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À medida que o MST vai se construindo como ator político, intensifica a elaboração de uma articulação entre rural/urbano e a incorporação de novos segmentos como sujeitos da sua proposta de luta política, com o objetivo de transformação social.

Assim, nos assentamentos rurais, observam-se permanên- cias e transformações no que tange aos segmentos destacados. Em se tratando de jovens, observa-se a importância que esses têm no sentido de fomentar um diálogo necessário com os dife- rentes espaços, por meio de deslocamentos e abertura para no- vas fronteiras, dada a capacidade dos jovens de se movimentar e estabelecer o diálogo intergeracional. São também mulheres e jovens os protagonistas na construção de demandas políticas destinadas a esses segmentos, mas que beneficiam todos os resi- dentes, de modo especial, relacionadas ao lazer, educação, saúde e subsistência cotidiana. É nesses projetos que se pode observar uma presença significativa de mulheres, ocupando lugares de destaque, coordenando reuniões, estabelecendo contatos. Isso contrasta, ainda, com a realidade cotidiana de mulheres que, empenhadas nos afazeres cotidianos, vivem ao redor das casas, com acesso ainda limitado à educação e uma inserção ainda pre- carizada, que faz com que não se reconheçam nesses projetos.

Em outra direção, jovens e mulheres estabelecem diálogos com o urbano a partir da ênfase em bandeiras de luta presentes e organizações feministas e de mulheres. É o caso do MMC, mas

também da MMM, nos quais se destaca a referência a produção de alimentos, a soberania alimentar e agroecologia, e a produção a partir das sementes criolas. Em alguns contextos, a participa- ção das mulheres reproduz o modelo camponês, com a horta re- lacionada à casa, e ao espaço feminino. Mas a ênfase nas hortas com características que remetem a agroecologia e aos produtos orgânicos também estabelece diálogos com outras referências de lutas protagonizadas por sujeitos de direitos, como é o caso dos projetos de hortas urbanas.

É cada vez mais frequente a atuação das mulheres em espa- ços externos aos assentamentos para a viabilização das ativida- des produtivas. Mulheres também são favorecidas pelas políticas públicas que incentivam projetos para associações de mulheres – produção de doces caseiros, as hortas, entre outros. Tais projetos se mostram com maior êxito quando as mulheres se deslocam e dialogam no processo de comercialização, eliminando assim os atravessadores. Essas atividades atribuem destaque para algumas mulheres, que terminam se situando em posições de liderança.

Diante desse quadro, pode-se destacar alguns fatores que fa- vorecem o empoderamento de mulheres:

• Experiência acumulada na participação e na militância – capital cultural/social;

• Residência e/ou permanência por determinado período fora do assentamento;

• Viagem de mulheres para outros países dialogando com a realidade local, na produção de novos produtos agrícolas, na reflexão e reorganização de práticas alimentares, entre outros;

• A construção da militância associada à escolarização, prin- cipalmente dos jovens, constitui-se em outro fator de em- poderamento e destaque;

• Participação em projetos produtivos internos aos assenta- mentos, na coordenação de atividades de associações, nos conselhos municipais e outros fóruns, todas facilitadas pelo capital cultural e político adquirido na abertura para ativi- dades externas.

Não obstante esses aspectos, em relação às mulheres e aos papéis de gênero, embora a iniciação no engajamento se situe como ampliação do campo de possibilidades, permanecem de- safios no enfrentamento das desigualdades cotidianas nos papéis de gênero. Mesmo nos contextos do destaque de grandes ques- tões e seus respectivos vínculos com mulheres, trazendo-as para a cena, elas aparecem fortemente vinculadas a dimensões espe- cíficas da luta política, tais como educação e a projetos de produ- ção de agroecologia, ou seja, em pequena escala.

Finalizando, a reflexão sobre os assentamentos tem desafiado fronteiras rígidas, bem como evidenciado a diversidade de pos- sibilidades para organização social e política de atividades pro- dutivas no meio rural. A diversificação dos contextos rurais e os impactos sobre o gênero estão relacionados a diferentes proces- sos, redimensionamento de fronteiras entre rural e urbano; mas também a abordagens que, sob uma perspectiva que incorpora práticas cotidianas e contextos de relações sociais entre homens e mulheres, aponta para dimensões que não ficam explicitadas quando a referência recai sobre noções predefinidas – como por exemplo, as associações que dicotomizam espaços e atividades de homens e mulheres.

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REFLEXÕES SOBRE O SER LÉSBICA