3. EMPODERAMENTO E DESENVOLVIMENTO
3.5. EMPODERAMENTO PELO EXERCÍCIO DEMOCRÁTICO
No curso deste capítulo, verificou-se que a vivência nos processos democráticos realiza a tomada de consciência crítica, fortalecendo o poder de reivindicação e de fiscalização da população, por isso, a participação garante o controle social das decisões da Administração. Dessa concepção propaga-se a ideia de descentralização e de planejamento participativo, como instrumento de inclusão.
Hoje, no ordenamento jurídico democrático, a cidadania deve desempenhar uma função includente, pois tende a integrar nas diversas esferas de comunicação social juridicamente regrada a todos a quem tenha um vínculo pessoal ou territorial, por menor que seja, com o poder público do Estado. Desse modo, se a integração na comunidade é a principal característica da cidadania, não restam dúvidas de que a participação política, através do sujeito coletivo constitui não a única, mas sim a via essencial para articular essa pertença em um estado social e democrático de direito301.
A democracia, por isso, precisa ser um meio e não um fim em si mesmo, devendo se interiorizar como uma conduta pessoal, de modo que as escolhas e os comportamentos individuais se integrem ao bem da comunidade. Nesse sentido, a postura de manter-se à margem ou alheio a política é uma forma de dar apoio prévio e incondicional a todas as decisões do grupo dominante, portanto, também é uma decisão política302.
Democracia significa autoridade do povo, sendo a comunidade fonte de poder. Essa concepção se traduz num sistema político onde a comunidade é titular e se autogoverna no sentido de exercer uma influência exclusiva ou decisiva na manifestação e instrumentalização desse poder. Assim, em um significado primário, a democracia contém duas noções básicas: liberdade política e igualdade política.
301 ALÁEZ CORRAL, Benito. Nacionalidad, ciudadanía y democracia. ¿A quién pertenece la Constitución? Madrid: Centro de Estudios Politicos y Constitucionales, 2006, p. 201 e 204.
Apesar de o procedimento integrar o regime democrático, a exacerbação do procedimentalismo tende ao formalismo, principalmente em uma cultura de gestão burocrática como a brasileira, onde somente a partir da década de 1990, revela-se uma preocupação jurídica para legitimar decisões através da fiscalização e participação direta da sociedade.
Nesse sentido, Edgar Morin303 questiona essa perspectiva dialógica formal de direitos políticos em face da permissibilidade jurídica de participação democrática e a possibilidade de dedicação da população a esses espaços, face os compromissos do cotidiano. Ocorre que as cidades tornam-se tentacular, ao provoca estresse e cujas coerções, começando pela rotina casa/metrô/casa, sufocam a existência.
Joaquín Herrera Flores304, por sua vez, defende que “a democracia deve consistir em um processo de construção de um ‘espaço público para apoderar-se”. Para Herrera Flores, a democracia não é visualizada como um resultado, mas como um meio para o alcance do empoderamento, sendo percebida como um processo de construção de condições políticas, econômicas, culturais e sociais, que permitem a luta por acesso igualitário de direitos materiais e imateriais, por práxis, ações cotidianas de aberturas em espaços de democracia, os quais permitam o empoderamento por permitir o esclarecimento sobre as múltiplas formas de desigualdade e exploração e a distinção entre liberdade, igualdade. E adota a perspectiva crítica de Michel Foucault no que concerne ao papel do teórico crítico, em tornar visível, o visível, ou seja, aquilo que de tão próximo acaba por não ser percebido.
Assim, estabelecer pragmaticamente a relação entre a democracia participativa e o desenvolvimento humano mostra-se instável e difícil, pois aquela pode dificultar a rápida tomada de decisões políticas e econômicas, além de despertar a massa populacional para questões relacionadas à equidade de distribuição de renda, de infraestrutura urbana e de serviços públicos, trazendo à tona conflitos de interesses sociais e políticos, até então encobertos por uma ideologia dominante, e cujo resultado pode desagradar agentes econômicos, afetando, por conseguinte, investimentos de capital privados para realização de políticas desenvolvimento.
