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JUVENTUDE, DESEMPREGO E AÇÕES PÚBLICAS

1.3 O desemprego enquanto categoria social e histórica

1.3.1 Emprego e desemprego, em torno de mudanças

Trabalho, emprego e desemprego se modificam fortemente, bem como suas representações tão amplamente generalizadas, e o debate em torno dessas mudanças tem se intensificado nos últimos anos. Partindo dos estudos realizados por Maruani (2000, 2002) e Demazière (1995a, 1995b), nota-se uma clara defesa da importância do emprego na vida dos indivíduos, já que ele ainda representa a possibilidade de obtenção de um “salário, um status

importações dos anos 1930 e 1940 e os programas de desenvolvimento que se seguiram. Não somente nos setores industriais ou terciários prevaleceu uma relação salarial estabilizada que ficou isolada do resto da sociedade, mas a ‘década perdida’ dos anos de 1980 conheceu um crescimento rápido da economia informal sob suas múltiplas modalidades. Nessas sociedades os sistemas de proteção social são, em regra geral, reservados somente aos setores onde se desenvolveu a relação salarial regular – função pública e grandes empresas excluindo a emergência de uma cidadania social em escala nacional. Outro ponto essencial: a indenização do desemprego é geralmente ausente desses dispositivos. A razão é simples: o desemprego não existe pois o assalariado regular não constitui a forma dominante de emprego”.

na sociedade, uma posição na família e uma identidade social” (Maruani, 2000, p. 55). Mas ambos os autores concordam que já não é possível falar de um mesmo emprego e desemprego, tal como no momento de constituição da sociedade salarial moderna. Efetivamente, para uns é oferecida a permanência em um emprego assalariado, por tempo indeterminado, com local de trabalho e jornada fixos; para outros, não há espaço e tempo fixos de trabalho, jornadas e contratos determinados. Deixando de ser meramente conjuntural e temporário, o desemprego cresce em volume e duração.

Em relação ao desemprego, é preciso repensar sua própria definição, sua mensuração, seus limites, suas novas formas e contornos (Demazière, 1995a, 1995b; Maruani, 2000, 2002; Maruani e Reynaud, 1993). O desemprego de longa duração se transforma em uma das mais importantes formas de manifestação do desemprego nos países centrais (Demazière, 1995b).

Se os primeiros estudos sociológicos sobre o desemprego já se debruçavam sobre a sua seletividade, considerando como operavam variáveis mais clássicas tais como sexo, idade, escolaridade e categoria sócio-profissional (Ledrut, 1966), trata-se agora de tornar evidente o funcionamento dessas variáveis em um momento em que o desemprego não se apresenta mais como conjuntural (Demazière, 1995b). Já não basta afirmar a seletividade do desemprego; é preciso tornar evidente que algumas desigualdades, como de sexo, idade, nacionalidade, classe, escolaridade, local de moradia e perfil profissional se reforçam, se multiplicam, se acumulam (Maruani, 2002). No contexto de países que construíram um sistema mais sólido de proteção social, o olhar para o desemprego de longa duração torna mais evidentes essas diferenças.

Quando observadas as taxas de desemprego, nota-se a presença de fortes desigualdades, a depender do perfil do desempregado. No entanto, um dos aspectos que chama atenção de um conjunto de autores franceses, fundamentalmente ao analisarem o desemprego de longa duração, diz respeito às crescentes dificuldades em definir quem de fato faz parte da população ativa, inativa ou desempregada48 (Demazière, 1995b; Freyssinet, 1984; Maruani, 2002). Freyssinet (1984), por exemplo, já havia destacado essa complexidade. Uma das primeiras dificuldades apresentadas por esse autor diz respeito à própria combinação de critérios objetivos (não ocupar um emprego) e critérios subjetivos (como estar em busca de um emprego). Mas também, cada vez mais, as pessoas se encontram em posições

48 Freyssinet (1984) apresenta uma distinção das situações básicas de composição da população em relação ao

mercado de trabalho: a população ativa ocupa empregos ou procura ativamente empregos. Se a pessoa procura ativamente emprego pode ser considerada desempregada. Se não ocupa um emprego e também não procura ativamente emprego é considerada inativa. O fato é que essas situações estão cada vez mais imbricadas.

intermediárias (nas “franjas”) entre o emprego, a inatividade e o desemprego, e isso poderá ser mais ou menos forte, atingir um ou outro grupo social em função não apenas das escolhas dos indivíduos, mas também dos papéis atribuídos a determinado grupo, do contexto societal e dos mecanismos institucionais (Freyssinet, 1984).

