1 INTRODUÇÃO
2.2 EMANCIPAÇÃO SOCIAL E AUTONOMIA
2.2.1 Empoderamento
Outro tema central na discussão sobre emancipação social é aquele que diz respeito ao “empoderamento” dos seres humano de forma, individual e/ou coletiva e que é encontrado na literatura com uma diversidade de interpretações (BAQUERO, 2012 p.1). O termo tem sido utilizado em diferentes áreas de conhecimento como na educação, sociologia, ciência política, saúde pública, psicologia,, serviço social, administração entre outros, O empoderamento passa a estar presente nos discursos de governos e organizações da sociedade civil relacionados à melhoria da qualidade de vida, dignidade humana e equidade social (NARAYAN, 2002, p. 54).
A crescente utilização do termo empoderamento se dá a partir dos movimentos emancipatórios relacionados à promoção de cidadania a partir de movimento dos negros, das
mulheres, dos homossexuais, movimentos pelos direitos da pessoa deficiente nos Estados Unidos, na segunda metade do século XX, mas segundo a literatura o empoderamento (Empowerment) tem suas raízes na Reforma Protestante, iniciada por Lutero no séc. XVI, fato que ocorreu na Europa, num movimento de protagonismo na luta por justiça social (HERRIGER, 1997). Segundo Hermany e Costa (2009), o tema do empoderamento passa a ser utilizado como sinônimo de emancipação social. Na atualidade, o termo está relacionado as lutas pelos direitos civis, no movimento feminista e representado na ideologia da ação social, que se faz presente nas sociedades dos países ditos desenvolvidos, na segunda metade do século XX. A partir da década de 70, esse conceito é influenciado pelos movimentos de autoajuda, e consequentemente nos 80, pela psicologia comunitária. Em meados da década de 90, recebe o impulso de movimentos ligados ao direito da cidadania sobre diferentes esferas da vida social como na área da saúde, educação, a política, a justiça e a ação comunitária (BAQUERO, 2012 p.3).
Segundo Gohn (2004) no Brasil o significado da categoria empoderamento traduzido do britânico empowerment, não tem um caráter universal. No entanto, os autores concordam que o empoderamento pode ocorrer em diferentes níveis: o empoderamento individual, o empoderamento organizacional e o empoderamento comunitário. De acordo com Wallerstein e Bernstein (apud BAQUERO, 2006), o empoderamento ocorre como um processo de “construção em nível individual, quando se refere às variáveis intrafísicas e comportamentais; em nível organizacional, quando se refere à mobilização participativa de recursos e oportunidades em determinada organização; e em nível comunitário, quando a estrutura das mudanças sociais e a estrutura sociopolítica estão em foco”. O empoderamento individual se refere a aquisição de habilidades por parte dos sujeitos que adquirem conhecimentos e controle sobre as próprias forças, para agir na melhoria da qualidade de vida e consequentemente o aumento da capacidade se sentirem influentes nos processos que determinam suas vidas (WALLERSTEIN; BERNSTEIN apud BAQUERO, 2006). O empoderamento individual segundo Zitkoski, (2008) é fortemente influenciado por fatores psicológicos como a autoestima, é relacional, resultando da percepção que os indivíduos têm de suas experiências através de interações com ambientes e pessoas.
Gohn (2002) sugere que o significado e o resultado da dimensão do empoderamento não têm um caráter universal, mas tem a finalidade de promover e impulsionar grupos e comunidades através do crescimento, inclusão, autonomia, emancipação, melhora gradual, progressiva ou contínua de suas vidas, em contraponto a programas de natureza individual e assistencialista que são perpetuados pelos governos sem efeito emancipatório.
De acordo com Barquero (2012) o empoderamento é muito mais do que uma ação individual, configurando-se como um processo de ação coletiva que se dá na interação entre sujeitos, e que envolve, necessariamente, um desequilíbrio nas relações de poder na sociedade. O empoderamento pressupõe a vivencia de um processo que integra o desenvolvimento de uma consciência crítica juntamente com a ação, ou o desenvolvimento da capacidade real de intervenção e transformação da realidade. O empoderamento não se reduz a um processo de emancipação individual, ma sim ao desenvolvimento de uma consciência social (BAQUERO, 2012 p.9).