303 MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte.Terra-pátria. Traduzido por Paulo Neves. 5° Ed. Porto Alegre: Sulina, 2005, p.84.
304 FLORES, Joaquín Herrera. La ilusión del acuerdo absoluto: la riqueza humana como criterio de valor. De Jure - Revista Jurídica Do Ministério Público De Minas Gerais, , n° 10, Janeiro/Junho de 2008, pp.4-40, p.34.
Aponta Jürgen Habermas305 que as expectativas do Estado de bem-estar, tal como a distribuição justa de riqueza social, acarretam uma visão idealista da cultura e das próprias estruturas de personalidade, atingindo o direito que passa a receber pressão para alcance desses novos valores. A sociedade - enquanto totalidade de ordens legítimas - tende cada vez mais a buscar instrumentos que permitam sua integração no sistema jurídico. Por essa razão, a legitimidade do direito começa a pautar-se nos princípios morais de justiça e no da solidariedade universal, objetivando projetar os indivíduos e a coletividade a comportamentos éticos, que conduzam a um ambiente favorável à emancipação e ao desenvolvimento.
Ocorre que, na perspectiva atua, o Estado precisa atuar de forma democrática a fim de legitimar as suas decisões; entretanto, quando abre espaços de participação, quanto menor for a informação da população, mais fácil ocorrer a manipulação desta, de forma que apesar de contribuir muito para o empoderamento a cerca dos direitos humanos, o processo de transformação social ocorrerá em ritmo muito mais lento do que seria com o envolvimento da sociedade civil, que assim, de fato, poderia se apropriar das oportunidades participativas institucionais para revertê-las em avanços significativos na busca de justiça social.
De forma mais crua, Manuel Gonçalves Ferreira Filho306 esclarece que a necessidade de desenvolvimento gera fortes tensões e provoca, de imediato, o conflito e não paz, em razão, principalmente, do aumento de necessidades de concretização de justiça social e da própria restrição ao consumo307, que gera revolta nos seios populares pelo aumento das expectativas de melhoras na qualidade de vida. A conscientização e as mobilizações populares, essenciais para o alcance do desenvolvimento, agravam o quadro de insatisfação.
Por isso que, nesse processo em busca de emancipação e de legitimidade na construção de políticas para o desenvolvimento a proteção, pelo Estado, dos primeiros núcleos- família e comunidade imediata – são o ponto chave para a construção de uma proposta sólida de desenvolvimento. A inexistência de serviços públicos e a fragilidade de políticas econômicas e sociais que busquem a emancipação da cidadania colocam a
305 HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: entre facticidade e validade. Vol I. Traduzido por Flávio Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997, p.132-133.
306 FERREIRA FL. Manuel Gonçalves. A democracia possível. São Paulo: Saraiva, 1972, p. 44.
307 Nesse sentido, Gilberto Dupas explica que na conjuntura latino-americana de busca de desenvolvimento, cita- se a anedota de que a sociedade, hoje, divide-se em três grupos: i) os que tem cartão de crédito; ii) os que não tem cartão de crédito, mas gostariam de ter; iii) e os que nunca ouviram falar em cartões de crédito. Apesar dos integrantes do terceiros grupo serem os mais excluídos, o segundo grupo é potencialmente mais frustrado do que o último, por partilharem os valores da sociedade de consumo, o qual centra na possibilidade aquisitiva de compra boa parte re realização pessoal e social (DUPAS, Gilberto. Economia global e exclusão social: pobreza, emprego, Estado e o futuro do capitalismo. 3 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001, p. 17).
comunidade imediata em um papel fundamental para reivindicação e suprimento dos referidos serviços308.
Numa visão dialógica de espaços públicos, o Estado é um ator social que tem condições de buscar intermediar os conflitos entre os atores privados. Além disso, ao incentivar as aberturas para uma gestão participativa, pode ocorrer uma transformação de cultura política, a qual se apresenta também como uma pedagogia ética, que torna os indivíduos aptos à cidadania por liberar o ideal coletivo de cada indivíduo.
