchidas as paredes com outro material, em geral, tijolos) para estruturação da casa. Revestidas ou, em casos raros remanescentes, enxaimel aparente. Dentre os entrevistados, do total de quase vinte entrevistas, apenas três casas foram lembradas como casas enxaimel ainda em pé na região – mas todos se recordavam de terem convivido com alguma próxima à sua rotina ‘antigamente’.
G - Uso de varanda térrea e quase inexistência de balcão ou sacada nos
andares elevados (edificação mista da foto de referência foi uma das poucas encontrada). A varanda faz-se anexa à entrada, disposta na frente ou na lateral da casa, não sendo, portanto área restrita e íntima, como no caso de varandas, sendo área de convívio. Comumente eram utilizadas como área de lazer pelas crianças em dias de chuva (o que é comum àquela região úmida), ou como local de se sentar para ver o movimento ao final da tarde, para conversar com os amigos transeuntes ou com os vizinhos. Estes hábitos ainda hoje são comuns em regiões sem tanto Ilustração 1 2 : Edificações da Rua Dom Joaquim, de uso residencial e misto.
trânsito comercial.
Ainda hoje comum este padrão de casa, a distribuição dos cômodos é recorrente: permanece o sótão preferencialmente como quarto das crianças da casa, e, no caso de estas estarem adultas, tem seu destino repensado (como quarto de costura, despensa de lembrança dos filhos ou mesmo novo quarto pros pais). O quarto mais próximo à porta principal é destinado ao casal, ficando ao lado da sala, que aos fundos dá acesso à cozinha e ao quarto das crianças.
Há uma despreocupação com o telhado aparente, e poucas são as construções em que há uma empena que faça continuação da parede da fachada e que tape o telhado, solução facilmente encontrada nas construções do mesmo período em Itajaí e Florianópolis, por exemplo. Este recurso era mormente utilizado em edificações comerciais, propriamente.
Até o momento, como foi dito, embora em todas as entrevistas os agentes tivessem memórias da vizinhança, parentes ou da própria casa nestes moldes, não há uma identificação com esta arquitetura, mas com a lembrança e o convívio com certos elementos dessa arquitetura (principalmente o sótão, habitação comumente utilizada para os filhos da casa, a varanda, o quintal na continuação da cozinha). Assim, é comum ouvir discursos saudosos sobre sua infância, a casa dos pais, mas na casa atual, caso não seja uma casa de operário, não encontre estes elementos, ou encontrar subutilizados elementos descritos com saudade.
No discurso dos entrevistados, além das lembranças e do apreço pela ambientação propiciada pela varanda em suas lembranças, pelas brincadeiras na infância em dia de chuva ou muito sol, de descanso em noite quente, ou pra 'ver o movimento', outro elemento que constantemente é citado é o sótão, comumente o 'quarto das crianças'. Como apresentado por Weimer (2005), o sótão é elemento corrente de utilização de espaço com economia de recursos em paredes e vigas, comumente encontradas em suas citações da arquitetura europeia alemã, italiana e portuguesa, ou seja, dos maiores grupos de imigrantes. da região.
Como as casas passaram a ter segundo andar, ou planta ampliada em relação às casas antigas, a utilização do vão do telhado como sótão habitável foi suprimido. O sótão hoje em dia reserva entulho e lembranças que quase nunca se procura da casa, deixou de ser uma peça. Mas o relato do convívio com os irmãos na infância em que se habitava o sótão foi verificado por todos os entrevistados com mais de 50 anos. Esta é uma peça saudosa em suas memórias, à parte a lembrança do calor quando não havia vedação do telhado.
Quanto aos itens citados como relevantes na arquitetura local, vale o adendo que é comum às casas de mais de trinta anos encerrarem a quase totalidade dos itens acima citados, e que este modelo de edificação é mais recorrente ainda na região do perímetro das fábricas antigas de Brusque, e principalmente nas ruas que dão acesso a essas fábricas. Dos entrevistados, inclusive, as três senhoras acima de 70 anos Ilustração 1 3 : Residência com mais de cinqüenta anos que ainda preserva jardim, quintal e pasto. Situada no Centro 2, antes zona rural do município, recentemente esta região vem perdendo sua dinâmica rural, pois se tornou atrativa para indústrias e lojas que requerem grandes espaços.em região central da cidade.
que trabalhavam para as fábricas da região – Renaux, Schlöesser e Buettner – todas elas descrevem a casa de sua infância nestes moldes e a vizinhança quase toda neste mesmo padrão.
Este molde de casa (como exemplo visual tem-se a marca d’água deste trabalho) facilmente ainda hoje também é encontrado em regiões longe de fábricas, em áreas com predominância agrícola, mas é patente que nestas regiões há uma variação maior na arquitetura e soluções nas residências, ao passo que, no perímetro das fábricas, seja pela limitação do espaço, ou por gosto e hábito, as residências das famílias de operários remete-se a esse modelo mais frequentemente.
Mas a recorrência dessas casas no perímetro das fábricas e nos caminhos que levam a estas sugere se tratar de uma casa típica de trabalhadores das fábricas, ou mesmo ‘casa de operários’. Em madeira ou alvenaria, as soluções encontradas nessas casas foram bastante utilizadas, em casas de tamanhos, materiais, famílias diferentes e, como foi dito, tem maior recorrência ainda hoje nos acessos às fábricas.
Edificações residenciais distintas deste padrão e citadas por suas peculiaridades estarão especificadas no item 4.1.
Sobre arquitetura residencial, é importante citar as edificações construídas pela fábrica Renaux a funcionários de cargo empregados nas fábricas, para que residissem nestas casas próximas à fábrica. Para este trabalho consideram-se estas casas enquanto edificações residenciais, mesmo a relação do habitante com sua residência dever-se ao fato de ser funcionário da fábrica proprietária da casa. Estas edificações também carregavam as características mencionadas sobre casas residenciais. Diferencia-se apenas que, no caso das casas de funcionários Renaux, o telhado costumava ter à frente uma das águas e o perfil da cumeeira em paralelo com a fachada, aproveitando a beira do telhado para encerrar a varanda; ao passo que, o mais comum encontrado na região é a ponta da cumeeira e o vértice das duas águas fazer a frente da casa.