Segundo o autor Boaventura dos Santos (2007) a sociedade civil vem protagonizando processos de transformações sociais através da implementação e desenvolvimento da autonomia dos sujeitos. O desdobramento destes processos tem ocorrido através da busca pela conquista da emancipação, autonomia e empoderamento dos indivíduos e consequentemente em nível de transformação social. Segundo o autor, para fazer uma explanação sobre emancipação no contexto atual é preciso compreender em que aspectos sociais, políticos e econômicos este processo se iniciou. Ainda segundo Santos (2002), o autor apresenta críticas ao projeto da globalização, no que tange a políticas neoliberais excludentes, defende ainda uma globalização contra-hegemônica ou seja, uma globalização pautada no respeito às culturas locais, que contemplam as novas configurações societárias instituídas.
A emancipação enquanto fenômeno histórico teve sua ascensão conforme interpreta Santos (2007) durante a passagem da modernidade para a pós-modernidade. A passagem deste período é caracterizada pela emergência do capitalismo enquanto modo de produção dominante das sociedades modernas. No pensamento de Boaventura dos Santos (2002) a globalização hegemônica, e as formas de resistência a esses processos de dominação, estão emergindo no mundo, notadamente em áreas pós-coloniais. De acordo com o autor a globalização hegemônica é entendida como o “conjunto de relações desiguais”, já na contramão deste modelo existe o processo de globalização contra-hegemônica - globalização de baixo-para-cima (GERMANO, 2007, p5). Nessa perspectiva, o marco referencial básico, mas não exclusivo, sobretudo, as suas reflexões sobre a globalização contra-hegemônica, advêm da solidariedade com as lutas sociais dos oprimidos e a reivindicação da emancipação social. Se por um lado, há o predomínio de uma globalização hegemônica, que estabelece uma relação do topo para a base (top-down) e regressiva do ponto de vista dos direitos sociais, por outro lado, aparece a necessidade de um processo de outra forma de globalização, denominada de contra-hegemônica, alternativa, organizada inversamente da base para o topo (down-top). Tal globalização é constituída por redes e alianças de movimentos sociais que
lutam contra os efeitos da globalização neoliberal e em defesa da emancipação social (GERMANO, 2007, p.5).
Ainda de acordo com Boaventura dos Santos (2002 apud GERMANO, 2007) a globalização neoliberal equivale a um novo processo no qual a acumulação do capital ganha espaço, um regime globalizado mais intensificado que os anteriores, aonde, por um lado, dessocializar o capital, libertando-o dos vínculos sociais e políticos que no passado permitiram a distribuição social e, de outra forma, corromper a sociedade no seu todo à lei do valor, pautado no pressuposto de que toda atividade social é mais bem organizada quando alinhada a interesses de mercado. Como resultado desta dupla transformação aparece a distribuição extremamente desigual das oportunidades, como também dos custos produzidos pela globalização neoliberal para o sistema mundial, encontrando-se aí a razão do aumento significativo das desigualdades sociais entre países ricos e países pobres e entre ricos e pobres dentro do próprio país(SANTOS, 2002 p.14).
Esta nova forma de organização denominada de contra- hegemônica se dissemina a partir de iniciativas individuais que se transformam em movimentos coletivos, em que cidadãos lutam contra a globalização neoliberal, buscando um mundo mais justo, pacífico e igualitário no que concerne aos direitos sociais (GERMANO, 2007, p.5). Assim a ação coletiva contra-hegemônica representa às formas de opressão, imposta pelo sistema capitalista e que se configurou em lutas travadas contra as formas de opressão, exclusão e dominação social. Vale a pena lembrar que o conceito de emancipação abordado pelo autor tem como proposta a construção de cidadanias emancipatórias a partir do avanço das lutas sociais, consequentemente resistindo às formas de exclusão instituídas na globalização hegemônica. (GERMANO, 2007, p5).
Na sessão a seguir faz-se um apanhado sobre o assunto Sociedade Civil.