Reconhecendo essa face, Joaquín Herrera Flores309 constata que as questões culturais estão interconectadas com as políticas e econômicas, pois a cultura não é uma entidade alheia das estratégias de ação social, sendo, na verdade, uma resposta à forma como se constituem e se desenvolvem as relações sociais, econômicas e políticas em um tempo e um espaço determinado.
Deste modo, uma das características do Estado democrático de direito é a ampliação do espaço público, através da criação de mecanismos constitucionais de participação dos cidadãos nos assuntos de governo e de controle das ações estatais pela sociedade civil. Em última análise, o objetivo da inclusão política é definido como ampliar as escolhas pessoais, isso pressupõe desejo e capacidade de escolher, assim como conhecimento das opções possíveis.
Daí ser válida a indagação de Joaquín Herrera Flores310 sobre meios para se reconhecer juridicamente a promoção de um espaço democrático onde a pluralidade não é um obstáculo, mas sim um recurso público para promoção de uma sociedade igualitária, em que a igualdade material é uma condição da liberdade, pois sem condições culturais, econômicas e sociais demais direitos não serão postos em prática e o debate democrático permanecerá estéreo, sem efetividade. Indo além, o autor também alerta que como consequência da desigualdade a legislação passa-se a produzir-se e convalidar-se pragmaticamente leis protetoras de interesses dos detentores do poder político-econômico.
308 PINHEIRO, Angela de Alencar Araripe. Cidadania: busca de uma delimitação conceitual de suas origens sociohistoricas. In: BARREIRA, Irlys; VIEIRA, Sulamita (org). Cultura política: tecidos do cotidiano brasileiro. Fortaleza: EUFC, 1998, p.108.
309 FLORES, Joaquin Herrera. Direitos humanos, interculturalidade e racionalidade de resistência. Traduzido por por Carol Proner. Seqüência. UFSC, Florianópolis, V. 23 n. 44 (2002), pp. 9-29, p.12.
310 FLORES, Joaquín Herrera.La construción de lãs garantias. Hacia una concepcion antipatriarcal de la liberdad y la igualdad. . In: SARMENTO, Daniel; IKAWA, Daniela; PIOSEVAN, Flávia (org.). Igualdade, diferença e Direitos Humanos. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010, p.111.
Nessa mesma perspectiva, assenta Paulo Freire311 que a busca por conscientização é um projeto político que para as direitas é irrealizável, uma que exige uma denúncia radical das estruturas desumanizantes, caminhando ao lado da proclamação de uma nova realidade que pode ser criada pelos homens. À direita, que para o autor representa a classe dominante, não pode gerar meios de desmascará-la mais do que ela deseja.
Neste ponto, Paulo Freire afasta-se de Jürgen Habermas ao reconhecer o empoderamento como um processo político, o autor reconhece as relações de poder. Por isso, esse processo precisa ser realizado pela sociedade, na busca de um diálogo democrático.
Daí, mais uma vez assenta-se o ponto de convergência entre a perspectiva dialógica e a crítica: o empoderamento através da democracia participativa. Por um lado, a proposta é alcançável, através da abertura de novos espaços de deliberações e de participação democrática na gestão das cidades. Conforme já esclarecido, tais ferramentas já existem no ordenamento jurídico brasileiro, apesar de não serem aplicadas de forma ampla como deveria. Isso leva à sensação de que a vivência democrática plena é algo inalcançável na conjuntura brasileira atual.
Por outro, é preciso que a sociedade comprometa-se cada vez mais pela luta dos direitos humanos, em que as associações, movimentos sociais e as entidades internacionais, como as Nações Unidas, tornam-se essenciais no processo de legitimidade e de efetividade dos instrumentos jurídicos de participação.
A experiência democrática é algo construído gradativamente. Assim, ratifica-se que da mesma forma que seria utópico pensar que os sistemas jurídicos bastassem por si mesmos para o empoderamento também seria equivocado não acreditar no potencial transformador dos atores para promover mudanças, através de ferramentas legais, previstas no ordenamento jurídico brasileiro.