Embora apresentem as diferentes formas de medir o desemprego, sobretudo na França, bem como os diferentes resultados a partir das metodologias utilizadas, Freyssinet (1984), Demazière (1995b) e Maruani (2002) não estão interessados em avaliar as boas ou más maneiras de medir, mas em perceber a partir de quais normas sociais as medidas são construídas. Enfatizam fortemente que ser desempregado vai muito além de estar sem emprego e em busca de um, é ser socialmente legitimado nessa busca e assim ser incluído na composição das taxas de desemprego. Só será desempregado quem for reconhecido como tal. Nesse sentido, o desemprego associa-se ao direito ao emprego (Maruani, 2000, 2002).

O interesse da pesquisa por essa reflexão direciona-se ao debate em torno dos grupos que, mais ou menos facilmente, são considerados desempregados e, portanto, mais ou menos socialmente legitimados na busca de emprego, bem como sobre a maneira diversa como as políticas públicas incidem sobre eles. Nesse aspecto, os estudos de Maruani (2000, 2002) são fundamentais.

Maruani (2000, 2002) aprofunda o debate iniciado em Freyssinet (1984): se há dificuldade em olhar os grupos que estão sempre circulando por fora das definições oficiais de desemprego – nas “franjas” – é porque esses grupos são constituídos sobretudo por mulheres. Há grupos para os quais a legitimidade em possuir um emprego e, conseqüentemente, ser considerado desempregado, nunca foi questionada – homens, chefes de família, por exemplo. São os chamados “núcleos duros”, cujo modelo de trabalho está pautado no emprego assalariado em tempo pleno e estável. Entre as mulheres é muito mais fácil amalgamar as diferenças entre uma desempregada por desalento49 ou temporariamente indisponível para o mercado e uma dona de casa.

É possível fazer essas mesmas indagações para o caso juvenil. Ao estudar jovens em situação de emprego precário e desemprego em Portugal, Pais (2001) aponta o desajuste entre as taxas de emprego e desemprego, pois, como já assinalado, os percursos profissionais dos jovens são fortemente marcados pela transitoriedade e aleatoriedade; pela imersão em empregos precários e informais; de modo que sua situação manifesta um claro desajuste entre

49 O desemprego oculto pelo desalento caracteriza indivíduos que não possuem trabalho e desistiram de procurar

os conceitos de emprego e desemprego existentes e suas realidades (Pais, 2001). Poder-se-ia questionar se esses desajustes também não estariam relacionados a uma maior tolerância em relação ao desemprego e à inserção dos jovens em empregos precários, como faz Maruani (2000, 2002) para o caso das mulheres.

Prosseguindo na análise de Maruani (2000, 2002), essa autora chama atenção para a categoria inatividade. Não é suficiente olhar apenas para o desemprego, é preciso também observar o que ocorre com a inatividade, pois quanto mais pessoas forem incluídas na inatividade, mais reduzidas serão as taxas de desemprego. Nesse caso, Maruani (2000, 2002) destaca o papel das políticas públicas.

Entre a inatividade e o desemprego, podemos encontrar uma parte de arbitragem individual: em certos casos, podemos escolher nos apresentarmos como desempregado ou inativo. Há igualmente uma parte de decisão estatística: tomamos o partido de aplicar este ou aquele critério e, em função disso, de classificar tal indivíduo como inativo ou desempregado. Há enfim a parte das políticas públicas que optam pela inatividade deste ou daquele grupo social. (Maruani, 2002, p.47).

Nesse sentido, a autora identifica políticas que acabam por incitar a inatividade entre determinados grupos sociais, ressaltando fundamentalmente aquelas dirigidas aos mais velhos e mulheres. Seria possível dizer o mesmo em relação aos jovens? Como estratégia frente ao elevado desemprego juvenil, diversos países europeus têm desenvolvido variadas políticas de inserção dirigidas a jovens. Na França, várias medidas são tomadas na perspectiva de fazer a intermediação entre o emprego assalariado autônomo e de pleno direito e a marginalidade: estágios, formações, dentre outras ações(Dubet, 1999). Esses “dispositivos”50, de acordo com Dubet (1999), podem representar um risco real de instalação dos jovens na precariedade, o que parece acirrar-se nos tempos recentes51. Assim, torna-se significativa a investigação dos

50 “O fim do estágio, do CDD [contrato de duração determinada] ou da formação em alternância, nem sempre

insere o jovem no mercado de trabalho. Esta característica de precariedade organizada é também acentuada pelo fato de que a mão-de-obra juvenil é utilizada como uma ferramenta contra a ´rigidez´ do mercado e do direito ao trabalho” (Dubet, 1999, p. 37).