Nesse sentido, Douzinas312 reconhece que institucionalmente, os direitos humanos existem e se fundamentam em seu caráter revolucionário, não comodista e utópico de que os direitos humanos sempre estão se complexando e de que sempre é preciso lutar por eles. O direito ao desenvolvimento humano é alicerçado por um discurso ideológico, que na visão da
311 FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um encontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.32.
312 DOUZINAS, Costas. O fim dos direitos humanos. Traduzido por Luzia Araújo São Leopoldo:, Editora Unisinos, 2009, p.23 e 273.
corrente marxista313, por um lado, apresenta um caráter notadamente burguês, de sustentação do Estado Liberal e de dominação da burguesia; por outro, permite o terreno de batalha, para busca da conquista de situação mais favorável para o proletariado. Em perspectiva complementar, Paulo Freire314 defende que para ocorrência dessa luta, para o fim da opressão, é necessário acreditar ser possível a transformação da realidade, ter esperança, mas que esta alimentada somente de forma individual é ingênua e tendente à decepção que leva à resignação e ao fatalismo.
No mesmo entendimento, Paulo Freire315 defende que o utópico não é idealismo, não é o irrealizável; é, na verdade, o processo dialético entre atos de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. É isso que torna a utopia um compromisso histórico, que se exige o conhecimento crítico; com efeito, não se pode anunciar o que não se conhece, porém o anúncio, por si mesmo não se torna em um anteprojeto transformador, pois é necessária a “práxis” para que o anteprojeto se tornasse projeto. E enfatiza uma angustia declarado também por Herrera Flores: “É atuando que posso transformar meu anteprojeto em projeto; na minha biblioteca tenho um anteprojeto que se faz projeto por meio da práxis e não por meio de blábláblá”. Além disso, retrata que entre o projeto e a concretização é necessário tempo histórico, ‘é precisamente a história que devemos criar com nossas mãos o que, devemos fazer; é o tempo das transformações que devemos realizar; é o tempo do meu compromisso histórico”316.
É preciso, então, haver sentimento compartilhado, través da atuação coletiva, que na realidade brasileira depende de uma reforma de cultura política, possível de ser alcançável, entretanto, nunca será a ideal, em decorrência da própria complexidade social, a qual faz com que todos os dias surjam novas necessidades, perspectivas e interações. Esse é o significado dos direitos.
Por essas considerações, é possível concluir pela confirmação de que as doutrinas, dialógica e crítica, apesar de opostas, complementam-se. Assim, o caminho mais adequado para chegar ao processo empoderamento, partindo-se do Estado para Sociedade, é a elaboração de instrumentos para participação em políticas públicas, que façam parte do
313 ATIENZA, Manuel. Marx y los derechos humanos. Madrid: Mezquita, 1983, p.149.
314 FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um encontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.6.
315 FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. Traduzido por Kátia de Mello e silva. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979, p.16.
316 FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. Traduzido por Kátia de Mello e silva. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979, p.16.
ambiente dos sujeitos e que, em uma simbiose introduza na cotidianidade a vivência da experiência de procedimentos participativos. Partindo-se da Sociedade para o Estado, o processo de empoderamento ocorre através de projetos que disseminem reflexões sobre o papel transformador de cada grupo e indivíduo. Por mais que esses projetos não venham a alcançar as expectativas imaginadas, os sujeitos que o vivenciaram estarão mais amadurecidos do que aqueles que nunca passaram por experiências dessa natureza.
Desse modo, conclui-se que o planejamento participativo de políticas de desenvolvimento, a fim de garantir eficácia e legitimidade, precisa ser ponto de convergência entre as duas perspectivas, o que na verdade, nada mais representa do que convergência de vontade de reestruturação do público e legitimação de poder, a representação autêntica da maioria, marginalizada, na busca de equidade social e concretização do desenvolvimento.