51 Em certa medida, as manifestações de jovens franceses ocorridas em março de 2006 representaram um

protesto contra uma medida que implicava maior precarização do trabalho. Por semanas seguidas, multidões de jovens franceses ocuparam as ruas e praças de Paris contra uma nova lei aprovada sem debate prévio e considerada contra seus interesses, o Contrato Primeiro Emprego ou CPE. A polêmica foi motivada, principalmente, por uma cláusula que permitiria às empresas demitirem, nos dois primeiros anos de trabalho, funcionários de até 26 anos de idade, por “justa causa”, isto é, sem pagar direitos trabalhistas. Diante disso, avaliou-se que o CPE, a pretexto de combater o desemprego entre jovens, daria o primeiro passo rumo a uma reforma mais ampla na legislação, com precarização dos direitos trabalhistas e flexibilização dos termos de contratação e trabalho. Em entrevista ao Le Monde, François Dubet avaliou que por meio das manifestações contra o CPE os jovens estariam expressando suas inquietações quanto à eficácia de seus estudos e ao lugar que a sociedade vai lhes oferecer. À semelhança dos movimentos dos jovens das periferias francesas (“cités”) ocorridos em outubro de 2005, Dubet (2006) avalia que os jovens (ainda que de formas diversas) estão questionando a própria sociedade francesa, dado que, diante da sucessão de escolhas econômicas e sociais que os

olhares de jovens que participaram de um dispositivo que tinha como argumentação central a elevação das taxas de inatividade entre jovens como estratégia para a redução dos índices de desemprego.

Nesse sentido, outro aspecto contido nos estudos de Maruani (2000, 2002) relaciona- se à emergência pública do debate em torno do desemprego e das políticas dirigidas ao seu combate. A autora enfatiza que, embora o desemprego feminino alcance taxas mais altas em grande parte dos países, destacadamente na França, ele não emerge com tanta força na cena pública se comparado ao desemprego de jovens, por exemplo. E vai mais além ao afirmar que a evidência dada ao desemprego de jovens pode mascarar desigualdades mais clássicas associadas a sexo, classes sociais e nacionalidade.

Esses questionamentos são muito significativos. Em primeiro lugar, é central tornar evidente que as desigualdades também perpassam fortemente os mais jovens, fundamentalmente no mundo do trabalho, sem desconsiderar a diversidade contida entre os sujeitos jovens. São jovens, mas também pertencem a um determinado sexo, classe social, etnia, com maior ou menor escolaridade, e essas diferenças também têm um determinado peso em relação às transições ocupacionais, como destacam diversos autores (Galland, 1997; Pais, 2001; Pochmann, 1999, 2000). Em segundo lugar, a perspectiva da autora inspira interrogações sociológicas sobre a própria intensificação do debate no campo político e público sobre o desemprego juvenil no Brasil nos últimos anos. Em pesquisa comparativa sobre o desemprego aqui, no Japão e na França, Guimarães et al. (2004) revelam uma intensa diversidade de padrões de transição ocupacional, segundo contextos institucionais diversos. Percebem que o modo como os indivíduos vivem e significam as situações de desemprego também parece variar em função da existência ou não de políticas públicas sistemáticas. Nesse sentido, questionam se as recentes políticas implantadas no Brasil poderiam produzir mudanças nos modos de viver e representar o desemprego.

Os autores aqui relacionados permitiram reconhecer a importância em considerar os atores institucionais que tomam parte na definição da legitimidade em torno do emprego/ desemprego e das ações nesse campo, no caso desta tese, particularmente do poder público. No entanto, a compreensão do desemprego não se dá sem que também sejam considerados os próprios sujeitos (Demazière, 1995a; Guimarães, 2002) – nesta tese, os jovens. Nesse sentido,

governos têm feito, os jovens têm sido um dos grupos que mais perdem, o que se torna visível nas mais elevadas taxas de desemprego juvenil na França quando comparadas às de outros países europeus. Nas palavras de Dubet (2006, p.1): “A sociedade [particularmente a sociedade francesa] não considerou a promessa feita aos jovens”. Cf. Charette (2006).

parece importante reconstruir, mesmo sucintamente, o modo como alguns estudos focalizaram a experiência do desemprego entre eles.